
O Chal

Danielle Steel





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Danielle Steel








O Chal




Traduo de Lus DIONSIO




Crculo de Leitores


Ttulo original: THE COTTAGE

Fotografia da capa: IMAGE ONE

ISBN 972-42-3528-9

Copyright 2002 by Danielle Steel Impresso e encadernado para Crculo de Leitores

por Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro

em Outubro de 2005

Nmero de edio: 6025

Depsito legal nmero 232 205/05





Digitalizao e correo:

Ftima Toms


Reviso e Formatao:

Lcia Helena T. Telles


Esta obra destina-se ao uso exclusivo de portadores de deficincia visual.











Para os meus filhos maravilhosos,Beatie, Trevor, Toda, Sam, Nick,Victora, Vanessa, Maxx e Zara , que so a luz da minha vida, a alegria dos meus dias, o regalo 
da minha existncia, o consolo na dor, a luz que me alumia,a esperana que me enche o corao.

No h maior alegria que vse, quando tiverdes filhos um dia, s quero que sejais to felizes como tenho sido amando e  sendo amada.






Com todo amor,


Mame.PS
CAPTULO 1

        O sol banhava o elegante telhado da mansarda do Chal quando Abe Braunstein fez a ltima curva do caminho que conduzia ao edifcio. Qualquer outra pessoa 
teria ficado sem respirao ao avistar a imponente manso. Um espetculo! Mas Abe j ali estivera dezenas de vezes. 
        O Chal era uma das ltimas casas lendrias de Hollywood. Uma reminiscncia dos palcios que os Vanderbilt e os Astor haviam edificado em Newport, Rhode 
Island, na virada do sculo. 
        O estilo era o dos palacetes franceses do sculo XVII: opulento, belo, elegante e requintado em todos os seus pormenores. Fora construdo em 1918, para Vera 
Harper, uma das grandes estrelas do cinema mudo e uma das poucas atrizes dessa poca que conseguira manter a fortuna. Casara mais de uma vez e ali vivera at morrer, 
com idade avanada, em 1959.
        
        Cooper Winslow comprara-o um ano depois. Como Vera no tinha filhos nem herdeiros, havia deixado todos os seus bens, inclusive o Chal,  Igreja Catlica. 
J nessa altura, Cooper, cuja carreira profissional conhecia um xito estrondoso, pagara uma boa quantia por ele. A compra provocara grande agitao no meio social: 
a casa e a propriedade eram bens extraordinrios para um jovem de vinte e oito anos. Coop no hesitara um segundo em ir viver para o suntuoso Palacete, que considerava 
estar  altura do seu estatuto de estrela.
        
        A casa, no corao de Bel Air, encontrava-se rodeada de um parque com cinco hectares e meio de superfcie e jardins impecavelmente tratados; tinha um campo 
de tnis e uma enorme piscina revestida de azulejos azuis e dourados, e havia fontes em vrios pontos da propriedade. O traado dos jardins fora alegadamente copiado 
dos de Versalhes.
        
         No interior da manso, viam-se enormes tetos abobadados, muitos dos quais pintados por artistas franceses trazidos especialmente para o efeito. A sala de 
jantar e a biblioteca eram revestidas de lambris de madeira, e o madeiramento das paredes e cho da sala de estar haviam sido trazidos de um palacete francs. 
      
        Abe Braunstein estava satisfeito por Cooper Winslow, em 1960, ter comprado a casa e o terreno  vista, embora os houvesse posteriormente hipotecado por duas 
vezes. Mas nem isso os desvalorizara. Esta era, de longe, a propriedade mais valiosa de Bel Air. Hoje em dia teria sido extremamente difcil atribuir-lhe um preo. 
No havia casas semelhantes na zona, ou onde quer que fosse,  excepo, talvez, em Newport; mas a propriedade valia muito mais em Bel Air do que em qualquer outro 
stio, apesar de j estar a precisar de obras.
        
        Quando Abe saiu do carro, dois jardineiros que arrancavam ervas em torno da fonte principal, e outros dois que trabalhavam num canteiro prximo trouxeram-lhe 
 mente a necessidade de reduzir o pessoal de jardinagem pelo menos a metade.  medida que olhava  sua volta, s via nmeros e notas de dlar a voar pelas janelas. 
Sabia, quase at os centavos, quanto custava a manuteno da propriedade. Era uma despesa louca, pelos padres de uma pessoa normal e, naturalmente, pelos de Abe.
        
         Tratava da contabilidade de pelo menos meia dzia das estrelas mais conhecidas de Hollywood e h muito que no o espantava nem chocava aquilo que gastavam 
em casas, carros, peles e colares de diamantes para as namoradas. Porm, todas essas extravagncias juntas nada eram, quando comparadas com as de Cooper Winslow. 
Abe estava convencido de que Coop Winslow gastava mais do que o rei Faruk.
        
         H quase cinqenta anos que esbanjava dinheiro como gua, e h mais de vinte que no interpretava um papel importante num grande filme. Nos ltimos dez 
anos, limitara-se a papis secundrios e participaes especiais, trabalhos pelos quais recebia muito pouco. Cooper sempre desempenhara papis de gal. No entanto, 
e por mais irresistvel que ainda fosse no meio, cada vez lhe davam menos papis. De fato, h mais de dois anos que Coop no trabalhava em cinema. Mas afirmava encontrar-se 
com realizadores e produtores todos os dias.
        
         Abe viera falar com ele, sem papas na lngua, acerca desse assunto e da necessidade de reduzir radicalmente as despesas a curto prazo. H cinco anos que 
vivia atolado em dvidas e em promessas. E Abe estava-se nas tintas para o fato de Coop fazer anncios para o talho do bairro. S tinha uma opo: sair de casa e 
ir trabalhar... e o mais depressa possvel! Teria de alterar muita coisa na sua vida: reduzir drasticamente as despesas e o pessoal, vender alguns dos seus carros, 
deixar de comprar roupas e de se instalar nos melhores hotis mundiais. Ou isso, ou vender o Palacete, que era a alternativa preferida de Abe.

        Quando o mordomo, de fraque, abriu a porta principal, Abe, que envergava um terno de vero cinzento, camisa branca, e gravata branca e cinzenta, exibia um 
ar severo. O criado reconheceu o contabilista de imediato e cumprimentou-o com um ligeiro e silencioso gesto de cabea. Livermore sabia, por experincia, que sempre 
que o contabilista aparecia, o patro ficava num estado de esprito terrvel. Por vezes, s uma garrafa de champanhe Cristal e uma lata de caviar conseguiam devolver-lhe 
o habitual bom humor. J pusera ambas as coisas em gelo quando Liz Sullivan, a secretria de Coop, o avisara de que o contabilista viria ao meio-dia.

        Liz atravessou o vestbulo, com um sorriso nos lbios, mal ouviu a campainha. Desde as dez da manh que se encontrava na biblioteca a passar uma vista de 
olhos por alguns documentos, preparando a reunio com Abe, sentia um aperto no estmago desde a noite anterior. Na vspera tentara avisar Coop do contedo da reunio, 
mas ele andara demasiado ocupado para lhe dar ouvidos. Como ia a uma festa de cerimnia, fora ao barbeiro e ao massagista e dormira uma soneca antes de sair. E, 
nessa manh, Liz ainda nem sequer o vira. Coop no estava em casa: fora tomar o pequeno-almoo ao Beverly Hills Hotel com um produtor, que lhe telefonara a propor 
um papel num filme. Era difcil segurar Coop, especialmente quando suspeitava que lhe queriam dar ms notcias. Havia nele algo de instintivo, uma espcie de radar 
supersnico que detectava as coisas que no queria ouvir. Como se de msseis Scud se tratasse, sabia esquivar-se delas com a maior das facilidades. Mas, desta vez, 
tinha de dar ouvidos a Liz. Prometera regressar por volta do meio-dia. Isso queria dizer cerca das duas horas.

        -Ol, Abe! Prazer em v-lo! - cumprimentou Liz, num tom caloroso. Trazia calas  caqui, camisa branca e um colar de prolas, que em nada a favoreciam, pois 
engordara consideravelmente ao longo dos vinte e dois anos em que trabalhara para Coop. Mas tinha um rosto agradvel e cabelos loiros. Possua uma beleza genuna 
quando Coop a contratara. Parecia modelo de um anncio ao Shampoo Breck. Fora amor  primeira vista. No literalmente, pelo menos da parte de Coop. Ele achava-a 
espetacular, e prezava a eficincia e a forma maternal como ela o tratava desde o primeiro momento. Quando a contratou, Liz contava trinta anos, e ele, quarenta 
e oito. Ela adorara-o e h anos que tinha um fraquinho por ele. Dedicara-se de alma e corao  gesto impecvel da vida de Cooper Winslow, trabalhando catorze horas 
por dia, s vezes os sete dias da semana. Com o decorrer do tempo, esquecera-se de casar e ter filhos. Um sacrifcio que fizera de bom grado pelo velho ator. E continuava 
a pensar que ele o merecia. Passava boa parte do seu tempo preocupada com ele, especialmente nos ltimos anos.
         A realidade no era importante para Cooper Winslow. Considerava-a um incomodo, como um mosquito a zunir-lhe  volta da cabea, e evitava-a a todo o custo. 
A maior parte das vezes com xito, pelo menos do seu ponto de vista. De fato, quase sempre Coop s ouvia aquilo que queria ouvir, isto , as boas notcias. E filtrava 
o resto muito antes de chegar ao crebro ou aos ouvidos. At agora, no se sara mal. Abe viera, nessa manh, para lhe dar conta da realidade, quer ele gostasse, 
quer no.

        - Ol, Liz! Ele est em casa? - indagou Abe, de semblante carregado.

        Detestava tratar do que quer que fosse com Coop. Tinham vises opostas em relao a tudo.

        - Ainda no chegou - respondeu Liz, com um sorriso afvel, enquanto o conduzia at  biblioteca. - Mas no tardar. Foi a uma reunio por causa de um papel 
principal.
        - Em qu? Num filme de desenhos animados?
        Liz, com muita diplomacia, no respondeu. Detestava que as pessoas fossem indelicadas com Coop. Mas tambm sabia que o contabilista estava extremamente irritado 
com ele.

        Coop no seguira nenhum dos seus conselhos, e a situao financeira tornara-se desastrosa nos ltimos dois anos. As ltimas palavras de Abe para Liz, ao 
telefone, no dia anterior, haviam sido: "Isto tem de acabar!" E era isso mesmo que vinha dizer a Coop. Mas, como de costume, Coop estava atrasado, fato que o aborrecia. 
Nunca chegava pontualmente a lugar nenhum. E, por ser quem era e pela sua personalidade cativante, as pessoas acabavam sempre por ficar  espera dele. At Abe.

        - Quer uma bebida? - perguntou Liz, fazendo as honras da casa, enquanto Livermore se mantinha impassvel. No seu rosto, nunca se vislumbrava qualquer expresso. 
Era um aspecto que parecia adaptar-se bem ao seu papel. Embora se dissesse que, por uma ou duas vezes, esboara um sorriso, quando Cooper o havia provocado implacavelmente 
por uma coisa qualquer, nunca ningum o vira efetivamente sorrir. Mas Cooper jurava de ps juntos que vira.

        - No, obrigado - respondeu Abe, com um ar to imperturbvel como o do mordomo, embora Liz se apercebesse de que a irritao comeava a tomar conta dele 
a um ritmo galopante.

        - Ch gelado? - perguntou Liz, tentando p-lo  vontade.

        - Pode ser. A que horas acha que ele chega?

        Era meio-dia e cinco. Ambos sabiam que a Coop pouco lhe importava chegar uma ou duas horas atrasado. Mas viria com uma desculpa plausvel engatilhada, e 
um sorriso deslumbrante, que faria qualquer mulher cair de joelhos, mas no surtiria qualquer efeito em Abe.

        - Creio que no deve demorar muito.  uma simples reunio preliminar, para lhe apresentarem o projeto.

        - Para qu?

        Nos seus ltimos trabalhos, limitara-se a aparecer como figurante, entrando ou saindo de uma cerimnia de pr-estria, ou conversando num bar com uma moa 
qualquer. Desempenhava quase todos os papis em traje de cerimnia. E tinha tanto charme na tela como na vida real. Conseguia sempre ficar com os trajes que usava 
nos filmes, feitos nos seus costureiros favoritos de Paris, Londres e Milo. Mas, para contrariedade de Abe, no deixava de comprar roupa, e gastar cada vez mais 
em antiguidades, cristais, linhos e objetos de arte de preos exorbitantes. As faturas iam-se amontoando em cima da secretria de Abe, juntamente com a do seu mais 
recente Rolls Royce. Dizia-se que, ultimamente, andava de olho numa srie limitada de um Bentley Azure conversvel a turbo, que custava a mdica quantia de meio 
milho de dlares. Seria um belo acrscimo aos dois Rolls, um conversvel e um sedan, e  limusine Bentley, mandada fazer de encomenda, que tinha na garagem. Coop 
via os carros e o guarda-roupa como necessidades da vida, no como luxos. Tudo o resto era secundrio.

        Um criado apareceu ento com dois copos de ch gelado numa bandeja de prata. Livermore desaparecera. Abe olhou para Liz, de sobrolho franzido, ainda o jovem 
nem sequer abandonara a sala.

    - Ele tem de despedir pessoal. Quero que o faa ainda hoje.

        O criado olhou para trs, por sobre o ombro, com ar preocupado, e Liz esboou um sorriso tranqilizador. Uma das suas funes era manter toda a gente satisfeita 
e pagar as contas. Os salrios dos criados encontravam-se no topo da sua lista de prioridades, porm, s vezes, at esses pagamentos tinham de ser protelados. Os 
criados j estavam habituados. E ela prpria no recebia h seis meses. Tivera alguma dificuldade em explicar esse fato ao noivo. Geralmente, s depois de Coop fazer 
um anncio ou de receber um pequeno papel num filme  que ela via algum dinheiro. Podia dar-se a esse luxo. Ao contrrio de Coop, tinha um p-de-meia e, durante 
anos, vivera com alguma frugalidade. Sempre que podia, Coop era extremamente generoso com ela.

        - Talvez pudssemos deixar isso para mais tarde, Abe. Vai ser muito duro para eles.

        A situao financeira de Coop no permite pagar-lhes os salrios, Liz. Voc sabe disso muito bem. Vou aconselh-lo a vender os carros e a casa. No receber 
muito pelos carros, mas, se vender a casa, podemos pagar a hipoteca e as dvidas, e Coop poder levar uma vida decente e descansada. Pode comprar um apartamento 
em Beverly Hills e voltar de novo  ribalta. - H muito que estava afastado dela.

        Mas Liz sabia que a casa fazia parte de Coop, como um brao ou uma perna. Era o seu corao. H mais de quarenta anos que fazia parte da sua identidade. 
Coop preferiria morrer a vender o Palacete. E no se desfaria dos carros. Disso tinha ela a certeza. A idia de Coop ao volante de um carro que no fosse um Rolls 
ou um Bentley era impensvel. Era essa a sua imagem de marca. Muitas pessoas no faziam a menor idia de que se encontrava numa situao financeira extremamente 
complicada. Achavam apenas que se desleixava um pouco a pagar as suas contas. H alguns anos, tivera um pequeno problema com o IRS, que Liz resolvera com os dinheiros 
que ele havia recebido pela sua participao num filme na Europa. Essa situao nunca mais voltara a repetir-se. Mas, agora, as coisas estavam pretas. S precisava 
de entrar num grande filme, costumava ele dizer. Liz fez saber isso mesmo a Abe. Sempre defendera Coop. H vinte e dois anos que o fazia. Porm, nos ltimos tempos, 
cada vez se tornava mais difcil, devido  forma irresponsvel como ele se comportava. Mas esse era o Coop que ambos bem conheciam.

        Abe estava farto.

        - Ele j tem setenta anos. H dois anos que no entra num filme, e h vinte que no lhe do um papel principal. Se fizesse mais anncios ajudaria um pouco. 
Mas no  suficiente. No podemos manter esta situao durante muito mais tempo, Liz. Se Coop no pagar tudo o que deve, ir parar  cadeia.

        H mais de um ano que Liz utilizava cartes de crdito para pagar cartes de crdito. Esta situao estava deixando Abe  doido. Havia ainda uma srie de 
outras contas por pagar. A idia de Coop na cadeia era absurda.

        Era uma hora da tarde quando Liz pediu a Livermore para trazer um sanduche para Abe, que parecia prestes a soltar fumaa pelos ouvidos. Estava furioso com 
Coop, e s a devoo  profisso o mantinha ali sentado. A determinao de fazer o que se propusera mantinha-se, com ou sem a ajuda de Coop. Gostaria de saber como 
 que Liz ainda se aguentava ao p dele, ao fim daqueles anos todos. Sempre suspeitara de que havia um romance entre eles e ficaria espantado se lhe dissessem o 
contrrio. Tanto Coop como Liz eram pessoas inteligentes. Ela adorava-o h anos e nunca fora para a cama com ele. Nem ele lhe pedira tal coisa. Para Coop, algumas 
relaes eram sagradas, e esta, nunca ousaria manch-la. Afinal de contas era um cavalheiro.

        Abe acabou a sanduche  uma e meia, altura em que Liz conseguira fazer versar a conversa sobre os Dodgers, o clube favorito do contabilista. Sabia que ele 
era um apaixonado do basebol. Pr as pessoas  vontade era uma das coisas que Liz fazia melhor. Abe quase esquecera as horas quando ela virou a cabea para o lado. 
Conhecia o barulho do carro na entrada. Abe no ouvira coisa alguma.

        - A est ele! - exclamou Liz, com um largo sorriso nos lbios, como se anunciasse a chegada dos trs Reis Magos.

        E, como sempre, Liz tinha razo. Coop vinha ao volante do Bentley Azure conversvel que o vendedor lhe emprestara h vrias semanas. Era uma mquina esplndida, 
talhada na perfeio para ele. Ouvia um CD de La Bohme, quando fez a ltima curva e parou o carro diante da casa. Era um homem elegante, de cortar a respirao, 
com traos finos e queixo fendido. Tinha olhos azul-escuros, pele clara e macia, e cabelos cor de prata, imaculadamente tratados e penteados. Mesmo com a capota 
descida, no trazia um nico cabelo fora do lugar. Nunca se lhe via tal coisa. Cooper Winslow era o eptome da perfeio em todos os pormenores. Msculo, elegante, 
com extraordinrio  vontade. Raramente perdia as estribeiras ou se mostrava desanimado. Tinha um ar de elegncia aristocrtica, que aperfeioara como uma arte e 
se lhe tornara natural. Provinha de uma antiga famlia de Nova Yorque, com antepassados distintos e sem dinheiro.

        No incio da sua carreira, desempenhava todos os papis de menino rico, de classe abastada, uma espcie de Cary Grant dos nossos dias, com ares de Gary Cooper. 
Nunca fizera de vilo ou de duro, s papis de playboy e de fogosos heris impecavelmente vestidos. As mulheres adoravam os seus olhos meigos. Nunca teve m ndole, 
nem nunca foi mesquinho ou cruel. As mulheres com quem saa adoravam-no, mesmo depois de se separarem dele. Conseguia quase sempre engendrar maneira de o deixarem, 
quando j estava cansado delas. Era perito em lidar com as mulheres, e a maior parte daquelas com quem mantivera um romance dizia bem dele. Achavam-no divertido. 
Coop tratava-as com extrema cortesia enquanto o romance durava. E quase todas as grandes estrelas femininas de Hollywood haviam sido vistas, em uma ou outra ocasio, 
nos seus braos. Fora sempre um celibatrio e um playboy. Aos setenta anos, conseguira escapar daquilo a que chamava "a rede". E no aparentava a idade que tinha.

        Sempre tivera um cuidado extremo consigo. Nunca pareceu ter mais de cinqenta e cinco anos. Quando saiu do suntuoso carro, envergando blazer, calas cinzentas, 
e uma imaculada camisa azul mandada fazer em Paris, evidenciaram-se os ombros largos, fsico impecvel e pernas interminveis. Tinha um metro e noventa e trs, coisa 
rara em Hollywood, onde a maioria das estrelas havia sido sempre de baixa estatura. Acenou para os jardineiros em sinal de cumprimento, com um radioso sorriso onde 
se salientava a dentadura cuidada; mas uma mulher teria tambm reparado nas mos, igualmente bem tratadas. Cooper Winslow parecia ser o homem perfeito. E, num raio 
de oitenta quilmetros, podia constatar-se o fascnio que exercia sobre as pessoas. Era um mam, tanto para as mulheres como para os homens. Apenas um reduzido nmero 
dos seus conhecidos, entre os quais Abe Braunstein, se mostrava indiferente ao seu charme. Para todas as outras pessoas, porm, havia nele um irresistvel magnetismo, 
uma espcie de aura, que fazia com que se virassem e esboassem um sorriso de admirao. Em suma, era um homem de espetacular aparncia.

        Livermore, que tambm o vira chegar, abriu-lhe a porta.

        - Ests com bom aspecto, Livermore. Morreu algum hoje?
        Coop metia-se sempre com o mordomo por causa do seu ar sisudo. Faz-lo sorrir era para si um desafio. H quatro anos que Livermore trabalhava para Coop, 
e o velho ator estava imensamente satisfeito com ele: agradavam-lhe a sua dignidade, a firmeza, a sua eficincia e estilo. Emprestavam  casa precisamente o tipo 
de imagem que Coop pretendia alcanar. E Livermore tomava conta do guarda-roupa de forma irrepreensvel, o que era importante para Coop. Tratava-se de uma das principais 
tarefas do mordomo.

        - No, senhor. Miss Sullivan e Mister Braunstein esto na biblioteca. Acabaram de almoar.

        No lhe disse que o esperavam desde o meio-dia. De qualquer forma, Cooper no estaria dando muita importncia para esse fato. Do seu ponto de vista Abe Braunstein 
trabalhava para si, e se tivera de esperar a nica coisa que tinha a fazer era cobrar-lhe esse tempo de espera.

        Ao entrar na biblioteca, em passadas largas, Coop lanou um sorriso cativante a Abe, parecendo algo divertido, como se acabasse de ouvir uma piada. Cooper 
Winslow danava ao seu prprio ritmo.

        - Espero que lhe tenham servido um almoo decente afirmou, como se houvesse chegado a tempo, e no quase duas horas atrasado. Geralmente, o seu estilo fazia 
com que as pessoas baixassem a guarda, esquecendo a irritao por causa do atraso, mas Abe no se deixou levar em manobras de diverso e foi direto ao assunto.

        - Estamos aqui para falar de finanas, Coop. Temos de tomar algumas decises.

        - Claro! - retorquiu Coop, rindo, ao mesmo tempo que se sentava no sof e cruzava as pernas. Sabia que, dentro de segundos, Livermore lhe traria um clice 
de champanhe, e assim aconteceu. Era o vintage Cristal que costumava beber, servido  temperatura ideal. Possua dzias de caixas dele na adega, alm de outros vinhos 
franceses fabulosos. Tanto a adega como o seu gosto eram lendrios. - Vamos dar um aumento a Liz. - E sorriu para a secretria, cujo corao comeou a bater mais 
depressa. Tambm ela tinha ms notcias a comunicar-lhe. Receara d-las durante toda a semana, esperando pelo fim-de-semana para esse efeito.

        - Vou despedir todo o seu pessoal domstico hoje, declarou Abe sem cerimnia. Coop soltou uma gargalhada, enquanto Livermore abandonava a sala com o seu 
habitual ar impassvel, como se nada tivesse sido dito. Coop bebeu um gole de champanhe e pousou o copo em cima de uma mesa de mrmore que comprara em Venice, na 
ocasio da venda do palacete de um amigo.

        -  uma idia brilhante. Como  que se lembrou disso? No seria melhor crucific-los, ou dar-lhes um tiro? Para qu despedi-los? Isso so coisas de classe 
mdia!

        - Estou falando srio. Tm de ser despedidos. Acabamos de lhes pagar os salrios. H trs meses que no recebiam. E no temos possibilidades de voltar a 
lhes pagar. No podemos continuar com esta despesa, Coop. - Havia um tom de lamento na voz do contabilista, como se soubesse que nada do que dissesse ou fizesse 
poderia convencer o velho ator a lev-lo a srio. Quando falava com Coop, tinha sempre a sensao de estar a falar para um boneco. - Vou avis-los da demisso ainda 
hoje. Tm de sair no espao de duas semanas. Vou deixar-lhe uma criada.

        - Maravilhoso! E sabe engomar trajes? Qual  que me vai deixar?

        Tinha trs criadas, uma cozinheira, o criado que servira o almoo, Livermore, oito jardineiros e um motorista em regime de temporrio para os eventos importantes. 
Um autntico exrcito, embora pudesse prescindir de muitos deles. Mas gostava de ser bem servido e de satisfazer todos os seus desejos.

        - Vou deixar-lhe a Paloma Vldez.  a que tem o salrio mais baixo - sentenciou Abe, pragmtico.

        - Qual delas ? - Coop olhou para Liz com ar inquisitivo. No se lembrava de ningum com aquele nome. Duas das criadas eram francesas, Jeanne e Louise, e 
essas sabia quem eram, mas o nome Paloma no lhe dizia nada.

        -  a salvadorenha que contratei o ms passado. Pensei que gostasse dela - respondeu Liz, como se estivesse a falar com uma criana. Coop parecia confuso.

        - Pensei que o nome dela era Maria, e  isso que lhe tenho chamado, mas nunca me responde. Ela no vai conseguir dar conta da casa toda.  ridculo - disse 
Coop, em tom jovial, enquanto olhava para Abe, no parecendo perturbado pela notcia.

        - No tem alternativa - respondeu Abe bruscamente. Tem de despedir pessoal, vender os carros e, durante o prximo ano, no comprar rigorosamente nada, mas 
nada mesmo: nem carros, nem roupas, nem um par de meias, nem quadros, nem uma toalhinha de mesa. E, ento, talvez consiga comear a sair do buraco em que est metido. 
Gostaria de v-lo vender a casa ou, pelo menos, arrendar a casa do caseiro, e talvez at parte desta, o que faria entrar algum dinheiro. Liz disse-me que a ala de 
hspedes nunca  utilizada. Podia arrend-la. Por ela e pela casa do caseiro era capaz de receber bom dinheiro. No precisa de nenhuma delas. - Ponderara com maturidade 
esta questo. Era uma pessoa muito conscienciosa das suas obrigaes.

        -  ridculo arrendar parte da casa. Porque no a transformamos num colgio interno? Ou numa escola de etiqueta? Que idia mais estapafrdia essa de arrendar 
a casa! Coop estava deleitado com a situao, no mostrando qualquer inteno de fazer o que quer que fosse. Abe fitava-o de semblante carregado.

        - Acho que no est visualizando bem a situao em que est metido. Se no seguir os meus conselhos, vai ter de pr a casa  venda e ficar sem ela no espao 
de seis meses. Est quase na bancarrota, Coop.
        
        - Isso  ridculo. A nica coisa de que preciso  entrar num grande filme. Hoje deram-me para ler um argumento espetacular - retorquiu Coop, esboando um 
sorriso de satisfao.

        - O seu papel  importante? - indagou Abe, impiedoso. Continuava a bater na mesma tecla.

        - Ainda no sei. Disseram que depois me escrevem. O papel pode ter a importncia que eu quiser.

        - Cheira-me a participao especial - comentou Abe, perante o ar crispado de Liz. Detestava que as pessoas fossem cruis com Coop. E a realidade parecia 
ser sempre cruel para ele, tanto que Coop no lhe ligava a minma. Evitava-a. A nica coisa que queria da vida era que fosse agradvel, divertida, fcil e bela em 
todas as ocasies. Para si, era. S no tinha condies econmicas para manter esse estilo de vida, mas isso nunca o impedira de viver como queria. Nunca hesitara 
em comprar um carro novo, em mandar fazer meia dzia de trajes, ou em comprar uma pea de joalharia para oferecer a uma mulher. E as pessoas estavam sempre dispostas 
a fazer negcio com ele. Queriam o prestgio de o ter a exibiras suas coisas. Acreditavam que ele acabaria por pagar, o que acontecia quase sempre. Fosse como fosse, 
as contas apareciam pagas, muitas das vezes graas a Liz.

        - Abe, voc sabe to bem como eu que, com um grande filme, ficaremos novamente a nadar em dinheiro. Na prxima semana posso receber dez, quinze milhes de 
dlares por um filme. - Continuava a viver num sonho.

        - Receba-os, se tiver sorte. At pode receber quinhentos mil, ou trs, ou dois, tanto me faz. Voc j no consegue receber grandes cachs, Coop. - A nica 
coisa que no disse foi que a poca urea de Cooper Winslow j passara. At Abe sabia que no podia dizer-lhe tudo o que pensava. Mas a verdade  que o velho ator 
teria muita sorte se recebesse cem ou duzentos mil dlares. Por muito bem-parecido que fosse, Cooper Winslow era demasiado idoso para ator principal. Esses tempos 
haviam acabado para sempre. - No pode continuar a valer-se da sorte. Se disser ao seu agente que quer trabalho, talvez ele lhe arranje anncios por cinqenta ou 
cem mil dlares, se o produto for de peso. No podemos estar  espera de uma grande quantia, Coop. Tem de fazer cortes no oramento at isso acontecer. Pare de gastar 
dinheiro como gua, reduza o pessoal ao mnimo, arrende a casa do caseiro e parte desta, e talvez o panorama fique menos sombrio nos prximos meses. Se no o fizer, 
ter de vender a casa ainda antes do final do ano. Seria a melhor coisa a fazer. Mas a Liz acha que voc est determinado a no sair daqui.

        - Sair do Chal? - Coop riu-se ainda com mais vontade. - Mas que idia mais estapafrdia! Vivo aqui h mais de quarenta anos.

        - Bem, mas deixar de viver, se no comear a apertar o cinto. No  segredo nenhum, Coop. J lhe chamei a ateno para isso h dois anos.

        -Pois chamou, e ainda aqui me mantenho, e no estou nem na bancarrota nem na cadeia. Tem de tomar antidepressivos, Abe. Talvez o ajudem a ver as coisas de 
forma menos sombria. - Costumava dizer a Liz que Abe parecia um vendedor de tralhas, at na forma de vestir. Coop nunca lho dissera, mas no gostava mesmo nada que 
ele andasse de traje de vero em Fevereiro. Esse tipo de coisas aborrecia-o, mas no queria embara-lo comentando-as. Pelo menos, no estava a sugerir a Coop que 
vendesse tambm o guarda-roupa.
- Est mesmo falando srio acerca dessa questo do pessoal, no est? -
 Coop olhou de relance para Liz, que o observava com ar complacente. Imaginava o desconforto que ele devia estar sentindo.

        - O Abe tem razo. Voc est gastando demasiado em salrios, Coop. Talvez devesse fazer uns cortes durante uns tempos, at haver mais dinheiro. - Liz deixava-o 
sempre ter os seus sonhos. Precisava deles.

        - Como  que uma salvadorenha, sozinha, pode dar conta da casa toda? - perguntou Coop, perplexo. Era uma idia absurda. Pelo menos, para ele.

        - Ela no ter de o fazer, se voc arrendar parte da casa
- retorquiu Abe, pragmtico. - Pelo menos, isso resolver um problema.

        - H dois anos que a ala de hspedes no  utilizada, e h quase trs que a casa do caseiro se encontra fechada. Julgo que tanto uma como outra no lhe faro 
falta - lembrou Liz, num tom afvel, parecendo uma me a tentar convencer o filho a dar alguns dos seus brinquedos aos pobres ou a comer a carne.

        - Por que carga de gua iria eu querer estranhos na minha casa? - indagou Cooper, algo aturdido.

        - Porque voc no quer vender a casa, s por isso replicou Abe -, e no tem alternativa. Estou a falar muito a srio, Coop.

        - Bem, vou pensar no assunto - prometeu Coop, algo hesitante. A idia no fazia o menor sentido. Ainda tentava imaginar como seria a vida sem qualquer tipo 
de apoio. No devia ser muito divertida. - E no est  espera que eu me ponha a cozinhar, no  ? - Parecia desorientado.

        - A julgar pelos seus cartes de crdito, costuma ir jantar fora todas as noites. Nunca ir sentir falta da cozinheira. Ou do resto dos criados. Podemos 
mandar vir um servio de limpeza, de tempos a tempos, se as coisas comearem a andar fora dos eixos.

        - Que maravilha! E porque no um porteiro? E talvez tambm pudssemos contratar um grupo de presos em liberdade condicional. - Os olhos de Coop faiscavam, 
perante o ar exasperado de Abe.

        -J tenho os cheques e as cartas de demisso replicou Abe, com ar severo. Queria ter a certeza de que Coop percebia que ele ia mesmo despedi-los. No havia 
outra alternativa.

        - Vou falar com um corretor imobilirio na segunda-feira - informou Liz, numa voz sumida. Detestava irrit-lo, mas ele tinha de saber. No podia fazer uma 
coisa daquelas sem lhe dar conhecimento. Tambm achava que o arrendamento dos dois espaos no era m idia. Coop no teria de abandonar o Palacete e receberia uma 
boa quantia. Era uma das melhores idias de Abe. E seria muito mais fcil para Coop do que vender a casa.

        -Est bem, est bem. Mas certifiquem-se de que no me metem um assassino dentro de casa. E nada de crianas, por amor de Deus, ou ces a ladrar. Para dizer 
a verdade, s estou interessado em inquilinas, e bonitas. Eu prprio fao as entrevistas - assentiu, meio a brincar. Liz achava que ele estava a ser extremamente 
razovel, e ia tentar arranjar inquilinos o mais depressa possvel, antes que ele desse o dito por no dito.
- 
        -  tudo? - perguntou a Abe, enquanto se levantava para mostrar que j estava farto. Fora uma dose forte de realidade para Coop. E era bvio que queria que 
Abe se fosse embora.

        - Por agora,  tudo - respondeu Abe, pondo-se de p. Eu estava mesmo a falar a srio, Coop. No compre nada!

        - Prometo. Terei o cuidado de ver se as meias e as cuecas tm buracos. Deixo-o dar-lhes uma olhadela da prxima vez que  vier.

Abe no respondeu e encaminhou-se para a porta. Entregou os envelopes que trouxera a Livermore, pedindo-lhe para os distribuir pelo pessoal. Tinham todos de sair 
no espao de duas semanas.

        - Que homenzinho desagradvel - comentou Coop para Liz, sorrindo, depois de Abe sair. - Deve ter tido uma infncia terrvel, para pensar daquela maneira. 
Provavelmente, passava o tempo a arrancar as asas das moscas. E, por amor de Deus, arrume algum que ponha fogo nos trajes com que anda!

        - As intenes dele so as melhores, Coop. Lamento, foi uma reunio muito dura. Farei o meu melhor para que a Paloma esteja preparada dentro de duas semanas. 
Vou pedir ao Livermore que lhe ensine como se trata do seu guarda-roupa.

        - Estremeo s de pensar nisso. Espero que ela no me meta os trajes na mquina de lavar. Talvez tenha de mudar de visual. - Esforava-se por no se deixar 
abater pela situao e continuava, pelo menos aparentemente, divertido. - Vai ser uma calmaria aqui em casa: s voc, eu e a Paloma, ou Maria, ou seja l como  
que ela se chama. - Os olhos de Liz adquiriram um brilho estranho. - Que  isso? Ele no  vai despedi-la, pois no?

        Por uma frao de segundos, Liz vislumbrou um olhar de pnico no velho ator, que quase lhe despedaou o corao. S a custo, ao fim de um         lapso de 
tempo,  que conseguiu articular a resposta.

        - No, no vai, Coop... mas vou-me embora na mesma... - sussurrou. Contara a Abe no dia anterior, e fora esse o nico motivo por que ele no a despedira 
tambm.

        - No seja tonta. Preferia vender o Palacete a v-la ir-se embora, Liz. Vou esfregar escadas, se for preciso, para ficar com voc.

        -  que... - tinha os olhos marejados de lgrimas. Vou-me casar.

        - Vai qu? Com quem? No  com aquele dentista ridculo de San Diego, pois no?

        Isso fora h cinco anos. Coop j no estava a par desse tipo de coisas. No conseguia conceber o fato de perder Liz e nunca lhe passara pela cabea que ela 
pudesse casar-se. Tinha cinqenta e dois anos, e tudo levava a crer que iria ficar l em casa eternamente. Ao fim de todos aqueles anos, eram como famlia.

        -  corretor da Bolsa em So Francisco. - As lgrimas corriam-lhe pelas faces.

        - Quando  que comearam a namorar? - indagou Coop, com ar chocado.

        - H cerca de trs anos. Nunca me passou pela cabea que acabaramos por casar. O ano passado, falei-lhe nele.

        Sempre imaginei que iramos namorar a vida inteira. Mas ele vai-se reformar este ano e quer que eu v viajar com ele. As filhas j so adultas, e disse-me 
que era agora ou nunca. Acho melhor aproveitar a oportunidade.

        - Que idade tem ele? - Coop estava horrorizado. Era a ltima m notcia que esperava ouvir.

        - Cinqenta e nove. Est muito bem conservado. Tem um apartamento em Londres e uma bela casa em So Francisco. Vendeu-a h pouco tempo, e vamo-nos mudar 
para um apartamento em Nob Hill.

        - Em So Francisco? Vai morrer de tdio, ou enterrada num terremoto. Liz, voc vai detestar. - Coop mostrava-se chocado. No se imaginava sem ela. Liz no 
conseguia parar de chorar.

        - Talvez.  provvel que at volte a correr para c. Mas achei que devia casar-me, pelo menos uma vez, quanto mais no seja para poder dizer que j fui casada. 
Pode telefonar-me quando quiser, Coop, esteja eu onde estiver.

        - Quem vai fazer as minhas reservas e falar com o meu agente? No me diga que vai ser a Paloma, ou seja l como  que ela se chama!

        - Da agncia disseram-me que faro tudo o que puderem por voc. Abe tratar da contabilidade. Pouca coisa me resta. - A no ser atender os telefonemas das 
namoradas, dar notcias frescas ao agente de imprensa, sobretudo acerca das mulheres com quem ele saa. Coop teria de comear a fazer os seus prprios telefonemas. 
Seria uma nova experincia. Liz sentia-se como se estivesse a tra-lo, a abandon-lo.

        - Est realmente apaixonada por esse tipo ou, simplesmente, entrou em pnico? - Ao longo dos anos, nunca lhe ocorrera que ela ainda desejasse casar. Liz 
nunca lhe contara nada, e ele tambm nada lhe perguntara, acerca da sua vida amorosa. Andara to ocupada a tratar dos encontros, das compras, das festas e das viagens 
de Coop que, no ano anterior, poucas vezes se encontrara com o homem com quem ia casar, fato que o levara a apressar o pedido de casamento. Queria afast-la de Cooper 
Winslow, que considerava narcisista e egocntrico.

        - Acho que estou apaixonada. Ele  uma pessoa maravilhosa, muito atencioso comigo. Quer tomar conta de mim e tem duas filhas muito simpticas.

        - Que idade tm? No a consigo imaginar com filhos, Liz.

        - Dezenove e vinte e trs. Gosto delas, e elas tambm parecem gostar de mim. A me morreu quando ainda eram muito pequenas, e foi o Ted que teve de  educ-las 
sozinho. E com bons resultados. Uma trabalha em Nova Iorque, e a outra est em Stanford, no curso preparatrio para Medicina.

        - No posso acreditar! - Coop estava completamente destroado. O dia para si comeara de forma desastrosa. Nem sequer se lembrava de que estava prestes a 
arrendar a casa do caseiro e a ala de hspedes. A nica coisa que o preocupava naquele momento era o fato de  perder Liz. - Quando  que casam?

        - Dentro de duas semanas, logo que eu saia daqui. E desatou a chorar. De sbito, at ela comeava a achar a idia horrvel.

        - Quer realizar a cerimnia aqui?

        - Vamos realiz-la em casa de um amigo, em Napa.

        - Muitos convidados? - Coop estava perplexo. Nunca esperara isto.

        - No. S ns dois, as filhas dele e os donos da casa. Se fosse uma cerimnia maior, t-lo-ia convidado, Coop. No tivera tempo para planejar a cerimnia 
do casamento. Andara demasiado atarefada a tratar dos assuntos de Coop. E Ted no queria esperar mais. Sabia que, se o fizesse, ela nunca abandonaria Coop, sentia-se 
responsvel por ele.

        - Quando  que resolveu tomar essa deciso?

        - H uma semana.

        Ted viera passar o fim-de-semana com ela e pressionara-a. A deciso coincidira com o propsito de Abe despedir o pessoal. Por um lado, sabia estar fazendo 
um favor a Coop, que no se encontrava em condies econmicas de mant-la ao seu servio. Mas sabia tambm que a despedida seria muito dura para ambos. No se imaginava 
a deix-lo, e s de pensar nisso ficava com o corao despedaado. Estragara-o com mimos, nos ltimos vinte e dois anos. Andava constantemente preocupada, cuidando 
dele como uma me. Sabia que, em So Francisco, ficaria muitas noites acordada por sua causa. Avizinhava-se um terrvel perodo de adaptao para ambos. Coop era, 
para ela, o filho que nunca tivera e que, h anos atrs, deixara de desejar.

        Coop ainda estava sob o efeito do choque quando Liz saiu, depois de atender um telefonema. Era Pamela, o ltimo romance do velho ator. Tinha vinte e dois 
anos, demasiado jovem, mesmo para os seus prprios padres. Era modelo e aspirava a ser atriz. Conhecera-a numas filmagens que fizera para a GQ. A revista contratara 
meia dzia de modelos para posarem ao seu lado, e a beleza de Pamela chamara a ateno de Coop. H cerca de um ms que namoravam. A rapariga estava perdida de amores 
por ele, embora Coop tivesse idade suficiente para ser seu av e no parecesse andar muito satisfeito com a relao. Ia lev-la a jantar ao The Ivy, e Liz lembrou-lhe 
que ficara de ir busc-la s sete e meia. Coop abraou Liz calorosamente antes de ela sair, e lembrou-lhe que poderia regressar se a vida de casada no lhe agradasse. 
No fundo, esperava que isso acontecesse. Coop tinha a sensao de estar perdendo a irm mais nova, a melhor amiga.

        J no carro, Liz recomeou a chorar. Amava Ted, mas no imaginava a sua vida sem Coop. Ao longo dos anos, ele fora a sua famlia, o seu melhor amigo, o seu 
irmo, o seu heri. Adorava-o. Tivera de apelar a todas as suas foras a fim de ganhar coragem para aceitar casar com Ted e contar a Coop. Na semana anterior, no 
pregara olho e, antes de Coop chegar a casa, andara desgostosa toda a manh. Sentia-se desalentada. Deixar Coop seria como abandonar o convento ou sair do ventre 
da me. S esperava ter tomado a deciso certa.

        Depois de Liz sair, Coop manteve-se na biblioteca. Encheu outro clice de champanhe e bebeu um gole. Depois subiu lentamente as escadas e dirigiu-se para 
o quarto. No caminho, cruzou-se com uma mulher pequena, de bata branca, que aspirava ruidosamente as escadas. Exibia uma enorme ndoa na parte da frente da bata, 
de sumo de tomate ou de sopa. Os cabelos estavam arrumados numa longa trana que lhe caa pelas costas, e usava culos escuros, fato que chamou a ateno de Cooper.

        - Paloma? - perguntou, cautelosamente, como se estivesse a v-la pela primeira vez. Trazia uns tnis imitando pele de  leopardo, o que o deixou estarrecido.

        - Paloma Jess. Mister Weenglow?

        Havia nela algo de muito independente. No tirou os culos, continuando a fit-lo por detrs das lentes escuras. Era impossvel dizer ao certo quantos anos 
teria, mas devia rondar a meia-idade.

        - Winslow, Paloma. Tiveste algum acidente? - Cooper referia-se  ndoa na bata. Dava a sensao de que algum lhe atirara com uma pizza.

        - Comemos "esbarguete" no almoo, e deixei cair a colher em cima da "pata". E no tenho nenhuma lavada.

        -Isto est bonito - murmurou Cooper, entre dentes, continuando o seu caminho, ainda abalado com a notcia da partida de Liz e a matutar em como seria quando 
Paloma comeasse a tratar do seu guarda-roupa.
         Assim que fechou a porta do quarto, Paloma, que o olhava fixamente, revirou os olhos em sinal de enfado. Era a primeira vez que falava com Cooper, mas, 
pelo pouco que conhecia do patro, nunca morrera de amores por ele. Saa com mulheres que tinham idade para serem suas filhas e parecia estar crivado de dvidas. 
No conseguia lembrar-se de nada que lhe agradasse nele. Abanou a cabea em sinal de desaprovao e continuou a aspirar as escadas. Tambm no lhe agradava nada 
ficar sozinha com ele na casa. Mas no iria barafustar. Tinha muitos familiares em So Salvador para sustentar e precisava do dinheiro. 
Mesmo que isso significasse trabalhar para uma pessoa como ele.
CAPTULO 2

        Mark Friedman acabara de assinar o ltimo documento. Depois, na companhia da corretora imobiliria, deteve-se um pouco a olhar a casa vazia, de corao destroado. 
A casa fora vendida em apenas trs semanas. Haviam conseguido um bom preo por ela, mas isso nada significava para Mark. Olhar as paredes e as salas vazias onde 
vivera com a famlia durante dez anos era como ver o ltimo dos seus sonhos desaparecer.

        Ainda pensara em ficar com a casa, mas Janet pedira-lhe para a vender logo que ela chegasse a Nova Yorque. Percebeu ento que, independentemente do que dissera 
nas semanas anteriores, Janet no tinha inteno de voltar para ele. S duas semanas antes de partir lhe dissera que ia deix-lo. E o advogado dela j contactara 
com o seu. Toda a sua vida se desfizera nas ltimas cinco semanas. A moblia j ia a caminho de Nova Iorque. Dera tudo o que tinha  mulher e aos filhos. Estava 
alojado num hotel perto do escritrio e acordava todas as manhs com desejo de morrer. Vivera dez anos em Los Angeles e estivera casado durante dezesseis.

        Mark tinha quarenta e dois anos, era alto, magro, loiro e de olhos azuis, e at h cinco semanas atrs estivera convencido de que era feliz no casamento. 
Conhecera Janet na Faculdade de Direito, e casaram-se mal acabaram o curso. Ela engravidara quase de imediato. Jessica nasceu no dia em que faziam um ano de casados 
e tinha agora quinze anos. Jason tinha treze. Mark era advogado de Direito Fiscal numa importante firma de advocacia e, dez anos antes, fora transferido de Nova 
Iorque para Los Angeles. No princpio, custara-lhe um pouco adaptar-se  cidade, mas acabou por se apaixonar por ela. Descobrira a casa em Beverly Hills ao fim de 
poucas semanas, ainda antes de Janet e os filhos chegarem de Nova Iorque. Parecera-lhe perfeita para eles. Tinha um enorme jardim e uma pequena piscina. E, agora, 
as pessoas que acabavam de a comprar queriam fechar o negcio o mais depressa possvel pois estavam  espera de gmeos dentro de seis semanas. Enquanto dava uma 
ltima volta pela casa, perdido nestes pensamentos, Mark no conseguiu deixar de pensar que a vida daquele casal estava no incio, ao passo que a sua havia acabado. 
Ainda no acreditava no que lhe acontecera.

        Seis semanas antes, era um homem feliz, com uma mulher bonita por quem estava loucamente apaixonado, um emprego que adorava, uma casa maravilhosa e dois 
filhos lindssimos. No tinham problemas de dinheiro e estavam todos de perfeita sade. Seis semanas mais tarde, a mulher deixara-o, a casa fora vendida, a famlia 
vivia em Nova Iorque, e ele ia divorciar-se.

        A corretora no o acompanhou na sua deambulao pelas salas vazias. Os bons momentos que ali partilhara com a mulher eram os nicos pensamentos que lhe povoavam 
a cabea. Na sua perspectiva, no houvera nada de errado no seu casamento, e at Janet admitira que fora feliz com ele.

"No sei o que aconteceu", dissera, lavada em lgrimas, quando lhe disse que queria se separar. "Talvez fosse o tdio... talvez eu devesse ter voltado a trabalhar 
depois de o Jason nascer..." Mas nada disto explicava por que razo ela o trocara por outro homem. H cinco semanas, admitira estar loucamente apaixonada por um 
mdico de Nova Iorque.

        Um ano e meio antes, a me de Janet adoecera gravemente. Primeiro, um ataque cardaco, depois, herpes zster, e, por fim, um derrame cerebral. Fora um infindvel 
perodo de sete meses em que Janet viajara constantemente entre Los Angeles e Nova Iorque. O pai dela estava arrasado e contrara Alzheimer, a me sofria crises 
atrs de crises. Mark tomava conta das crianas durante os perodos de ausncia de Janet. O primeiro desses perodos, aps o ataque cardaco, durara seis semanas. 
Mas ela telefonava-lhe trs, quatro vezes por dia. Mark nunca suspeitara de nada. Mas as coisas no tinham acontecido de repente. Com o decorrer do tempo, Janet 
apaixonara-se pelo mdico da me, um indivduo simptico, carinhoso, extremamente atencioso. Certa noite, tinham ido jantar juntos e fora assim que tudo comeara.

        Janet manteve este tipo de relao durante um ano. Foi uma situao desgastante. Achava que era uma coisa passageira e que, mais cedo ou mais tarde, iria 
encontrar uma soluo para o problema. Asseverou a Mark que tentara acabar vrias vezes. Mas a paixo que ela e o mdico nutriam um pelo outro era to grande que 
se tornara uma obsesso.
        Estar com Adam, como contou, era como estar viciada em drogas. Mark ainda sugeriu terapia e aconselhamento de casais, mas Janet recusou. J decidira o que 
fazer. Voltaria para Nova Iorque e veria at onde as coisas iriam dar. Precisava estar fora do casamento, pelo menos durante algum tempo, de modo a poder gozar o 
romance livre de presses. Mal chegou a Nova Iorque, disse a Mark que queria o divrcio e pediu-lhe que vendesse a casa. Queria metade do dinheiro da venda, para 
comprar um apartamento. Enquanto passeava o olhar pelas paredes vazias do quarto, Mark pensava na ltima conversa que tivera com Janet. Nunca se sentira to perdido 
e s na vida. Tudo aquilo em que acreditara, com que contara e em que pensara, se perdera. E o pior  que no fizera nada de errado, pelo menos achava que no. Talvez 
se tivesse dedicado em demasia ao trabalho, ou no a tivesse levado a jantar fora as vezes suficientes, mas parecia haver um timo relacionamento entre os dois, 
e ela nunca se queixara.

        O segundo pior dia da sua vida, depois daquele em que ela lhe falou do romance com o mdico, foi quando contaram aos filhos que iam separar-se. Estes queriam 
saber se ele e a mam iam divorciar-se, e ele respondera-lhes honestamente que ainda no sabia. Mas, nesta altura Janet j sabia. S ainda no queria diz-lo aos 
filhos, ou a Mark.

        Os pequenos choraram muito e, sem razo aparente, ao princpio, Jessica culpara o pai de tudo. Para eles, a separao no fazia qualquer sentido. Aos quinze 
e treze anos, fazia ainda menos sentido do que para Mark. Pelo menos, ele sabia o motivo da separao. Mas, para eles, era um mistrio inexplicvel. Nunca haviam 
visto os pais discutir ou em desacordo, coisa que raramente acontecera. Talvez houvessem discutido por causa da decorao da rvore de Natal e, uma vez, Mark tivera 
um acesso de fria quando Janet espatifou o carro novo, mas acabara por lhe pedir desculpa, dando graas a Deus por ela no ter se ferido. Era um indivduo calmo 
e ntegro.
        Adam era mais animado do que Mark. Tinha quarenta e oito anos, uma intensa atividade profissional, e vivia em Nova Yorque. Possua um veleiro em Long Island 
e estivera no Place Corps durante quatro anos. Tinha amigos interessantes e uma vida divertida. Era divorciado e nunca tivera filhos. A ex-mulher nunca engravidara, 
e tambm no quiseram adotar nenhuma criana. E estava radiante com a idia de poder ter os filhos de Janet. Queria dois. Mas Janet no contou esse fato nem a Mark 
nem aos filhos, que ainda no sabiam nada acerca dele. Estava pensando apresent-lo logo que se instalassem em Nova Iorque. Mark suspeitava que ela no tinha inteno 
de lhes contar que se divorciara por causa de Adam.

        Mark sabia que era mais sisudo do que Adam. Gostava do seu trabalho, adorava Direito Sucessrio, mas esse era um assunto que no podia discutir em profundidade 
com Janet. Ela pensara em seguir Direito Criminal, ou ser advogada de menores, e sempre achara o Direito Comercial aborrecido. Ela e Mark jogavam tnis vrias vezes 
por semana, iam ao cinema, passeavam com os filhos, jantavam com amigos. Fora uma vida tranqila para todos os elementos da famlia. E agora, a tranquilidade acabara. 
A angstia que sentia tornara-se praticamente uma dor fsica. Nas ltimas cinco semanas, vivera constantemente com a sensao de ter uma faca na barriga. Comeara 
a ir a um terapeuta, por sugesto do mdico, depois de lhe ter telefonado a pedir calmantes, porque j no conseguia dormir. A vida tornara-se um inferno. Tinha 
saudades dela, dos filhos e da vida que levavam. Num piscar de olhos, tudo desaparecera, at a casa.

        - Pronto, Mark? - perguntou a corretora, espreitando  porta do quarto. Mark estava imvel, olhando para o ar, perdido nos seus pensamentos.

        - Ah, claro - respondeu, saindo, no sem antes deitar um ltimo olhar ao aposento. Era como se estivesse a despedir-se de um mundo perdido, ou de um velho 
amigo. Seguiu a corretora at  porta, e foi ela que a fechou. Dera-lhe as chaves todas. O dinheiro, que ia dividir com Janet, seria depositado na sua conta nessa 
mesma tarde. Haviam conseguido um bom preo, mas isso pouco lhe importava.

        -J est em condies de procurar alguma coisa para si?
- indagou a corretora, esperanosa. - Tenho umas casas pequenas, no cimo das colinas, que so timas. E h uma, que  uma autntica jia, em Hancock Park. Tambm 
se podem encontrar por a uns apartamentos muito engraados. Fevereiro sempre fora um bom ms para procurar casa. O remanso das frias acabara e na Primavera apareciam 
boas oportunidades no mercado. A corretora sabia que Mark possua dinheiro suficiente para comprar uma casa nova, apesar de s ter direito a metade do valor da que 
vendera. Alm disso, tinha um bom emprego. O dinheiro no era problema para Mark.Se todos os seus problemas fossem esses!

- Estou bem no hotel - retorquiu Mark, entrando no Mercedes, depois de lhe agradecer de novo.

        A corretora fizera um bom trabalho, fechando o negcio da venda em tempo recorde. Quase desejou que ela no tivesse sido to eficiente, ou nem sequer tivesse 
conseguido vender a casa. Ainda no se sentia preparado para ir viver noutro lugar. Tinha de falar sobre isso com o terapeuta. Nunca fora a um terapeuta, e este 
parecia ser boa pessoa, mas Mark no sabia muito bem se a experincia viria a resultar. Talvez pudesse ajud-lo a resolver o problema do sono, mas, quanto ao resto, 
que poderia ele fazer? Por mais coisas que dissesse nas sesses de terapia, a verdade  que Janet e os filhos no estavam consigo e, sem eles, a sua vida no fazia 
qualquer sentido. No queria uma nova vida. S queria t-los. Agora, Janet tinha outra pessoa, e talvez os seus filhos viessem a gostar mais de Adam do que dele. 
Era um pensamento avassalador. Nunca se sentira to indefeso e to perdido na vida.

        Ao meio-dia, estava de novo no escritrio, sentado  mesa de trabalho. Ditou uma pilha de cartas  secretria e analisou alguns relatrios. Nessa tarde, 
tinha uma reunio com os seus scios. Nem sequer se preocupou em almoar. Perdera uns quatro ou cinco quilos nas ltimas cinco semanas. S lhe restava continuar 
o seu caminho, pr um p  frente do outro e tentar no pensar mais no assunto.  noite, voltava a lembrar-se de tudo e ouvia as palavras de Janet vezes sem conta, 
bem como o choro dos filhos. Telefonava-lhes todas as noites. Prometera ir visit-los dentro de semanas. Ia lev-los s Carabas nas frias da Pscoa. Depois, viriam 
passar uns dias consigo no Vero, mas agora no tinha onde aloj-los. Pensar em tudo isto deixava-o muito deprimido.

        Quando, ao fim da tarde, encontrou Abe Braunstein, numa reunio sobre as novas leis fiscais, estava com ar de quem tem uma doena terminal. O contabilista 
ficou perplexo. Mark costumava exibir um ar saudvel, jovem e atltico, e estava sempre de bom humor. Agora, parecia algum que perdera um ente querido. E era isso 
mesmo que sentia.

        - Sente-se bem? - perguntou Abe, preocupado.

        - Sim... estou bem - respondeu Mark, com ar distante, aptico. Estava plido, abatido.

        - Voc est com ar adoentado e muito mais magro. Mark fez que sim com a cabea, sem articular qualquer resposta. Depois da reunio, sentiu-se um imbecil 
por no ter reagido  preocupao de Abe. Seria a segunda pessoa a quem ia contar o seu problema. A primeira fora o terapeuta. No tivera estmago para contar a 
ningum. Era uma situao humilhante, que dava dele a imagem de um perdedor, e preocupava-o o fato de as pessoas poderem pensar que fora uma besta para a esposa. 
Queria explicar o que se passara, mas sentia-se dividido entre a vontade de desabafar e a necessidade de se esconder.

        - A Janet foi-se embora - disse Mark, disfaradamente, ao sarem da reunio. Eram quase seis horas. As palavras saram de tal modo sumidas que ele prprio 
mal as ouviu. Dava a sensao de que a alma se separara do corpo. Abe no percebeu o que ele queria dizer.

        - Foi viajar? - perguntou, confuso.

        - No. De vez - explicou Mark, amargurado. Contar a verdade era, de certa forma, um alvio. - Mudou-se para Nova Iorque, com as crianas. H trs semanas. 
Acabei de vender a casa. Vamo-nos divorciar.

        - Lamento muito - disse Abe, sentindo pena dele. A pobre criatura estava de rastos. Mas era jovem e poderia arranjar outra mulher, e at ter mais filhos. 
Era um homem bem-parecido. -  uma situao muito difcil. No sabia. No ouvira o mnimo rumor acerca do assunto, embora fizesse muito trabalho de contabilidade 
para a firma de Mark.

        Mas geralmente falavam de leis fiscais ou de clientes, no dos seus assuntos pessoais.
         - Onde  que est vivendo agora?

        -Num hotel, a dois quarteires daqui. No  grande coisa, mas, por agora, no est mal.

        - Quer ir comer qualquer coisa? - Abe tinha a mulher  sua espera em casa, mas Mark parecia precisar de um ombro amigo. E precisava, mas sentia-se demasiado 
abatido para ir onde quer que fosse.

        - No, obrigado. - Mark conseguiu, a muito custo, esboar um sorriso. - Talvez em outra hora.

        - Eu telefono - prometeu Abe, e foi-se embora.

        No sabia de quem era a culpa do divrcio, mas era evidente que Mark no estava feliz com a situao. No parecia que tivesse outra mulher. Perguntou a si 
mesmo se Janet no teria um amante. Era uma mulher atraente. Sempre os vira como o prottipo do casal americano. Ambos loiros e de olhos azuis, e com dois filhos 
que pareciam sados de posters publicitrios do estilo de vida americano. Dava a impresso de terem vindo de uma quinta do Midwest, embora houvessem crescido entre 
os prdios de Nova Iorque. Foram aos mesmos bailes de liceu, mas nunca se encontraram. Ela fora para Vassar, ele, para Brown, e conheceram-se, finalmente, na Faculdade 
de Direito de Yale. Levavam a chamada vida perfeita. Mas nada mais de que isso.

        Mark ficou no escritrio, a remexer os papis em cima da secretria, at s oito horas. Depois, voltou para o hotel. Ainda pensara comprar uma sanduche 
no caminho, mas no tinha fome. Mais uma vez. Prometera, tanto ao mdico como ao terapeuta, que iria fazer um esforo para comer. "Amanh", prometeu a si prprio. 
S lhe apetecia ir para a cama e ficar a olhar para a televiso. E talvez acabasse por adormecer.

        O telefone estava a tocar quando chegou no quarto. Era Jessica. Fora muito bem num teste. Estava no dcimo primeiro ano do secundrio, mas detestava a nova 
escola. O mesmo acontecia com Jason, que freqentava o oitavo ano. A adaptao estava sendo difcil para ambos. Jason jogava futebol e Jessica fazia parte da equipe 
de hquei no campo da escola. Mas dizia que os rapazes de Nova Yorque eram todos uns tolos. E continuava a culpar Mark por tudo e a no entender o divrcio.
Mark no lhe contou que vendera a casa nesse dia. Limitou-se a prometer que iria em breve a Nova Iorque e pediu-lhe que desse cumprimentos  me. Depois de desligar, 
ficou imvel, em cima da cama, a olhar para a televiso, enquanto as lgrimas lhe corriam silenciosamente pelo rosto.
CAPTULO 3

        Jimmy O'Connor era seco de carnes e de compleio atltica: ombros largos e braos fortes. Jogava golfe e tnis. Andara em Harvard e fizera parte da equipe 
de hquei no gelo. Fora um atleta soberbo enquanto estudante, e ainda mantinha essas caractersticas. Fizera o mestrado em Psicologia na UCLA, ao mesmo tempo que 
se dedicava ao trabalho de voluntariado em Watts. No ano seguinte, voltara  universidade para tirar a licenciatura em Assistncia Social, e nunca mais saiu de Watts. 
Aos trinta e trs anos, tinha uma vida e uma carreira profissional que adorava, e ainda conseguia arranjar tempo para o esporte. Organizara uma equipe de futebol 
e outra de softball para as crianas com quem trabalhava. Punha-as em lares de acolhimento e tirava-as das casas onde eram molestadas. Levava as que mostrassem sinais 
de subnutrio, ou de queimaduras, aos servios de urgncia. E, por mais de uma vez, ficara com elas em sua prpria casa at encontrarem um lar de acolhimento adequado. 
Os colegas diziam que tinha um corao de ouro.

        As suas feies eram tipicamente irlandesas: cabelos negros como o azeviche, pele cor de marfim e enormes olhos escuros. Os lbios, sensuais, desenhavam 
um sorriso que faria qualquer mulher cair nos seus braos. E foi o que aconteceu a Maggie. Margaret Monaghan. Eram ambos de Boston, tinham-se conhecido em Harvard 
e vindo para a costa oeste depois de se formarem. Viviam juntos desde o terceiro ano da faculdade. Haviam casado h seis anos. Sobretudo para sarem de casa dos 
pais. E, embora afirmassem que o casamento lhes era indiferente, acabariam por admitir que fora a melhor deciso que podiam ter tomado.

        Maggie era um ano mais nova do que Jimmy e a mulher mais inteligente que ele alguma vez conhecera. No havia mulher igual no mundo. Tambm tinha o mestrado 
em Psicologia e estava pensando em fazer o doutorado. Mas ainda no se decidira. E, tal como ele, trabalhava com crianas dos bairros mais pobres da cidade. Preferia 
adotar uma srie delas, a ter os seus prprios filhos. Ele era filho nico e ela, a mais velha de nove irmos. Provinha de uma slida famlia de Boston, com razes 
em County Cork. Os pais haviam nascido na Irlanda e tinham um acentuado sotaque irlands, que ela imitava na perfeio. A famlia de Jimmy deixara a Irlanda quatro 
geraes atrs. Era primo afastado dos Kennedy, e, ao sab-lo, Maggie troara dele, chamando-lhe "menino bem". Mas guardou o segredo para si. Gostava de entrar com 
ele por tudo e por nada. Jimmy adorava essa sua faceta. Brilhante, irreverente, linda, corajosa, de cabelos ruivos flamejantes, olhos verdes e pele sardenta, era 
a mulher dos seus sonhos. No havia a mnima coisa que lhe desagradasse nela,  exceo, talvez, do fato de no saber cozinhar e nem sequer se incomodar com isso. 
Era ele que fazia a comida, e no deixava os seus crditos de cozinheiro por mos alheias.

        Jimmy estava  encaixotando os utenslios de cozinha quando o administrador do condomnio tocou  campainha e entrou. Cumprimentou Jimmy em voz alta para 
que este soubesse que ia entrar. No gostava de incomodar, mas tinha de mostrar a casa. Tratava-se de um pequenssimo apartamento em Venice Beach. Tinham gostado 
muito de viver ali. Maggie adorava andar de patins pelas ruas abaixo. E a praia era o mximo.

        Jimmy avisara na semana anterior que se mudaria no final do ms. S no sabia para onde. Qualquer lugar lhe servia, menos aquele.

        O administrador do condomnio estava a mostrar o apartamento a um jovem casal. Ambos vestiam calas de ganga, camisas de l e sandlias, e pareciam jovens 
e inocentes. Tinham vinte e poucos anos, haviam acabado a universidade e provinham do Midwest. Estavam apaixonados por Los Angeles e adoraram o apartamento.    
              Venice era a sua cidade favorita. O administrador apresentou-os a Jimmy, que os cumprimentou e recomeou de imediato a encaixotar os utenslios de 
cozinha, deixando-os ver o apartamento  vontade. Era um espao pequeno, mas bem desenhado: uma pequena sala de estar, um quarto muito pequeno, pouco maior do que 
a cama, um banheiro onde mal cabiam duas pessoas, e a cozinha onde Jimmy se encontrava. Para eles servira muito bem, nunca haviam sentido necessidade de mais espao. 
Maggie sempre insistira em pagar metade do valor da renda e no tinha dinheiro para mais. Era teimosa nessas questes. Desde o dia em que se haviam conhecido que 
dividiam as despesas.

        "No vou viver  tua custa, Jimmy O'Connor!", dissera, imitando o sotaque dos pais, enquanto os flamejantes cabelos ruivos lhe danavam em torno do rosto. 
Jimmy queria filhos de Maggie s para ter uma casa cheia de midos de cabelo ruivo. Nos ltimos seis meses, haviam conversado acerca de uma possvel gravidez, mas 
Maggie tambm queria adotar crianas, possibilitando-lhes uma vida que, de outro modo, nunca teriam.

        "Que tal seis de cada?", perguntou Jimmy, piscando para ela. "Seis nossos, seis adotados. Quais  que queres sustentar?" Maggie admitira deix-lo sustentar 
os filhos, pelo menos alguns. No podiam dar-se ao luxo de terem tantos como gostariam. Mas haviam falado em cinco ou seis muitas vezes.

        - O fogo  a gs? - indagou a provvel inquilina, com um sorriso.

Jimmy fez que sim com a cabea, no articulando qualquer palavra.

        - Adoro cozinhar.

        Ele poderia ter-lhe dito que tambm adorava, mas no lhe apetecia alimentar a menor conversa com o casal. Limitou-se a acenar de novo com a cabea, continuando 
a empacotar as suas coisas. Cinco minutos depois, o casal e o administrador, que agradeceu a disponibilidade de Jimmy para os receber, saram. Depois de a porta 
se fechar, ouviu-se um rudo abafado de vozes no corredor. E Jimmy perguntou a si mesmo se iriam ficar com o apartamento. Mas isso pouco lhe interessava. Fosse como 
fosse, era um prdio impecvel, limpo e com boa vista. Maggie insistira numa casa com boa vista, apesar de ter de puxar os cordes  bolsa. "No vale a pena viver 
em Venice num lugar sem boa vista", dissera, com sotaque carregado. Falava freqentemente com sotaque, para regalo de Jimmy. s vezes, iam a uma pizzaria, e passava 
o jantar todo a fingir que era irlandesa, deixando toda a gente atnita. Tambm sabia falar galico e francs. E queria aprender chins, para poder trabalhar e conversar 
com as crianas dos bairros chineses.

        - Ele no  l muito simptico - sussurrou um dos novos inquilinos. Haviam conferenciado no banheiro e resolvido ficar com o apartamento. Tinham possibilidades 
econmicas e adoravam a vista, apesar de as divises serem pequenas.

        -  boa pessoa - defendeu-o o administrador do condomnio. Sempre gostara dele e da esposa. - Est a atravessar um perodo difcil - acrescentou, cautelosamente, 
sem saber se haveria de contar-lhes ou no. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde ficariam sabendo. Todos no prdio gostavam dos O'Connor, e ele lamentava ver 
Jimmy partir. Mas compreendia a situao. Teria feito a mesma coisa.

        Os dois jovens no sabiam muito bem se Jimmy fora posto na rua ou convidado a sair, de tal modo se mostrara antiptico com eles.

        - Tinha uma mulher espetacular. Trinta e dois anos, cabelos ruivos e muito inteligente.

        - Separaram-se? - perguntou a mulher, simpatizando um pouco mais com Jimmy. Este fora extremamente seco, quando estava a enfiar as caarolas numa caixa de 
papelo.

        - Morreu. H um ms. Uma coisa terrvel. Um tumor no crebro. Comeou a ter dores de cabea h uns meses. Dizia que eram enxaquecas. H trs meses, internaram-na 
para lhe fazerem exames. Descobriram-lhe um tumor na cabea. Ainda tentaram oper-la, mas o tumor era muito grande e j se tinha espalhado. Morreu no espao de dois 
meses. Ainda pensei que a morte dela o matasse tambm. Nunca vi duas pessoas to apaixonadas uma pela outra. Estavam sempre a rir, a falar, a brincar. Ele avisou-me 
que se ia embora na semana passada. Diz que no agenta ficar aqui na casa. Sinto tanta pena dele.  um bom homem. - O administrador tinha os olhos marejados de 
lgrimas.

        - Que horror! - exclamou a mulher, tambm com os olhos a quererem inundar-se de lgrimas. Era uma histria horripilante. Vira fotografias dos dois um pouco 
por todo o lado. - Deve ter sido um choque terrvel para ele!

        - Ela era muito corajosa. At h pouco tempo, ainda davam os seus passeios, ele fazia o jantar e levava-a at  praia. Vai levar muito tempo a recompor-se. 
Nunca encontrar outra mulher igual.

        O administrador do condomnio, que era conhecido pelo seu ar de seriedade, limpou uma lgrima que teimava em saltar, e o jovem casal seguiu-o pelas escadas 
abaixo. A histria perseguiu-os o resto do dia. Ao final da tarde, o administrador enfiou um bilhete por baixo da porta de Jimmy, para avis-lo de que o jovem casal 
resolvera comprar o apartamento. O apartamento estaria disponvel dentro de trs semanas.

        Jimmy fitou o bilhete por uns instantes. Era exatamente aquilo que queria, apesar de ainda no saber onde  que iria morar. Mas isso j no era importante 
para si. Estava pouco se importando com isso. At poderia dormir dentro de um saco-cama, na rua. Talvez fosse assim que as pessoas se tornavam sem-abrigo. Ainda 
pensara em matar-se quando Maggie faleceu, entrando pelo oceano adentro, sem um murmrio, sem qualquer queixume. Teria sido um enorme alvio. No dia  seguinte  
morte de Maggie, ficara horas esquecidas na praia, sentado na areia, apensando nisso. Ento, como se conseguisse ouvi-la, imaginou-a a chamar-lhe, em tom enfurecido, 
covarde. At lhe notou o sotaque. J era noite avanada quando regressou ao apartamento. Atirou-se para cima do sof e chorou convulsivamente durante horas.

        As famlias de ambos tinham vindo de Boston nessa noite. O rosrio e o funeral consumiram os dois dias seguintes. Recusara-se a enterr-la em Boston. Maggie 
manifestara o desejo de ficar na Califrnia com ele, por isso foi l que a sepultou. Depois de todos partirem, ficou, de novo, sozinho. Os pais, irmos e irms de 
Maggie estavam destroados. Porm, ningum estava mais afetado do que ele, ningum sabia o quanto ele perdera, ou o que ela significava para si. Maggie fora a sua 
vida, e Jimmy tinha a certeza absoluta de que nunca amaria outra mulher como  amara a ela. No conseguia conceber outra mulher na sua vida. Seria uma autntica hipocrisia. 
E quem  que lhe chegaria aos calcanhares? Ningum a igualaria em fogosidade, paixo, gnio e coragem. Fora o ser humano mais corajoso que alguma vez conhecera.

        Nem sequer tivera medo da morte. Aceitara-a como algo que fazia parte do seu destino. Ele  que chorara, suplicara a Deus que a salvasse, ele  que ficara 
aterrado e no conseguia imaginar-se a viver sem ela. Era uma situao impensvel, insuportvel. E, agora, ali estava. S. Maggie partira h' um ms. Semanas, dias, 
horas, nada fazia sentido. A nica coisa que lhe restava era arrastar-se at ao fim da vida.
        
        Regressara ao trabalho uma semana depois da morte de Maggie, e toda a gente o
tratava com extremo desvelo. Mas j no havia alegria na sua vida.
        Parte dele queria ficar no apartamento, a outra no suportava acordar todas as manhs sem Maggie a seu lado. Sabia que tinha de sair dali. No lhe importava 
para onde. Vira o nome de uma agncia imobiliria num anncio e telefonou para l. Todos os corretores haviam sado. Deixou o nome e o nmero de telefone, e continuou 
a fazer as malas. Mas, quando deparou com as roupas de Maggie no armrio, sentiu como que um enorme soco no peito. Ficou lvido. A realidade era to dura e poderosa 
que lhe sugara o ar dos pulmes e o sangue do corao. E assim ficou, como que petrificado, durante longos momentos. Sentia o seu perfume, a sua presena como se 
ela ainda estivesse ao seu lado.

      - O que fao eu agora? - bradou, agarrado  soleira da porta, ao mesmo tempo que os olhos se inundavam de lgrimas. Era como se uma fora sobrenatural o tivesse 
levado quase ao tapete. O peso da perda de Maggie era to grande que mal se conseguia pr de p.

        "Levanta a cabea, Jimmy!", incitou-o uma voz dentro de si. "No te podes deixar abater!!" As palavras eram ditas num cerrado sotaque irlands.

        - Mas por que raio  que no posso deixar de viver? Maggie nunca se deixara abater, nunca desistira. Lutara at ao fim. No dia em que faleceu, ainda ps 
batom, lavou o cabelo e vestiu a blusa de que mais gostava. Nunca se dera por vencida. - No quero continuar a viver! - berrou, a plenos pulmes, para a voz que 
ouvia dentro de si, para o rosto que nunca mais voltaria a ver.

        "Levanta esse rabo e bola para a frente!", ouviu com perfeita nitidez. De sbito, por entre as lgrimas, deixou escapar uma gargalhada, ao olhar para as 
roupas dela.

- Est bem, Maggie... est bem... -retorquiu, enquanto pegava nos vestidos dela e os colocava cuidadosamente dobrados dentro de uma caixa, como se ela um dia ainda 
viesse  procura deles.
CAPTULO 4

        No domingo, no dia seguinte a Cooper ter concordado em arrendar a casa do caseiro e a ala de hspedes, Liz voltou ao Palacete, para se encontrar com a corretora 
imobiliria. Queria que ela apressasse as coisas antes que Coop mudasse de idias. Esta entrada de capital dava-lhe um jeito. E queria fazer tudo o que podia por 
ele antes de se ir embora.

        Combinara encontrar-se com a corretora s onze. Quando ambas chegaram ao Palacete, Coop no se encontrava em casa. Levara Pamela, a modelo de vinte e dois 
anos, a tomar o pequeno-almoo ao Beverly Hills Hotel, e prometera ir com ela s compras  Rodeo Drive no dia seguinte.

        Pamela era muito vistosa, mas tinha pouco que vestir e estragar as mulheres com mimos era uma das coisas que Coop fazia melhor. Adorava fazer-lhes compras. 
Abe teria um ataque de corao quando visse a conta. Mas Cooper nunca se preocupava com isso. Prometera lev-la  Valentino,  Dior,  Ferre, a qualquer loja onde 
ela quisesse ir; depois,  Fred Segai. Ia ser, de certeza, uma festana para uns cinqenta mil dlares, ou mais. Especialmente se passassem pela Van Cleef ou a Cartier, 
caso alguma coisa na vitrine despertasse o interesse de Coop. A Pamela nunca lhe ocorreria dizer-lhe que a sua generosidade era excessiva. Para uma rapariga de vinte 
e dois anos vinda do Oklahoma, este era um sonho que se tornava realidade.

        - Espanta-me que Mister Winslow queira ter inquilinos na propriedade, especialmente numa ala do edifcio principal
- disse a corretora, ao entrar na ala de hspedes. Andava  pesca de bisbilhotices para, mais tarde, partilhar com os futuros inquilinos, coisa que no agradava 
a Liz. Mas o falatrio era um mal inevitvel e, ao mesmo tempo, necessrio, uma vez que pretendiam arrendar parte da casa. Estavam  merc das interpretaes das 
pessoas, que nunca eram muito favorveis s estrelas de cinema mais conhecidas, ou a quaisquer outras celebridades. Fazia parte do negcio.

        -- A ala de hspedes tem, naturalmente, uma porta independente, como tal, os inquilinos nunca se encontraro com Coop. Alm disso, ele viaja tanto que nem 
sei se dar pela presena deles. Alis, os inquilinos sero uma proteo, se as pessoas souberem que h gente a viver permanentemente na propriedade. Caso contrrio, 
poderia haver intruses, ou outro tipo de problemas. Isto , de fato, uma segurana.

        Era uma perspectiva que a corretora no encarara, mas fazia sentido. Embora desconfiasse de que se passava algo mais. H anos que Cooper Winslow no interpretava 
um papel principal. J nem se lembrava de qual fora o ltimo filme em que ele entrara, embora ainda fosse uma grande estrela e provocasse grande agitao onde quer 
que aparecesse. Era uma das maiores lendas de Hollywood de todos os tempos e um fator de grande prestgio para os inquilinos. A propriedade, nica no pas, se no 
mesmo no mundo, tornava-se ainda mais valiosa pelo fato de ele a habitar, pelo menos durante parte do tempo. E, com um pouco de sorte, os inquilinos poderiam v-lo 
a jogar tnis, ou na piscina. Ia pr isso na brochura.

        A porta da ala de hspedes rangeu ao abrir-se. Liz ainda pensara em mandar limpar os aposentos antes da vinda dos novos ocupantes, mas no houvera tempo, 
e ela queria mudar-se o mais rapidamente possvel. Porm, de um modo geral, no estavam muito maus. Era um espao muito bonito. Tinha os mesmos tetos altos que havia 
no resto da casa e elegantes janelas francesas com vista para os terrenos circundantes. Havia ainda um magnfico terrao em pedra, ladeado por sebes, com bancos 
e mesas em mrmore, que Coop comprara em Itlia anos antes. A sala de estar encontrava-se cheia de antiguidades francesas. Contguo a esta, um pequeno escritrio, 
e, ao cimo de um pequeno lane de escadas, uma sute enorme, forrada a cetim azul-claro e com mobilirio espelhado Art Dco, que Coop trouxera de Frana.

        Ao lado da sute, havia um enorme banheiro, todo em mrmore, e um quarto de vestir com mais roupeiros do que os necessrios para uma pessoa normal, se bem 
que para Cooper fossem insuficientes. Ao fundo da sala de estar, dois quartos pequenos, decorados com chita inglesa com flores e antiguidades. A cozinha, de estilo 
rstico, com uma enorme mesa ao centro, fazia lembrar uma cozinha provenal. No havia sala de jantar, mas Liz observou que a sala de estar era to ampla que os 
inquilinos poderiam l pr uma mesa. Tambm poderiam comer na cozinha, que, alm de acolhedora, era um espao divertido e informal. Tinha um velho fogo francs, 
uma lareira em tijolo a um canto e painis de azulejos nas paredes. Vendo bem as coisas, este espao, inserido nos terrenos da propriedade mais bonita de Bel Air, 
seria um apartamento perfeito para qualquer pessoa; alm disso, os inquilinos teriam acesso aos campos de tnis e  piscina.

        - Quanto  que ele quer de renda? - Os olhos da corretora brilharam de excitao. Nunca vira lugar igual e j imaginava outra estrela de cinema a arrendar 
o espao, apenas por uma questo de prestgio. Talvez um ator em filmagens, ou de passagem em Los Angeles por um ano. O fato de estar mobiliada faria da ala um verdadeiro 
bnus para quem quer que fosse. Com umas flores e uma pequena limpeza, a ala de hspedes ganharia outra vida.

        - Quanto sugere? - indagou Liz. No fazia a menor idia. H muito que no realizava qualquer negcio imobilirio e h mais de vinte anos que se mantinha 
no seu modesto apartamento.

        - Pelo menos dez mil por ms. Talvez doze. Com determinadas pessoas, podemos ir at aos quinze. Mas nunca menos de dez.

        Liz ficou satisfeita. Juntamente com a casa do caseiro, Coop arrecadaria uma boa quantia todos os meses, se lhe tirassem os cartes de crdito das mos. 
Preocupavam-na as asneiras que poderia fazer depois de ela se ir embora, sem ningum para control-lo ou para o chama-lhe a ateno. No que ela tivesse qualquer 
controle sobre ele, mas, pelo menos, de vez em quando, podia aconselh-lo a no se deixar afundar mais.

        Logo que Liz fechou a porta que dava para a ala de hspedes, dirigiram-se ao extremo norte da propriedade, onde se situava a casa do caseiro, isolada no 
meio de um jardim algo escondido. Ficava um pouco afastada do porto principal, e tinha tanta vegetao e terreno  volta que parecia fazer parte de outra propriedade. 
Toda em pedra, encontrava-se totalmente coberta de trepadeiras de um dos lados, fazendo lembrar uma casa rstica inglesa. Vislumbrava-se nela um certo toque de magia. 
No interior, os painis de madeira conviviam, lado a lado, com a pedra das paredes, em perfeita harmonia. Era uma justaposio interessante de dois mundos, completamente 
diferente da elegante decorao francesa da ala de hspedes.

        - Oh, meu Deus,  fabuloso! - exclamou a corretora, entusiasmada, ao entrar, depois de passar por um roseiral que circundava a casa. -  como se estivssemos 
num outro mundo!

As divises eram pequenas e bem proporcionadas, com tetos em madeira e moblias inglesas. Havia ainda um comprido sof em couro, que Cooper comprara num clube ingls. 
Na sala de estar, sobressaa uma enorme lareira. A cozinha, com uma rea razovel, tambm rstica, exibia um aparador de utenslios. No andar de cima, havia dois 
quartos, com mveis de estilo Jorge III, que Cooper colecionara durante algum tempo. Podiam ver-se bonitos tapetes feitos  mo em todos os aposentos. Na pequena 
sala de jantar, em cima de um aparador, estava a prataria. As porcelanas que se encontravam no armrio eram Spode. Tratava-se, efetivamente, de uma pequena casa 
rstica inglesa. Ficava mais prxima dos campos de tnis de que o edifcio central, mas mais afastada da piscina, situada junto  ala de hspedes. Assim, cada uma 
das casas tinha as suas virtudes, as suas comodidades e o seu estilo prprio.

        - Este  o local perfeito para o inquilino certo - disse a corretora, com indisfarvel alegria. - Eu prpria adoraria viver aqui.

        - Tambm j pensei nisso - retorquiu Liz, esboando um sorriso. Certa vez, perguntara a Coop se podia ali passar um fim-de-semana, mas acabara por nunca 
o fazer. E, tal como a ala de hspedes, a casa estava bem apetrechada de toalhas de linho, cortinados, loua de porcelana, alm de todos os utenslios de cozinha 
e de mesa necessrios.

        - Por esta tambm consigo pelo menos dez mil por ms afirmou a corretora, entusiasmada. - Talvez mais.  pequena, mas  lindssima e muito acolhedora. - 
A ala de hspedes, apesar da sua grandiosidade e luxo, era tambm muito acolhedora. Mas tinha os tetos mais altos e ocupava uma rea muito maior: a sala de estar, 
a sute e a cozinha eram enormes. Fosse como fosse, ambas as casas eram de uma grande beleza, e a corretora estava convicta de que conseguiria arrend-las num piscar 
de olhos. - Na prxima semana, gostaria de vir tirar umas fotografias de ambas as casas, e nem sequer as vou mostrar j aos meus colegas. Primeiro, vou ver quem 
temos  procura de casas mobiliadas para arrendar. Propriedades como esta no aparecem todos os dias, e fao votos de arranjar o inquilino certo para Coop.

        - Seria muito importante para ele - aprovou Liz, num tom solene.

        - H alguma restrio que eu deva conhecer? - indagou a corretora, rabiscando no bloco umas notas relativas ao tamanho, s instalaes e ao nmero de divises.

        - Para ser franca, ele no morre de amores por crianas e no gostaria de ver nada estragado. Os ces tambm no esto no seu lote de preferncias. Quanto 
ao resto, desde que se trate de uma pessoa respeitvel e que tenha condies para pagar a renda, julgo que no haver qualquer tipo de problema. - No lhe disse 
que ele s queria inquilinos do sexo feminino.

        - Temos de ter cuidado com a questo dos pequenos. No quero que nos acusem de discriminao - avisou a corretora. - Mas lembrar-me-ei, quando estiver amostrando 
as casas. De qualquer forma, estas so casas muito sofisticadas e com uma renda de tal modo elevada que o populacho no lhe chega. - A no ser que as arrendassem 
a estrelas de rock. Esse era sempre um elemento imprevisvel, e a corretora j tivera problemas com algumas. Alis, como toda a gente.

        A corretora abandonou a propriedade passava pouco do meio-dia. Liz voltou para o seu apartamento, depois de verificar que estava tudo em ordem no Palacete. 
Os criados ainda se encontravam um pouco abalados pela terrvel notcia do dia anterior. No entanto, dados os constantes atrasos no pagamento dos vencimentos, a 
situao era previsvel. Livermore j anunciara que ia para Monte Carlo, trabalhar para um prncipe rabe. Andava a ser assediado h meses e telefonara-lhe, nessa 
manh, e aceitara a proposta de emprego. No parecia muito aborrecido por deixar Cooper e, mesmo que  estivesse, tambm no o demonstraria.
       Partiria para o Sul de Frana no fim-de-semana seguinte, o que iria ser um enorme choque para Coop.

        Ao fim da tarde, Coop regressou a casa, acompanhado de Pamela. Depois de um prolongado almoo, tinham-se sentado na piscina do Beverly Hills Hotel, a conversar 
com alguns amigos do velho ator, todos eles figuras conhecidas de Hollywood. Pamela nem queria acreditar que estivesse a dar-se com aquele tipo de gente, e ficou 
de tal modo impressionada que mal conseguia falar quando abandonaram o hotel. Meia hora depois, estavam na cama, com um clice de Cristal gelado ao lado. Jantaram 
na cama e, por insistncia de Pamela, viram os vdeos de dois antigos filmes de Coop. Depois, ele levou-a para casa, pois tinha encontro marcado com o seu treinador 
e acupunturista de manh cedo. Alm disso, gostava de dormir sozinho. Dormir com uma mulher, por mais bonita que fosse, perturbava-lhe o sono.

        Na manh seguinte, a corretora j tinha preparado dois prospectos com todos os pormenores para o arrendamento de ambas as casas. Telefonou a vrios clientes 
que andavam  procura de residncias fora do vulgar. Combinou mostrar a casa do caseiro a dois solteires, e a ala de hspedes a um jovem casal que se mudara recentemente 
para Los Angeles. Pouco depois, tocou o telefone. Era Jimmy.

        Parecia uma pessoa sria e calma. Andava  procura de uma casa para arrendar. No importava onde, desde que fosse pequena, acolhedora, funcional e com uma 
boa cozinha. Ultimamente, no fazia comida em casa, mas poderia querer recomear a qualquer momento. A culinria, alm do esporte, era uma das poucas coisas que 
o relaxava. Tambm pouco lhe importava se a casa estava ou no mobiliada. Ele e Maggie tinham os mveis essenciais, mas preferia no os levar consigo- Talvez assim 
se lembrasse menos dela, e o sofrimento fosse menor. As nicas coisas que levaria capazes de o fazer lembrar-se de Maggie seriam as fotografias. Todas as outras 
que lhe haviam pertencido seriam guardadas. Assim, no teria de as ver todos os dias.

        A corretora perguntou-lhe se tinha preferncia por algum local, mas ele respondeu que no. Hollywood, Beverly Hills, Los Angeles, Malibu, qualquer lugar. 
Disse que gostava do mar, mas isso tambm lhe recordaria a falecida esposa. No havia nada que no lhe trouxesse Maggie  lembrana.

        Uma vez que Jimmy no colocou qualquer restrio a respeito de preos, a corretora resolveu arriscar e falou-lhe da casa do caseiro. No mencionou o valor 
da renda, mas descreveu-a. Aps alguns instantes de hesitao, Jimmy disse que gostaria de ver. Marcaram encontro s cinco da tarde, depois, a corretora perguntou-lhe 
em que zona da cidade trabalhava.

        - Watts - respondeu Jimmy, parecendo algo distrado, como se para si no houvesse nada de anormal na pergunta. A corretora ficou alarmada.

        - Oh, percebo. - Interrogou-se se ele no seria afro-americano, mas, obviamente, no  podia perguntar-lhe isso, nem se teria posses para pagar a renda. - 
Tem algum oramento definido, Mister O'Connor?

        - No propriamente - respondeu Jimmy, olhando para o relgio. Tinha de ir correndo para um encontro com uma famlia por causa de dois dos seus filhos adotivos. 
- Ento, encontramo-nos s cinco.

        A corretora j no estava muito segura de que ele fosse o inquilino certo. Uma pessoa que trabalhava em Watts no tinha condies econmicas para arrendar 
a casa do caseiro de Cooper Winslow. Ao fim da tarde, quando se encontrou com ele, ficou ainda mais convencida disso.

        Jimmy chegou ao volante do velho Honda Civk que Maggie insistira em comprar, embora ele houvesse preferido adquirir um carro melhor quando se mudaram para 
a Califrnia. Tentara explicar-lhe que a vida na Califrnia exigia um bom carro, mas, como de costume, ela acabara por convenc-lo do contrrio. Para o tipo de trabalho 
que faziam, no podiam ter um carro muito caro, embora pudessem perfeitamente dar-se a esse luxo. O fato de ele provir de uma famlia endinheirada sempre fora um 
segredo muito bem guardado, at mesmo entre os seus amigos.

        Vestia calas de jeans desbotadas, com um pequeno rasgo no joelho, uma camisa de Harvard desbotada, j com uma dzia de anos, e um par de botas gastas. 
Nos stios onde visitava as famlias, havia, muitas vezes, ratazanas, e no queria que elas lhe mordessem. Em contraste com o vesturio que envergava, tinha a barba 
feita, era inteligente, bem-educado, e cortara o cabelo recentemente. Era um interessante conjunto de elementos contraditrios, o que confundiu completamente a corretora.

        - Trabalha em qu, Mister O'Connor? - indagou, enquanto abria a porta da casa do caseiro. J a havia mostrado trs vezes nessa tarde, mas o primeiro homem 
que a vira achara-a demasiado pequena, o segundo, demasiado isolada, e o terceiro preferia um apartamento. Como tal, ainda estava disponvel, embora tivesse quase 
a certeza de que Jimmy no ganhava o suficiente para pagar o aluguel. Muito menos com o ordenado de assistente social. Porm, fosse como fosse, era seu dever mostr-la.

        Quando atravessou a cerca, Jimmy suspendeu a respirao. Parecia uma casa rstica irlandesa, e vieram-lhe  memria as viagens que fizera  Irlanda na companhia 
de Maggie. No instante em que ps o p na sala de estar, sentiu-se transportado at  Irlanda ou  Inglaterra. Era a casa ideal para um celibatrio: simples e despretensiosa. 
Pareceu satisfeito quando viu a cozinha. Tambm pareceu gostar do quarto. Mas o que mais lhe agradava era a sensao de estar no campo. Ao contrrio do outro homem, 
Jimmy gostava de isolamento. Era o que melhor se coadunava com o seu estado de esprito.

        - A sua esposa no quer ver a casa? - inquiriu a corretora, averiguando, delicadamente, se Jimmy era casado. Era uma pessoa bem-parecida, em boa forma fsica. 
Tambm tinha curiosidade de saber se ele andara efetivamente em Harvard, ou se comprara a camisa na Goodwill.

        - No, ela... - comeou por balbuciar, mas no conseguiu acabar a frase. - Sou... Vou viver aqui sozinho. Ainda no conseguia pronunciar a palavra "vivo". 
Sentia como que uma faca a atravessar-lhe o corao de cada vez que tentava proferi-la. Usar a palavra "solteiro" seria pattico e pouco honesto da sua parte. s 
vezes, ainda tinha vontade de dizer que era casado. Ainda usaria aliana, se a tivesse. Maggie nunca lhe oferecera nenhuma, e a que usava fora enterrada com ela. 
- Gosto da casa - afirmou, pausadamente, enquanto caminhava novamente por todas as divises e abria todos os armrios. Viver numa propriedade assim parecia-lhe grandioso 
de mais para si, mas achou que talvez pudesse dizer aos colegas, quando os trouxesse ali, que estava a tomar conta da casa, ou a trabalhar na propriedade.

        Poderia inventar muitas histrias, se fosse preciso, e j no era a primeira vez que o fazia. Sabia que Maggie tambm teria gostado da casa. Mas nunca teria 
concordado em viver ali, porque no teria hipteses de cooparticipar com os seus cinqenta por cento. Pensar nisso f-lo sorrir. Estava tentado a ficar com a casa. 
Mas resolveu esperar e deixar amadurecer a deciso, prometendo telefonar  corretora no dia seguinte.

        - Gostaria de pensar um pouco mais no assunto - disse, quando se foi embora.

        A corretora ficou convencida de que ele s estava livrando a cara.. Pelo carro, pelas roupas e pelo emprego, sabia que' Jimmy no tinha meios para pagar 
um aluguel to alto. Mas parecia-lhe boa pessoa, e estava sendo simptica com ele. Nunca se sabia com quem se estava lidando. s vezes, dava-se de cara com pessoas 
desconhecidas e com ar humilde que se vinha depois a descobrir serem herdeiros de grandes fortunas. Aprendera isso logo no incio da atividade como corretora, sendo 
assim  tratava-o com cortesia.

        No caminho de volta, Jimmy pensava na casa. Era bonita e parecia um retiro tranqilo. Teria adorado viver ali com Maggie e perguntou-se se aquele seria o 
refgio ideal. J no sabia o que era melhor. No havia lugar nenhum onde pudesse esconder-se da grande mgoa que sentia. Quando chegou em casa, recomeou a tarefa 
de encaixotar as coisas, apenas para se distrair. O apartamento j estava praticamente vazio. Comeu uma tigela de sopa e sentou-se  janela, em silncio, de olhar 
perdido no espao.

        Ficou acordado a maior parte da noite, pensando em Maggie e nos conselhos que ela lhe daria. Ainda pensara na hiptese de arranjar um apartamento nos arrabaldes 
de Watts, o que seria prtico, e os perigos no o alarmavam. Ou um apartamento talvez em Los Angeles. Porm, nessa noite, deitado na cama, no conseguia deixar de 
pensar na casa do caseiro. E sabia que Maggie tambm a teria adorado e tinha meios econmicos para pagar o aluguel. Estava na dvida se, por uma vez na vida, deveria 
ceder ao desejo. E gostava da histria de trabalhar na propriedade em troca de uma renda reduzida. Parecia uma histria plausvel. Alm disso, adorava a cozinha, 
a sala de estar, a lareira e o jardim a toda a volta.
        
        s oito da manh, enquanto se barbeava, ligou para o celular da corretora.

        - Fico com a casa. - E esboou um sorriso. Era a primeira vez, em vrias semanas, que sorria. Estava entusiasmado com a casa. Era o refgio ideal.

        - A srio? - A corretora estava perplexa. Nunca acreditara que Jimmy voltasse a telefonar e ficou sem saber se ele percebera o preo quando ela lho disse: 
"So dez mil dlares por ms, Mister O'Connor. No h problema?" No tinha coragem para voltar a lembr-lo. Nunca pensara que fosse to fcil arrendar a casa. Viver 
em completo isolamento numa propriedade no era para toda a gente, mas ele parecia adorar.

        - A srio - asseverou Jimmy. - Quer que apresente referncias bancrias, ou que faa um depsito de sinal? Agora que se decidira pelo arrendamento da casa, 
no queria perd-la.

        - Bem, no... eu... temos de pedir as referncias bancrias, primeiro. - Estava convencida de que este pedido acabaria com as pretenses de Jimmy, mas, por 
lei, tinha de percorrer todos os passos do processo.

        - No quero perd-la. Entretanto, pode aparecer outra pessoa. - Parecia preocupado. J no era to descuidado como antes. Ultimamente, ficava mais ansioso 
com coisas em que outrora nem sequer pensava. Maggie sempre se preocupava por ele. Agora, era diferente.

- Eu a reservo. Tem direito de preferncia.

        - Quanto tempo demora o banco a dar as referncias?

        - Poucos dias. Ultimamente, os bancos esto um pouco demorados com as referncias bancrias.

        - Porque no telefona ao diretor do meu banco? E deu-lhe o nome do diretor do Bank of America. - Talvez ele consiga apressar um pouco mais as coisas. - Jimmy 
costumava agir com discrio, mas tambm sabia que, mal ela lhe telefonasse, tudo comearia a andar sobre rodas. No tinha problemas de dinheiro, nunca tivera.

        - Terei muito gosto em faz-lo, Mister O'Connor. Pode dar-me o seu contato?

Jimmy deu-lhe o nmero do escritrio e pediu-lhe para deixar recado no voice mail, caso l no se encontrasse.

        - Estarei no escritrio durante toda a manh. - Tinha uma montanha de papis em cima da secretria. s dez da manh, a corretora telefonou-lhe.

        O pedido de referncias bancrias decorrera tal e qual ele imaginara. Ela telefonou para o diretor do banco privado, por uma questo de rotina, e, mal proferiu 
o nome de Jimmy, o diretor asseverou-lhe, sem qualquer sombra de dvida, que no haveria o mnimo problema. A conta era excelente, no podiam revelar o saldo, mas 
o seu montante colocava Jimmy no escalo mais elevado de clientes.

        - Ele vai comprar uma casa? - perguntou o banqueiro, interessado.

Esperava que sim, embora Jimmy ainda no houvesse abordado esse assunto. Depois da tragdia recente da morte da esposa, este era um sinal de esperana. Jimmy tinha 
meios econmicos mais do que suficientes para comprar uma casa, e, se quisesse, at podia comprar o Palacete.

        - No, vai arrendar uma casa de caseiro. O aluguel  muito elevado - informou a corretora, procurando comprovar o que ele lhe dissera e certificar-se de 
que no havia qualquer mal-entendido. - Dez mil dlares por ms, mais os valores do primeiro e ltimo ms, e um depsito de segurana de vinte e cinco mil dlares.

O diretor do banco asseverou-lhe, uma vez mais, que no havia qualquer problema. A curiosidade da corretora aumentou, e, numa rara exploso de indiscrio, perguntou-lhe:

        - Quem  ele?

        - Exatamente quem diz ser. James Thomas O'Connor.  um dos nossos clientes mais slidos. - Era a nica coisa que podia dizer-lhe, deixando-a ainda mais intrigada.

        - Fiquei um pouco preocupada porque com a profisso de assistente social, certamente... no  normal encontrar-se algum com capacidade para pagar uma renda 
to elevada.

        -  pena no haver mais pessoas como ele. H mais alguma coisa que deseje saber?

        - Importa-se de me enviar uma carta por fax?

        - De modo nenhum. Quer que lhe enviemos um cheque passado em nome dele, ou ele prprio o passa?

        - Eu pergunto-lhe - respondeu a corretora, percebendo que acabara de arrendar a casa.

        Telefonou a Jimmy e deu-lhe a boa notcia, dizendo-lhe que podia.ficar com a casa e as chaves logo que quisesse. Ele prometeu encontrar-se com ela  hora 
do almoo, para alinhavar todos os pormenores do contrato, e disse que s se mudaria dali a algumas semanas, quando desocupasse o apartamento. Queria gozar a ltima 
coisa que partilhara com Maggie durante o mximo de tempo possvel, apesar de estar entusiasmado com a casa. Alm disso, sabia que, para onde quer que fosse, ela 
acompanh-lo-ia.

        - Espero que seja muito feliz na casa, Mister O'Connor.  uma jia autntica. E estou certa de que gostar de conhecer Mister Winslow.

Quando desligou, Jimmy riu-se ao pensar no que Maggie teria dito do fato de ter uma estrela de cinema como senhorio. Porm, pela primeira vez na vida, ia ceder ao 
desejo de cometer uma loucura. De qualquer forma, no seu ntimo, sentia que Maggie no s teria aprovado como adorado a casa.


CAPTULO 5

        Na manh seguinte, depois de outra noite de pesadelo, praticamente sem ter dormido nada, Mark chegou ao escritrio. Pouco depois, tocou o telefone. Era Abe 
Braunstein.

- Sinto muito por  aquilo que me disse ontem - comeou Abe. Pensara nele a noite anterior e, de repente, lembrou-se de que Mark poderia andar  procura de um apartamento. 
No podia ficar eternamente num hotel. - Ontem  noite, tive uma idia meio estapafrdia. No sei se anda  procura de casa, nem quais so as suas necessidades, 
mas surgiu no mercado uma casa excepcional. Um dos meus clientes, Cooper Winslow, quer arrendar a ala de hspedes. Est num aperto tremendo. Tem uma propriedade 
e uma casa fantstica em Bel Air. Quer arrendar a casa do caseiro e a ala de hspedes. Comearam a mostr-las ontem, e no creio que j estejam arrendadas. S pensei 
em falar-lhe nisto porque  um lugar espetacular para se viver, uma espcie de country club. Talvez gostasse de v-la.

        - No tenho pensado muito nisso. - Mark ainda no se recuperara do choque, se bem que viver na propriedade de Cooper Winslow, em Bel Air, no lhe parecesse 
m idia, e at seria um timo cenrio para quando os filhos viessem visit-lo.

        - Se quiser, passo por a,  hora de almoo, e levo-o at l. Mesmo que no esteja interessado, vale a pena a visita.  uma propriedade magnfica. Campos 
de tnis, piscina, cinco hectares e meio de jardim, no centro da cidade.

        - Adoraria conhec-la. - No queria ser indelicado com Abe, mas no se sentia com disposio para ver casas, mesmo a de Cooper Winslow. No entanto, achou 
por bem aceitar o convite, talvez fosse uma casa boa para os filhos.

        - Passo por a ao meio-dia e meia. Vou telefonar  corretora, para l ir ter conosco. O aluguel  alto, mas julgo que voc tem condies para a pagar. - 
E sorriu. Sabia que Mark era um dos scios mais bem pagos da firma. Direito Fiscal no era uma rea muito excitante, mas rendera-lhe bons proventos, embora no houvesse 
nele o menor sinal de ostentao. Apesar de ter um Mercedes, era uma pessoa pragmtica e despretensiosa.

        Durante o resto da manh, Mark esqueceu o assunto. A ala de hspedes do Palacete no passava de uma miragem. S ia v-la por uma questo de cortesia para 
com Abe, e porque no tinha nada que fazer  hora de almoo. Agora que mal comia, sobrava-lhe mais tempo. A roupa j comeava a ficar-lhe larga.

        Abe chegou ao escritrio  hora combinada e disse a Mark que a corretora estaria no Palacete dentro de um quarto de hora. Durante toda a viagem, falaram 
da nova lei fiscal, que, segundo parecia, tinha algumas falhas, o que interessava a ambos. Estavam de tal modo embrenhados na conversa que, quando chegaram ao porto 
principal, Mark ficou mudo de espanto. O Palacete tinha uma entrada imponente. Abe introduziu o cdigo e entraram, zigue-zagueando pelo caminho , por entre rvores 
e jardins sem fim, cuidadosamente tratados. Mark soltou uma gargalhada quando deparou com a casa. No conseguia imaginar-se a viver num lugar assim. Parecia um palcio.

        - Meu Deus!  ali que ele vive? - perguntou, ao ver as colunas e as escadas de mrmore, e uma enorme fonte que lhe fazia lembrar a Praa da Concrdia, em 
Paris.

        - Foi construda para Vera Harper. Winslow tem-na h mais de quarenta anos. A manuteno custa-lhe uma fortuna.

        - Imagino. Quantos criados tem?

        - Agora, perto de vinte. Dentro de duas semanas, um na casa e trs jardineiros. De momento, tem oito. Diz que estou a seguir uma poltica de terra queimada 
e no est muito satisfeito com isso. Tambm vou obrig-lo a vender os carros. Se estiver interessado num Rolls ou num Bentley...  um tipo interessante, mas um 
gastador inveterado. A propriedade foi feita  sua medida, tenho de admitir.

        Abe era tudo o que Coop no era: prtico, pragmtico, frugal, e no tinha a mnima ponta de elegncia ou estilo; mas era mais compassivo do que Coop pensava, 
e por isso trazia Mark a ver a casa. Tinha pena dele e queria ajud-lo. Ele prprio tambm nunca vira a ala de hspedes, mas Liz dissera-lhe que era espetacular.

        Mark soltou um assobio de espanto quando a corretora o convidou a entrar. Olhou, deslumbrado, para os tetos altos e as janelas francesas. Os jardins eram 
de uma beleza indescritvel. Tinha a sensao de estar num velho palacete francs. O mobilirio tambm era de um grande requinte. A cozinha era um pouco antiquada, 
mas isso no lhe fazia diferena, e, como a corretora referiu, era muito acolhedora. Ficou maravilhado com a grandiosidade da sute. No gostava muito do cetim azul, 
apesar de dar um certo toque de classe ao aposento. Mant-lo-ia durante um ano, enquanto pensava no que fazer da sua vida. Seria a melhor soluo. O espao exterior 
era seguro para os seus filhos. Ainda pensara em mudar-se para Nova Iorque, para estar perto deles, mas no queria invadir o espao de Janet e tinha muitos clientes 
em Los Angeles que contavam com ele. A nica coisa que Mark no queria fazer era tomar uma deciso precipitada. Para que isso no acontecesse, precisava de um lar. 
Esta casa poderia ser esse lar, apesar de no ser sua. E seria muito menos deprimente do que viver num hotel, a ouvir as pessoas a puxar carrinhos e a bater com 
as portas.

        -  uma casa esplndida! - exclamou, esboando um sorriso. Nunca lhe passara pela cabea que houvesse pessoas vivendo assim. Tivera uma casa confortvel 
e bem decorada, mas a ala de hspedes parecia um cenrio de cinema. Seria divertido viver ali. E achava que os filhos adorariam a propriedade, especialmente os campos 
de tnis e a piscina. Obrigado por me trazer aqui, Abe. - E sorriu, com ar agradecido, para Abe.

        - Pensei nisso ontem  noite, e achei que valia a pena vir ver a casa. No pode viver eternamente num hotel.

Mark dera toda a moblia a Janet, por isso, o fato de a casa j estar mobiliada era menos uma dor de cabea.

        - Quanto  o aluguel? - indagou

        - Dez mil dlares por ms - respondeu a corretora, sem pestanejar. - Mas no h outra casa como esta. Algumas pessoas pagariam dez vezes mais para ficarem 
com ela. Hoje de manh, fechei negcio com um senhor muito simptico que vai ficar com a casa do caseiro.

        A srio? - Abe parecia satisfeito com a notcia. -
Algum que conheamos? - Estava habituado s celebridades e estrelas de cinema que eram seus clientes e amigos de Coop.

        - No, no creio.  assistente social - respondeu a corretora. Abe ficou espantado.

        - E tem dinheiro para pagar o valor estipulado? - Como contabilista de Coop, tinha todo o interesse em fazer este tipo de perguntas.

        - Parece que sim. O director do Bank of America diz que  um dos seus clientes mais slidos. Enviou-me um fax a confirmar esse fato, dez minutos depois de 
ter falado comigo, e o inquilino passou um cheque para pagar o primeiro e o ltimo ms de renda e o seguro. Hoje  noite, vou entregar-lhe o contrato de arrendamento. 
Vive em Venice Beach.

        - Interessante - comentou Abe, e centrou, de novo, a ateno em Mark, que estava a inspecionar os armrios. Havia armrios de sobra. Gostou, em especial, 
dos dois quartos para os filhos, decorados com muito bom gosto.

        Enquanto perambulava pela casa, Mark matutava no valor do aluguel, mas tinha plena conscincia de que podia pag-la. S no sabia se queria despender tanto 
dinheiro. Se fechasse negcio, seria a primeira extravagncia de toda a sua vida, e talvez j fosse tempo de cometer uma ousadia. Janet ousara sair porta fora, para 
os braos de outro homem, enquanto ele se limitaria a arrendar um apartamento caro durante um ano. Talvez voltasse a dormir bem. Poderia dar umas braadas na piscina 
quando regressasse do trabalho, ou jogar tnis, se arranjasse parceiro. No se imaginava a convidar Cooper Winslow para jogar consigo.

        - Ele costuma andar por a? - perguntou  corretora.

        - Como viaja muito, quer inquilinos, para haver sempre algum na propriedade  alm dos criados.

Abe percebeu, de imediato, que aquela justificao fora encomendada por Liz, sempre to diplomtica e defensora da reputao de Cooper. Tambm no quis contar  
corretora que, dentro de duas semanas, deixaria de haver criados na casa.

        - Faz sentido - aprovou Mark, fazendo um gesto de concordncia com a cabea. -  uma segurana para ele.

Mas tambm sabia o que Abe lhe contara, em jeito de confidncia, acerca da situao financeira de Cooper. Partilhavam um sem-nmero de informaes daquele gnero 
sobre os seus clientes.

        -  casado, Mister Friedman? - Queria certificar-se de que Mark no tinha dez filhos, mas era muito pouco provvel. E o fato de ter sido o prprio contabilista 
de Cooper a traz-lo significava que no havia necessidade de um desgastante processo de recolha de informaes pessoais, o que tornava as coisas muito mais fceis 
para todos os envolvidos.

        - Eu... hum... no... vou-me divorciar. - Quase estremeceu ao articular as palavras.

        - Os seus filhos vivem consigo?

        - No, vivem em Nova Iorque. - Cortava-lhe o corao dizer aquilo. - Irei v-los o maior nmero de vezes possvel. S podem vir at c nas frias. E sabe 
como so os filhos, gostam de estar perto dos amigos. J me contento se aqui vierem uma vez por ano - acrescentou, com tristeza.

A corretora ficou mais aliviada. Era um candidato perfeito: um homem sozinho, com filhos que nem sequer moravam na mesma cidade e que raramente viriam visit-lo. 
No se podia pedir melhor. E, obviamente, era endinheirado, j que fora Abe a traz-lo. Enquanto voltavam para a sala de estar, Mark anunciou:

        - Fico com ela!

        Abe ficou perplexo. Mark exibia um largo sorriso, e a corretora, um ar de incontida satisfao. Conseguira arrendar a casa e a ala de hspedes logo nos dois 
primeiros dias em que os imveis haviam sido colocados no mercado, e a bom preo. Achava que dez mil dlares por cada um era um valor justo; alm disso, Liz dissera 
que Coop ficaria satisfeito se conseguisse arrend-las por esse preo. Mark parecia estar em xtase. De repente, sentiu um desejo incontrolvel de sair do hotel 
e mudar-se quanto antes para ali. A corretora informou-o de que poderia ocupar a casa dentro de poucos dias, logo que o processo de referncias bancrias estivesse 
completo. Depois, era s receber as chaves.

        - Acho que me vou mudar j este fim-de-semana anunciou Mark, radiante, enquanto apertava a mo da corretora, selando o acordo, e agradecia a Abe por o ter 
trazido a ver a casa.

        - Foi muito mais fcil e mais produtivo do que eu esperava. E mais rpido. - Abe sorriu, radiante. Sempre julgara que Mark demoraria uma eternidade a decidir-se.

        - , provavelmente, a maior loucura que alguma vez cometi. Mas talvez precise de ser um pouco louco de vez em quando. - Era sempre srio, responsvel e contido 
em tudo o que fazia. Talvez tivesse sido por isso que perdera Janet para outro homem, muito mais divertido do que ele. - Obrigado, Abe. Adoro a casa, e acho que 
os meus filhos tambm a vo adorar.

        - Vai-lhe fazer bem durante uns tempos - afirmou Abe, compassivo.

Nessa noite, Mark telefonou a Jessica e a Jason, e disse-lhes que acabara de arrendar a ala de hspedes de Cooper.

        - Quem  ele? - indagou Jason.

        - Acho que  um velho actor de cinema do tempo em que o pap era pequeno - explicou Jessica.

        -  mais ou menos isso - retorquiu Mark, satisfeito. Mas o mais importante  que a casa  soberba, e temos a nossa prpria ala, numa propriedade lindssima, 
com campo de tnis e piscina. Acho que vai ser divertido quando vocs os dois me vierem visitar. - Estavam os trs ao telefone ao mesmo tempo.

        - Tenho saudades da nossa antiga casa - disse Jason, algo nostlgico.

        - Detesto a escola - intrometeu-se Jessica. - As raparigas e os rapazes so uma cambada de estpidos.

        - D tempo ao tempo - retorquiu Mark, com diplomacia. No fora dele a idia de acabar com o casamento, ou de levar os filhos para Nova Iorque. Mas no queria 
tecer nenhuma crtica  ex-mulher. Seria melhor para as crianas. Leva algum tempo, a adaptao a uma nova escola. E vou v-los muito em breve. - Em Fevereiro, ia 
passar um fim-de-semana com eles em Nova Iorque. J haviam feito as reservas em Saint Bart's, para a interrupo letiva de Maro. Alm disso, estava pensando em 
alugar um pequeno barco para as frias nas Carabas. Tentou mudar de conversa. - Como est a mam?

        - Est boa, s que sai muito - queixou-se Jason, sem fazer qualquer referncia ao novo namorado da me.

Mark tinha quase a certeza de que ela ainda no os apresentara. Devia estar  espera que as coisas assentassem. Ainda s se haviam passado trs semanas, quase quatro. 
No era muito tempo, embora, a si, lhe parecesse uma eternidade.

        - Porque no podemos ficar com a antiga casa? - indagou Jessica, pesarosa.

        Quando Mark lhes respondeu que j a vendera, desataram os dois a chorar. Era mais uma conversa que acabava com uma nota de tristeza. Haviam tido muitas assim. 
E Jessica parecia querer sempre culp-lo de tudo. Ainda no se apercebera de que fora a me que quisera o divrcio. Mark no queria acusar Janet de nada. S estava 
 espera que ela assumisse as suas responsabilidades, mas, at ao momento, ainda no o fizera. Janet apenas lhes dissera que ela e o pai no se davam bem, o que 
era mentira. As coisas haviam corrido bem at Adam aparecer. Mark tinha curiosidade em saber como iria ela explicar aos filhos o papel daquele homem na sua vida. 
Se calhar, apresent-lo-ia como algum que acabara de conhecer. Provavelmente, s ao fim de alguns anos eles se aperceberiam do que realmente acontecera. Entretanto, 
continuariam a responsabiliz-lo pelo divrcio. O seu maior receio era que os filhos gostassem tanto de Adam como a me, acabando por esquec-lo. Encontrava-se a 
cerca de cinco mil quilmetros de distncia, em Los Angeles, e no os via com a freqncia desejada. Mal conseguia esperar pela hora de voltar a v-los em Saint 
Bart's, nas frias. Escolhera esse local por achar que seria divertido para os trs.

        Prometeu telefonar-lhes no dia seguinte, como era costume. Nessa noite, informou o hotel de que se mudaria no fim-de-semana. Estava ansioso por se instalar 
na nova casa. Adorava-a. Era a primeira coisa agradvel que lhe acontecia desde que Janet lhe dera a terrvel notcia de que ia para Nova Iorque. Estivera como que 
em estado de choque nas ltimas cinco semanas. Nessa noite, saiu e foi comer um hambrguer, antes de ir para a cama. Pela primeira vez em semanas, estava realmente 
com fome.

        Na sexta-feira  noite, meteu as suas roupas em duas malas e, no sbado de manh, partiu para a propriedade. Tinha o cdigo do porto e abriu-o. Quando entrou 
na ala de hspedes, esta encontrava-se imaculadamente limpa. Fora tudo aspirado, e os mveis reluziam. No se via uma nica ndoa na cozinha e na cama haviam posto 
lenis lavados. Por momentos, teve a sensao de que regressava a casa.

        Depois de desfazer as malas, deu uma volta pelos terrenos ajardinados em redor da casa. Estavam tratados com desvelo. Foi s compras e fez o almoo. Depois, 
deitou-se junto  piscina, a apanhar sol. Nessa tarde, quando telefonou aos filhos, encontrava-se muito bem-disposto. Em Nova Iorque, chegava ao fim mais um dia 
de neve. As crianas pareciam aborrecidas, fartas de estarem fechadas em casa. Jessica ia sair com amigos nessa noite, mas Jason no tinha nada que fazer. Sentia 
saudades do pai, da casa, dos amigos e da escola. Aparentemente, no havia nada de que gostasse em Nova Iorque.

        - Agenta mais um pouco. Vou v-los dentro de duas semanas. Havemos de arranjar alguma coisa para fazer. J jogaste futebol esta semana?

        - Nunca podemos jogar por causa da neve. -Jason detestava Nova Iorque. Era um garoto da Califrnia, fora l que vivera desde os trs anos. Nem sequer se 
lembrava de ter morado em Nova Yorque. A nica coisa que queria era voltar para a Califrnia, pois s a se sentia em casa.

        Conversaram durante mais algum tempo. Finalmente, Mark desligou e foi verificar o lugar das coisas na cozinha.  noite, ps um vdeo, e achou graa no fato 
de Cooper Winslow ter uma apario fugaz no filme. Era um homem bem apessoado, e Mark perguntou-se quando, e se algum dia, se encontrariam. Nessa tarde, ao chegar 
a casa, vira um homem atrs dele, num Rolls Royce conversvel, com uma garota bonita sentada a seu lado. Cooper devia ter uma vida muito mais interessante do que 
a sua. Depois de dezesseis anos de felicidade conjugal, nem sequer imaginava como seria recomear a namorar, e nem sentia qualquer vontade. Tinha o esprito ocupado 
com demasiadas recordaes e desgostos, e s conseguia pensar nos filhos. De momento, na sua vida, no havia espao para uma mulher. Espao, talvez, mas corao, 
no. Deu graas a Deus por, nessa noite, ter dormido como uma criana, e por ter acordado feliz na manh seguinte, depois de sonhar que os filhos viviam consigo. 
Isso sim, seria uma vida perfeita. Mas s estaria com eles dentro de duas semanas. A nica coisa a fazer era esperar.

        Foi arranjar o pequeno-almoo, e ficou espantado ao descobrir que o fogo no funcionava. Pensou em telefonar  corretora, mas no chegou a faz-lo. Contentou-se 
com suco de laranja e torradas. Quase nunca cozinhava, exceto quando estava com os filhos.

        Entretanto, na parte principal da casa, Cooper fazia descobertas semelhantes. A cozinheira fora-se embora no incio da semana, depois de arranjar outro emprego. 
Livermore j partira. As duas criadas de quarto haviam ido passar o fim-de-semana fora e partiriam na semana seguinte. Paloma no vinha trabalhar aos fins-de-semana. 
Pamela  que estava fazendo o pequeno-almoo. Dizia-se uma excelente cozinheira, mas os ovos mexidos ressequidos e o bacon queimado que serviu, num prato,para  Cooper 
no comprovavam esses dotes.

        - s uma garota inteligente - elogiou Coop, enquanto olhava, com ar preocupado, para os ovos. - Presumo que no encontraste os tabuleiros.

        - Que tabuleiros, querido? - perguntou, com sotaque do Oklahoma.

        Estava orgulhosa de si prpria, e esquecera-se igualmente dos guardanapos e dos talheres de prata. Voltou  cozinha para busc-los, enquanto Cooper tocou 
com a ponta do dedo nos ovos. Estavam ressequidos e frios. Pamela distrara-se  conversando ao telefone com uma amiga. Cozinhar nunca fora o seu forte, mas sim o 
que fazia na cama. O nico problema era no saber falar. Extremamente limitada, no era, no entanto, a sua conversa que fascinava Coop. Gostava da sua companhia. 
Havia nas jovens algo que o revigorava. E ele atraa-as por vrios motivos: a idade, a afabilidade, a jovialidade, a vasta cultura e a sofisticao; alm disso, 
levava-as s compras quase todos os dias. Pamela nunca se divertira tanto na vida como com Coop. Pouco lhe importava a sua idade. Tinha um novo guarda-roupa, e, 
na semana anterior, ele oferecera-lhe um par de brincos de diamantes e um bracelete, tambm de diamantes. No havia dvidas. O velho ator sabia como viver a vida.

        Coop atirou com os ovos para dentro d sanitrio quando Pamela foi  cozinha arranjar-lhe um copo de suco de laranja. A jovem sentiu uma ponta de orgulho 
ao ver que ele comera tudo. Mal ela acabou de comer os ovos, Coop puxou-a para a cama, onde passaram a tarde. Nessa noite, levou-a a jantar no L Dome. Pamela tambm 
gostava de ir ao Spago. Sentia um arrepio de emoo ao ver toda a gente a olhar para si, curiosa por saber quem era a acompanhante de Coop. Os homens olhavam-no 
com inveja, enquanto as mulheres os fitavam com ar de espanto.

        Nessa noite, depois de jantar, Coop foi lev-la ao apartamento onde ela vivia. Passara um fim-de-semana divertido na sua companhia, mas tinha uma semana 
muito ocupada  frente. Ia gravar um anncio de um carro, que lhe iria proporcionar uma boa quantia. Alm disso, era a ltima semana de trabalho de Liz.

        Nessa noite, quando se meteu na cama, sozinho, Coop sentia-se feliz. Pamela era muito divertida, mas, afinal de contas, no passava de uma criana, coisa 
que ele j no era. Precisava de um sono reparador. Deitou-se s dez horas e dormiu que nem uma pedra at  manh seguinte, altura em que Paloma afastou as cortinas 
e levantou as persianas. Acordou sobressaltado e sentou-se na cama, de olhos pregados nela.

        - Por que raio ests fazendo isso? - No conseguia imaginar o que estava ela fazendo no quarto, e ficou aliviado por reparar que vestira um pijama de seda 
na noite anterior. Caso contrrio, ela poderia t-lo encontrado esparramado, todo nu, em cima da cama. - O que ests fazendo aqui?

        A criada trazia uma bata branca, culos de sol de aros brilhantes e sapatos vermelhos de salto alto. Parecia uma cartomante cigana vestida de enfermeira. 
Cooper no ficou nada satisfeito.

        - Miss Liz disse para acord-lo s oito horas - respondeu Paloma, lanando-lhe um olhar fulminante. Nutria uma forte antipatia por ele, e demonstrava-o. 
Cooper tambm no morria de amores por ela.

        - No podias ter batido  porta? - resmungou, deixando-se cair para trs, de olhos fechados. Ela acordara-o de um sono profundo.

        - Eu bato. Senhor no responde. Por isso, entro. Agora, acorda. Miss Liz diz que senhor tem de ir para trabalho.

        - Muito obrigado - disse Coop, em tom formal, os olhos ainda fechados. - Importas-te de me fazer o pequeno-almoo? - No havia mais ningum a quem pudesse 
formular aquele pedido. - Gosto ovos mexidos e torradas. Suco de laranja. Caf simples. Obrigado.

        Quando abandonou o quarto, Paloma ia resmungando algo para os seus botes. Coop estava ciente de que a aliana entre os dois seria dolorosa. Por que diabo 
tivera de ser ela a escolhida? Porque no haviam escolhido outra? Ah, claro, queixou-se para consigo... tinha um salrio baixo. Porm, vinte minutos depois, quando 
saiu da ducha e encontrou os ovos num tabuleiro em cima da cama, teve de admitir que estavam excelentes. Melhores que os de Pamela. Apesar de Paloma ter feito huevos 
rancheros, em vez de ovos mexidos. Teve vontade de a repreender por no ter cozinhado aquilo que lhe pedira, mas no o fez. Os ovos estavam timos, e devorou tudo 
num instante.

        Meia hora depois, Cooper saa, impecavelmente vestido, de blazer, calas cinzentas e camisa azul, gravata azul-escura Hermes, e cabelos imaculadamente penteados, 
como sempre. Ao entrar para o velho Rolls Royce, era a imagem da elegncia e da sofisticao. E arrancou. Mark, que ia para o escritrio, seguiu-o. No imaginava 
onde Cooper iria quela hora.

        Liz cruzou-se com os dois e acenou a Cooper. Ainda no acreditava que aquela era a sua ltima semana         no        Chal.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
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CAPTULO 6

        Os ltimos dias de Liz ao servio de Coop foram um misto de tristeza e felicidade. O velho ator nunca havia sido to doce, nem to generoso com ela. Ofereceu-lhe 
um anel de diamantes que, segundo disse, fora da me - uma daquelas histrias a que Liz no dava grande crdito. Mas, tivesse ou no sido da me de Coop, o anel 
era lindo e ficava muito bem na mo de Liz, que prometeu andar sempre com ele.

        Na sexta-feira  noite, a convite de Coop, foi ao Spago, onde bebeu demais. Quando ele a levou a casa, estava lavada em lgrimas, e no parava de dizer que 
ia ser uma infeliz. Mas Coop j se resignara com a sua partida e asseverou-lhe que ela estava fazendo  o que devia. Depois de se despedir, regressou a casa, onde 
tinha uma nova brasa  sua espera. Pamela estava em Milo, a rodar exteriores para uma revista. Na ocasio da gravao do anncio para um carro, Coop conhecera Charlene, 
uma mulher estonteante, com vinte e nove anos, e o corpo mais extraordinrio que alguma vez vira. E j vira muitos. O dela merecia figurar no Palcio da Fama de 
Cooper Winslow: enormes seios, que Charlene dizia no terem silicone, e uma cintura que duas mos conseguiam enlaar; longos cabelos negros, e enormes olhos verdes 
amendoados (tinha uma av japonesa). Dotada de extraordinria beleza, estava completamente rendida ao charme de Coop e era mais inteligente do que Pamela, o que 
constitua um grande alvio. Charlene vivera dois anos em Paris, aliando a profisso de modelo  atividade de estudante na Sorbonne, e crescera no Brasil. Fora para 
a cama com Coop logo no segundo dia de filmagens. O velho ator tivera uma semana bem cheia.

        Convidara-a para passar o fim-de-semana consigo, e ela aceitara com um gritinho de alegria. J estava pensando em lev-la ao Hotel du Cap. Ficaria um espetculo 
de biquni na piscina. Quando chegou em casa, depois do jantar com Liz, ela j o esperava na cama e Coop deitou-se a seu lado. Passaram uma noite muito interessante, 
algo acrobtica, e, no sbado,foram almoar em Santa Brbara e regressaram ainda a tempo de irem jantar no L'Orangerie. Estava adorando a companhia da jovem e pensando 
em dar um pontap em  Pamela. Charlene tinha muito mais para oferecer e uma idade que se coadunava mais com a sua.

        Na segunda-feira de manh, quando Paloma regressou ao trabalho, Charlene ainda estava com ele. Cooper pediu-lhe para trazer duas bandejas, o que ela fez 
com uma expresso de desagrado estampada no rosto. Lanou um olhar furioso ao patro, pousou abruptamente as bandejas em cima da cama e saiu do quarto, com ar empertigado. 
Trazia sapatos de salto alto cor-de-rosa. Os acessrios que costumava usar com a bata sempre haviam fascinado Coop.

        - Ela no gosta de mim - queixou-se Charlene, desanimada. - Acho que desaprova o nosso relacionamento.

        - No te preocupes. Est loucamente apaixonada por mim. No tenhas medo se ela fizer uma cena de cimes retorquiu Coop, sarcstico, enquanto comia algo parecido 
com ovos de borracha, cobertos de uma grossa camada de pimenta, o que fez com que Coop quase sufocasse e Charlene no parasse de espirrar. Era uma verso mais forte 
dos huevos rancheros que comera na semana anterior. Paloma ganhara este round, mas Cooper estava determinado a dar-lhe uma palavrinha depois de Charlene  ir embora, 
o que aconteceu ao princpio da tarde.

        - Serviste um pequeno-almoo interessante esta manh, Paloma. - Cooper fitava-a com ar glido. - A pimenta d um agradvel toque agressivo, mas desnecessrio. 
Quase precisei de uma serra para cortar os ovos. Com que  que os fizeste? Com cola de borracha, ou com vulgar cola de papel?

        - No sei do que fala - respondeu a criada, com ar de mistrio, enquanto areava uma pea de prata que Livermore lhe dissera para limpar todas as semanas. 
Usava novamente os culos de aros brilhantes. Eram, obviamente, os seus culos favoritos, e estavam tambm a tornar-se os favoritos de Cooper. Interrogou-se se haveria 
a mais remota possibilidade de a fazer cumprir as suas ordens. Caso contrrio, teria de substitu-la, dissesse Abe o que dissesse. - No gosta dos meus ovos? - perguntou, 
com ar angelical, enquanto Cooper a olhava de sobrolho franzido.

        - Sabes muito bem do que estou falando.

        - Miss Pamela telefonou de Itlia, hoje de manh, s oito horas - anunciou Paloma, com ar de indiferena, perante o olhar estupefato de Cooper. De sbito, 
o sotaque desaparecera.

        - O que  que disseste?

        - Eu disse... - Olhou-o com um sorriso inocente nos lbios. - Miss Pamela telefonou s oitos horas. - O sotaque reaparecera. Devia estar a brincar com ele.

        - H um minuto atrs no falaste dessa maneira, pois no, Paloma? Onde  que queres chegar? - Coop estava visivelmente chateado. Ela olhou-o com indiferena, 
depois, encolheu os ombros.

        - No era do que estava merecendo? Andou dois meses a chamar-me Maria. - Ainda se percebia um sotaque salvadorenho nas suas palavras, mas muito leve. O seu 
ingls era quase to bom como o de Cooper.

        - No fomos devidamente apresentados - desculpou-se Coop. E, embora o no admitisse, estava ligeiramente divertido: Paloma escondera-se dele fingindo que 
mal sabia falar ingls. Devia ser esperta e, provavelmente, tambm, boa cozinheira. - O que  que fazias no teu pas, Paloma? - indagou, intrigado.

        - Era enfermeira - respondeu, continuando a arear a pea de prata. Aquela tarefa repugnava-a. Sentia quase tantas saudades de Livermore como Coop.

        - Que pena - retorquiu Cooper, esboando um sorriso. - Pensei que me ias dizer que eras costureira. Pelo menos, poderias cuidar das minhas roupas. Felizmente, 
no estou necessitado dos teus prstimos como enfermeira.

        - Ganho mais, aqui. E o senhor tem muita roupa - respondeu Paloma, acentuando novamente o sotaque, como se este fosse uma pea de vesturio que punha e tirava 
quando muito bem lhe apetecia. Era como se andasse a brincar s escondidas com ele.

        - Tambm tens uns acessrios interessantes - acrescentou Coop, olhando para os sapatos cor-de-rosa da criada. A propsito, por que razo no me avisaste 
que Pamela telefonou?

        J tomara a deciso de acabar com ela. Mas ficara sempre amigo de todas as mulheres com quem tinha andado. A sua generosidade era tal que elas lhe perdoavam 
todos os caprichos e pecados. E estava certo de que o mesmo aconteceria com Pamela.

        - O senhor estava ocupado com a outra quando ela telefonou. No sei o nome dela. - O sotaque desaparecera de novo.

        - Charlene. - Paloma pareceu no ligar grande importncia  informao. - Obrigado, Paloma.

        Coop preferiu dar por finda a conversa enquanto estava em vantagem, e saiu. Ela nunca escrevera um nico recado, e s os dava quando se lembrava, fato que 
o deixava deveras preocupado. Mas parecia conhecer as regras do jogo. Pelo menos, at agora. E, pouco a pouco, estava a tornando-se uma personagem interessante.

        Paloma conhecera Mark na semana anterior, e oferecera-se para lhe tratar da roupa quando ele lhe contou que a mquina de lavar estava avariada. Assim como 
o fogo. Disse-lhe ainda que poderia utilizar a cozinha do edifcio central, se precisasse, e que Coop nunca vinha  cozinha durante a manh. Deu-lhe, ento, uma 
chave da porta que ligava a ala de hspedes ao edifcio central. A mquina de caf tambm no funcionava. Mark fizera uma lista de todas as coisas avariadas, e a 
corretora prometera que tudo seria reparado, mas, com a partida de Liz, no havia ningum que tomasse conta deste tipo de ocorrncias,  exceo de Coop, e era muito 
pouco provvel que ele o fizesse. Mark passou a levar a sua roupa  lavanderia, enquanto Paloma tratava dos lenis e das toalhas. Aos fins-de-semana, usava a mquina 
de caf de Coop. Em vez do fogo, utilizava o microondas. S precisaria do fogo quando os filhos viessem visit-lo. E nessa altura j estaria arranjado. A corretora 
prometeu ver o que poderia fazer. Mas Coop nunca respondeu aos seus telefonemas, nem aos dela, nem aos de Mark. Entretanto, Coop ia fazer outro anncio nessa semana, 
para uma marca de pastilhas elsticas. Era um anncio ridculo, mas bem pago, o seu agente convencera-o a aceitar. Ultimamente, andava a trabalhar mais do que era 
hbito, embora ainda no tivesse surgido qualquer convite para um filme. O agente fora a vrias produtoras, mas em vo. Coop ainda gozava de boa reputao em Hollywood, 
mas j era velho para o papel de gal. Ainda no se sentia preparado para desempenhar papis de pai ou de av. E h vrios anos que no aparecia qualquer convite 
para o papel de velho playboy.

        Nessa semana, Charlene passou quase todas as noites com Coop. Andava tentando arranjar emprego como atriz, mas ainda tinha menos trabalho do que ele. Desde 
que chegara a Hollywood, apenas participara em dois vdeos erticos, um dos quais havia sido exibido na televiso s quatro da manh. Percebeu que nenhum desses 
filmes ficaria bem no seu currculo. Charlene j perguntara a Coop se no podia interceder a seu favor, e ele prometera ver o que poderia fazer. Comeara como modelo 
de lingerie na Stima Avenida, depois de trabalho no mesmo ramo em Paris. Possua um corpo escultural, mas Coop tinha srias dvidas de que tivesse queda para a 
representao. As suas verdadeiras aptides encontravam-se numa rea muito mais apelativa para Coop, mas que nada tinha a ver com representao, trabalho de modelo 
ou televiso.

        Coop adorava a sua companhia. E ficou aliviado quando ao regressar de Milo Pamela lhe contou que se envolvera com o fotgrafo. Essas coisas, especialmente 
no mundo de Coop, aconteciam com naturalidade. Tudo girava em torno de corpos, alianas temporrias e aventuras amorosas fugazes. Quando saa com atrizes famosas, 
logo surgiam rumores de namoro e casamento. Mas no queria nada disso com Charlene. Andava radiante de felicidade na sua companhia e j fora, por duas vezes, s 
compras com ela, o que fizera desaparecer num pice o dinheiro dos dois cheques que os seus inquilinos lhe haviam passado. Mas achava que a moa merecia, como explicou 
a Abe, quando este lhe telefonou a avisar que teria de vender a casa se no se portasse bem.

        - Tem de deixar de andar com modelos e atrizes, Coop. Precisa de arranjar uma mulher rica.

        Coop soltou uma gargalhada e respondeu que ia pensar no assunto, mas o casamento nunca o atrara. A nica coisa que queria era gozar a vida, e era isso mesmo 
que faria at morrer.

        Na semana seguinte, Mark foi a Nova Yorque visitar os filhos. J falara deles a Paloma. Esta j dera uma pequena limpeza aos seus aposentos, pela qual recebera 
uma boa remunerao. Mas t-lo-ia feito de graa. Quando Mark lhe contou que a esposa o trocara por outro homem, sentiu pena dele, e comeou a deixar-lhe frutas 
numa taa em cima da mesa da cozinha, alm de tortilhas que ela prpria confeccionava. Gostava de o ouvir falar dos filhos. Via-se que os adorava. Havia fotografias 
deles por todo o lado, e outras de Mark com a ex-mulher.

        Esse fim-de-semana era um desafio para Mark: ia encontrar-se com os filhos pela primeira vez desde que haviam deixado Los Angeles, h mais de um ms. Janet 
declarou que ele devia ter esperado mais algum tempo antes de  visita-los e mostrava algum nervosismo e hostilidade. Levava uma vida dupla, fingindo-se uma pessoa 
livre quando estava com os filhos e prosseguindo clandestinamente o seu romance, apesar de Adam j lhe ter perguntado quando iria conhecer seus filhos. Ela prometera-lhe 
que em breve, mas no queria que eles suspeitassem de que fora esse o motivo por que haviam sido obrigados a mudar-se para Nova Yorque. Aterrorizava-a pensar que 
os filhos no simpatizassem com Adam e entrassem em guerra com ele, quanto mais no fosse por uma questo de lealdade para com o pai. Quando Mark a viu, achou-a 
extremamente nervosa, e pareceu-lhe que alguma coisa estava a correndo mal. Os filhos tambm se mostravam tristes, apesar da excitao de reencontrarem o pai.

        Ficaram alojados no Plaza com Mark e passaram o tempo todo a telefonar para o servio de quarto. Mark levou-os ao teatro e ao cinema. Foi s compras com 
Jessica e deu um longo passeio na chuva com Jason. No domingo  tarde, custou-lhe muito deix-los, partindo com a sensao de que a visita foi muito curta. Durante 
toda a viagem de regresso, sentiu-se deprimido. Comeava a perguntar a si mesmo se no seria melhor mudar-se para Nova Yorque. No sbado seguinte, enquanto apanhava 
sol  beira da piscina, ainda pensando no assunto, reparou que algum estava se mudando, finalmente, para a casa do caseiro. Encaminhou-se para l e viu Jimmy tirando 
uma srie de caixas de dentro de um carrinho de carga. Ofereceu-se para  ajudar.

        Jimmy hesitou mas acabou por aceitar a ajuda de bom grado. Ele prprio estava espantado com a quantidade de coisas que tinha. Desfizera-se de muitas delas, 
mas ficara com um bom nmero de fotografias emolduradas, alguns trofus, o equipamento desportivo e a roupa. Trouxera tambm a aparelhagem. Eram tantas coisas que, 
mesmo com a ajuda de Mark, demoraram duas horas a despejar o carrinho. Quando, finalmente, se sentaram, Jimmy ofereceu-lhe uma cerveja.

        - Voc tem aqui um arsenal de coisas! - exclamou Mark, sorrindo enquanto bebericava a cerveja. - E de um peso! Trouxe a coleo de bolas de boliche ou qu?

Jimmy sorriu e encolheu os ombros.

        - Diabos me carreguem se sei! E no trouxe as coisas todas.

Tinha uma quantidade enorme de livros, papis e CDs que parecia no ter fim, mas desapareceu tudo com a maior das facilidades, nas gavetas, armrios, estantes e 
roupeiros da casa.Quando abriu a primeira caixa, Jimmy pegou numa fotografia da falecida esposa, colocou-a em cima da lareira e ficou parado olhando para ela. Era 
uma das suas favoritas. Maggie acabara de apanhar um peixe num lago, numa das viagens  Irlanda, e exibia um ar vitorioso e satisfeito, os cabelos ruivos apanhados 
no alto da cabea, os olhos semicerrados por causa do sol. Parecia uma garota de catorze anos. Fora tirada no vero anterior, antes de Maggie adoecer, h apenas 
cerca de sete meses. Parecia ter sido h uma eternidade. Quando se virou, Mark olhava-o fixamente. Jimmy desviou o olhar, sem articular qualquer palavra.

        -  bonita. Namorada?

Jimmy abanou a cabea e demorou bastante tempo a responder. Quando o fez, sentiu um n na garganta. J estava habituado. s vezes, num pice, o n transformava-se 
numa crise de choro.

        -  a minha mulher - respondeu num tom triste.

        - Lamento - retorquiu Mark, presumindo que tambm estivesse divorciado. - H quanto tempo?

        - Faz amanh  noite sete semanas.

Jimmy respirou fundo. Nunca falava do assunto, mas sabia que tinha de aprender a lidar com ele, e talvez esta fosse uma boa altura para comear. Mark parecia ser 
boa pessoa e, vivendo na mesma propriedade, talvez ainda se tornassem amigos. Fez um esforo para evitar que a voz se lhe embargasse e baixou os olhos.

        - No meu caso, seis. No fim-de-semana passado, fui a Nova Iorque visitar os meus filhos. Sinto tantas saudades deles... A minha mulher deixou-me por causa 
de outro tipo explicou Mark, em tom amargurado.

        - Sinto muito. - Jimmy conseguia ver a dor estampada no olhar de Mark. -  duro. Que idade tm os seus filhos?

        - Quinze e treze, uma garota e um rapaz. O Jason e a Jessica. So filhos maravilhosos e, at agora, esto detestando Nova Iorque. E ainda bem que o tipo 
no  daqui. As crianas ainda no o conhecem. E voc? Tem filhos?

        - No. Chegamos a falar no assunto, mas nunca nos decidimos.

        Estava espantado com a quantidade de coisas que queria contar a Mark. Era como se existisse entre eles um estranho elo invisvel. O elo da amargura, do sentimento 
de perda, da tragdia inesperada. As desgraas que a vida nos traz quando menos esperamos.

        - Talvez seja mais fcil divorciarmo-nos quando no temos filhos - afirmou Mark, com um misto de compaixo e humildade. De repente, Jimmy percebeu o que 
ele queria dizer.

        - Mas eu no me estou me divorciando - balbuciou, com voz embargada.

        - Ento, pode ser que faam as pazes - vaticinou Mark, com alguma inveja, continuando a no perceber o que acontecera. S ento reparou no olhar amargurado 
de Jimmy.

        - A minha mulher morreu.

        - Oh, meu Deus... os meus sinceros psames... pensei que... Que aconteceu? Acidente?

Olhou de novo para a fotografia, subitamente horrorizado com o fato de a bonita mulher que exibia o peixe ter morrido. Era fcil perceber a dor de Jimmy.

        - Um tumor cerebral. Comeou a ter dores de cabea... enxaquecas... fez exames. Foi-se em dois meses. Num piscar de olhos. Evito falar no assunto. Ela teria 
adorado este lugar. A famlia era irlandesa, de County Cork. Era cem por cento irlandesa. Uma mulher extraordinria. Quem me dera valer s metade do que ela valia.

        Mark quase chorou ao ouvi-lo. As lgrimas cintilavam nos olhos de Jimmy. Mas Mark no podia fazer mais nada a no ser olh-lo, condodo. Depois, ajudou-o 
a transportar o resto das caixas e levou pelo menos meia dzia para o primeiro andar. Durante algum tempo, no trocaram qualquer palavra, mas Jimmy parecia j recomposto 
quando acabaram de levar as caixas para as salas respectivas e Mark o ajudava a abrir algumas delas.

        - Nem sei como agradecer-lhe. Acho que estou cometendo uma pequena loucura, ao mudar-me para c. Tnhamos um apartamento magnfico em Venice Beach. S que 
eu tinha de sair de l, depois aconteceu isto. Achei que, de momento, era a melhor coisa a fazer. - Precisava de um lugar para recuperar, sem ter que deparar com 
uma srie de coisas que lhe fizesse lembrar os momentos passados com Maggie.

        - Eu vivia num hotel, a dois quarteires do escritrio, e passava a noite a ouvir pessoas a tossir. Um colega meu, um contabilista que trabalha para Coop, 
disse-me que ele ia arrendar a casa do caseiro e a ala de hspedes. Fiquei apaixonado pela casa logo que a vi e acho que este espao circundante  timo para as 
crianas.  como viver num parque. Mudei-me h duas semanas, e isto  to sossegado... Durmo que nem um beb. Quer ver os meus aposentos? So muito diferentes destes. 
Voc fechou o negcio no dia em que eu vim ver a ala de hspedes. Mas acho que a minha casa  melhor para as crianas.

        No conseguia deixar de pensar neles, especialmente depois de t-los visto no fim-de-semana anterior e de se ter apercebido de que eram infelizes em Nova 
Iorque. Jessica passava a vida s turras com a me e Jason parecia desligado de tudo e de todos, isolando-se do que o rodeava. Nem eles, nem a me estavam bem. Nunca 
a vira to nervosa. Reduzira a vida de todos a farrapos, mas Mark ainda alimentava a esperana de que ela percebesse que a vida que escolhera no era to idlica 
como pensara. Optara por um caminho rduo e pedregoso, no s para eles, mas tambm para si prpria.

        - Vou tomar uma ducha - anunciou Jimmy, sorrindo.
        - J apareo l. No me demoro. Quer jogar uma partida de tnis logo mais  tarde? - No jogava desde que Maggie falecera.

        - Claro. No tenho tido ningum com quem jogar. Mas tenho ido at  piscina.  tima. Fica mesmo ao lado da casa.

        - Tem visto Coop? - indagou Jimmy, com um sorriso, dando a impresso de estar sentindo-se melhor.

        - Ainda no, quer dizer, j o vi mas no falei com ele. S ao longe, entrando e saindo. E anda  com umas brasas! Deve ter um bando de garotas novas.

        - Tem de fazer jus  reputao. Acho que  o que tem feito de melhor ao longo da vida. H anos que no o vejo num filme.

        - Deve andar em baixa de finanas, e foi por isso que nos arrendou as casas - explicou Mark, pragmtico.

        - Tambm acho. O caso da ala de hspedes  paradigmtico. Por que razo quereria ele arrendar parte da sua prpria casa se no precisasse de dinheiro? A 
manuteno desta propriedade deve custar-lhe uma fortuna.

        - O contabilista dele despediu a criadagem quase toda. Talvez ainda o vejamos, um destes dias, a tratar do jardim.

        Riram-se ambos da idia. Pouco depois, Mark voltou para casa, satisfeito por ter conhecido Jimmy. Estava impressionado com o trabalho que ele realizava com 
crianas, em Watts, e sentia imensa pena do que sucedera  esposa. Que pouca sorte! Era pior do que o que lhe acontecera. Pelo menos, ele ainda tinha os filhos e, 
embora Janet lhe houvesse destroado o corao e a vida, no morrera. Mark no conseguia imaginar nada pior do que o que acontecera ao seu novo amigo.

Jimmy apareceu meia hora depois, com ar fresco e limpo, e cabelo lavado. Vestia cales e T-shirt, e trazia uma raquete de tnis. Ficou deslumbrado quando viu a 
ala onde Mark vivia. Era, de fato, um espao completamente diferente do seu. Jimmy preferia a sua casa, mas achava que a ala seria
muito melhor para os filhos de Mark. Havia muito mais espao. E estariam mais prximos da piscina.

        - Coop no levantou objees ao fato de voc ter filhos? - perguntou Jimmy, enquanto se encaminhavam para o campo de tnis.

        - No. Porqu? - Mark parecia espantado. - Disse  corretora que eles viviam em Nova Yorque e, infelizmente, no vo passar aqui muito tempo, exceto nas 
frias.  mais fcil se eu for at l.

        - Fiquei com a impresso de que ele no gosta de crianas.  fcil perceber porqu. Tem coisas de muito valor em ambas as casas. Para mim, foi timo. Tinha 
pouca moblia, o apartamento era muito pequeno. No trouxe nada.  bom comear de novo. E voc?

        - Deixei a Janet levar tudo, exceto as minhas roupas. Pensei que seria melhor para as crianas terem com eles todas as coisas que lhes eram familiares. Este 
lugar foi uma ddiva dos cus. De outra forma, teria de comprar uma montanha de mveis. Acho que, se tivesse de fazer isso, teria preferido ficar no hotel. Pelo 
menos, por uns tempos. No estava com disposio para mobiliar um apartamento. Aqui, foi s chegar com as malas, desfaz-las e, como que por artes mgicas... zs!... 
estou em casa!

        - Foi o que aconteceu comigo.

Chegaram ao campo de tnis facilmente, mas ficaram desapontados ao descobrir que se encontrava em muito mau estado. Ainda tentaram jogar, mas o piso estava esburacado 
e irregular. Acabaram por se limitar a bater umas bolas de um lado para o outro. Depois, foram at  piscina. Mark deu umas braadas, enquanto Jimmy ficou a apanhar 
sol. Antes de regressar a casa, Jimmy convidou Mark para jantar nessa noite. Ia fazer churrasco de costela e, contra o que era seu hbito, comprara dois.

        - Aceito com todo o gosto. Eu levo o vinho - prontificou-se Mark.

        Apareceu uma hora depois, com uma garrafa de colheita muito razovel, e sentaram-se no terrao a falar da vida, de esportes, dos respectivos empregos, dos 
filhos de Mark, e dos filhos que Jimmy gostaria de ter tido e ainda poderia vir a ter, mas falaram o menos possvel das mulheres. A dor era ainda muito forte. Mark 
admitiu a sua relutncia em voltar a sair com uma mulher, enquanto Jimmy ps a hiptese de nunca mais o fazer. De momento, tinha srias dvidas de que isso acontecesse, 
porm, aos trinta e trs anos, era uma deciso difcil de tomar. Ambos achavam que iriam andar ao sabor da corrente por uns tempos. A conversa acabou por estender-se 
a Coop e ao tipo de vida que levava. Jimmy era do parecer que, quando uma pessoa vivia ao estilo de Hollywood durante tanto tempo como ele, acabava por ficar defasada 
da realidade. Parecia uma teoria plausvel, pelo que ambos haviam lido acerca de Coop.

        Nesse preciso momento, o velho ator encontrava-se em casa, na cama com Charlene. A jovem era um verdadeiro pitu sexual, e j haviam feito coisas que ele 
nunca pensara fazer na vida. O sexo rejuvenescia-o e era um desafio que colocava a si prprio. Charlene movimentava-se com ar felino, atirando-se a ele como uma 
leoa esfaimada e deixando-o louco de prazer. Manteve-o ocupado durante grande parte da noite. E na manh seguinte, esgueirou-se at  cozinha para lhe arranjar o 
pequeno-almoo. Ia surpreend-lo com uma revigorante refeio e, depois, voltariam a fazer amor. Estava na cozinha, apenas com umas minsculas calcinhas e uns sapatos 
altos vermelhos, quando ouviu a porta abrir-se. Virou-se e encarou com Mark, em cuecas e de cabelos desgrenhados. Parecia um garoto de dezoito anos, com ar ensonado 
e embasbacado a olhar para a jovem, que no fez qualquer tentativa para se cobrir, limitando-se a sorrir-lhe.

        - Ol, sou Charlene - apresentou-se, com a maior naturalidade, como se estivesse de roupo e chinelos.

Mark nem sequer lhe viu a cara, incapaz de desviar o olhar dos enormes seios, das minsculas calcinhas e das interminveis pernas. S ao fim de algum tempo se deteve 
no seu rosto.

        - Oh... meu Deus... desculpe... Paloma disse-me que Coop nunca usa a cozinha aos fins-de-semana... o meu fogo e a mquina de caf esto avariados... s 
vinha fazer um caf... ela deu-me a chave... - gaguejou Mark. Mas Charlene no parecia minimamente preocupada. Pelo contrrio, exibia um ar afvel e divertido.

        - Eu lhe fao o caf. Coop est dormindo.

Mark supunha que se tratasse de uma atriz ou de um modelo que Coop trouxera para casa, ou ento de uma das suas namoradas. H semanas, vira-o acompanhado de uma 
loura, mas no sabia se era ela. De qualquer forma, tratava-se de uma autntica brasa.

        - No... vou-me embora... peo imensa desculpa... Charlene mantinha-se impvida e sorridente, com os seios quase a tocarem no rosto de Mark.

        - No h nenhum problema. - No parecia minimamente incomodada com o fato de estar praticamente nua diante de Mark, que, se a cena no fosse to embaraosa, 
teria rebentado a rir. Continuou a olh-la, envergonhado, enquanto ela lhe preparava o caf. -  o novo inquilino? indagou, quando Mark, segurando a chcara fumegante, 
tentava sair da cozinha o mais rapidamente possvel.

        - Sou. - Que outra pessoa poderia ser? Um ladro? No voltarei a entrar aqui. Vou comprar uma mquina de caf. Talvez seja melhor no contar nada a Coop 
- pediu, nervoso. Charlene era uma mulher deslumbrante.

        - Est bem - retorquiu amavelmente, enquanto fazia suco de laranja para Cooper. - Quer suco de laranja? perguntou, antes de Mark sair da cozinha.

        - No, obrigado... Obrigado pelo caf - respondeu Mark, desaparecendo o mais depressa que pde.

        Fechou novamente a porta  chave e encaminhou-se para a sala de estar. Nem queria acreditar no que lhe acontecera. Parecia uma cena de um mau filme. Mas 
ela tinha l um corpo e uns cabelos negros!

        Mal se vestiu, no conseguiu resistir a ir contar a Jimmy o que se passara. Prometera a si prprio comprar uma mquina de caf nessa tarde.

        Jimmy estava sentado no ptio da casa, bebendo uma caneca de caf e lendo o jornal, quando levantou os olhos e viu Mark com um sorriso de orelha a orelha.

        - Nem imagina onde, nem com quem  que tomei caf esta manh.

        - No fao a menor idia, mas, pelo seu ar de felicidade, deve ter sido bom.

        Mark falou-lhe, ento, de Paloma e da chave, do fogo e da mquina de caf avariados, e de Charlene, praticamente nua, apenas com umas minsculas calcinhas 
e uns sapatos de saltos altos, enquanto lhe preparava o caf, sem se mostrar minimamente perturbada com a sua presena.

        - Foi uma cena digna de filme. Agora, imagine o que seria se ele aparecesse de repente. Se calhar, punha-me logo na rua.

        - Ou pior. - Jimmy tambm estava deleitado com a histria, imaginando o cmico da situao: Mark de cuecas, com uma mulher completamente nua a servir-lhe 
caf.

        - Tambm me ofereceu suco de laranja. Mas acho que estaria a abusar da sorte se l passasse mais um minuto que fosse.

        - Quer outro caf? Se bem que aqui o servio seja um pouco mais mundano.

        - Claro.

        Na vida destes dois homens havia afinidades suficientes para criar entre eles laos de amizade. E o fato de serem vizinhos dava-lhes uma paz de esprito 
incrvel. Ambos tinham os seus prprios amigos e as suas prprias vidas, mas, ultimamente, tentavam evitar esses crculos de amizade. As tragdias por que haviam 
passado tinham-nos afastado e feito sentir embaraados at com os amigos mais chegados. Haviam-se isolado e, agora, tinham encontrado um companheiro de infortnio. 
Era mais fcil do que estar com as pessoas que os haviam conhecido quando estavam casados. Era como comear do zero. Por vezes, tornava-se difcil suportar o ar 
de comiserao dos velhos amigos.

        Meia hora depois, Mark voltou para casa. Trouxera trabalho do escritrio. Mas tornaram a encontrar-se mais tarde, na piscina. Mark comprara uma nova mquina 
de caf, e Jimmy j acabara de desencaixotar as suas coisas. Colocara meia dzia de fotografias de Maggie em lugares estratgicos. Por estranho que pudesse parecer, 
olhar para o rosto dela fazia-o sentir-se menos s. s vezes, s tantas da noite, sentia um profundo terror de se esquecer das suas feies.

        -J acabou o trabalho? - perguntou Jimmy, sentado confortavelmente numa enorme poltrona..

        -J - respondeu Mark, de sorriso nos lbios. E comprei uma nova mquina de caf. Amanh de manh, vou entregar a chave a Paloma. Nunca mais voltarei  cozinha. 
- A viso de Charlene, de calcinhas, ainda o fazia sorrir.

        - Esperava outra coisa dele? - perguntou Jimmy, referindo-se ao senhorio.

        - Talvez no. S no estava  espera de assistir  sua vida sexual na primeira fila.

        Meia hora depois, ainda conversavam calmamente, quando ouviram um porto ranger e, depois, fechar-se com algum estrondo. E, num pice, surgiu diante deles 
um homem alto, de cabelos cor de prata, e sorriso aberto. Vestia calas de sarja e uma camisa branca imaculadamente passada, e calava sapatos castanhos de pele 
de crocodilo. Era uma viso da perfeio, e ambos se puseram em p de um pulo, como dois garotos que tivessem sido apanhados a fazer algo que no deviam. Mas fora-lhes 
concedido acesso livre  piscina, e o nico motivo por que Coop aparecera fora para os conhecer. J os vira do terrao. Charlene encontrava-se no piso de cima, na 
ducha, a lavar o cabelo.

        - Desculpem incomod-los. S vim apresentar os meus cumprimentos. Uma vez que so meus convidados, queria conhec-los. - Ambos tiveram a mesma sensao de 
gozo por terem sido chamados de "convidados". Por dez mil dlares por ms, no eram seus "convidados", mas seus inquilinos. - Ol, sou Cooper Winslow - apresentou-se, 
com um largo sorriso, enquanto lhes dava um aperto de mo. Qual de vocs vive aqui? J se conheciam? - Estava to curioso acerca deles como eles acerca de si.

        - Chamo-me Mark Friedman, vivo na ala de hspedes. E s nos conhecemos ontem, quando Jimmy estava fazendo a mudana.

        - Chamo-me Jimmy O'Connor. - E deu um aperto de mo no homem que se erguia, que nem uma torre, diante de si. Ambos tinham a sensao de serem novos alunos 
a apresentarem-se ao professor. Cooper fazia jus  sua reputao de pessoa charmosa. Exibia grande simpatia, alm de grande elegncia no vestir. As calas, impecavelmente 
passadas a ferro, assentavam-lhe que nem uma luva, realando as longas pernas, que pareciam no ter fim. Nenhum dos dois lhe daria sessenta anos. Tinha um ar muito 
mais jovem. E a verdade  que j tinha setenta. No havia qualquer mistrio acerca do motivo por que as mulheres o adoravam. Mesmo de calas de sarja, emanava estilo 
e charme. Era uma estrela de Hollywood.

        - Espero que se sintam confortveis nas suas casas.

        - Muito - apressou-se Mark a responder, rezando para que Charlene no lhe tivesse contado o que se passara naquela manh. Receava que sim e achava que era 
por isso que Coop viera visit-los. -  uma casa esplndida - acrescentou, em tom de admirao, procurando no pensar na mulher de calcinhas que lhe servira o caf. 
Entretanto, sentindo que era nisso que Mark estava a pensar, Jimmy sorriu e lanou-lhe um olhar travesso. Tratava-se de uma histria deliciosa.

        - Sempre adorei viver aqui - disse Coop, referindo-se ao Palacete. -- Tm de aparecer, de vez em quando, no edifcio principal. Um jantar, porque no? - 
De repente, lembrou-se de que j no tinha cozinheira, nem mordomo, nem ningum que soubesse servir com requinte. Teria de contratar uma empresa de servio de refeies. 
No arriscaria pedir a Paloma outra coisa a no ser pizzas e tacos, apesar das melhoras que o ingls dela sofrera. Com ou sem sotaque, era uma pessoa rebelde e assustadoramente 
independente. Se lhe pedisse para servir o jantar, no sabia como  que ela se comportaria. - Donde so?

        - Eu sou de Boston - respondeu Jimmy. - H oito anos que vivo em Hollywood, desde que me formei. E adoro.

        - Eu vivo c h dez - explicou Mark. - Vim de Nova Iorque.

        Esteve prestes a acrescentar: "Com a minha mulher e os meus filhos", mas conteve-se. Seria pattico, especialmente se tivesse de explicar por que razo j 
no estavam consigo.

        - Acho que vocs tomaram a deciso certa. Tambm sou do Leste, e j no conseguia agentar o tempo, sobretudo os invernos. A vida aqui  muito melhor.

        - Especialmente numa propriedade como esta - elogiou Jimmy, completamente fascinado com Cooper Winslow, que parecia estar  extraordinariamente -vontade. 
Estava, obviamente, habituado a que lhe dessem ateno e o adulassem. No havia qualquer dvida de que tinha perfeita conscincia do fascnio que exercia sobre as 
pessoas. Vivera dele durante meio sculo. E o que era impressionante era o fato de ainda o manter, em especial devido  sua boa forma fsica.

- Bem, espero que se sintam bem aqui. Informem-me se precisarem de alguma coisa.

        Mark nem sequer esboou qualquer tentativa de se queixar do fogo ou da mquina de caf. J resolvera mand-los consertar por sua conta e deduzir a despesa 
no recibo do ms. No queria puxar a conversa do caf da manh, com receio de que a mulher de seios enormes tivesse contado a Coop o que se passara, apesar de ter 
prometido que no o faria. Mark no sabia at que ponto podia confiar nela.

        Coop esboou novamente um sorriso cativante, conversou durante mais alguns instantes e foi-se embora, enquanto os dois homens, muito mais jovens de que ele, 
olhavam um para o outro, atnitos. S ao fim de alguns minutos reataram a conversa, para dar tempo a que Coop chegasse a casa e no ouvisse os seus comentrios.
        - Virgem Santssima! - Mark falou primeiro. - Viu o aspecto dele? Vou   pendurar as botas. Quem  que pode competir com ele?

Nunca nenhum homem, na sua vida, o impressionara tanto. Cooper Winslow era o homem com mais charme que alguma vez vira. Porm, Jimmy parecia menos impressionado 
quando respondeu, com ar pensativo:

        - S h um problema - sussurrou. No queria que Coop ouvisse. - Ser que h tambm um corao por trs de todo aquele charme, daquele ar atraente, daquelas 
roupas?

        - Talvez seja suficiente - respondeu Mark, pensando em Janet. Ela nunca teria abandonado um homem com o aspecto, a cultura e o charme de Cooper Winslow. 
Mark sentia-se um puto ao lado dele. Todas as suas inseguranas haviam surgido  superfcie no instante em que Cooper aparecera.

        - No, no  - retorquiu Jimmy. - O tipo no passa de uma concha. Nada do que ele diz significa o que quer que seja. Tudo gira  volta da beleza e de todas 
essas merdas. E olhe para as mulheres com quem ele anda. Daqui a trinta anos, vai preferir uma menina com ferradura na cabea, de calcinhas, a servir-lhe o pequeno-almoo, 
ou uma mulher a srio, com quem possa conversar?

        - Tenho de pensar - respondeu Mark, e desataram ambos a rir.

        - Por uns tempos  capaz de ser divertido, e depois? Seria uma situao que me deixaria doido. - Maggie fora uma mulher completa. Inteligente, verdadeira, 
bonita, divertida e sensual. Ela fora tudo aquilo que ele sempre desejara. A ltima coisa que Jimmy queria era uma mulher ftil. Mark s queria Janet. Porm, aparentemente, 
Cooper Winslow era um homem completo. Jimmy tambm tinha de admitir que o velho ator causava uma forte impresso nas pessoas. Bem, ele que fique com a mulher das 
mamas. Eu prefiro os sapatos. So espetaculares.

        - Ento, fique l com os sapatos, que eu fico com a mulher. Ainda bem que no falou do meu encontro com ela na cozinha esta manh - rematou Mark, aliviado.

        - Eu j adivinhava que fosse essa a sua escolha - comentou Jimmy, a rir. Simpatizava com Mark. Era um tipo porreta, ntegro. Adorava conversar com ele e 
compreendia perfeitamente o seu estado de esprito, causado pelas saudades imensas que sentia dos filhos. - Bem, agora j o conhecemos. Parece mesmo uma estrela 
de cinema, no acha? - indagou Jimmy, voltando a lembrar-se do breve encontro de h momentos atrs. - Gostava de saber quem  que lhe passa a roupa. A minha est 
toda amarrotada desde que sa de casa. A Maggie no passava a ferro. Dizia que era contra a sua religio.

Mantivera-se fiel  Igreja Catlica Romana, alm de ter sido uma feminista ferrenha. A primeira vez que ele lhe pedira para lavar a roupa, quase lhe batera.

        - Tenho levado a roupa toda  lavanderia - contou Mark. - Fiquei sem camisas a semana passada, e tive de comprar seis. A lida da casa no  o meu forte. 
Tenho pago  Paloma para me fazer a limpeza. Talvez se lhe pedir, ela tambm lhe faa.

        A salvadorenha estava sendo impecvel com ele. E no s era uma pessoa prestativa e capaz, mas tambm muito inteligente. J falara demoradamente com ela 
sobre os filhos, e tudo o que Paloma lhe dissera fora de uma grande simpatia e sensibilidade. Mark nutria um grande respeito por ela.

        - Eu no me queixo - acrescentou Jimmy. - Acompanhado de uma garrafa de Windex, sou um verdadeiro artista a aspirar o p. A Maggie tambm no pegava no aspirador.

Nessa mesma tarde, Jimmy contou que tinham se conhecido em Harvard. Era uma garota muito atraente.

        - Eu e a Janet conhecemo-nos na Faculdade de Direito. Mas ela nunca exerceu. Engravidou mal casamos e ficou em casa com as crianas.

        - Foi por isso que ns nunca quisemos ter filhos. A Maggie esteve sempre dividida entre deixar a carreira profissional e ficar em casa com as crianas. Tinha 
uma perspectiva de vida muito irlandesa. Achava que as mes deviam ficar em casa com os filhos. Suponho que, mais cedo ou mais tarde, acabaramos por nos resolver 
a t-los.

        Pouco depois, retomaram a conversa sobre Cooper. s seis horas, Jimmy voltou para casa. Ia jantar com uns amigos. Convidou Mark, mas este recusou, dizendo 
que tinha de arrumar alguma papelada e ler a nova legislao fiscal. E despediram-se com a convico de terem passado um bom fim-de-semana. Haviam arranjado um novo 
amigo e sentiam-se felizes com as novas casas, alm de terem conhecido Cooper Winslow, que no os desiludiu. Coop era tudo aquilo que diziam dele: uma autntica 
lenda viva de Hollywood.

        Jimmy e Mark prometeram encontrar-se para jantar na semana seguinte. Enquanto Jimmy se dirigia para casa, Mark entrava na ala de hspedes, sorridente, lembrando-se 
do caf da manh e da mulher que o fizera. Cooper Winslow era um sortudo!


CAPTULO 7

        Na manh seguinte, Liz telefonou a Coop, que ficou encantado por voltar a ouvir a voz da antiga secretria. Casara h uma semana e ainda se encontrava em 
lua-de-mel, mas estava preocupada com ele.

        - Onde est? - indagou Cooper, ao ouvir a voz familiar. Ainda no se habituara ao fato de no ver o seu rosto todas as manhs.

        - No Hava - respondeu Liz, orgulhosa.

        Usava o nome de casada em todas as ocasies e, embora achasse estranho, adorava e tinha pena de no se ter casado h mais tempo. Estar casada com Ted parecia 
um sonho.

        - Que coisa mais plebia! - espicaou-a Cooper. Ainda tenho esperanas de que lhe d com os ps e volte para mim. O casamento pode ser anulado num instante.

        - Nem pense! Gosto de ser uma mulher casada e respeitvel. - Muito mais do que alguma vez imaginara.

        - Liz, estou desapontado com voc. Sempre pensei que tivesse mais carter. Voc e eu ramos os ltimos solteires. Agora, s resto eu.

        - Bem, talvez devesse tambm casar-se. No  assim to mau. Alm disso, h mais benefcios fiscais.

        A verdade era que adorava estar casada, e fizera-o com o homem certo. Ted era um marido maravilhoso. Coop estava feliz por ela, apesar dos transtornos que 
aquele casamento lhe causara.

        - O Abe tambm diz que me devo casar e arranjar uma mulher rica.  de uma crueldade extrema.

        - No  m idia - brincou.

        No conseguia imaginar Cooper casado. A vida para ele tinha muito mais gozo assim. No conseguia v-lo amarrado a uma nica mulher. Ele precisava de ter 
um harm para estar no stimo cu.

        - De qualquer modo, h anos que no ando com uma mulher rica. Nem sei onde  que elas se escondem. Alm disso, prefiro as filhas.

        Ou as netas, como acontecia ultimamente. Ao longo da vida, tivera romances com mulheres muito ricas, herdeiras de grandes fortunas, mas sempre preferira 
as mais jovens. Chegara a andar com uma princesa indiana e duas sauditas riqussimas. Porm, por mais ricas que fossem, rapidamente se fartava delas. Havia sempre 
uma mais bonita ou mais excitante ao virar de cada esquina. Liz suspeitava que ele continuaria assim at ao fim dos seus dias. Adorava ser livre.
        - S queria certificar-me de que est se comportando bem.
      - Liz estava cheia de saudades. Tinha um enorme afeto por ele. - Como est se saindo a Paloma?

        - Extraordinariamente bem - respondeu Cooper, num tom convincente. - Faz ovos de borracha, pe pimenta nas torradas, transformou as minhas meias de caxemira 
em botinhas de beb e tem um gosto requintado. J  comeo a me habituar aos culos cheios de brilhantes. Isto para no falar nos sapatos cor-de-rosa que usa com 
a bata, quando no traz os tnis imitando pele de leopardo.  uma autntica ave rara, Liz. S Deus sabe onde voc a desencantou.

        Mas a verdade era que, por mais que ela o irritasse, estava comeando a gostar da animosidade que se criara entre ambos.

        -  boa rapariga, Coop. Ensine-a, ela aprende. Trabalhou com as outras durante um ms,  provvel que tenha se esquecido de algumas coisas.

        - Acho que o Livermore a ps a ferros no quarto. Tambm tenho de experimentar esse estratagema. Oh, a propsito, ontem conheci os meus convidados.

        - Convidados? - Liz ficou perplexa. No sabia que ele tinha convidados.

        - Os dois homens que esto residindo na casa do caseiro e na ala de hspedes. - Os meus inquilinos.

        - Ah, esses convidados. Que tal so?

        - Pareceram-me pessoas respeitveis. Um  advogado e o outro, assistente social. O que  assistente parece um garoto e andou em Harvard. O advogado parece 
um bocado nervoso, mas  simptico. Do a sensao de serem bem-comportados. S espero que no comecem a atirar garrafas para dentro da piscina ou a adotar rfos 
irrequietos. No tm ar de criminosos, nem de viciados em herona. Acho que tivemos sorte.

        - Tambm acho. A corretora assegurou-me que eram pessoas de bem.

        - Reservo o meu julgamento para mais tarde. Mas, de momento, no prevejo qualquer tipo de problemas. - Ouvir isto era um grande alvio para Liz. - Por que 
razo me telefonou? Devia estar fazendo amor na praia com esse encanador com quem casou.

        - No  encanador,  corretor na Bolsa. E foi jogar uma partida de golfe com um cliente.

        - Levou clientes para a lua-de-mel?  mau sinal, Liz. Divorcie-se imediatamente.

Cooper soltou uma gargalhada, e Liz ficou muito mais aliviada por sentir que ele estava bem.

        - Encontrou o cliente aqui - explicou Liz, a rir. Dentro de uma semana, estarei em casa. Agora, porte-se bem, no compre nenhuma pulseira de diamantes esta 
semana. Ainda arranja uma lcera para  Abe Braunstein.

        -  o que ele merece.  o homem mais sisudo e com menos gosto sobre a Terra. Voc  que merece uma pulseira de diamantes.

- Tenho usado o bonito anel que me ofereceu quando  vim embora - recordou Liz. - Falamos quando eu regressar. Cuide-se, Coop.

        - Fique descansada, Liz. Obrigado pelo telefonema.

        Adorava conversar com ela e, embora no o quisesse admitir, tinha saudades. Imensas. Sentia-se um bocado  deriva desde que Liz partira. A sua casa e a sua 
vida pareciam um navio sem leme. Ainda no conseguia imaginar o que iria fazer sem ela.

        Nessa manh, quando passou o olhar pela agenda, viu a cuidada caligrafia de Liz. A noite, tinha um jantar em casa dos Schwartz. Ele era um dos maiores produtores 
de Hollywood e ela fora uma atriz de grande beleza nos anos cinqenta. Coop no tinha muita vontade de ir, mas sabia que eles ficariam aborrecidos se no fosse. 
Estava muito mais interessado em passar a noite com Charlene, e no queria lev-la consigo. Era um pouco ousada para aquele crculo. Charlene era o gnero de garota 
com quem ele gostava de gozar os prazeres do sexo, no algum com quem gostasse de ser visto em jantares de cerimnia. Tinha vrias categorias de mulheres. Charlene 
era uma mulher "para ter em casa". As principais estrelas de cinema destinava-as s pr-estrias dos filmes, onde causavam um impacto redobrado na imprensa. Havia 
ainda um grupo de jovens atrizes e modelos com quem gostava de sair. Porm, preferia ir sozinho  festa dos Schwartz.

        Costumavam ter a casa a abarrotar de gente interessante, e nunca sabia quem l iria encontrar. Preferia ir sozinho, e eles tambm gostavam de o ter l como 
solteiro. Nutria um carinho especial por Arnold e Louise Schwartz. Telefonou a Charlene e disse-lhe que no podiam encontrar-se nessa noite. Ela reagiu esportivamente, 
respondendo que precisava do seu "sono de beleza", coisa que Coop sabia que ela dispensava. Ainda que passasse a noite toda sem pregar olho, de manh, exibia sempre 
o mesmo encanto. E ele, sempre um desejo insacivel. Mas esta noite pertencia aos Schwartz.

        Coop encontrou-se com um produtor no almoo, depois, foi ao massagista e  manicura. Dormiu a sesta, ao acordar bebeu um clice de champanhe e, s oito horas, 
saa de casa envergando um traje de cerimnia. O motorista que costumava contratar quando ia s festas aguardava-o no Bentley. Coop estava mais elegante do que nunca, 
com um smoking de fino corte e os cabelos cor de prata meticulosamente penteados.

        - Boa noite, Mister Winslow - cumprimentou o motorista.

        H anos que conduzia Coop, alm de outras estrelas. Ganhava bem como motorista por conta prpria. Para Coop, no fazia sentido ter um motorista o tempo inteiro. 
A maioria das vezes, preferia ser ele prprio a dirigir.

Quando Coop chegou  enorme manso dos Schwartz, na Brooklawn Drive, j havia uma centena de pessoas no salo principal, bebendo champanhe. Louise Schwartz, que 
exibia uma fabulosa coleo de safiras, estava deslumbrante num vestido de noite azul-escuro.  sua volta, viam-se as figuras habituais nestas ocasies: ex-presidentes 
e ex-primeiras damas, polticos, negociantes de arte, produtores, realizadores, advogados de renome internacional e, como no podia deixar de ser, uns quantos atores 
de cinema, alguns mais novos do que Coop, mas nenhum to famoso. Num pice, Coop viu-se rodeado de uma horda de admiradores de ambos os sexos. Uma hora depois, passaram 
 sala de jantar. Coop ficou na mesma mesa de um ator conhecido da sua gerao, juntamente com dois escritores famosos, um importante agente de Hollywood e o diretor 
de um dos maiores estdios. Pensou em falar com ele depois do jantar, pois ouvira dizer que tinham um papel perfeito para ele. Conhecia a mulher que estava sentada 
 sua  direita: uma das matronas mais famosas de Hollywood, cujas festas tentavam em vo rivalizar com as dos Schwartz.  sua esquerda, sentava-se uma jovem que 
nunca vira antes. Tinha um rosto delicado, de traos aristocrticos, enormes olhos castanhos, pele cor de marfim, e cabelos escuros apanhados num coque, como uma 
bailarina de Dgas.

        - Boa noite - cumprimentou Coop.

        Reparou que a jovem era pequena e gil, levando a crer ser bailarina. Enquanto uma brigada de criados servia o primeiro prato, Coop perguntou-lhe se era 
mesmo bailarina, e ela riu-se. No era a primeira vez que lhe faziam essa pergunta, e declarou-se lisonjeada. Sabia muito bem quem ele era. O carto em cima da mesa 
tinha escrito Alexandra Madison, nome que, a Cooper, no dizia nada.

        - Sou estagiria - afirmou, como se isso explicasse tudo.

        - Estagiria onde? - indagou Cooper, divertido. No era o seu tipo de mulher, embora a achasse muito bonita. Reparou que tinha umas mos encantadoras, com 
unhas curtas e sem esmalte. Trazia um vestido de cetim branco, que condizia perfeitamente com o rosto e a silhueta jovens.

         Num hospital. Sou mdica.

        - Que interessante - comentou Cooper, parecendo impressionado. - De que especialidade? Algo de que eu precise?

        - No, a no ser que tenha filhos. Sou pediatra, ou melhor, neonatologista, para ser mais exata.

        - Detesto crianas. Como-as ao jantar - retorquiu Cooper, com um largo sorriso, exibindo a bela dentadura branca pela qual era conhecido.

        - No acredito - contrariou a jovem, esboando um sorriso.

        -  verdade. E as crianas tambm me detestam. Sabem que eu as como. S gosto delas quando chegam  idade adulta. Especialmente as mulheres. - Pelo menos, 
estava sendo honesto. Durante toda a sua vida, sentira desconfiana e averso relativamente s crianas. Geralmente, escolhia mulheres sem filhos. As crianas complicavam 
tudo e j lhe haviam estragado muitas noites. As mulheres sem filhos eram muito mais divertidas. No  preciso arranjar baby-sitters, e no tm crianas que babam 
ou que despejam suco por cima de ns, nem dizem que nos detestam. Estes eram alguns dos motivos da sua preferncia por mulheres jovens. Acima dos trinta, quase todas 
as mulheres tinham filhos. - Porque no escolheu uma profisso mais divertida? Domadora de lees, por exemplo. Bailarina tambm lhe serviria que nem uma luva. Acho 
que devia considerar a hiptese de mudar de profisso, antes que seja demasiado tarde.

Alexandra estava divertidssima e Coop, apesar da infeliz escolha da profisso e do penteado de extrema simplicidade, comeava a gostar dela.

        - Terei de pensar melhor no assunto. Que tal veterinria? Seria melhor? - perguntou Alexandra, com ar inocente.

        - Tambm no gosto de ces. So seres asquerosos. Largam plo, mordem e cheiram mal. So quase to maus como as crianas. No tanto, mas no lhes ficam muito 
atrs. Temos de pensar numa profisso totalmente diferente para si. Que tal atriz?

        - No creio. - Alexandra soltou uma gargalhada, enquanto o criado deitava uma colher de caviar por cima do blini. Coop adorava a comida servida nos jantares 
dos Schwartz. Alexandra tambm mostrava-se -vontade, dando a impresso de ter passado toda a sua vida em sales como aquele. Tudo indicava que sim, apesar de no 
usar jias de grande valor: um colar de prolas e um par de brincos de diamantes e prolas. Porm, havia algo nela que indiciava tratar-se de uma pessoa endinheirada. 
- E o senhor? - perguntou, mudando a conversa para o campo dele. Era uma rapariga inteligente, e isso tambm agradou a Coop. - Por que razo  ator? - inquiriu, 
em tom de desafio.

        - Acho divertido. No acha? Imagine-se a representar todos os dias e a usar roupas bonitas. , de fato, uma profisso muito agradvel. Bastante mais interessante 
do que a sua. Voc tem de usar uma horrvel bata branca toda amarrotada e  obrigada a lidar com pequerruchos que passam o tempo a babar em voc e a berrar mal a 
vem.

        - L isso  verdade. Mas as crianas com quem lido so demasiado pequenas para fazerem isso tudo. Trabalho na Unidade de Cuidados Intensivos, sobretudo com 
bebs prematuros.

        - Que horror! - exclamou Cooper, fingindo-se horrorizado. - Devem ter o tamanho de ratos. At pode apanhar raiva.  uma profisso ainda mais perigosa do 
que eu pensava. -- Estava a divertir-se  grande. Um dos convivas observava-o com ar deleitado. Era um regalo ver Coop fazer charme. Mas Alexandra dava-lhe luta. 
Era suficientemente sensvel e inteligente para no se deixar seduzir. - Que faz mais? - perguntou, continuando o interrogatrio.

        - Vo no meu avio desde os dezoito anos. Adoro fazer asa delta. Fazia pra-quedismo at h pouco tempo, mas prometi  minha me nunca mais fazer. Jogo tnis 
e fao esqui. Tambm cheguei a fazer motociclismo, mas prometi ao meu pai deixar de fazer. Passei ainda um ano no Qunia, nos servios de sade, antes de entrar 
para a Faculdade de Medicina.

        - Voc parece ter instintos suicidas. E os seus pais parecem interferir bastante nas suas atividades atlticas. Costuma estar com eles?

        - Quando tem de ser.

Era muito senhora do seu nariz. Coop estava fascinado.

        - Onde vivem?

        , no inverno. Em Newport, no vero.  tudo muito aborrecido e previsvel, e eu sou um bocadinho rebelde.

        -  casada?

Cooper reparara que ela no usava aliana, e no esperava resposta positiva. Sempre tivera excelente intuio para essas coisas.

        - No - respondeu, aps uma ligeira hesitao. - Estive prestes a casar-me - acrescentou, de imediato. Geralmente, no falava do assunto, mas estava gostando 
de ser sincera com Coop. Era um homem de dilogo fcil e muito perspicaz.

        - Que aconteceu?

O rosto cor de marfim ficou lvido, embora mantivesse o sorriso. Mas os olhos encheram-se de tristeza. S Coop notou.

        - Fui abandonada no altar. Na noite anterior, para ser mais precisa.

        - Que falta de gosto! Detesto as pessoas que fazem baixezas dessas. - Alexandra mantinha o ar amargurado e, por instantes, Coop arrependeu-se de lhe ter 
feito a pergunta. Espero que ele tenha cado num fosso cheio de cobras e crocodilos. Era o que merecia.

        - E caiu. Casou com a minha irm.

Era uma histria complicada para um primeiro encontro. Mas Alexandra achava que no voltaria a ver Coop e resolveu cont-la.

        -  uma atitude inqualificvel. Ainda fala com a sua irm?

        - S quando no tenho outra alternativa. Por exemplo, quando fui para o Qunia. Foi um ano muito interessante. Adorei - respondeu Alexandra, mudando de conversa, 
sinal de que no queria continuar a discutir o assunto.

        Fora sincera com Coop, e ele admirava-a por isso. Coop falou-lhe ento do seu ltimo safri e das desventuras por que passara. Haviam-no convidado para uma 
reserva de caa e torturado com todo o tipo de horrores possveis e imaginrios. Detestara todos os minutos que l passara, mas relatou os fatos de forma hilariante, 
fazendo com que Alexandra risse a bandeiras despregadas.

        Passaram uns momentos agradveis a conversar um com o outro, ignorando os restantes convivas. Alexandra ainda ria quando o jantar acabou. Entretanto, teve 
de se levantar para ir falar com alguns velhos amigos dos pais que se encontravam noutra mesa. Mas, antes, disse a Coop que gostara imenso de conhec-lo, e estava 
a ser sincera. Fora uma noite memorvel.

        - No tenho muito tempo para sair. E a Sra. Schwartz foi muito simptica em ter-me convidado.  amiga dos meus pais. S vim porque consegui uma folga. Passo 
a maior parte do tempo no hospital. Ainda bem que vim.

E deu um firme aperto de mo a Cooper. Pouco depois, Louise Schwartz aproximou-se dele e, com um risinho sufocado, avisou-o:

        - Tem cuidado, Coop! Ela  uma garota muito problemtica. Se a engatas, o pai mata-te.

        - Porqu? Ele  da mfia ou coisa parecida? Ela parece muito respeitvel.

        - E .  por isso que ele te matar. O Arthur Madison. Um nome sobejamente conhecido. Tratava-se da maior e mais antiga fortuna do pas, na rea do ao. 
Era mdico. Uma combinao interessante. As palavras de Abe Braunstein ecoaram nos seus ouvidos quando Louise pronunciou o nome. Alexandra era no s uma mulher 
rica, mas, possivelmente, uma das mais ricas. Simples e despretensiosa, e uma das mulheres mais inteligentes que alguma vez conhecera. E, melhor do que isso, tinha 
um grande sentido de humor. Era difcil uma pessoa no se sentir atrada por ela. Coop observava-a, com ar interessado, enquanto ela falava com uma srie de pessoas. 
Ficara com um fraquinho por ela. E, sem a perder de vista, fez coincidir a sua sada da festa com a dela, convidando-a a entrar no Bentley.

        - Posso oferecer-lhe carona?

O tom de voz era afvel e inofensivo. Calculara que ela devia andar pelos trinta anos, e no errara. Tinha exatamente quarenta anos, mas, pelo menos, no parecia. 
Gostava dela. Era uma mulher que, tudo levava a crer, no admitia atitudes disparatadas. Como fora magoada, mostrava-se cautelosa. Coop sentia-se atrado por ela, 
independentemente de o pai ser quem era e do dinheiro que tinha. Gostava de Alexandra tal como era.

        - Obrigada, trouxe o meu carro - respondeu, delicadamente, exibindo um largo sorriso. Ao dizer isto, um dos criados que estava de servio ao parque trouxe-lhe 
o seu velho Volkswagen, a cair de podre.

        - Estou impressionado. Extremamente despretensiosa. Admiro a sua discrio - gracejou Cooper.

      - No gosto de queimar dinheiro em carros. Raramente ando com ele. Nunca vou a lado nenhum. Estou sempre a trabalhar.

        - No admira. Com todos aqueles ratinhos medonhos. E um instituto de beleza? Alguma vez pensou nisso?

        - Foi a minha primeira escolha profissional, mas no passei nos exames. Chumbava sempre na parte de frisar o cabelo. - Era to rpida e irreverente como 
ele.

        - Tive muito prazer em conhec-la, Alexandra - disse Coop, olhando-a fixamente com os olhos azuis, que, juntamente com o queixo fendido, fizeram dele uma 
lenda, e o tornaram irresistvel para as mulheres.

        - Trate-me por Alex. Tambm tive muito prazer em conhec-lo, Sr. Winslow.

        - Talvez devesse trat-la por doutora Madison. Preferia?

        - Claro. - E, com um sorriso nos lbios, meteu-se no carro. Estava furiosa pelo fato de ter vindo  festa dos Schwartz num carro que parecia ter sido abandonado 
na beira da auto-estrada. - Boa noite! - E, dando-lhe adeus com a mo, arrancou.

        - Boa noite, doutora! Tome duas aspirinas e telefone-me de manh! - despediu-se Cooper, e sentou-se no banco traseiro do Bentley.

Fez questo de no se esquecer de mandar flores a Louise, logo pela manh. Estava muito satisfeito por ter resolvido no se encontrar com Charlene nessa noite. Passara 
uma noite magnfica na companhia de Alex Madison. Era uma mulher singular, e uma perspectiva muito interessante de romance.


CAPTULO 8

        Na manh seguinte, Coop enviou um enorme ramo de flores a Louise Schwartz. Pensou em telefonar  secretria desta a pedir o nmero de telefone de Alex Madison, 
mas resolveu ligar diretamente para o hospital. Pediu para entrar em contacto com a Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia e deram-lhe o nmero do pager 
de Alex. Ligou-lhe, mas ela no respondeu. Explicaram-lhe que Alexandra estava de servio e no podia ser chamada ao telefone. A informao deixou-o algo desapontado.

        Dois dias depois, Coop voltava a vestir o smoking. Fora convidado para a cerimnia de entrega dos Globos de Ouro, embora no fosse nomeado h mais de vinte 
anos. Mas, tal como todos os outros atores conhecidos, dava uma nota de animao e cor ao evento. Ia acompanhado de Rita Waverly, uma das maiores estrelas de Hollywood 
nas ltimas trs dcadas. Gostava de aparecer com ela nos grandes eventos. A ateno que recebiam da imprensa era espantosa e, ao longo dos anos, haviam mesmo corrido 
rumores de que houvera entre eles uma relao amorosa. O seu agente de imprensa fizera, certa vez, constar que iam casar-se, e Rita ficara aborrecida com Coop. Aparecer 
ao lado dela realava ainda mais o charme de Coop. Era uma mulher de incrvel beleza, apesar da idade. A brochura distribuda  imprensa atribua-lhe quarenta e 
nove anos, mas Coop sabia que ela tinha cinqenta e oito.

        Quando foi busc-la em seu apartamento, em Beverly Hills, Rita surgiu com um vestido de cetim branco de decote em V, que lhe assentava na perfeio e realava 
a silhueta. Nos ltimos anos, submetera-se a dietas rigorosas e a diversos tipos de operaes plsticas: a pele fora puxada e repuxada, de todas as maneiras, com 
timos resultados. E, sobressaindo no decote, um colar de diamantes no valor de trs milhes de dlares, cedido pela Van Cleef. Exibia ainda um casaco de pele de 
marta at aos ps. Era o eptome de uma estrela de Hollywood, tal como Coop. Quando chegaram  entrada do local onde a cerimnia ia realizar-se, os reprteres entraram 
em histeria. Dava a sensao de que ambos tinham vinte e cinco anos e haviam ganho o Oscar nesse ano.

        - Para aqui!!!... Aqui!!!... Rita!!!... Coop!!! - gritavam os reprteres  procura do melhor ngulo, enquanto os fs agitavam livros de autgrafos, e milhares 
de flashs atingiam os seus rostos sorridentes. Era uma noite que alimentaria os respectivos egos durante dez anos. Mas eles j estavam habituados, e Coop ria quando 
as equipes de televiso os detinham, de meia em meia dzia de passos, para lhes perguntarem o que achavam dos nomeados daquele ano.

        - Maravilhosos... um trabalho verdadeiramente impressionante... faz-nos sentir orgulhosos de sermos atores... dizia Coop, com ar de entendido, enquanto Rita 
seguia a seu lado, toda satisfeita.

Com as constantes paradas para o interminvel dilvio de bajulaes, sob os olhares da multido, levaram quase meia hora at chegarem  sua mesa, no salo onde seria 
servida uma refeio antes do espetculo televisionado. Coop era todo atenes com Rita, inclinando-se gentilmente para ela enquanto lhe oferecia um clice de champanhe 
ou lhe pegava no casaco.

        - Quase me fazes sentir pena de no ter casado contigo- gracejou Rita.

        Mas sabia, to bem como ele, que aquilo era s espetculo, embora Coop gostasse dela. Porm, a amizade entre os dois era boa para a reputao de ambos, e 
at os rumores de romance ao longo dos anos lhes haviam sido vantajosos, chamando sobre si as atenes do pblico. A verdade era que nunca haviam estado perto de 
uma relao mais ntima. Coop beijara-a uma vez, mas Rita era to narcisista que ele tinha a noo, tal como ele, de que a relao no duraria mais de uma semana. 
Nesse aspecto, eram ambos muito perspicazes.

Mal o espetculo comeou, e depois de as cmaras perscrutarem durante alguns segundos a assistncia, surgiu um grande e demorado plano dos dois.

        - Minha nossa! - exclamou Mark, de repente, ao olhar para o televisor, enquanto bebia uma cerveja na companhia de Jimmy. Nenhum deles arranjara melhor coisa 
para a noite, e haviam combinado encontrar-se em casa de Jimmy para assistir  cerimnia de entrega dos prmios. Haviam mesmo brincado com o fato de Cooper poder 
aparecer, mas nenhum deles esperara v-lo durante tanto tempo. O grande plano parecia nunca mais ter fim. - Olhem s para aquilo! Perante o ar espantado de Mark, 
Jimmy sorria.

        - Quem  aquela que est ao lado dele? A Rita Waverly? Meu Deus, ele conhece toda a gente! - At Jimmy parecia impressionado. - Est muito bem conservada 
para a idade.

Lembrou-se, ento, de que Maggie adorava ver todas as cerimnias de entrega de prmios: os Globos de Ouro, os scars, os Grammys, os Emmys, e at os relativos s 
telenovelas. Adorava reconhecer todas as estrelas. Mas reconhecer Cooper e Rita Waverly at um ceguinho conseguiria.

        - Que fato espetacular! - comentou Mark, quando a cmara se deteve noutro assistente famoso. - No  todos os dias que vemos o nosso senhorio na televiso 
nacional.

        - Tive um, em Boston, que foi preso por um crime grave, e vi-o, durante alguns segundos, no telejornal da noite. Acho que andava a vender crack.

        Jimmy abriu outra cerveja. A amizade entre ambos tornara-se cmoda e confortvel, viviam prximos um do outro, eram inteligentes, e,  alm do trabalho, pouco 
mais tinham na vida. Ambos haviam passado por situaes recentes de dor e solido, e nenhum dos dois estava ainda em condies psicolgicas de voltar a sair com 
uma mulher. Comer um bife e beber umas quantas cervejas, de vez em quando, ajudava a passar as noites. Logo que Cooper desapareceu da tela, instalaram-se para ver 
os Globos de Ouro. Jimmy pusera um saco de pipocas no microondas.

        - Comeo a sentir-me um dos tipos do Odd Couple1 gracejou, enquanto passava o saco de pipocas a Mark. Entretanto, na cerimnia, tocavam trechos das msicas 
nomeadas para a categoria de melhor tema para filme dramtico.

        - Tambm eu - retorquiu Mark. - Mas, por agora, no h problema. Um dia, gostaria de dar uma olhadela na agenda de Cooper e combinar um encontro com uma 
das suas meninas, mas ainda  muito cedo para isso.
      


1 Srie televisiva em que dois homens divorciados partilham o mesmo apartamento. (N. do T.)


 Jimmy fizera praticamente um voto de celibato para toda a vida. No tencionava trair a memria de Maggie no futuro mais prximo, nem talvez nunca. De momento, a 
amizade entre os dois era a melhor bno que poderiam ter recebido. A camaradagem preenchia os seres sem nada para fazer.

        Nessa noite, Alex Madison estava de servio no hospital, para compensar aquela em que fora  festa dos Schwartz e conhecera Cooper. Substitua outro mdico 
estagirio, que tinha um encontro com a mulher dos seus sonhos. Fora uma troca fcil.

        J tivera uma noite muito agitada, quando se dirigiu  sala de espera para falar com os pais de um beb de duas semanas que estivera em risco de vida desde 
manh, mas que melhorara entretanto. Queria assegurar-lhes que os sinais vitais da criana permaneciam estveis, e que ela adormecera. Porm, quando entrou na sala 
de espera, presumiu que tinham ido comer. Ao olhar  sua volta, passou os olhos pelo televisor que estava ligado, como sempre, e ficou perplexa ao dar de cara com 
Coop. As cmaras acabavam de o focar de perto. Alexandra ficou esttica e, com um esfuziante sorriso, soltou um grito que ecoou pela sala vazia.

        - Conheo-o!

        Coop, com o seu charme habitual, oferecia um clice de champanhe a Rita Waverly. Era uma sensao estranha pensar que ele fizera a mesma coisa consigo, com 
aquele mesmo olhar, na festa dos Schwartz, dois dias antes.

        Coop era um homem muito bonito, e Rita Waverly no lhe ficava atrs.

        - Gostava de saber quantas plsticas  que ela j fez! disse Alexandra, novamente em voz alta, sem dar por isso.

        Era engraado pensar na distncia que existia entre o mundo deles e o seu. Ela passava os dias e as noites a salvar vidas e a confortar pais cujos filhos 
haviam estado s portas da morte. Enquanto isso, pessoas como Coop e Rita Waverly passavam o tempo em festas, de casaco de peles, jias e vestidos de noite. Alexandra 
quase nunca tinha oportunidade deusar maquiagem, e andava sempre de calas e casaco verdes, todos amarrotados, com as iniciais da Unidade de Cuidados Intensivos 
de Neonatologia, "UCIN", estampadas, em grandes caracteres, no peito. Nunca iria aparecer em nenhuma lista das mais bem-vestidas, mas fora esta a profisso que escolhera, 
e gostava deste tipo de vida. Se no fosse assim, teria voltado para o mundo pretensioso e hipcrita dos pais. Muitas vezes, chegava a pensar que talvez no tivesse 
sido mau de todo no ter casado com Crter. Agora que casara com a irm, andava de tal modo embrenhado nas lides sociais que se tornara to esnobe e arrogante como 
os outros homens que ela detestava no mundo de onde provinha. Coop era de uma estirpe completamente diferente. Era uma estrela de cinema, uma celebridade. Pelo menos 
tinha uma desculpa para se apresentar e comportar daquela forma. A sua profisso era mesmo assim. A dela, no.

        Pouco depois, voltou para o seu mundo, cheio de incubadoras e bebs pequenssimos ligados a aparelhos e a tubos, esquecendo Cooper e os Globos de Ouro. Nem 
sequer viu a mensagem dele no bipe. Nesse momento, ele era a ltima pessoa que poderia passar-lhe pela cabea.

        Porm, contrastando com o regozijo de Mark, Jimmy e Alex por verem Coop na televiso, Charlene assistia  cerimnia de sobrolho carregado. Dois dias antes, 
Coop dissera-lhe que no poderia lev-la  festa dos Schwartz porque precisavam dele para fazer o papel de homem descomprometido, e que seria uma chatice para ela, 
argumento que utilizava sempre que queria ir sozinho a qualquer lado. Mas acompanh-lo aos Globos de Ouro j teria sido uma coisa muito diferente. Estava furiosa 
por ele a ter preterido a favor de Rita Waverly. Porm, pelo menos do ponto de vista profissional, levar Charlene  cerimnia no lhe traria qualquer benefcio.

        - Cabra! - vociferou, com ar petulante, para o televisor. - J deves ter uns oitenta anos!

Havia muita coisa que lhe apetecia dizer a Coop. Vira-o pr o brao por cima de Rita e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido. Rita desmanchara-se a rir, enquanto 
a cmara fazia novo plano de outra estrela sentada nas proximidades.

Charlene deixara-lhe uma dzia de mensagens no celular, e estava a ferver de raiva quando, por fim, conseguiu contatar com ele, s duas da manh.

        - Onde diabo ests, Coop?

Charlene no sabia se estava com vontade de explodir de raiva, ou desatar a chorar.

        - Boa noite, querida! - retorquiu Coop, num tom calmo e imperturbvel.

        - Estou na cama. E tu, onde  que ests?

Coop sabia muito bem por que razo ela estava irritada. Era previsvel, mas inevitvel. Nem no prximo milho de anos a teria levado aos Globos de Ouro. A relao 
que mantinham no era suficientemente sria ou importante para justificar publicidade. Alm disso, ser visto na companhia de Rita Waverly teria muito mais impacto. 
Gostava muito de Charlene, mas em privado. No sentia o mnimo desejo de a mostrar ao mundo.

        - A Rita Waverly est contigo? - insistiu Charlene, com um tom de histeria a tomar-lhe conta da voz.

Coop sabia que a conversa no tardaria a baixar de nvel. Este tipo de interrogatrios sempre o encorajara a partir para a prxima candidata na lista de espera. 
Por mais bonita que fosse, Charlene estava prestes a perder o seu lugar ao sol. Havia sempre outras jovens  espera. Estava na altura de virar outra pgina do livro.

        - Claro que no. Por que razo estaria ela aqui? - perguntou, num tom inocente.

        - Quando os vi na televiso, fiquei logo com a sensao de que no tardaria a pulares em cima dela..

A altura chegara.

        - No sejas grosseira - admoestou Coop, como se falasse com uma criana mal comportada que tentara agredi-lo.

Quando na dvida, Coop tomava sempre uma de duas atitudes: ou saa de cena ou pisava primeiro. Mas no tinha qualquer necessidade de fazer isso a Charlene. Sabia 
que a nica coisa que lhe restava era desaparecer calmamente.

        - Foi uma chatice! - exclamou, com um bocejo. -  sempre.  trabalho, minha querida.

        - Ento, onde  que ela est?

Charlene bebera quase uma garrafa de vinho enquanto tentava contat-lo. Mas Coop desligara o celular durante a cerimnia e s voltara a lig-lo depois de chegar 
em casa.

        - Quem?

Coop no fazia a mnima idia a quem ela se referia. Parecia estar com um copo a mais. As horas que esperara para falar com ele levaram-na quase ao desespero.

        - A Rita! - insistiu Charlene.

        - No fao a mnima idia de onde  que ela est. Na cama dela, presumo. E eu, minha querida, vou dormir. Tenho de me levantar cedo. E j no tenho a tua 
idade. Preciso dormir.

        - De carinhos,  que precisas! Se eu estivesse a, no pregaramos olho toda a noite, e sabes bem que no estou a mentir!

        - Eu sei.  por isso que no ests aqui. Precisamos  dormir.

        - Porque no vou ter contigo agora?

Charlene mal conseguia articular as palavras. Parecia estar mais bbeda do que inicialmente, e continuava a beber enquanto falava.

        - Estou cansado, Charlene. E tu tambm pareces no estar em muito boas condies. Porque no descansamos esta noite?

Comeava a notar-se algum enfado na voz de Coop.

        - Eu vou j para a.

        - No vens, no!

        - Salto o porto.

        - Os seguranas apanhavam-te, e seria embaraoso para ti. Vamos dormir e falamos com mais calma amanh.

Coop no tinha a mnima vontade de entrar em discusso com a moa, especialmente estando ela bria e encolerizada.

        - Falar amanh? Ests me traindo com a Rita Waverly?

        - O que fao ou no fao no  da tua conta. O termo trair pressupe um compromisso srio entre ns, coisa que, efetivamente, no existe. Agora, fica l 
com as tuas maluquices. Boa noite, Charlene! - disse, com firmeza, e desligou de imediato.

O celular tocou logo a seguir, mas Coop no atendeu.

        Charlene tentou para o telefone fixo. Nas duas horas seguintes, o telefone no parou de tocar, at que Coop o desligou da tomada. Detestava mulheres possessivas 
que faziam cenas. Estava na hora dela desaparecer da sua vida. Tinha pena que Liz no estivesse por perto. Fora sempre uma pessoa impecvel para lidar com aquele 
tipo de situaes. Se Charlene tivesse sido mais importante para ele, ter-lhe-ia mandado uma pulseira de diamantes, uma coisa desse gnero, para agradecer o tempo 
que haviam passado juntos. Mas no era esse o caso, e um presente s a encorajaria a tentar reatar a relao. Charlene era o tipo de mulher com quem se tinha de 
acabar de repente, evitando qualquer contato posterior. Que pena ter feito aquela cena, meditou, enquanto adormecia. Se no tivesse reagido daquela maneira, teria 
andado com ela mais umas duas ou trs semanas, mas no mais do que isso. Porm, depois daquela noite, Charlene estava destinada a uma sada de cena a toda a velocidade. 
Coop ficou convicto disso ao ouvir o telefone, ao longe, pela centsima vez antes de adormecer. A moa j pertencia ao passado. Adeus, Charlene!

        Na manh seguinte, quando Paloma lhe serviu o pequeno-almoo num tabuleiro, Coop falou-lhe, com alguma discrio, de Charlene. A salvadorenha estava melhor 
do que nos primeiros dias, embora lhe tivesse servido os ovos estrelados carregados de pimenta, a tal ponto que, mesmo tendo-os cuspido para o prato por no agentar 
o ardor, passou o resto do dia com a boca abrasada. Ela dissera-lhe que aquele prato era um banquete, ao que Cooper lhe suplicou que no voltasse a oferecer-lhe 
tal "banquete".

        - Paloma, se Charlene telefonar, diz-lhe, por favor, que sa, esteja ou no em casa. Percebeste?

Paloma olhou-o de sobrolho franzido. Coop j se habituara a v-la com os culos de aros brilhantes. De qualquer forma, pela expresso do rosto, era fcil perceber 
o seu estado de esprito: reprovao, desdm, raiva. Entre amigos, costumava referir-se a Coop como "o velho nojento".

        -J no gosta dela?

Deixara de usar o sotaque quando falava com ele. Tinha outros truques na manga. Adorava provoc-lo das mais variadas formas.

        - A questo no  essa. S que... o nosso curto interldio... chegou ao fim.

Nunca teria tido de dar qualquer explicao a Liz, e muito menos  criada. Mas Paloma parecia determinada a ser a campe da defesa das vtimas da injustia social 
e da condio feminina.

        - Interldio? Interldio? Isso quer dizer que nunca mais ir dormir com ela?

Coop estremeceu.

-  uma forma grosseira de encarar a questo, mas correta. No me voltes a passar os telefonemas dela, por favor. No poderia ter sido mais claro.

Meia hora depois, Paloma estava a dizer-lhe que tinha uma chamada.
        - Quem ? - perguntou, distrado. Lia um argumento na cama, e tentava descobrir se haveria algum papel  sua medida.

        - No sei. Parece a voz de uma secretria - respondeu Paloma.

Coop pegou no telefone. Era Charlene.

Estava histrica, a soluar, e dizia que queria v-lo imediatamente, e que, se isso no acontecesse, teria um esgotamento nervoso. S aps uma hora  que Coop conseguiu 
desligar o telefone, depois de lhe dizer que a relao no era boa para ela, que seria mais sensato se deixassem de se ver durante uns tempos, que este era o tipo 
de dramatismo que sempre evitara na vida e que no tinha inteno de voltar a v-la. Charlene ainda chorava, mas j sem histerismo, quando Coop desligou, finalmente, 
o telefone. E foi de imediato ter com Paloma. Ainda estava de pijama, quando a encontrou na sala de estar, a aspirar o p. Tinha uns tnis novos calados, de veludo 
cor-de-rosa, que condiziam, naturalmente, com os culos de aros brilhantes. Paloma no ouviu uma palavra do que ele estava a dizer-lhe. Coop desligou o aspirador 
e ela olhou-o com indiferena.

        - Sabias muito bem quem era - acusou Coop. Dificilmente perdia a calma com quem quer que fosse, mas Paloma punha-o fora de si. Sentia vontade de a estrangular, 
a ela e a Abe, por ter despedido o resto do pessoal e a ter escolhido para ficar com ele. Era uma autntica bruxa.

        - No. Quem? - perguntou, com ar inocente. - Rita Waverly?

Paloma tambm o vira na cerimnia do Globo de Ouro, e dissera a todos os seus amigos que ele no passava de um estupor. Coop no teria gostado de ouvir os comentrios 
que ela tecera a seu respeito.

        - Era a Charlene. Foi uma baixeza, aquilo que me fizeste. No s a irritou a ela como a mim. Ficou histrica. No  propriamente assim que gosto de comear 
o dia. E aviso-te mais uma vez: se a deixares entrar nesta casa, ponho-as s duas na rua, chamo a polcia e acuso-as de invaso de propriedade.

        - No fique to nervoso - retorquiu Paloma, com ar adocicado.

        - No estou nervoso, estou zangado, Paloma! Dei-te instrues precisas de que no queria falar com Charlene.

        - Esqueci-me. Ou ento no lhe reconheci a voz. Est bem, no volto a atender o telefone.

Mais uma vitria da sua parte, e mais uma tarefa que deixava de realizar, o que ainda o enfureceu mais.

        - Vais, e vais mesmo, atender o telefone, Paloma! E no vais dizer  Charlene que estou em casa. Entendido?

A salvadorenha fez um gesto afirmativo com a cabea e ligou novamente o aspirador, em ar de desafio. Sabia provoc-lo na perfeio. Dominava tambm a tcnica da 
agresso passiva.

        - timo. Obrigado - concluiu Coop, voltando-lhe as costas e subindo as escadas que nem um furaco.

        Quando chegou  cama, no conseguiu concentrar-se no argumento que estava lendo. Mais do que furioso com Paloma, estava aborrecido com Charlene, que se mostrava 
maadora, histrica e grosseira. Detestava mulheres que adotavam aquele tipo de comportamento. Quando se chegava ao fim de um romance, havia formas de se sair dele 
com elegncia, coisa que no era, certamente, o forte de Charlene. Palpitava-lhe que a moa iria ser um osso duro de roer. Ainda estava irritado quando, finalmente, 
saiu da cama, tomou uma ducha, fez a barba e se vestiu.

        Ia almoar no Spago com um realizador com quem trabalhara anos antes. Telefonara-lhe para convid-lo para o almoo. Queria saber quais eram os seus projetos. 
Nunca se sabia quando  que algum ia fazer um filme com um papel na sua medida. Estes pensamentos afastaram Charlene do seu esprito. A caminho do Spago, lembrou-se 
de que nunca mais soubera nada de Alex, e resolveu mandar-lhe nova mensagem. Deixou-lhe o nmero do celular no bipe.

Ficou surpreso, e satisfeito, quando, desta vez, ela lhe telefonou quase de imediato. Acabara de largar o celular no assento a seu lado.

        - Sim? Fala a doutora Madison. Com quem estou falando? - No reconhecera o nmero.

        - Fala Coop. Como est, doutora Madison?

Alex ficou surpreendida, mas contente, ao ouvir a voz de Coop.

        - Ontem  noite, eu o vi no Globo de Ouro. - Tal como meio mundo e toda a Hollywood.

        - No sabia que tinha tempo para ver televiso.

- E no tenho. Passei pela sala de espera,  procura dos pais de um dos meus doentes, e l estava voc, acompanhado da Rita Waverly. Estavam ambos esplendorosos 
- acrescentou. 
Era a mesma voz juvenil e a mesma franqueza que apreciara nela quando se conheceram. No havia artifcios, s beleza e inteligncia, ao contrrio do que acontecia 
com Charlene. Mas a comparao era injusta. Alex Madison tinha tudo a seu favor: a beleza, o charme, a inteligncia, a educao. Provinha de outro mundo. Por outro 
lado, Charlene fazia coisas que mulheres como Alex desconheciam. No mundo de Coop havia espao para ambas, ou teria havido, at  noite anterior. Mas sabia que, 
no seu mundo, nunca faltariam mulheres do gnero de Charlene. Havia-as aos montes. Mulheres como Alex  que eram raras. - Acho que foi voc que ligou para o meu 
bipe, ontem - disse, com voz cndida. - No reconheci o nmero e no tive tempo para lhe responder. Alis, s hoje  que vi a mensagem. Mas quando vi o mesmo nmero 
h pouco, achei por bem telefonar-lhe logo. Pensei que fosse algum colega meu. Ainda bem que voc no  mdico.

        - Tambm acho. Especialmente daqueles que tratam as criaturas pequeninas, parecidas com ratos, com que voc lida. Preferia ser barbeiro a fazer aquilo que 
voc faz. - Este horror fictcio fazia parte do jogo.

        - Que tal foi a cerimnia? Divertida? A Rita Waverly  muito bonita.  simptica?

A pergunta f-lo sorrir. "Simptica" no era propriamente o termo que teria escolhido para descrever Rita Waverly. A simpatia no era uma virtude muito prezada em 
Hollywood. Porm, tratava-se de uma personalidade importante, influente, bonita e charmosa, apesar de j um pouco avanada na idade.

        - Acho que o termo "interessante"  mais apropriado. Divertida. Tem muito de estrela de cinema - respondeu diplomaticamente.

        - Como voc - retorquiu Alex. Coop soltou uma gargalhada.

        - Na  mosca. O que  que vai fazer hoje? - Queria encontrar-se com ela, se, por acaso, conseguisse desvi-la dos afazeres na Unidade de Cuidados Intensivos.

        - Trabalho at s seis, depois, vou para casa dormir umas doze horas. Tenho de estar no hospital s oito da manh.

        - Trabalha demasiado, Alex.

        - Ser mdica estagiria  assim mesmo.  uma forma de escravido. Acabamos por nos habituar.

        -  de uma grande nobreza de carter. Acha que pode prescindir de uns minutinhos do seu precioso sono para jantar comigo logo  noite?

        - Consigo e com a Rita Waverly? - gracejou, mas sem a malcia que Coop detectara na voz de Charlene, tanto na noite anterior como nessa manh.

Alex no era da mesma estirpe. Toda ela era candura e decncia. Era uma lufada de ar fresco no mundo sofisticado de Cooper. E o fato de ser filha de Arthur Madison 
tambm tinha o seu peso. No podia ignorar-se tamanha fortuna.

        - Posso convidar a Rita, se quiser. Pensei que quisesse jantar a ss comigo.

        - Adoraria. - Alex sentia-se lisonjeada pelo convite de Coop. - Mas no sei se me aguentarei acordada at  hora do jantar.

        - Pode dormir durante o banquete. Depois, digo-lhe o que comi. O que  que acha?

        - Infelizmente,  a realidade. Talvez pudssemos encontrar-nos mais cedo. H cerca de vinte horas que no prego olho.

A sua tica profissional era inconcebvel para Coop, mas admirava-a por isso.

        - Ser interessante tentar. Aceito o desafio. Onde  que posso ir busc-la?

        - Que tal a minha casa? - Alex deu-lhe o endereo do seu apartamento, no Wilshire Boulevard, num edifcio de boa qualidade, mas no muito luxuoso. Era auto-suficiente 
do ponto de vista financeiro, no dependendo do salrio de mdica estagiria para levar uma vida desafogada. No entanto, o apartamento era muito pequeno. - Posso 
estar pronta por volta das sete. Mas no queria voltar para casa muito tarde. Amanh, no hospital, tenho de estar bem acordada e na posse de todas as minhas faculdades.

        - Compreendo. Apanho-a s sete e vamos a um lugar simples e calmo. Prometo.

        - Obrigada.

Alex nem queria acreditar que ia jantar com Cooper Winslow. Se contasse, ningum acreditaria. Mal desligou, voltou para os seus afazeres, e Coop l continuou o seu 
caminho em direo do Spago.

        O almoo no deu os frutos por que ansiara. Ofereceram-lhe outro papel num anncio, desta vez para roupa interior masculina, mas recusou. Ao longo da carreira, 
nunca descuidara a importncia da imagem. Porm, as ameaas de Abe mantinham-se frescas no seu esprito. Por muito que detestasse ser movido por questes financeiras, 
sabia que tinha de fazer dinheiro. A nica coisa de que precisava era de um papel principal num filme de grande envergadura. Isso nunca lhe parecera impossvel, 
ou sequer improvvel. Era apenas uma questo de tempo. Entretanto, tinha de se sujeitar a aparies fugazes em alguns filmes, como ator convidado, e a participaes 
em anncios. E havia jovens como Alex Madison. Mas no andava atrs do dinheiro dela. Tratava-se de pura amizade.

Coop foi buscar Alex s sete em ponto, ao Wilshire Boulevard. Ela saiu ainda antes de ele ter tempo de chegar  porta da entrada. O edifcio tinha um ar respeitvel, 
embora um pouco deteriorado. Chegou a admitir, no carro, que o apartamento era horrvel.

- Porque no compra uma casa? - perguntou Coop, ao volante do seu Rolls favorito.

        O dinheiro no representava grande coisa para Alex. Mostrava-se muito discreta, sem qualquer tipo de jias e com um vesturio simples. Trazia calas pretas, 
camisa de gola alta, tambm preta, e um bluso da marinha em segunda mo. Ele envergava calas cinzentas, camisa de caxemira preta, um casaco de cabedal e sapatos 
de pele de crocodilo. Ao ver o tipo de roupa que ela usava, Coop optou por lev-la a um restaurante chins. Quando lhe disse, Alex ficou deleitada.

        - No preciso de uma casa. Raramente estou em casa, e quando estou, aproveito para dormir, e no sei se vou ficar aqui. Quando acabar o internato, no sei 
para onde vou, embora no me importasse de ficar em Los Angeles.

        O nico lugar para onde sabia que no voltaria era para Palm Beach, para casa dos pais. Tratava-se de um captulo da sua vida que se encontrava encerrado. 
S ia l nas frias e em ocasies muito especiais, e o menor nmero de vezes possvel.

        Coop passou uma noite fascinante na companhia de Alex. Falaram de milhares de assuntos diferentes: do Qunia, da Indonsia, por onde ela viajara depois de 
acabar a universidade; de Bali, um dos seus locais favoritos, juntamente com o Nepal, onde realizara longas e rduas caminhadas. Falou dos livros que lia, a maioria 
dos quais de escritores conceituados. E tinha um gosto muito ecltico no campo musical. Possua ainda vastos conhecimentos sobre antiguidades e arquitetura. Interessava-se 
por poltica, especialmente a de sade, e estava a par da legislao mais recente sobre o tema. Coop nunca conhecera ningum como ela. Era uma mulher de ideias muito 
arrumadas. Cooper tinha de dar o mximo de si para conseguir acompanh-la, e gostava disso. Quando lhe perguntou a idade, Alex respondeu que tinha trinta anos. Quanto 
 idade de Cooper, achava que devia andar nos cinquenta e muitos, sessenta e poucos. Sabia que ele fazia filmes h muito tempo, mas no tinha a menor ideia da idade 
com que comeara. Teria ficado boquiaberta se soubesse que Coop j fizera setenta anos.

        Alex passou uma noite maravilhosa na sua companhia, e foi isso mesmo que lhe disse no caminho de regresso a casa. Eram apenas nove e meia. Coop tivera o 
cuidado de no ret-la at muito tarde, pois, caso contrrio, ela mostrar-se-ia relutante em voltar a sair com ele. Sabia que Alex tinha de levantar-se s seis e 
meia da manh.

        - Foi muito gentil em aceitar o meu convite. Teria ficado desapontado se no o tivesse aceito.

        - Foi uma gentileza da sua parte, Coop. Diverti-me imenso e o jantar estava delicioso.

        Simples, mas bem feito. E Coop fora uma companhia excelente, melhor do que ela esperava. No lhe pareceu um homem cheio de tiques de estrela, mas inteligente, 
afvel e bem informado. No ficou com a sensao de que ele estivesse a representar.

- Gostaria de voltar a v-la, Alex, se tiver tempo e no estiver comprometida.

Ainda no lhe perguntara se tinha namorado. Embora nenhum homem o tivesse alguma vez desviado dos seus intentos.

        - De momento, no estou comprometida com ningum. Nem tenho sequer tempo para isso. No sou uma pessoa em quem se possa confiar muito na marcao de encontros. 
Ou estou de servio normal ou de planto.

        - Eu sei - disse Coop, sorrindo. - Ou a dormir. J lhe tinha dito, gosto de desafios.

         Mas mesmo muito.

        - Graas ao seu cunhado? - indagou Coop, e ela fez um gesto afirmativo com a cabea.

        - Ele deu-me algumas lies muito dolorosas. Desde a, no me tenho aventurado muito para guas mais profundas. Prefiro ficar com a gua pelos joelhos. Assim, 
consigo dominar as situaes.

        - Mas se for o homem certo, ter de arriscar.

        Havia alguma verdade nas palavras de Coop. Mas Alex tinha um terror imenso de voltar a ser magoada e no tornara a envolver-se seriamente com ningum desde 
que rompera com aquele que viria a ser seu cunhado.

        - A minha vida  o meu trabalho, Coop. Desde que ambos compreendamos isso, poderemos continuar a encontrar-nos.

        - timo. Eu telefono-lhe.

        Mas isso s aconteceria dali a algum tempo. Tinha instinto para estas coisas. Queria que ela sentisse saudades suas e comeasse a ficar ansiosa por um telefonema 
seu. Coop sabia exatamente como lidar com as mulheres.

        Alex despediu-se de Coop sem o beijar, agradecendo, mais uma vez, a estupenda noite passada na sua companhia. Coop aguardou mais uns instantes, at ela entrar 
em segurana no edifcio. Ao arrancar, fez um gesto de despedida com a mo, deixando-a algo pensativa. Mantinha ainda algum ceticismo relativamente aos reais intentos 
do velho ator. Seria fcil apaixonar-se por uma pessoa to afvel e com tanto charme como ele, mas ainda no o conhecia suficientemente bem para saber que tipo de 
conseqncias da poderiam advir. Ao entrar no apartamento, ainda se perguntava se deveria ou no voltar a sair com ele, ou se seria arriscado. Coop era um homem 
muito experiente.

        Despiu-se e atirou a roupa para cima de uma cadeira, onde j havia uma pilha de roupa dos ltimos trs dias. Nunca arranjava tempo para ir  lavanderia.

        Ao volante do carro, a caminho de casa, Coop irradiava felicidade. As coisas haviam corrido tal qual pensara. E, fossem quais fossem as intenes, tanto 
dele como dela, fora um bom comeo. Mas primeiro tinha de ver para que lado soprava o vento. Alex Madison era uma boa opo.

        No estava muito preocupado com essa questo, e Alex tambm no tinha energia suficiente para isso, adormecendo ainda antes de Coop chegar ao Chal.
CAPTULO 9

        Nessa noite, Charlene telefonara meia dzia de vezes; e, pelo menos, mais uma dzia na manh seguinte. Mas, desta vez, Paloma no desrespeitara as ordens 
de Coop. Sabia que ele a teria matado. Dois dias depois, Cooper atendeu, finalmente, um telefonema de Charlene. Tentava acabar a relao de forma delicada, se bem 
que no falar com ela durante dois dias no correspondesse ao conceito que Charlene fazia de delicadeza.

        - Que se passa? - perguntou Coop, num tom despreocupado, ao atender a chamada. - Como ests?

        - Estou ficando maluca,  assim que estou - retorquiu Charlene, furiosa. - Onde diabo tens andado?

        - Tenho andado a fazer um anncio. - Uma mentira que a acalmou por instantes.

        - Podias, pelo menos, ter-me telefonado. - Parecia ofendida.

        - Pensei nisso - mentiu -, mas no tive tempo. E tambm achei que estvamos precisando de algum tempo para pr as idias no lugar. Isto no vai dar em nada, 
Charlene. Espero que tambm tenhas plena conscincia disso.

        - E porque  que no h-de dar certo? Temo-nos entendido lindamente.

        - Pois temos. Mas, seja como for, sou demasiado velho para ti. Precisas de encontrar algum da mesma idade com quem te possas divertir. - Nunca lhe ocorrera 
que ela s tinha menos um ano do que Alex.

        - Esse fato nunca te impediu de fazeres tudo o que te apeteceu. - Sabia, pelos tablides e pelas pessoas que o conheciam, que ele chegara a andar com mulheres 
ainda mais novas do que ela. - Isso no passa de uma desculpa, Coop. E tinha razo, mas o velho ator nunca o teria admitido.

        - No mundo do cinema,  difcil manter uma relao durante muito tempo - retorquiu Coop, tentando outra abordagem do problema.

        Mas esse argumento tambm no era plausvel. Ambos sabiam que andara durante longos perodos de tempo com algumas atrizes. S com Charlene  que no queria 
continuar. Achava-a vulgar, pelo menos na forma como se vestia, e era obsessiva. Alm disso, ela aborrecia-o. Estava muito mais interessado em Alex. E a sua fortuna 
tambm no lhe era indiferente. No que fosse esse o seu principal atrativo, mas era mais um estmulo a acrescentar ao desejo e ao fascnio que sentia por ela. Charlene 
no tinha nada disso para oferecer. E Coop estava perfeitamente ciente de que, se queria cortejar Alex, no poderia andar atrs de outro rabo de saias. Aparecer 
nos tablides com uma rapariga que comeara como atriz porno no iria beneficiar em nada os seus intentos de conquistar Alex. De momento, era Alex o objecto do seu 
interesse. Charlene j passara  histria. Tivera muitas garotas como ela, e sempre se cansara rapidamente. E os poucos aspectos exticos que possua, como o fato 
de ter uma av japonesa, ter vivido em Paris e crescido no Brasil, no ocultavam o que lhe faltava em educao. Alm disso, parecia ser uma pessoa de baixa formao 
moral e algo desequilibrada. E ainda no percebera que chegara a altura de desaparecer, mais parecendo um pit buli agarrado a um osso, coisa que Coop detestava. 
Preferia acabar as relaes de forma calma, sem ressentimentos, e no daquela forma tempestuosa. Sentia-se magoado com Charlene por isso, e tinha sempre a sensao 
claustrofbica de estar caindo numa armadilha cada vez que falava com ela.

        - Telefono-te dentro de alguns dias, Charlene - disse Coop, o que a enfureceu mais.

        - No, no vais telefonar nada. Ests mentindo.

        - Eu no minto - respondeu Coop, num tom de quem se sente ofendido. - Tenho uma chamada em espera na outra linha. Preciso  desligar.

        - s um mentiroso! - gritou Charlene, ao mesmo tempo que Coop desligava calmamente.

        No lhe agradava nada a forma como ela estava se comportando. Durante a noite, os constantes telefonemas da moa foram um problema tremendo. Coop pouco podia 
fazer. Ela acabaria por desistir, mas, entretanto, estava sendo muito desagradvel com o velho ator.

Nessa tarde, Coop telefonou a Alex, mas ela s pde responder ao telefonema  noite, deixando-lhe uma mensagem no voice mail. Dizia que ia para a cama s nove, pois 
tinha de se levantar s quatro da manh. Estabelecer uma relao com ela no ia ser tarefa fcil, mas decerto valeria a pena.

Na tarde seguinte, conseguiu entrar em contato com Alex, que dispunha de pouqussimos minutos para falar, e estava de servio nos dias seguintes, o que no a impediu 
de aceitar o convite para jantar no domingo, apesar de estar de planto.

        - Que  isso de estar de planto? Telefonaram-lhe a pedir conselhos? - perguntou, esperanado.

No se lembrava de alguma vez ter sado com uma mdica, mas j andara com enfermeiras e at com uma quiroprtica.

        - No - respondeu Alex, soltando uma gargalhada, para deleite de Cooper. - Significa que tenho de sair imediatamente se me mandarem um bipe.

        - Nesse caso, tenho de lhe confiscar o bipe.

        - H dias em que dava um jeito. Tem a certeza de que quer me convidar para jantar se eu estiver de planto?

        -  Certeza absoluta. Se tiver de sair, levo-lhe um saquinho com os restos.

        - No prefere esperar at eu ter um dia completamente livre? Tenho um, na prxima semana.

        - No, quero v-la o mais breve possvel, Alex. Fao uma coisa simples.

        - Vai cozinhar? - Parecia impressionada. At ele estava impressionado: a nica coisa que sabia fazer eram torradas para caviar, ou ferver gua para o ch.

        - Arranjo uma coisa qualquer.

        A vida sem cozinheira era um novo desafio para Coop. Estava  pensando em telefonar para o Wolfgang Puck e encomendar massa e pizza de salmo. A idia agradou-lhe 
e, no sbado, ligou  pedindo que lhe enviassem uma refeio simples para duas pessoas e um garon.

        Alex chegou s cinco da tarde de domingo, no seu prprio carro, pois poderia precisar dele caso fosse chamada ao hospital. Quando viu o Chal, ficou bastante 
impressionada. Ao contrrio de garotas como Charlene, j vira casas daquele gnero. Alis, j vivera em vrias. A casa dos pais em Newport era muito parecida, s 
que maior. Mas no comentou esse fato com Coop, no queria ser indelicada. Achou a casa e os jardins maravilhosos e estava ansiosa por dar um mergulho na piscina. 
Coop dissera-lhe para trazer o traje de banho, e ela acabara de se meter na gua, nadando, com braadas suaves de uma ponta  outra da piscina, perante o olhar deleitado 
de Coop, quando Mark e Jimmy apareceram, de cales, depois de jogarem uma partida de tnis, ficaram espantados por encontrarem Coop na companhia de uma jovem to 
bonita, e ela tambm ficou espantada ao v-los conversar com Coop.

        Alex nadou at a beira da piscina, e Mark quase arregalou os olhos. Achou-a bonita e muito mais interessante do que a garota que lhe fizera o caf.

        - Alex, gostariaa de lhe apresentar os meus convidados declarou Coop, com alguma pompa.

        - Este lugar  maravilhoso - Alex falava-lhes com um sorriso. - So uns privilegiados.

        Mark e Jimmy concordaram e, poucos minutos depois, juntaram-se a ela na piscina. Coop raramente nadava. Apesar de ter sido capito da equipe de natao na 
universidade, preferia ficar a apanhar sol e a tagarelar, deliciando toda a gente com as suas histrias de Hollywood.

        Ficaram junto  borda da piscina at s seis horas. Coop mostrou a casa a Alex, que aproveitou para vestir roupas secas. Entretanto, o criado do Wolfgang 
andava atarefado na cozinha, preparando o jantar para as sete, como Coop lhe pedira. Na biblioteca, ainda antes de se sentarem, Coop ofereceu um clice de champanhe 
a Alex, que recusou: estar de planto significava que no podia tocar em lcool, pois poderia ter de voltar ao hospital a qualquer momento. Mas, para alvio de ambos, 
o bipe continuava mudo.

        - Os seus convidados parecem muito simpticos - comentou Alex, enquanto Coop bebericava um clice de Cristal e o criado servia hors d'oeuvres. - Donde  
que os conhece?

        - So amigos do meu contabilista - respondeu Coop, descontraidamente, o que era meia verdade, mas explicava a presena deles na sua propriedade.


-  muito simptico da sua parte deix-los ficar aqui. Parecem adorando.

Mark dissera que ia fazer um churrasco nessa noite e convidara Coop e Alex, mas o velho ator declinara o convite, afirmando ter outros planos. Mark mostrara-se interessado 
em Alex e tecera alguns comentrios, em voz baixa, sobre ela, depois de a jovem e Cooper voltarem para casa.

        - Uma jovem muito engraada - afirmou Mark, mas Jimmy no reparara nesse aspecto. O seu esprito continuava muito conturbado, e no mostrava qualquer interesse 
por mulheres. Mark estava recompondo-se mais rapidamente e o seu rancor por Janet tornava as outras mulheres mais atraentes. A sua mgoa era muito diferente da de 
Jimmy. - Surpreende-me que Coop esteja interessado nela.

        - Porqu?

Jimmy parecia espantado. No reparara muito no aspecto fsico de Alex, mas apercebera-se de que era inteligente e ouvira Coop dizer que era mdica.

        - Muita inteligncia, mamas pequenas. No  o tipo de mulher que ele aprecie, por aquilo que me foi dado ver at agora - explicou Mark.

        - Talvez goste de outros tipos - sugeriu Jimmy. Havia nela algo que lhe era familiar. No sabia se por ser o tipo de mulher mais freqente em Boston, ou 
se por alguma vez a ter visto. No lhe perguntara qual a especialidade de Medicina que exercia, pois Coop monopolizara a maioria das conversas com as suas histrias. 
Sempre divertidas. Era fcil perceber por que razo as mulheres gostavam da sua companhia. Tinha imenso charme, era bonito e inteligente.

        No preciso momento em que Cooper e Alex se sentaram  mesa, Mark comeara a fazer o churrasco. Era a primeira vez que usava o sua grelha; na semana anterior, 
haviam usado a de Jimmy, e as costeletas tinham ficado excelentes. Mark ia fazer hambrgueres com salada. Estava tudo  correndo bem, quando, de repente, ao deitar 
um pouco de combustvel a mais por cima do carvo, as chamas se atearam de tal maneira que, por instantes, pareceram ficar fora de controle.

        - Merda, h muito que no me acontecia uma destas! desculpou-se, tentando apagar as chamas e salvar o jantar.

        Mas, um minuto depois, ouviu-se uma pequena exploso. Coop e Alex tambm a ouviram na sala de jantar, onde se deliciavam com um elegante jantar, oferecido 
devido  gentileza do Wolfgang. Comiam pato  Pequim, acompanhado por trs tipos de massa, uma enorme salada de legumes chineses e po caseiro.

        - Que foi aquilo? - perguntou Alex, com ar preocupado.

        - O IRA, presumo - retorquiu Coop, aparentemente indiferente e retomando a refeio. - Devem ter sido os meus convidados que fizeram a ala de hspedes ir 
pelos ares.

        Mas quando Alex olhou, por sobre o ombro, para a janela, viam-se nuvens de fumo asaindo de entre as rvores e um pequeno arbusto a pegar fogo.

- Oh, meu Deus, Coop... acho que as rvores esto a arder!

Coop ia dizer-lhe que no se preocupasse, quando se virou e deparou com o mesmo espetculo.

        - Vou buscar um extintor - anunciou, sem sequer saber se tinha um e, se o tinha, onde estava.

        -  melhor telefonar para os bombeiros. - Alex tirou o celular da bolsa e fez a ligao, enquanto Coop saa  correndo.

        Mark estava como que petrificado, junto a grelha, enquanto Coop e Jimmy tentavam abafar as chamas com toalhas. Em vo. Dez minutos depois, quando os bombeiros 
chegaram, j o fogo comeava a tomar propores alarmantes. Alex estava horrorizada. A nica preocupao de Coop era a casa. Os bombeiros dominaram o fogo em menos 
de trs minutos. Os estragos no foram muitos,  exceo de vrios arbustos que ficaram bastante queimados. Os bombeiros rodearam Coop que, durante dez minutos, 
no fez outra coisa seno dar autgrafos, e contar histrias da guerra e das suas experincias como bombeiro voluntrio em Malibu, trinta anos antes.

        Ofereceu um copo de vinho a cada um, que eles declinaram, mas, meia hora depois, ainda ali estavam, ouvindo as histrias do velho ator, enquanto Mark continuava 
a desculpar-se. Coop asseverou-lhe que os estragos no haviam sido de grande monta. Entretanto, Alex recebeu uma mensagem no bipe e teve de telefonar para o hospital.

        Afastou-se do local onde todos conversavam para poder ouvir melhor. O estado de sade de dois dos seus bebs prematuros agravara-se, e um deles acabara por 
morrer. O mdico de servio no sabia mais o que fazer e precisava da sua ajuda. E um outro prematuro com problemas de hidrocefalia estava prestes a dar entrada 
no hospital. Ao aproximar-se novamente do grupo, Alex olhou para o relgio. Prometera estar no hospital dentro de um quarto de hora, ou menos, se possvel.

        - Qual  a sua especialidade? - indagou Jimmy, enquanto os outros continuavam a conversar.

        Coop no nem dera pelo bipe, nem pelo telefonema. Jimmy, porm, ficara intrigado com as perguntas que a ouvira fazer ao celular. Alex parecia muito competente.

        - Neonatologia. Sou estagiria da UCLA.

        - Deve ser interessante - retorquiu Jimmy, enquanto Alex chamava a ateno de Coop e lhe dizia que tinha de se ir embora.

        - No se deixe assustar por estes dois incendirios gracejou Coop, sorrindo na direo de Mark. Estava a encarar o incidente na desportiva, o que deixou 
Alex impressionada. O seu pai teria tido um ataque.

        - De modo nenhum. Que mal tem uma fogueirinha entre amigos? Telefonaram-me do hospital. Tenho mesmo de ir.

        - Telefonaram? Quando? No ouvi nada.

- Estava conversando. Tenho de  estar l dentro de dez minutos. Peo imensa desculpa.

J o havia avisado, mas era sempre uma situao aborrecida. Alm disso, passara uns momentos muito agradveis na sua companhia.

        - Porque no come qualquer coisa rapidamente antes de ir? A comida est excelente.

        - Eu sei. Adoraria ficar, mas esto precisando de mim. Tiveram duas emergncias, e j vem outra a caminho. Tenho de me apressar - desculpou-se. Cooper parecia 
desconsolado, tal como Alex. S que ela j estava habituada. - Mas gostei muito deste bocadinho. Adorei a piscina.

        Passara ali quase trs horas, o que era um recorde quando estava de planto. Despediu-se de Jimmy e de Mark, e Cooper acompanhou-a at ao carro. Prometeu 
telefonar-lhe mais tarde. Dois minutos depois, Coop estava de volta, sempre de sorriso nos lbios.

        - Foi bom mas ficou pouco tempo - comentou para os seus inquilinos, com alguma tristeza no olhar. Eles j estavam a habituar-se a serem chamados de convidados. 
E dava a impresso de que Coop os considerava como tal.

        - Muito simptica! - elogiou Mark, com pena de que ela pertencesse a Cooper (ou, pelo menos, assim parecia), embora um pouco nova para si. Mas mais nova 
ainda para Cooper. Tal como a maioria das mulheres com quem ele andava, que poderiam ser suas netas.

        - Os cavalheiros importam-se que os convide para jantar? - sugeriu a Jimmy e Mark, cujos hambrgueres se haviam transformado em carvo. - O Wolfgang Puck 
mandou uma refeio muito bem feita. Alm disso, detesto comer sozinho.

        Meia hora depois, Coop e os seus convidados deleitavam-se com o pato  Pequim, o sortido de massas e a pizza de salmo. Enquanto isso, o velho ator regalava-os 
com mais algumas das suas histrias. O vinho foi servido com liberalidade, pelo que, quando Mark e Jimmy saram, s dez horas, j haviam bebido bastante e tinham 
a sensao de que Coop no era um novo amigo, mas um amigo de longa data. Se o vinho era excepcional, o jantar ento estava delicioso.

        -  um tipo genial - comentou Mark para Jimmy, a caminho da ala de hspedes.

        - Sem dvida - concordou Jimmy, calculando, pela nvoa que o cercava, da terrvel dor de cabea que o esperava ao acordar. Mas, de momento, achava que valera 
a pena. Fora uma noite muito divertida. Mais do que poderia ter imaginado. O fato de conviver com uma estrela de cinema ainda lhe parecia irreal.

        Os dois amigos despediram-se e regressaram s respectivas casas, enquanto Coop, sentado na biblioteca, saboreava um clice de porto. Fora uma noite agradvel, 
se bem que muito diferente daquilo que esperara. Lamentava que Alex tivesse sido obrigada a ir-se embora to cedo, mas os seus dois inquilinos eram divertidos e 
acabaram por revelar-se uma companhia agradvel. E os bombeiros tambm tinham contribudo para animar o sero.

        Era meia-noite quando Alex se sentou no consultrio, a beber uma chvena de caf - demasiado tarde para telefonar a Coop. Tambm no tivera a noite que esperara. 
O beb hidrocfalo encontrava-se em estado crtico. O primeiro beb, que estivera entre a vida e a morte, melhorara muito. A morte do outro constitura um enorme 
choque para todo o corpo clnico. Alex perguntava a si mesma se alguma vez se habituaria quele tipo de situao, mas, no fundo, era esta a natureza da sua profisso. 
Enquanto se acomodava num div do seu consultrio, interrogava-se sobre o que aconteceria se alguma vez levasse Coop a srio. Era difcil saber quem se escondia 
por detrs de todo aquele charme, argcia e histrias. Se no era s fachada. Sentia-se tentada a descobrir.

        A diferena de idades era considervel, mas Alex no se importava. Havia algo em Coop que a fazia ignorar todos os possveis riscos de se envolver com ele, 
algo que a encantava, hipnotizava e cativava. Por outro lado, tentava convencer-se de que sair com ele poderia no ser uma idia sensata. Era muito mais velho do 
que ela, era uma estrela de cinema, e vivera sempre rodeado de mulheres. Porm, a nica coisa em que pensava era no fascnio que o velho ator exercia sobre ela. 
A atrao que sentia por Coop parecia sobrepor-se aos contras que povoavam a sua cabea. Estava se apaixonando. Ao mergulhar no sono, ainda ouviu umas campainhas 
de alerta, mas resolveu ignor-las e ver at onde iriam as coisas.
CAPTULO 10

        Mark encontrava-se mergulhado num sono profundo, quando ouviu o telefone. Ainda fez um esforo para acordar, mas achou que era imaginao. Bebera de mais 
e sabia que, se abrisse os olhos, teria uma enorme dor de cabea, por isso manteve-os fechados e continuou a dormir. O telefone no parava de tocar. Abriu finalmente 
um olho e viu que eram quatro da manh. Resmungou qualquer coisa enquanto se virava na cama e percebeu que no se tratava de um sonho. O telefone estava mesmo a 
tocando, e no imaginava quem poderia ser quela hora. Pegou o fone e deixou-se ficar de barriga para cima e de olhos fechados. A dor de cabea j comeava a fazer-se 
sentir.

        - Quem fala? - perguntou, com voz roufenha, enquanto o quarto parecia andar s voltas. Por instantes, a nica coisa que conseguiu ouvir foi um choro. - Quem 
? - Ainda pensou que fosse engano. Era a filha, a telefonar-lhe de Nova Iorque. - Jessie? Querida, ests bem? O que  que aconteceu? - Talvez tivesse acontecido 
qualquer coisa a Janet ou a Jason. Porm, Jessica apenas conseguia chorar. Soluava de dor, como se tratasse de um animal ferido. S se lembrava de a ter visto assim, 
quando o co dela morrera. - Fala comigo, Jess... o que  que se passa? - Estava  entrando em pnico.

        -  a mame... - E l voltaram os soluos.

        - Teve algum acidente?

        Mark sentou-se na cama e estremeceu. Sentia-se como se o houvessem atingido com um tijolo na cabea, mas a adrenalina continuava a subir. E se ela tivesse 
morrido? Ficou agoniado s de pensar nessa eventualidade. Embora o houvesse abandonado, ainda a amava, e teria ficado de corao dilacerado.

        - A mame tem um namorado! - gemeu Jessica. Mark apercebeu-se de que eram sete da manh em Nova Iorque, mas apenas quatro na Califrnia. - N o conhecemos 
ontem  noite.  um paspalho!

-Estou certo que no, querida - contrariou Mark, tentando ser justo. Mas havia outra
parte de si que se sentia aliviada por Jessica no gostar dele.

        -  um dissimulado, papai. Finge que  um tipo porreta, mas passa a vida a dar ordens  mame, como se fosse dono dela. Ela diz que o conheceu h poucas 
semanas, mas eu no acredito. Sei que est mentindo. Ele passa a vida a falar de coisas que fizeram h seis meses e o ano passado, e a mame continua a agir como 
se no soubesse do que ele est falando, e est sempre a mand-lo calar. Achas que foi por isso que ela quis que nos mudssemos para Nova Yorque?

        O cu desabara sobre a cabea de Jessica e Janet fora insensata ao mentir s crianas. Sempre tivera curiosidade em saber como, e quando iria lidar com o 
problema. O fato  que j o havia feito, mas mal, a julgar pelos soluos de Jessie.

        - No sei, Jess. Tens de lhe perguntar.

        - Foi por isso que te deixou? - Eram questes complicadas e s quais no queria responder, muito menos no meio da noite e com uma ressaca tremenda. A dor 
de cabea comeava a adquirir propores assustadoras. - Achas que a mame j andava com ele? Era por isso que ela passava o tempo todo a viajar para Nova Yorque 
quando a vov estava doente e depois de morrer?

        - Ela dizia que estava preocupada com o av. E a av esteve doente durante muito tempo. Ela precisava estar l.

A resposta de Mark foi franca. Achava que competia a Janet contar-lhe o resto. Caso contrrio, Jessie nunca mais confiaria na me. E ningum poderia censur-la. 
Ele tambm deixara de confiar nela.

        - Quero voltar para a Califrnia - pediu Jessica, a fungar. J no soluava.

        - Eu tambm - repetiu Jason, que acompanhava a conversa noutra extenso. No chorava, mas parecia seriamente abalado. - Eu o detesto, papai. E tu tambm 
o devias detestar.  um autntico cara de cu.

        - Nova Iorque parece que no te melhorou a linguagem. Tm de discutir isso tudo calmamente com a tua me, no no calor do momento. E, por muito que me custe 
diz-lo, devem dar uma oportunidade a esse tipo. - Era pouco provvel que eles pudessem ficar entusiasmados com um namorado da me. Ou com algum com quem ele um 
dia andasse. Mas ainda no chegara a essa fase. - No importa h quanto tempo  que ele conhece a mame, pode ser um tipo legal. E, se  importante para ela, vocs 
no tm outro remdio a no ser habituarem-se a ele. No devem fazer juzos precipitados.

        Procurava ser sensato, tanto para bem deles como para bem dela, mas os filhos no queriam dar-lhe ouvidos. Porm, atear ainda mais o fogo contra o homem 
por quem a me se apaixonara, e por quem abandonara o pai, apenas os tornaria mais infelizes. Se ela acabasse por casar com Adam, teriam de aceit-lo. No havia 
outra alternativa.

        - Jantamos com ele, papai - contou Jason, com voz triste. - Trata a mame como se pudesse obrig-la a fazer tudo o que lhe apetece, e a mame come e cala. 
Quando ele foi embora, ela gritou conosco e, depois, chorou. Acho que gosta mesmo dele.

        - Talvez - retorquiu Mark, com alguma tristeza na voz.

        - Quero voltar para casa, papai - suplicou Jessica. Mas j no havia casa. Fora vendida. - Quero voltar para a antiga escola e viver contigo - insistiu.

        - Eu tambm - repetiu Jason.

        - Por falar em escola, no so horas de os meninos irem para a escola?

        Eram quase sete e meia em Nova Iorque e ouviu Janet dizer qualquer coisa em fundo. No tinha a certeza, mas parecia estar aos gritos. E teria gritado ainda 
mais se soubesse o que eles lhe haviam contado. Mas suspeitava que Janet no fazia a menor idia de que ele estava no telefone e que haviam sido as crianas a telefonar-lhe.

        - Falas com a mame sobre o nosso regresso para a Califrnia? - perguntou Jessica, numa voz quase imperceptvel, confirmando as suspeitas de Mark.

        - No. Vocs os dois tm de lhe dar uma oportunidade. Ainda  muito cedo para se tomar uma atitude drstica. S quero que vocs sejam sensatos nos juzos 
que fizerem. E, agora, quero que vo para a escola. Voltaremos a falar do assunto mais tarde.

        Muito mais tarde. Quando a ressaca lhe passasse.

        Estavam tristes quando desligaram e, pela primeira vez em dois meses, Jessica disse-lhe que o adorava. Sentiam-se revoltados com a me. A raiva acabaria 
por desvanecer-se e at poderiam vir a gostar de Adam,  medida que o fossem conhecendo melhor. Janet dizia que era um homem maravilhoso. Porm, l bem no fundo, 
Mark alimentava a esperana de que o detestassem ainda mais. Devido ao que ela fizera, era difcil no acalentar esse desejo.

        Depois de desligar, ficou pensativo, a matutar no que deveria fazer. De momento, nada, concluiu. Iria deixar as coisas assentar e ver o que acontecia. Deu 
meia volta na cama e tentou adormecer de novo, mas a cabea no parava de fervilhar, e estava preocupado com os midos. Eram seis horas quando, finalmente, cedeu 
 ansiedade e telefonou  me dos seus filhos. Tambm ela lhe pareceu triste.

        - Ainda bem que telefonaste - disse Janet, surpreendida ao ouvir a voz de Mark. - As crianas conheceram o Adam ontem  noite e foram horrveis para ele.

        - No me surpreende. Ainda  muito cedo para eles aceitarem a idia de te verem andar com outro homem. E talvez suspeitem de que j o conheces h mais tempo.

        - Foi disso que a Jessie me acusou. No lhe contaste, no ? - perguntou, numa voz que denotava algum pnico.

        - No, mas acho que devias lhes dizer. Caso contrrio, um dia um de vocs escorrega e eles ficam  sabendo. J suspeitam, por causa de algumas coisas que 
ele disse.

        - Como  que sabes? - indagou, perplexa, mas Mark resolveu ser franco com ela.

        - Eles telefonaram-me. Estavam muito tristes.

        - A Jessie, no meio do jantar, zarpou para o quarto e trancou-se. E o Jason recusa-se a falar com ele e comigo. A Jessie diz que me odeia - contou Janet, 
com a voz embargada.

        - Ela no te odeia. Sente-se magoada e revoltada, e suspeita de ti. E tem razo. Ambos sabemos que sim.

        - A Jessie no teve nada a ver com isso - respondeu Janet, num tom algo acalorado, com o sentimento de culpa  flor da pele.

        - Talvez no, mas ela acha que sim. Devias ter esperado mais algum tempo.

        Janet no queria dizer a Mark que Adam a pressionara para o apresentar s crianas e ela cedera aos seus desejos. Tambm achava que eles ainda no estavam 
preparados, mas Adam dizia que se recusava a andar com ela s escondidas. Se os sentimentos de Janet eram sinceros, queria conhecer as crianas. E acabou por ser 
um desastre. Depois do jantar, haviam tido uma tremenda discusso e ele partira, batendo com a porta. Fora uma noite de pesadelo.

        - O que  que eu fao agora? - perguntou, preocupada e, ao mesmo tempo, ansiosa.

        - Tens de esperar e levar as coisas com calma. D-lhes tempo.

        Janet omitiu que Adam pretendia mudar-se imediatamente l para casa, no estava disposto a esperar at se casarem, e ela no sabia como demov-lo. No o 
queria perder. Nem aos filhos. Sentia-se pressionada dos dois lados.

        - No  to fcil como pensas - retorquiu, em tom queixoso, como se fosse ela a vtima.

        - S no quero que as crianas saiam magoados disso tudo - avisou Mark. - No ests  espera, com certeza, que tanto eu quanto eles encaremos tudo isto com 
um sorriso nos lbios. A verdade  que foste tu que rompeste o casamento e, mais tarde ou mais cedo, eles vo acabar por saber. E vo ter muito que engolir. - Tambm 
ele engolira muita coisa, pelo amor que sentira, e ainda sentia, por ela. - Tm todo o direito de estar revoltados com vocs os dois.

        Tentava encarar as coisas de um ponto de vista racional. Detestava ser sempre ele o pacificador, mas sempre conseguira analisar os problemas sob vrios pontos 
de vista, e no apenas do seu. Era um dos seus pontos fortes, ao contrrio de Janet.

        - Sim, talvez tenhas razo. Mas no sei se ele ir compreender a situao. No tem filhos, por isso, custa-lhe entender certas coisas.

        - Talvez devesses arranjar outro tipo. Um tipo como eu, por exemplo.

        Janet no fez qualquer comentrio e Mark sentiu-se um idiota por ter dito tal coisa. O vinho, o porto, o brande no estavam a ajudar, nem a dor de cabea. 
A ressaca j se fazia sentir em toda a sua plenitude e ele ainda nem sequer se levantara. At o momento, estava  sendo uma manh muito agitada.

        - Acho que eles vo acabar por habituar-se - disse Janet, esperanosa. Adam no aceitaria outra coisa. Queria que as crianas gostassem dele, mas sentira-se 
insultado pela forma como se haviam comportado, e pusera Janet entre a espada e a parede.

        - Mantm-te em contato comigo - concluiu Mark, e desligou.

        Ficou na cama mais duas horas, incapaz de adormecer, com a cabea a estalar. Eram quase nove horas quando se levantou e j passava das dez quando chegou 
ao escritrio.  hora de almoo, os filhos voltaram a telefonar. Tinham acabado de chegar da escola e insistiam que queriam ir viver com ele, mas Mark disse-lhes 
que no ia fazer nada apressadamente. Primeiro, queria que esfriassem a cabea e que, pelo menos, procurassem ser justos com a me. Mas Jessica apenas dizia que 
detestava a me e que nunca mais lhe falaria se ela se casasse com Adam.

        - Queremos ir viver contigo, papai. - Estava sendo cruel com a me.

        - E se eu sair com uma pessoa de que no gostes? Temos de encarar os problemas de frente, Jessie.

        - Andas com algum, pap? - Parecia chocada. Nem ela nem Jason haviam pensado nessa hiptese.

        - No, mas um dia, muito provavelmente, andarei, e tambm pode acontecere de no gostares da pessoa.

        - Mas tu no deixaste a mam por causa de outra mulher. A mame  que te deixou pelo Adam. - As suspeitas de Jessica estavam corretas. No queria contar-lhe 
a verdade, mas tambm no queria mentir-lhe. - Se nos obrigares a viver com ela, fugimos, papai.

        - No faas ameaas, Jess. No  justo. J tens idade suficiente para perceber as coisas. E desculpas de andar a espicassar o teu irmo. Falamos disso tudo 
quando estivermos juntos, nas frias. Pode ser que j tenhas mudado de opinio e que acabes por gostar dele.

        - Nunca!

        Nas duas semanas que se seguiram, foi uma batalha constante. Lgrimas, ameaas, telefonemas no meio da noite. Adam fora suficientemente idiota a ponto de 
lhes dizer que queria viver com eles e com a me. Quando Mark  foi busc-los em Nova Iorque, estavam em guerra aberta com a me. E foi essa a conversa dominante 
nas frias. Janet estava de mos e ps atados com Adam, que passava a vida a dizer-lhe que ela estava a preteri-lo em favor dos filhos, que j esperara tempo suficiente, 
que queria viver com ela e com os filhos. Mas estes no o queriam. E, por arrasto, tambm no queriam a me. No final das frias, Mark conversou com Janet e explicou-lhe 
que no fazia a menor idia de como convenc-los a ficar com ela. Jessica ameaava contratar um advogado especialista em questes de crianas e pedir ao tribunal 
que a deixasse ir viver com o pai. E tanto ela como Jason j tinham idade para levar o caso ao tribunal.

        - Acho que tens um problema dos diabos em mos disse Mark. - No h maneira de inverter a situao. Que achas de eles voltarem para Los Angeles at ao fim 
do ano letivo? Depois, podes tentar dar-lhes a volta para regressarem a Nova Iorque. Acho que, se os obrigares a ficar, s vais piorar as coisas. No do ouvidos 
a ningum, nem querem entrar em qualquer tipo de acordo.

        Janet tentara resolver a situao da pior forma possvel e, agora, estava a pagar a fatura. Encontrava-se dividida entre a lealdade a Adam e a lealdade aos 
filhos. As duas faces estavam em confronto direto o tempo todo.

        - Vais mand-los  de volta no final do ano letivo? - perguntou, em pnico.

        No queria perder os filhos. Nem Adam. E este j lhe dissera que pretendia casar logo que o divrcio estivesse assinado e ter um, dois filhos dela. O problema 
 que no estava a imaginar-se a contar isso aos filhos. Mas trataria disso mais tarde. Agora, eles ameaavam sair de casa e voltar para junto do pai.

        - No sei o que fazer - retorquiu Mark, referindo-se ao ano letivo seguinte. - Depende daquilo que eles quiserem.

        Janet transformara a sua vida num autntico inferno e Mark quase sentia pena dela. Mas tambm se encontrava dividido relativamente ao que sentia. Ela quase 
o matara de desgosto ao deix-lo, e o pior de tudo era que ainda a amava, mas no se atrevia a dizer-lhe. Janet vivia completamente obcecada por Adam, o suficiente 
para destruir, no s o casamento, mas tambm a sua relao com os filhos. Aos olhos de Mark, ela no ganhara com a troca. Ele nunca teria preterido os filhos em 
relao ao que quer que fosse, e eles sabiam-no. Era por isso que queriam voltar a viver com ele.

        - Podes inscrev-los na antiga escola? -- perguntou Janet, limpando uma lgrima. Nunca imaginara chegar a uma situao daquelas.

        - No sei. Talvez. Vou tentar. ---

        - A tua casa tem espao que chegue?

        Estava praticamente resignada  idia. Via que no tinha outra alternativa, a no ser que deixasse de se encontrar com Adam, ou que o escondesse dos filhos, 
e ele nunca lhe permitiria tal coisa.

        -  a casa ideal para eles - asseverou Mark. Descreveu o Chal e todo o espao envolvente. Janet ouvia e chorava. Sabia que iria sentir-se infeliz sem os 
filhos, mas esperava que o tempo passado com o pai os acalmasse e os levasse a encarar a situao com outros olhos, quando voltassem para Nova Iorque. - Vou ver 
o que posso fazer. Depois telefono-te.

        Depois de falar com Janet, os dois midos assaltaram-no de imediato, querendo saber os termos do acordo a que os pais haviam chegado.

        - No h nada de concreto. Veremos o que se pode fazer. Nem sequer sei se vocs podem voltar para a escola. E, acontea o que acontecer, quero que sejam 
simpticos com a vossa me.  uma situao muito dolorosa para ela, que os adora.

        - Se ela gostasse de ns, teria ficado contigo - respondeu Jessica, com aspereza, os olhos a transbordar de rancor.

        A bonita adolescente, de cabelos louros, tinha o corao dilacerado. E Mark esperava que a situao no viesse a afet-la negativamente no futuro. No queria 
que o divrcio destrusse as crianas.

        - As coisas no funcionam assim, Jess - retorquiu, com ar triste. - As pessoas mudam... as vidas mudam... nem sempre podemos ter aquilo que pensamos ter, 
ou fazer aquilo que dissemos que faramos. A vida d muitas voltas.

        Mas eles no estavam dispostos a dar-lhe ouvidos. Continuavam furiosos com a me e o namorado.

        Nessa noite, Mark apanhou o avio de regresso  Califrnia, e passou a semana seguinte em negociaes com a escola, para que esta aceitasse de novo os seus 
filhos. Haviam sado h menos de trs meses e freqentavam uma excelente escola em Nova Iorque, por isso, no havia qualquer problema relativamente a matria no 
lecionada. No final da semana, a escola autorizou a transferncia. O resto era simples. A nica coisa que tinha a fazer era contratar uma baby-sitter, para tomar 
conta deles enquanto estivesse a trabalhar, e ele os levaria s atividades desportivas, ao fim da tarde. Telefonou para Janet no fim-de-semana.

        - Est tudo resolvido. As crianas podem regressar  escola na segunda-feira, se quiserem, mas achei que gostarias de os ter a mais uma semana, para poderem 
fazer as pazes. Manda-os vir quando quiseres.

        - Obrigada, Mark. Obrigada por tudo. Acho que no mereo tanto. Vou ter tantas saudades deles... - respondeu Janet, comeando a chorar novamente.

        - Eles tambm vo ter saudades tuas. Quando j no estiverem chateados contigo, talvez queiram regressar  escola de Nova Iorque, depois das frias.

        - No sei. Eles so to peremptrios quando falam do Adam... e ele tem dificuldade em lidar com adolescentes, sobretudo porque nunca teve filhos.

        Do ponto de vista de Mark, a situao no era brilhante. Janet nunca soubera lidar com o stresse, e Mark sempre tivera de resolver as situaes mais delicadas. 
Mas, neste caso, Janet conduzira as coisas  sua maneira, e o resultado estava  vista.

        Quando, no domingo, informou os filhos de que podiam partir, eles nem sequer se preocuparam em fingir que tinham pena de a deixar. Ficaram radiantes e Jessica 
comeou a fazer as malas meia hora depois. Por vontade deles, teriam partido logo no dia seguinte, mas Janet insistiu para que ficassem mais uma semana. Contou-lhes 
que voltariam para Nova Iorque no Vero. Ela e Adam j haviam chegado a acordo para se casarem em Julho, quando o processo de divrcio estivesse concludo, mas no 
lhes disse nada. Receava que no voltassem se lhes desse a notcia. Teria de pensar numa forma de o fazer mais tarde.

        Janet passou toda a semana mergulhada numa profunda amargura, sabendo que os filhos iam deix-la. No sbado seguinte, colocou-os num avio rumo  Califrnia. 
Mark resolvera no contratar uma baby-sitter. Fizera um acordo com a governanta do seu senhorio. Ela tomaria conta deles. E seria Mark a lev-los s atividades desportivas, 
encurtando o dia de trabalho, se necessrio fosse. Os filhos mereciam um esforo da sua parte.

        Foi com ar destroado que Janet se despediu dos filhos, abraando-os ternamente. Jason ainda hesitou durante um bom bocado. Mesmo no querendo ficar, sentia 
pena da me. Jessica nem sequer se deu ao trabalho de olhar para trs, depois de se despedir da me com um beijo. Mal via a hora de chegar  Califrnia para se encontrar 
com o pai.

        Quando as crianas chegaram, foi num clima de incontido jbilo que se deu o reencontro. Mal o viram, correram para ele, radiantes de felicidade. Foi com 
os olhos marejados de lgrimas que abraaram Mark. As coisas estavam a melhorar para ele. Perdera Janet, talvez at por culpa sua, mas agora j tinha os filhos consigo. 
Era tudo o que queria na vida.
CAPTULO 11

        O horrio de trabalho de Alex era um mundo completamente novo para Cooper Winslow. Nunca conhecera uma mulher como ela. Chegara a andar com executivas, com 
advogadas, mas nunca com uma mdica. E muito menos estagiria. Quando saam juntos, iam a pizzarias, a restaurantes de comida rpida ou chineses, ao cinema, e quase 
todos os seus encontros eram interrompidos por telefonemas do hospital. Alex nada podia fazer. Era por isso que a maioria dos estagirios no tinha vida pessoal 
e muitos deles saam com colegas. Sair com uma estrela de cinema era uma experincia inteiramente nova para ela. Mas tinha pouco tempo e procurava geri-lo da melhor 
forma possvel. Coop fazia o melhor que podia para se adaptar a esta nova realidade. Andava entusiasmadssimo e a maior parte do tempo nem se lembrava de que ela 
era rica. De vez em quando, l lhe ocorria a idia, mas a fortuna de Alex no passava de um pequeno pormenor que embelezava ainda mais o embrulho. Era como o laarote 
vermelho num presente de Natal. No entanto, procurava no pensar nisso. A nica coisa que o preocupava era o que os pais de Alex poderiam pensar dele. At ao momento, 
no se atrevera a discutir o assunto com ela.

        As coisas avanavam a um ritmo lento, em parte devido ao elevado nmero de horas de trabalho de Alex, e em parte por ela j se ter escaldado uma vez. Mostrava-se 
cautelosa, no queria cometer outro erro e no tinha inteno de que as coisas com Coop se precipitassem. Ele beijara-a quando saram juntos pela quinta vez, mas 
ficaram por a, e ele tambm no a pressionou. Era, no s perspicaz, como muito paciente. S iria para a cama com Alex quando ela lho pedisse. Sabia, instintivamente, 
que, se a pressionasse, ela poderia ficar de p atrs, e no queria que isso acontecesse. Estava disposto a esperar. A sua pacincia no tinha limites.

        Entretanto, Charlene nunca mais dera sinal de vida. Durante duas semanas no atendera os seus telefonemas, e ela deixara de ligar. At Paloma aprovava a 
relao com Alex.

        Mas sentia pena da jovem e perguntava-se se ela saberia onde ia meter-se, embora Coop, desta vez, andasse a portar-se bem. Quando no estava com Alex, passava 
as noites em casa, a ler argumentos para filmes, ou saa com amigos. Foi a outro jantar em casa dos Schwartz, mas Alex no pde comparecer por se encontrar trabalhando. 
No perguntou por ela e achou melhor no dizer a ningum que andavam a sair juntos. Queria mant-la afastada de possveis escndalos. Sabia que ela detestaria aparecer 
nas primeiras pginas dos tablides. Alex conhecia a reputao de playboy de Coop, mas ele preferia no tocar nesse assunto.

        Alm disso, nos lugares onde costumavam jantar, nunca despertariam a ateno dos jornais. Coop ainda no a levara a um restaurante de luxo, simplesmente 
porque ela no tinha tempo ou energia para uma noite de algum requinte. Estava sempre a trabalhar. A primeira ida ao cinema foi uma vitria. E Alex adorava ir at 
o Chal aos fins-de-semana, quando estava de folga. Nadava na piscina e, uma noite, at fez o jantar, depois nem sequer o provou, pois teve de sair apressadamente 
para o hospital. J estava habituada. Coop  que tinha alguma dificuldade em se adaptar a essa realidade. No fazia a menor idia daquilo em que estava a meter-se. 
Mas parecia-lhe um bom desafio, e ela era to bela e inteligente que os obstculos e os inconvenientes pareciam valer a pena.

        Alex adorava conversar com Mark, quando o encontrava na piscina. Ele falava muito dos filhos e, certa noite, at lhe contou os seus problemas com os filhos 
e com Janet... e Adam. Confidenciou-lhe que no queria que eles gostassem do homem que destrura o seu casamento, mas, ao mesmo tempo, no queria ver os filhos infelizes. 
Alex sentia pena de Mark e gostava de falar com ele.

        Via-o mais vezes do que a Jimmy, que devia trabalhar quase tanto como ela. Passava muitas noites em visitas a lares de acolhimento e era treinador de uma 
equipa de softball Mas Mark falava sempre dele como um tipo legal e chegou a contar a Alex o que sabia de Maggie, deixando-a de corao destroado. No entanto, quando 
se encontrava com ela, Jimmy nunca falava da esposa. Mantinha-se calado a maior parte do tempo, parecendo pouco  vontade com as mulheres. Detestava ser outra vez 
um homem descomprometido. No seu corao, continuava casado. Entretanto, Alex apercebera-se de que Mark e Jimmy eram inquilinos de Coop, que nunca admitira tal fato, 
embora ela tambm nunca o houvesse questionado sobre o assunto. Achava que no tinha nada a ver com isso.

        Trs semanas aps terem comeado a sair juntos, Coop convidou Alex para passarem um fim-de-semana fora. Ela respondeu que iria ver se conseguia arranjar 
tempo, embora duvidasse, e ficou espantada ao descobrir que era possvel. A sua nica condio era terem quartos separados no hotel. Ainda no estava preparada para 
lhe entregar aquilo que de mais ntimo possua. Queria dar tempo ao tempo, e ir com calma, mas a atrao que sentia por ele era cada vez maior. E disse a Coop que 
seria ela a pagar o seu quarto. Iriam para uma estncia balneria que ele conhecia no Mxico. Alex ficou excitadssima com a idia. Desde que comeara o internato, 
ainda no tivera frias, alm disso, adorava viajar. Dois dias de sol e divertimento seriam como o cu. E o fato de irem para o Mxico evitaria qualquer mexerico 
por parte dos tablides. Era uma ingenuidade da sua parte, mas Coop no a desenganou: pretendia lev-la para longe, e no queria desencoraj-la de ir por causa dos 
mexericos da imprensa. O seu nico desejo era que tudo corresse de forma simples e agradvel.

        Partiram numa sexta-feira  noite, e o hotel era ainda mais luxuoso do que ele lhe garantira. Os quartos, contguos, tinham uma enorme sala de estar, terrao, 
piscina privativa e uma pequena praia, tambm privativa. Ao fim da tarde, iam at  cidade, faziam compras e sentavam-se nas esplanadas a beber margaritas. Parecia 
que estavam em lua-de-mel. Na segunda noite, tal como Coop esperava, Alex seduziu-o. Nem sequer estava bbeda quando o fez. Era um desejo incontrolvel. Estava ficando 
apaixonada. Nenhum outro homem fora to meigo e to gentil consigo. No s era uma companhia maravilhosa e um grande amigo, como o amante perfeito. Cooper Winslow 
sabia lidar com as mulheres. Sabia o que queriam, o que gostavam de fazer, como gostavam de ser tratadas e do que precisavam. Alex nunca gostara tanto de fazer compras 
com outra pessoa como com Coop, nem falara com tanta franqueza e rira tanto nem recebera tantos mimos. Nunca conhecera ningum assim.

        Tambm ficou surpreendida com a quantidade de autgrafos que o velho ator deu, assim como com o nmero de pessoas que parava para o fotografar. Parecia que 
o mundo inteiro o conhecia. Mas no to bem como ela. Pelo menos, era a sensao que tinha. Coop dava mostras, por mais surpreendente que isso pudesse ser, de querer 
partilhar com ela no s a sua vida e histria, mas tambm os seus segredos mais ntimos. O mesmo acontecia com Alex. Estava a abrir-se completamente com ele.

        - Que iro os teus pais pensar de ns? - perguntou Coop, depois de terem feito amor pela primeira vez.

        Fora uma experincia inolvidvel. Sentaram-se na piscina, completamente nus, ao luar, enquanto se ouvia msica ao longe. Fora a noite mais romntica da vida 
de Alex.

        - S Deus sabe. O meu pai nunca gostou de ningum na vida, nem sequer dos filhos nem da minha me. Desconfia de toda a gente. Mas no estou a imagin-lo 
a no gostar de ti, Coop. s um homem respeitvel, de boa famlia, delicado, inteligente, charmoso e, alm disso, bem-sucedido. O que  que ele pode ter contra ti?

        - Pode no gostar da nossa diferena de idades.

        -  possvel. Mas, s vezes, pareces mais novo do que eu.

        E beijaram-se de novo. Coop s no lhe disse que tambm havia uma diferena nas respectivas situaes financeiras, que ela era solvente e ele no. Custava-lhe 
admiti-lo. No era uma realidade que encarasse com muita freqncia. Porm, era bom saber que Alex no dependia financeiramente dele. Fora sempre um problema com 
que se debatera. Nunca quisera comprometer-se a casar quando a sua situao financeira no era estvel e, a maioria das vezes, no era. Mesmo quando tinha dinheiro, 
ele esfumava-se num instante. No precisava de ajuda para gastar, e muitas das mulheres com quem andara haviam-lhe ficado extremamente caras. Alex no, tinha o seu 
prprio dinheiro, por isso, no haveria problema. Pela primeira vez na vida, estava a pensar seriamente em casar-se. Era algo ainda muito vago, muito distante, mas 
que j no o amedrontava tanto. Para seu prprio espanto, j se conseguia ver casado com Alex, sem precisar do Dr. Kevorkian1 para celebrar o matrimnio. Sempre 
achara que preferia o suicdio ao casamento, se bem que os considerasse a ambos letais e sinnimos. Porm, com Alex, tudo era diferente. E foi isso mesmo que lhe 
disse, na mgica noite mexicana, enquanto a beijava.

        - Ainda no cheguei a, Coop - disse Alex, com voz meiga, sempre franca com ele.

        Amava-o, mas no queria criar-lhe falsas iluses. Ainda no se sentia preparada para o casamento, tanto por causa da carreira de mdica, como pelo trauma 
de ter sido abandonada pelo noivo quando estava prestes a subir ao altar. No queria passar por outra desiluso, apesar de Cooper no ser homem para lhe fazer essa 
afronta.

        - Tambm ainda no cheguei a - murmurou Cooper. Mas, pelo menos, j no fico com herpes ao pensar no assunto. Acho que estou a melhorar.

        Alex gostava do fato de ambos encararem cautelosamente a questo do casamento. E tanto assim era que ele nunca casara. Quando ela lhe perguntou porqu, respondeu-lhe 
que nunca encontrara a mulher certa. Mas, agora, acreditava que sim. Alex era uma mulher com quem valia a pena viver at ao fim da vida.

        Foi um fim-de-semana mgico. No vo de regresso, vinham ambos com um ar perdidamente apaixonado e cheios de pena por terem de se separar.

        - Queres passar a noite comigo? - perguntou Coop, enquanto a levava para casa. Alex ficou pensativa, indecisa.

        - Querer, queria. Mas no sei se devo. - Continuava a querer avanar com muita cautela. Tinha medo de se acostumar e que, depois, algo corresse mal, deitando 
tudo a perder. - Mas vou sentir imensas saudades tuas, esta noite.
-Tambm eu. - Coop sentia-se outro homem. E insistiu em levar as malas dela at ao apartamento. Nunca l estivera, e ficou chocado e perplexo ao ver as pilhas de 
roupa, os livros de Medicina espalhados pelo cho e o banheiro sem o mnimo de condies.
1 Mdico adepto da eutansia. (N. do T.)

 Sabonete, papel higinico e toalhas foi tudo o que viu. A moblia era escassa, no havia cortinas nem tapetes, e a decorao era nula.

        - Por amor de Deus, Alex, isto parece uma barraca. Alex nunca se dera ao trabalho de decorar o apartamento. No tinha tempo, e tambm nunca se preocupara 
com isso. S l ia dormir. - Se algum vir o estado em que tens o apartamento, ainda te condena. - Ao olhar para aquele caos, Coop no podia fazer outra coisa seno 
rir. Uma mulher to requintada e to delicada, e apenas se preocupava com a atividade mdica. J vira postos de gasolina com aspecto bem mais convidativo. - Acho 
que o melhor que tens a fazer  pegares num fsforo, deitares fogo a esta tralha toda e mudares imediatamente para minha casa.

        Mas sabia que ela no o faria. Era demasiado cautelosa e independente. Porm, apesar da cama por fazer e do ar lgubre do apartamento, passou a noite com 
ela e levantou-se ao mesmo tempo, s seis da manh. Quando chegou ao Chal, as saudades eram muitas. Nunca sentira nada semelhante por mulher alguma.

        Ao fim da manh, quando entrou no quarto e viu o ar de felicidade estampado no rosto de Coop, Paloma ficou intrigada. Comeava a desconfiar que ele estava 
mesmo apaixonado pela jovem mdica. Quase sentiu desejo de gostar mais dele. Afinal de contas, talvez Coop tivesse corao.

        Durante toda a tarde, Coop cumpriu uma srie de compromissos, entre os quais o de posar para a capa da GQ. Eram seis horas quando chegou a casa e ficou a 
saber que Alex ainda estava a trabalhar. Ficaria no hospital at  manh seguinte. Tinha de fazer os turnos dos colegas que a haviam substitudo quando da viagem 
ao Mxico, trabalhando durante vrios dias.

        Coop acabara de se instalar na biblioteca com um clice de champanhe na mo, depois de pr um disco a tocar, quando ouviu um barulho pavoroso junto  porta 
principal. Parecia o som de uma metralhadora ou de uma srie de exploses, dando a impresso de que parte da casa estava a desmoronar-se. Saltou do sof e foi espreitar 
 janela. A princpio,  no vislumbrou nada. S ao fim de alguns instantes  que deu pela presena de um garoto. O pequeno diabrete descia os degraus de mrmore 
em cima de um skate, fazendo uma srie de piruetas. Coop precipitou-se para a porta e abriu-a de supeto, com ar furioso. O mrmore encontrava-se ali desde 1918, 
imaculado, e o jovem delinqente iria destru-lo com o skate.

        - Que raio  que pensas que ests  fazendo? Vou chamar a polcia se no saires daqui dentro de trs segundos. Como  que entraste na propriedade?

        Os alarmes deveriam ter soado quando ele saltara o porto. Coop no conseguia imaginar outra forma de ele chegar at ali. O garoto ficou parado  olhando 
para o velho ator, aterrorizado e, ao mesmo tempo, espantado.

        - O meu pai vive aqui - conseguiu balbuciar, numa voz entrecortada, com o skate apertado contra o peito.

        Nunca lhe passara pela cabea que pudesse estragar o mrmore. S achara o lugar timo para andar de skate e estava se divertindo muito, quando Coop abriu 
a porta e gritou com ele, ameaando mand-lo prender.

        - O que  que queres dizer com isso de o teu pai viver aqui? Eu  que vivo aqui e, graas a Deus, no sou teu pai! retorquiu Coop, ainda furioso. - Quem 
s tu?

        -Jason Friedman. - O pequeno parecia tremer e deixou cair o skate com tal estardalhao que ambos deram um pulo. - O meu pai vive na ala de hspedes.

        Chegara na noite anterior, de Nova Iorque, com a irm. E adorava o lugar. Passara a tarde toda a explorar a propriedade, depois de regressar da escola. Na 
noite anterior, Mark apresentara-os, a ele e  irm, a Jimmy. Jason s sabia da existncia de Coop por referncias que o pai lhe fizera. Alm disso, quando chegaram, 
Coop encontrava-se no Mxico. E, para complicar ainda mais a situao, Jason olhou para Coop e acrescentou:

        - E agora tambm vivo aqui com a minha irm. Chegamos ontem, de Nova Iorque.

        S no queria ser preso. Estava disposto a dar todas as informaes possveis e imaginrias para evitar que isso acontecesse.

        - O que  que queres dizer com isso de "viveres" aqui? At quando  que vais aqui ficar?

        Coop queria saber por quanto tempo teria de suportar a presena do inimigo dentro das suas fronteiras. Lembrava-se, vagamente, de Liz lhe haver dito que 
Mark tinha filhos que viriam visit-lo, de tempos a tempos, mas s durante alguns dias, e muito raramente.

        - Deixamos a nossa me em Nova Iorque e viemos viver com o nosso pai. Detestvamos o namorado dela.

        Eram mais informaes do que aquelas que, em condies normais, disponibilizaria, e Coop estava comeando a ficar assustado.

        - Estou certo de que ele tambm te detestaria, se andasses com o skate nos degraus de mrmore. Se voltares a andar aqui com o skate, sou eu que te dou umas 
chicotadas.

        - O meu pai no deixaria - respondeu Jason, em tom ameaador. J chegara  concluso de que o homem era maluco. Sabia que se tratava de uma estrela de cinema, 
mas, primeiro, ameaara mand-lo prender, e, agora, ameaava chicote-lo.

        - E o senhor acabaria por ir parar na cadeia. De qualquer modo, desculpe. No os estraguei.

        - Mas podias ter estragado. Com que ento, acabaste de te mudar para aqui... - Era a pior notcia que poderia ter recebido e esperava que o rapaz estivesse 
mentindo. - O teu pai no me disse que vocs vinham para morar aqui.

        - Foi uma deciso de ltima hora, por causa do namorado da minha me. Chegamos ontem e voltamos para a nossa antiga escola. A minha irm j est no secundrio.

        - A notcia no  muito animadora. - Coop olhava-o com ar angustiado. Isto no podia estar a acontecer-lhe. Aqueles dois garotos no podiam ter vindo viver 
na ala de hspedes. Teria de lhes mover uma ao de despejo. E o mais rapidamente possvel, antes que lhe deitassem fogo  casa, ou lhe estragassem qualquer coisa. 
Ia chamar o advogado.

         Vou falar com o teu pai - anunciou, em tom ameaador. - E d-me isso! - ordenou, estendendo o brao na direo do skate.

        Mas Jason recuou, determinado a no lhe entregar. Era propriedade sua e trouxera-o de Nova Iorque.

        -J lhe pedi desculpa.

        - Disseste muitas coisas, a maior parte das quais acerca do namorado da tua me.

        Do alto das escadas, Coop fitava o rapaz com ar imperial. Era um homem alto, e Jason encontrava-se no fundo das escadas. Do lugar onde estava, Coop parecia 
um gigante.

        -  um cara de cu. Detestamo-lo - apressou-se Jason a dizer do namorado da me.

        -  uma situao complicada. Mas isso no lhes d o direito de vir morar na minha casa. Diz ao teu pai que quero falar com ele, amanh de manh.

        E voltou para casa, fechando a porta com estrondo, enquanto Jason regressava  ala de hspedes, onde contou ao pai uma verso ligeiramente diferente do seu 
encontro com Coop.

        - No devias andar nos degraus com o skate, Jason.  uma casa velha e podias t-los estragado.

        - Pedi-lhe desculpa. Mas ele parecia que estava aparvalhado.

        -  um tipo legal. S que no est habituado a ter garotos aqui. Com ele, temos de levar as coisas com calma.

- Ele pode pr-nos na rua?

        - Acho que no. Seria discriminao. A no ser que faas um disparate qualquer e lhe ds motivo para despejo. Faz-me um favor: tenta no fazer disparates.

        As crianas adoravam a propriedade. E Mark estava deliciado por as ter consigo. Na escola, haviam tido uma recepo espetacular por parte dos velhos amigos. 
Jessica estava ao telefone com algum que conhecia. Mark fizera o jantar. Nessa tarde, apresentara-os a Paloma, que os adorou. O mesmo no se poderia dizer do patro, 
que ainda no sabia que, de vez em quando, nos seus tempos livres, ela lavava a roupa a Mark, alm de dar uma mozinha na limpeza da ala de hspedes.

        Depois de bater com a porta, Coop encheu um copo de bebida forte e ingeriu-a de um s gole. Sentou-se e enviou uma mensagem para o bipe de Alex. Cinco minutos 
depois, ela telefonou-lhe. Pelo tom de voz, Alex apercebeu-se, de imediato, que algo de grave acontecera.
        
        - A minha casa foi invadida por extraterrestres! - explicou Coop, numa voz to trmula que nem parecia ele.

        -- Ests bem? - Parecia preocupada.

- No, no estou. Os filhos do Mark mudaram-se para c. S conheci um deles e deu para perceber que  um delinqente juvenil. Vou comear a tratar da ao de despejo 
imediatamente. S que, at l, sou capaz de ter um esgotamento nervoso. O mido estava a andar de skate na escadaria principal, a fazer piruetas em cima do mrmore.

        Alex riu-se e ficou aliviada por no ser nada de grave. Mas Cooper falava como se a casa tivesse desabado.

        - Acho que no podes p-los na rua. H uma srie de leis que protegem as pessoas que tm crianas - retorquiu Alex, divertida com o estado de irritao de 
Coop. Ele no gostava mesmo nada de crianas, como confessara. - Isso quer dizer que no vamos ter filhos, no ?

        Alex tentava provoc-lo e Coop pensou, de imediato, que esse fato poderia ser um obstculo importante para ela: era suficientemente nova para querer filhos. 
No entanto, fosse como fosse, no estava com disposio para pensar nisso agora.

        - Podemos, naturalmente, discutir esse assunto - respondeu Cooper, esforando-se por ser razovel. - Os teus filhos seriam civilizados. Os do Mark no so. 
Pelo menos, este no . Diz que a irm est no secundrio. Se duvidar fuma crack e passa droga na escola.

        - Tambm no devem ser assim to maus como isso, Coop. Quanto tempo  que vo ficar a?

        - Parece que para sempre. Amanh de manh vou telefonar ao Mark e perguntar-lhe.

        - Bem, v l se no deixas que isso te enerve. Mas j estava nervoso.

        - Vou tornar-me um alclatra. Acho que sofro de alergia a pessoas com menos de vinte e cinco anos. O Mark que no pense que pode ter os midos aqui  vivendo 
com ele. E se eu no puder p-los na rua?

        - Faremos o melhor que pudermos para lhes ensinar as regras da boa educao.

          muito boa vontade da tua parte, meu amor. Mas algumas pessoas no conseguem aprender. Disse-lhe que o chicoteava se voltasse a v-lo a andar de skate 
nos degraus, e ele retorquiu que me mandava para a cadeia.

        O primeiro encontro entre os dois no correra da melhor forma, mas ameaar o garoto de que o chicotearia no fora politicamente correto.

        - Basta dizeres ao Mark que no os queres ver por perto. Ele  boa pessoa e, com certeza, vai entender.

        No dia seguinte, quando Coop lhe telefonou, Mark pediu imensas desculpas por qualquer incmodo que Jason pudesse ter causado. Explicou ainda as circunstncias 
que haviam motivado a vinda dos filhos para junto de si, e acrescentou que os filhos voltariam outra vez para Janet, no final do ano letivo. Apenas ficariam ali 
trs meses, no mximo.

Para Coop, aquelas palavras soaram-lhe como uma sentena de morte. A nica coisa que queria ouvir era que eles partiriam no dia seguinte. Mas no havia a mnima 
hiptese de que isso viesse a acontecer. Mark deu a sua palavra de honra de que os filhos se portariam bem, e Cooper teve de resignar-se  idia de viver, lado a 
lado, com as crianas. Sabia que no tinha alternativa.         Telefonara ao advogado antes de falar com Mark, e Alex tinha razo. Ficara com Jason e Jessica atravessados 
na garganta, e nem sequer a carta de desculpas que Mark obrigou Jason a escrever lhe amoleceu o corao. Estava furioso. No dirigia uma escola, nem um orfanato, 
nem uma associao de escoteiros, nem um parque de skate. Queria ver as crianas a milhas da sua casa e da sua vida. S esperava que o romance da me deles acabasse 
rapidamente e que voltassem para junto dela o mais depressa possvel.
CAPTULO 12

        Depois do seu primeiro desentendimento com Cooper, Mark disse a Jason para nunca se aproximar da ala principal da casa, e s andar de skate junto  entrada 
da propriedade. Jason viu Coop entrar umas quantas vezes, mas no houve mais nenhum incidente, pelo menos durante as duas primeiras semanas. Jason e Jessica andavam 
felizes por estarem novamente em Los Angeles com os velhos amigos, adoravam a escola e achavam que o novo lar era "fixo", apesar do senhorio rabugento. Coop continuava 
a no conseguir ver os garotos com bons olhos, mas tanto a corretora imobiliria como os advogados lhe tinham dito que no havia nada a fazer. A legislao contra 
a discriminao de crianas era rgida. Alm disso, Mark avisara-o de que os filhos viriam visit-lo de tempos a tempos. Tinha direito a viver ali com eles, apesar 
de agora estarem a morar permanentemente consigo. Coop no tinha outra alternativa seno habituar-se  idia, e queixar-se quando eles fizessem qualquer coisa de 
errado. Mas alm de Jason usar a escadaria principal como rampa de skate no primeiro dia, at ao momento, no houvera quaisquer outros problemas.

        Mas, no primeiro fim-de-semana que Alex passou na casa com Coop, acordaram ambos ao meio-dia, com uma barulheira infernal, vinda da piscina. Era como se 
l estivessem umas quinhentas pessoas, aos gritos umas com as outras. Em fundo, msica rap em altos berros. Alex no conseguiu evitar um sorriso ao ouvir as letras. 
Eram de um vernculo atroz, mas muito divertidas e irreverentes, sobre os adultos e aquilo que os jovens pensavam deles. Uma mensagem para Coop.

        - Oh, meu Deus, o que est acontecendo? - perguntou o velho ator, horrorizado, enquanto levantava a cabea da almofada.

        - Parece uma festa - respondeu Alex, com um bocejo, enquanto se espreguiava e se aninhava a seu lado.

        Trocara quatro turnos para estar ali, e as coisas pareciam ir bem entre os dois. Coop tentava  adaptar-se  vida atarefada de Alex. H anos que no gostava 
tanto de uma mulher. E apesar da considervel diferena de idades, Alex sentia-se bem na sua companhia. Coop parecia muito mais novo e interessante do que muitos 
homens da idade dela.

        - Devem ser novamente os extraterrestres. Acho que acabou de aterrissar outro OVNI. - Cooper mal se apercebera da presena dos adolescentes nas ltimas trs 
semanas, dando a impresso de que Mark estava  conseguindo mant-los sob apertado controle... at essa manh. E ainda no sabia que Paloma fazia as vezes de baby-sitter 
de vez em quando. - Devem ser surdos. Aquilo deve ouvir-se em Chicago. - Saiu da cama e foi  janela ver o que se passava. - Oh, meu Deus, Alex, so aos milhares!
        
        Alex pulou da cama e foi ver tambm. Havia vinte ou trinta adolescentes a rir, aos berros e a atirar coisas, na piscina.

        - Deve ser a festa de aniversrio de um deles.

        Alex adorava ver jovens de ar so e feliz a divertir-se. Depois de todas as cenas de agonia e tragdia a que assistia no seu quotidiano, achava aquele quadro 
de alegria perfeitamente normal. Porm, a seu lado, Coop estava horrorizado.

        - Os extraterrestres no fazem anos, Alex. Nascem nas alturas mais inconvenientes, e depois, vm para a Terra para partirem tudo o que lhes aparece pela 
frente. Foram enviados para destrurem a nossa raa e o planeta Terra.

        - Queres que v l pedir-lhes para desligarem a msica? Prontificou-se Alex, ao ver que Coop estava mesmo transtornado. Adorava ter uma vida tranqila e 
ordenada, e gostava que tudo se mantivesse bonito e elegante  sua volta.

        - Seria timo.

        Alex vestiu umas calas e uma T-shirt, e enfiou umas sandlias. Estava um lindo dia de Primavera e ela prometeu fazer o pequeno-almoo assim que voltasse. 
Entretanto, Coop foi tomar uma ducha. Exibia sempre um aspecto impecvel, mesmo quando acordava. Ao contrrio de Alex, que acordava de cabelos desgrenhados e ar 
cansado, como se tivesse sido arrastada por um cavalo durante toda a noite. Porm, tinha a vantagem de ser jovem. E at parecia uma garota, quando saiu porta fora, 
para ir transmitir a mensagem de Coop.

        Ao chegar  piscina, viu que Mark tambm l se encontrava. Jessica estava no meio de raparigas de biquni e monoquni, s risadas e aos gritinhos. Os rapazes 
estavam na onda deles, sem ligarem s garotas, enquanto Mark tentava organizar um jogo de plo na piscina.

        - Ol! Como vai? J no a via h um tempinho cumprimentou Mark, com ar prazenteiro, ao avistar Alex.

        Comeara a interrogar-se se Coop j deixara de andar com ela. H semanas que as coisas se mantinham relativamente calmas por aqueles lados.

        - Tenho andado a trabalhar. Que se passa aqui? Festa de aniversrio?

        - Foi a Jessie que quis juntar os velhos amigos e celebrar o seu regresso a Los Angeles.

        Jessica estava extasiada por ter voltado para junto do pai e, de momento, recusava-se a falar com a me, para consternao de Mark, que no conseguia convenc-la 
a mudar de idia. Este continuava a pedir um pouco mais de pacincia a Janet, mas Jessica mantinha-se relutante. Jason ainda mostrava alguma vontade de falar com 
ela, mas no escondia a sua alegria por estar vivendo com o pai.

        - No queria incomod-lo, eles esto divertidssimos desculpou-se Alex -, mas o barulho est incomodando Coop. Acha que eles se importariam de baixar um 
bocadinho o volume?

        Mark ficou perplexo, depois esboou um sorriso, dando-se conta da barulheira que estariam fazendo. Estava to habituado ao caos que era ter jovens  volta 
que nem se apercebera. Talvez devesse ter avisado Coop da festa, mas agora receava dizer-lhe o que quer que fosse sobre os filhos.

        - Peo imensa desculpa. Algum deve ter aumentado o volume sem eu ter percebido. Sabe como so os garotos.

        Alex mostrou-se bastante compreensiva e ficou muito mais aliviada ao constatar que eram garotos perfeitamente normais, sem tatuagens ou cabelos  Mohawk. 
Viam-se muitos de brincos e um ou outro de pierng no nariz. Mas nenhum com ar assustador. E tambm no tinham ar de delinqentes ou de drogados, contrariamente 
quilo que Coop lhe dissera. Eram "extraterrestres" perfeitamente normais.

        Mark saiu da piscina e foi baixar o som. Alex ainda ficou mais alguns instantes, de sorriso nos lbios, a olhar para as crianas. Reparou que Jessica era 
uma rapariga muito bonita, com longos cabelos loiros e um corpo bem torneado, e ria descontroladamente no meio de um grupo de amigas, enquanto vrios rapazes a apreciavam. 
Entretanto, viu Jason aproximar-se com Jimmy. Trazia uma luva e uma bola de basebol, e falava animadamente com Jimmy, que acabara de lhe ensinar como fazer um lanamento 
de preciso infalvel, dando um determinado efeito  bola. Era uma tcnica que Jason nunca dominara, mas em que Jimmy era especialista.

        - Ol - cumprimentou Alex, num tom jovial. Por instantes, Jimmy pareceu pouco  vontade, depois, apresentou-a a Jason. Jimmy tinha sempre um ar angustiado. 
O mesmo ar abalado que Alex via nos olhos dos pais que acabavam de perder os seus bebs. Porm, falando com Jason, parecia mais descontrado do que quando estava 
com adultos. - Como tem passado? Tem feito bons churrascos ultimamente? - J no o via desde que Mark quase provocara um incndio de grandes propores com o churrasco 
e ela recebera um bipe para voltar ao hospital. - Foi  um  grande susto!

        E ambos sorriram, recordando o sucedido. Alex ainda se lembrava nitidamente de Coop a dar autgrafos aos bombeiros, enquanto os arbustos ardiam.

        - E jantei maravilhosamente bem - retorquiu Jimmy, com um sorriso tmido. - Acho que comemos o seu jantar. Foi pena ter de voltar para o hospital. Mas, se 
isso no tivesse acontecido, no teramos jantado. Foi uma noite daquelas! No tinha uma ressaca assim desde os tempos da faculdade. Na manh seguinte, s s onze 
horas  que consegui ir trabalhar. A comida estava excelente, em quantidade e qualidade.

        - Parece que perdi uma noite bem passada. Centrou a ateno em Jason, perguntando-lhe em que posio jogava. Ele respondeu que era "entre bases".

        -J faz uns lanamentos muito bons - elogiou Jimmy. E  um bom batedor! Esta manh, perdemos trs bolas que passaram por cima da vedao.

        - Estou espantada. Eu nem consigo acertar na bola.

        - A minha mulher tambm no conseguia - replicou Jimmy, sem pensar. As palavras saram-lhe da boca antes que pudesse det-las e Alex apercebeu-se de que 
o fizeram sofrer. - A maioria das mulheres no consegue nem bater uma bola, nem fazer um lanamento. Tm outras virtudes acrescentou, tentando generalizar o comentrio.

        - Tambm no sei muito bem se possuo essas outras virtudes - retorquiu Alex, sentindo que fora um momento desconfortvel para ele. - Nem cozinhar sei. Mas 
sei fazer um sanduche de manteiga de amendoim timo e costumo pedir uma pizza espetacular.

        -J no  mau. Eu sempre cozinhei melhor do que a minha mulher.

        Bolas! L estava ele outra vez a bater na mesma tecla. Depois de fazer o comentrio, mergulhou num profundo silncio, enquanto Alex conversava com Jason, 
que desapareceu pouco depois para ir ao encontro da irm e dos amigos.

        - So bons garotos - comentou Alex, esforando-se por p-lo  vontade.

        Apercebia-se de que Jimmy atravessava um mau momento e tinha vontade de lhe dizer o quanto lamentava a situao, mas no queria perturb-lo ainda mais.

        - O Mark est louco de alegria por  t-los aqui. Estava mortinho de saudades deles - disse Jimmy, tentando afastar-se do precipcio. Estava constantemente 
a cair no abismo da agonia. Tudo o que dizia ou fazia trazia-lhe Maggie  memria. - Como  que o nosso senhorio est lidando com esta nova situao?

        - Est fazendo uma terapia de choque sob forte medicao para alterar o humor - afirmou Alex, em tom solene, e Jimmy soltou uma gargalhada. Foi um som maravilhoso, 
contrastando com o estado de esprito em que ele geralmente se encontrava.

        - Est assim to mal?

        - Est pssimo. Na semana passada, esteve  beira do coma. Estava vendo que tinha de lhe fazer a reanimao cardio-respiratria. Por falar nisso, deixei-o 
ligado ao ventilador. Acho melhor voltar para  perto dele. Vim aqui pedir aos garotos que baixassem a msica.

        - O que  que vai ser? - indagou Jimmy.

        - At agora, tem sido rap, com umas letras muito interessantes. - E esboou um largo sorriso.

        - No, refiro-me ao pequeno-almoo. Manteiga de amendoim ou pizza?

        - Hummm...  uma questo interessante. Ainda no pensei no assunto. Pessoalmente, optaria por pizza requentada, com donuts ressequidos como sobremesa. Coop 
tem um gosto mais requintado, por isso, talvez, bacon com ovos.

        - Consegue desenrascar-se sozinha? - perguntou Jimmy, solcito.

        Gostava de Alex, achava-a carinhosa e compassiva. J no se lembrava muito bem do que ela fazia, mas sabia que era algo relacionado com bebs. E parecia-lhe 
uma profissional competente. Era uma pessoa inteligente e, aparentemente, muito afvel. Jimmy ainda no conseguira descortinar o que ela via em Cooper Winslow. Era 
uma unio estranha, mas nem sempre se conseguem explicar as escolhas que as pessoas fazem dos parceiros. Cooper tinha idade suficiente para ser pai dela, e Alex 
no parecia ser o tipo de mulher com atrao pela fama ou pelo glamour. Talvez Coop tivesse mais qualidades do que aparentava. Apesar da noite magnfica que passara 
com ele, Jimmy no ficara com muito boa impresso do velho ator. Uma pessoa com charme e bem-parecida, sem sombra de dvida, mas com pouca substncia, muito superficial.

        - Posso chamar o cento e doze para servir o pequeno-almoo? - perguntou Alex, continuando a dar um tom bem-humorado  conversa.

        - Claro, s tem de mandar a conta a Coop - respondeu Jimmy, com alguma indelicadeza, apressando-se a pedir desculpa. No tinha a menor razo para ser indelicado 
com ele. - Desculpe, foi sem querer.

        - Tudo bem, ele tem imenso sentido de humor, mesmo em relao ao que lhe diz respeito.  uma das coisas que me agrada nele.

        Jimmy teve vontade de lhe perguntar que outras coisas lhe agradavam, mas no o fez.

        - Bem,  melhor voltar. Acho que, hoje, no viremos  piscina. Coop nunca encararia este cenrio com bons olhos. Teramos de refrear-lhe os nimos.

        E riram-se. Alex acenou a Mark e voltou para a ala principal, onde encontrou Coop com ar petulante, a debater-se com o pequeno-almoo. Deixara queimar os 
muffins e rebentar as gemas dos quatro ovos, o bacon ficara irreconhecvel de to queimado que estava, e havia suco de laranja espalhado pela mesa.

        - Afinal, sabes cozinhar! - exclamou Alex, com ar espantado e de sorriso aberto ao deparar com o caos que grassava na cozinha. No teria feito muito melhor. 
Era mais desenvolta nos Cuidados Intensivos do que na cozinha. Estou impressionada.

        - Bem, eu no. Onde diabo estiveste? Pensei que os extraterrestres te tivessem raptado.

        - So garotos simpticos, Coop. No precisas de te preocupar. Estive a falar com o Mark, o Jimmy e o Jason, o filho do Mark. Todos os garotos me pareceram 
educados e bem-comportados.

        Coop virou-se para ela, com uma esptula na mo, enquanto os ovos esturricavam na frigideira.

        - Oh, meu Deus... os marcianos... transformaram-te... s um deles... quem s tu?

        Coop tinha o mesmo ar aterrorizado de certos filmes de fico cientfica.

        - Ainda sou eu. Eles so simpticos. Acho que no  deves te preocupar.

        - Demoraste tanto tempo. Pensei que j tivesses fugido com eles, por isso, fiz eu prprio o meu pequeno-almoo... alis, o nosso pequeno-almoo - corrigiu, 
ao mesmo tempo que esboava um ar apavorado. - Queres ir comer fora? Acho que nada disto est comestvel.

        - Acho melhor pedir uma pizza.

        - Para o pequeno-almoo? - Coop ps-se de p, com a indignao estampada no rosto. - Alex, os teus hbitos alimentares so pssimos! No te ensinaram nada 
de nutrio na Faculdade de Medicina? Pizza no  o ideal para o pequeno-almoo.

        - Desculpa - retorquiu, com ar submisso, pondo mais dois muffins na torradeira. Depois, limpou o suco de laranja espalhado em cima da mesa e encheu mais 
dois copos.

        - Isto  trabalho de mulher - declarou Coop, com alvio machista. - D-me apenas suco de laranja e caf.

        Porm, cinco minutos mais tarde, Alex fez ovos mexidos, bacon, muffins, suco e caf, e levou tudo num tabuleiro at ao terrao, em pratos de porcelana chinesa, 
copos de cristal, e guardanapos de papel.

        - A empregada  excelente... o servio de mesa  que precisa de uns ligeiros retoques... o linho d sempre um toque simptico quando se usa porcelana chinesa 
desta qualidade - provocou-a, enquanto pousava o jornal.

        - Graas a Deus, no usei papel higinico.  o que fazemos no hospital quando acabam os guardanapos. Combina bem com pratos de papel e copos de plstico. 
Vou ver se arranjo alguns da prxima vez.

        - Ouvir isso d-me um grande alvio - retorquiu Coop, num tom pomposo. Alex conseguia sempre evitar o ar pretensioso, apesar da educao que tivera e do 
apelido que ostentava. Quando acabaram os excelentes ovos que preparara, Cooper fez-lhe a pergunta em que andava pensando h j algum tempo: - O que  que achas 
que a tua famlia vai pensar de mim? Isto , de ns.

        Parecia preocupado. Cada dia que passava, sentia que os seus sentimentos por ela eram cada vez mais srios. Quanto a Alex, pelo menos at agora, gostava 
de tudo nele, mas ainda era muito cedo para assumir um tipo de relao mais srio. Andavam juntos h pouco mais de um ms e,  medida que se fossem conhecendo melhor, 
muitas coisas poderiam mudar, muitos problemas poderiam surgir.

        - Que diferena  que isso faz? Eles no mandam na minha vida, Coop. Eu  que decido com quem passo o meu tempo.

        - E no tm nenhuma opinio sobre o assunto?  pouco provvel.

        Por aquilo que lera, Arthur Madison tinha opinies sobre tudo o que se passava no planeta e, de certeza, sobre tudo o que se relacionava com a filha. E Coop 
tambm sabia que ele no dizia nem fazia nada com punhos de renda. Era o candidato perfeito para se opor ao envolvimento da filha com Cooper Winslow.

        - Eu e a minha famlia no nos damos bem. Mantenho-os a uma certa distncia. Essa  uma das razes por que estou aqui contigo. - Os pais haviam-na criticado 
durante toda a vida, e o pai nunca tivera uma palavra meiga para ela. A sua nica irm fugira com o noivo na vspera do casamento. Havia muito pouca coisa, ou mesmo 
nenhuma, de que gostasse neles. A me era uma pessoa fria, que abdicara de ter vida prpria h j vrios anos. Deixava o marido fazer e dizer tudo o que lhe apetecia, 
mesmo que contra os prprios filhos. Alex sempre sentira ter crescido num ambiente familiar desprovido de amor, onde era cada um por si, doesse a quem doesse. E 
no havia dinheiro ou pergaminhos familiares que alterassem isso. - Eles  que so os extraterrestres de que falas. Vieram de outra galxia impor o seu modo de vida 
na Terra. E fazem-no com extrema facilidade: no tm corao, o crebro  de reduzidas dimenses e processa apenas o bvio, e tm dinheiro a rodos, que usam, quase 
exclusivamente, em proveito prprio. O plano de conquistarem o mundo tem corrido relativamente bem. O meu pai  rei e senhor de tudo, e no est se importando com 
qualquer outro ser humano que no seja ele prprio. Para ser franca, Coop, no gosto deles. E eles tambm no gostam muito de mim. Nunca entrarei no seu jogo. Por 
isso, pensem o que pensarem de ns, se acabarem por vir a saber da nossa relao, estou pouco me lixando.

        - Bem, isso explica muita coisa. - Coop parecia surpreso pela veemncia do discurso de Alex. Era fcil perceber o quanto a haviam magoado, especialmente 
o pai. Coop sempre ouvira dizer que era um homem cruel, sem corao. - Mas, pelo que tenho lido, o teu pai  um filantropo.

        - Ele tem  um responsvel pelas relaes pblicas. O meu pai s faz doaes a causas que lhe possam trazer benefcios ou prestgio. Doou cem milhes de 
dlares a Harvard. Quem  que quer saber de Harvard, quando h crianas a morrer  fome por todo o mundo e pessoas a morrer de doenas que podiam ter cura? Ele no 
tem nada de filantropo.

        Ela sim. Todos os anos doava noventa por cento dos rendimentos que obtinha do fundo fiducirio e gastava apenas o indispensvel para viver. S se permitia 
pequenos luxos, como o apartamento no Wilshire Boulevard, mas muito raramente. Sentia ter responsabilidades para com o mundo por ser quem era, e fora tambm por 
isso que passara um ano a trabalhar no Qunia. Foi tambm a que soube que a irm fizera o enorme favor de lhe roubar o noivo. Ela e Crter ter-se-iam matado um 
ao outro. Levara anos a aperceber-se de que ele era tal e qual o pai, e que a irm era tal e qual a me: s lhe importava o nome, o dinheiro, a segurana e o prestgio 
que o fato de estar casada com uma pessoa importante lhe proporcionava. No dava a mnima para ele. E a nica coisa que Crter queria era ser o homem mais importante 
do planeta. O pai s queria saber de si, tal como Crter. Alex nunca fora muito chegada  irm, mas h anos que suspeitava que ela no era feliz, e tinha pena dela. 
Era uma pessoa sem idias, s, inspida, intil.

        - Ests a querer dizer que se aparecer nos tablides, ou onde quer que seja, que temos um romance, o teu pai no se importa? - indagou Cooper, incrdulo.

        - No, no estou. Estou a querer dizer-te que ele, provavelmente,  vai se importar, e muito. Mas eu no estou preocupada com isso. J sou uma mulher adulta.

        - Ele, provavelmente, no vai gostar que andes metida com uma estrela de cinema, e ainda por cima com a minha idade.

        Ou com a sua reputao. Afinal de contas, durante anos, fora um famoso playboy. Alex estava ciente de que at o pai sabia disso.

- Possivelmente - retorquiu Alex. - S tem menos trs anos do que tu.

        A informao de que o pai poderia reagir mal  relao dos dois deixou Coop preocupado. Arthur Madison poderia causar-lhes srios problemas. No sabia bem 
como, mas uma pessoa to poderosa como ele, geralmente, arranjava maneira de o fazer.

        - Ele pode deitar a mo ao teu dinheiro? - perguntou, nervoso.

        - No - respondeu Alex, sorrindo calmamente, dando a entender que Coop no tinha nada a ver com isso. Mas desconfiava de que ele no queria ser responsvel 
por quaisquer problemas que a famlia pudesse lhe causar. Era uma doura da sua parte preocupar-se com essa eventualidade. A maior parte do dinheiro que tenho herdei-o 
do meu av. O resto j o meu pai aplicou num fundo irrevogvel. E, mesmo que ele metesse a mo no dinheiro, no me importaria. Ganho para o meu sustento. Sou mdica. 
- Era a mulher mais independente que Cooper conhecera. No queria nada de ningum, e muito menos dele. No precisava de Coop, apenas o amava. Nem sequer do ponto 
de vista emocional estava dependente. Gostava da sua companhia, mas poderia desaparecer a qualquer momento, se preciso fosse. Era uma posio invejvel. Jovem, inteligente, 
livre, rica, bonita e independente. A mulher perfeita. Se bem que Coop a preferisse um pouco mais dependente. Com Alex no tinha quaisquer garantias. Estava com 
ele por opo prpria, at quando muito bem quisesse. - Isso responde a todas as tuas questes? perguntou a Coop, enquanto se inclinava para ele e o beijava, com 
os longos cabelos escuros caindo-lhe pelos ombros. Parecia uma das adolescentes que estavam na piscina, descala, de cales e T-shirt.

        - Por enquanto, responde. S no quero arranjar problemas entre ti e a tua famlia. Seria um preo demasiado alto a pagar por um romance.

        -J paguei esse preo, Coop - retorquiu, pensativa. Falava como se tivesse estado no inferno, quando a irm fugiu com o noivo.

        Passaram o resto do dia de forma agradvel. Leram o jornal, apanharam sol no terrao e fizeram amor no meio da tarde. Os adolescentes acabaram por se acalmar 
e mal se ouviam. Depois de os jovens partirem, Alex e Coop foram dar umas braadas antes do jantar. Na piscina no se via nada sujo ou fora do lugar. Parecia estar 
tudo em ordem. Mark fizera um bom trabalho de vigilncia, obrigando os jovens a arrumar tudo antes de a festa acabar.

        Nessa noite, Alex e Coop foram ao cinema. Na bilheteira, vrias cabeas se viraram na sua direo, e duas pessoas pediram autgrafos a Coop enquanto ele 
comprava pipocas. Alex j estava habituando-se a que reparassem neles em todo o lugar, e achava graa quando lhe pediam que se afastasse para fotografarem Cooper, 
geralmente na companhia de um ou dois elementos dos grupos de pessoas que os abordavam.

        -  famosa? - costumavam perguntar-lhe com alguma brusquido.

        - No, no sou - respondia, com um sorriso humilde.

        - Chega-te um bocadinho mais para a frente, por favor pedia Alex, enquanto ria e lhe fazia caretas atrs da mquina fotogrfica. No ficava aborrecida, achava 
graa e adorava provoc-lo.

        Depois do cinema, foram comer uma sanduche e voltaram cedo para casa. Alex tinha de se levantar s seis da manh, pois precisava de estar no hospital s 
sete. O fim-de-semana fora magnfico, e ela andava radiante de felicidade. Quando se levantou, teve o cuidado de no o acordar. Coop nem sequer a ouviu sair, e sorriu 
ao ver o bilhetinho ao lado da mquina de barbear.

        "Querido Coop, obrigada pelo fim-de-semana maravilhoso... calmo e relaxante... Se quiseres uma fotografia autografada, telefona ao meu agente... falamos 
logo. Amo-te. Alex."

        O engraado  que Coop tambm a amava. Nunca esperara que isso acontecesse. Sempre pensara que a atrao que sentia se devia ao fato de ela ser diferente 
das outras mulheres com quem geralmente andava. Era pura, honrada e meiga. No fazia a menor ideia do que devia fazer. Em circunstncias normais, teria gozado a 
relao durante umas semanas ou uns meses e passado  conquista seguinte. Porm, devido ao que Alex representava, e ao que tinha, deu consigo a pensar no futuro. 
As palavras de Abe no haviam cado em saco roto. J que ele o queria casado com uma mulher rica, Alex era a mulher perfeita. As vezes, quase desejava que ela no 
fosse quem era, porque no conseguia esquecer que se tratava de uma das mulheres mais ricas do pas. E no sabia ao certo o que teria sentido por ela se Alex no 
fosse quem era. Esse fato complicava as coisas e dava-lhes mais cor. Coop suspeitava dos seus prprios motivos, mais ainda do que Alex. E, no entanto, apesar de 
tudo, estava ciente de que a amava, significasse isso o que significasse, ou viesse a significar no futuro.

        - Relaxa e diverte-te! - disse Coop para a sua prpria imagem refletida no espelho, enquanto pegava na mquina de barbear.

        A sensao de desconforto tinha a ver com o fato de ela o obrigar a questionar-se, a desafiar a sua prpria conscincia. Amava-a? Ou seria apenas uma jovem 
muito rica que poderia resolver todos os seus problemas se casasse com ela? Se o pai deixasse. Ainda no estava inteiramente convencido de que Alex no se importava 
com aquilo que o pai pudesse dizer. Afinal de contas, era uma Madison, o que implicava uma certa responsabilidade no que concerne  escolha de um marido e  gesto 
do dinheiro.

        E havia outra questo... os filhos... continuava avesso  idia de ter filhos, por mais ricos que fossem. Achava que s serviam para dar dores de cabea. 
Porm, Alex era muito jovem para desistir da idia. Ainda no haviam conversado a srio sobre o assunto, mas tinha praticamente a certeza de que ela esperava ter 
filhos um dia. As idias ainda estavam muito baralhadas na sua cabea, assim como na de Alex. E, pior que tudo, no queria mago-la. Fora uma questo que nunca o 
preocupara com qualquer uma das mulheres com quem andara. Alex conseguira fazer brotar o que havia de melhor dentro de si, mas ainda no sabia muito bem se iria 
gostar disso. Ser responsvel e respeitvel era um fardo muito pesado.

        O telefone tocou enquanto fazia a barba. No o atendeu. Sabia que Paloma estava e,m algum lugar na casa, mas, onde quer que estivesse, ignorou-o, e o telefone 
continuou a tocar. Pensou que talvez fosse Alex, que estava a fazer vrios turnos seguidos para conseguir passar o fim-de-semana com ele. Correu para o telefone, 
ainda com espuma de barbear na cara, e ficou irritado mal ouviu a voz de Charlene.

        - Telefonei-te na semana passada e no me respondeste acusou-o em tom irado.

        - No recebi o recado. Deixaste mensagem no voice mail. - perguntou Coop, limpando o resto da espuma  toalha.

        - Falei com a Paloma - respondeu Charlene.

        S de ouvi-la, Coop estava a ficar com os nervos em frangalhos. A breve ligao que mantivera com ela parecia estar a anos-luz. Tinha um romance respeitvel 
com uma mulher honrada, no estava num circo sexual com uma jovem que mal conhecia. As duas mulheres, e os sentimentos que nutria por elas, pertenciam a mundos totalmente 
opostos.

        - Ento, est tudo explicado. - Queria que ela desligasse o telefone quanto antes. No alimentava o menor desejo de voltar a v-la. E estava grato aos tablides 
por nunca terem feito qualquer aluso ao relacionamento, mas tambm no haviam sado juntos com muita freqncia. Passara a maior parte do tempo com ela na cama. 
- A Paloma nunca me d os recados, s quando lhe apetece, e isso no acontece muitas vezes.

        - Tenho de me encontrar contigo.

        - No acho que seja muito boa idia - disparou Coop, com alguma rudeza na voz. - Alis, vou partir em viagem esta tarde. - Era mentira, mas tratava-se de 
uma desculpa que, geralmente, desencorajava as mulheres. - Creio que j no temos mais nada para dizer um ao outro, Charlene. Foi bom, para os dois, mas acabou.

Andara com ela apenas algumas semanas, no perodo que mediara entre Pamela e Alex. No havia agora motivos para dramas.

        - Estou grvida!

        Acreditara que Cooper ia mesmo ausentar-se da cidade e achou melhor dar-lhe a novidade, enquanto tinha oportunidade para isso.

        Coop mergulhou num longo e pensativo silncio. J antes se deparara com situaes idnticas, e sempre se haviam resolvido com relativa facilidade. Algumas 
lgrimas, um pouco de apoio emocional e dinheiro para pagar o aborto. E pronto. Este caso no seria diferente.

        - Lamento ouvir isso. No quero ser grosseiro, mas tens a certeza de que  meu?

        As mulheres detestavam ouvir esta pergunta, mas algumas no tinham mesmo a certeza de quem era o pai. E, no caso de Charlene, a pergunta justificava-se. 
Coop sabia que ela tivera uma carreira romntica muito ativa antes de andar com ele, e sabe-se l se durante e depois de a relao terminar.

        O sexo era o pilar principal da vida de Charlene e o seu principal meio de comunicao. Enquanto para algumas mulheres eram a comida ou as compras que funcionavam 
como base das suas vidas, para ela, era a atividade sexual. Sentiu-se insultada e respondeu de imediato:

        - Claro que tenho a certeza que  teu! Achas que te telefonava se no fosse?

        -  uma pergunta interessante. De qualquer modo, lamento. Conheces um bom mdico?

        A notcia da gravidez p-lo imediatamente de p atrs. Estava sentindo-se ameaado.

        - No. Alm disso, no tenho dinheiro.

        - Vou pedir ao meu contabilista que te mande um cheque para cobrir as despesas- Nos dias que corriam, fazer um aborto era relativamente fcil. Noutros tempos, 
teria sido preciso atravessar a fronteira mexicana ou voar at  Europa. Agora, era uma operao de rotina, como fazer uma limpeza nos dentes, isenta de perigos 
e pouco cara. - Vou enviar-te o nome de alguns mdicos.

        Este problema no passava de uma pequena onda no oceano da sua vida. Piores coisas poderiam ter acontecido. Como um escndalo pblico, que, de momento, queria 
evitar a todo o custo, por causa de Alex.

        - Estou decidida a ter o beb! - anunciou Charlene, de chofre.

        Parecia obstinada, teimosa, perigosa at. A nica coisa que Coop queria era proteger a sua vida e a de Alex, e Charlene representava uma ameaa. Nunca o 
amara. E tudo indiciava que se tratava de chantagem. Era difcil sentir o que quer que fosse por Charlene. Qualquer sentimento protetor que tivesse no era por ela, 
mas por Alex. No queria que este pesadelo a atormentasse.

- No acho que seja boa idia, Charlene - retorqui Coop, tentando manter as distncias
        Ela bem poderia ter resolvido a situao sozinha, sem lhe dizer o que quer que fosse. A relao no fora to prolongada assim. Mas o que a moa realmente 
queria era arrast-lo tambm para o seu drama. Ter um filho de uma estrela de cinema, para algumas mulheres, era no s algo que as atraa, mas tambm uma forma 
de presso para arranjar dinheiro. - No nos conhecemos assim to bem. Alm disso, s muito nova e bonita para ficares j com um beb nos braos. Do uma trabalheira 
dos diabos.

        Era um argumento que fazia sentido e que ele sempre defendera, mas Charlene no parecia ter inteno de recuar. Na verdade, por que razo  que ela quereria 
ter um filho de um homem que era praticamente um estranho? S que, neste caso, o estranho chamava-se Cooper Winslow.

        -J fiz seis abortos. No posso fazer outro, Coop. E, alm disso, quero ter o nosso filho. - O nosso filho! Era a que residia a chave do problema. Charlene 
estava a pression-lo a voltar para ela. E Coop questionou-se se ela estaria mesmo grvida e se isto no passaria de um estratagema para lhe tirar dinheiro. - Quero 
encontrar-me contigo.

        - Tambm no  uma boa idia. - A ltima coisa que Coop queria na vida era ter um encontro histrico com ela. O que Charlene realmente pretendia era t-lo 
de volta e faz-lo sentir que tinha obrigaes para com ela, mas o velho ator no estava tentado a isso. No acreditava que Charlene estivesse sendo sincera e no 
estava disposto a fazer nada que pudesse deitar por terra a sua relao com Alex. O romance com Charlene durara umas meras trs semanas. O que mantinha com Alex 
poderia durar uma vida. - No te posso obrigar a fazer o que quer que seja, mas acho que devias fazer o aborto.

        No iria rebaixar-se ao ponto de lhe suplicar que o fizesse. Preferia estrangul-los aos dois, a ela e ao beb, caso houvesse algum. Continuava a no acreditar 
que ela estivesse grvida e, se estava, que no fosse ele o pai.

        - No vou fazer nenhum aborto! - respondeu Charlene, num tom decidido, e comeou a chorar. Disse-lhe, ento, que o amava muito, que sempre pensara viver 
com ele at  morte, que achava que Coop tambm a amava e que no sabia o que iria fazer com uma criana sem pai nos braos.

        - A questo  precisamente essa - retorquiu Coop, num tom glacial, determinado a no lhe dar a entender que estava preocupado. - Nenhum filho merece um pai 
que no o reconhece. No me vou casar contigo. Nem sequer te quero ver, nem a ti nem ao beb. No quero ser pai. Alis, nunca te dei a entender que te amava. Somos 
dois adultos que fizemos sexo durante umas semanas e nada mais do que isso. No confundas as coisas.

        - Bem,  assim que se fazem os bebs - respondeu Charlene, soltando, de repente, uma risadinha. Coop sentiu-se como se estivesse num filme medocre e no 
gostou. - Tambm  teu filho, Coop - acrescentou, num tom melado.

        - O beb no  meu. Nesta altura, no  de ningum. No  nada, no passa de uma clula do tamanho da cabea de um alfinete, e no significa nada. Nem sequer 
sentirs a sua falta.

        Coop sabia que o que estava a dizer no era inteiramente verdade, porque os hormnios a fariam acreditar que o amava.

        - Sou catlica!

        - Tambm eu, Charlene. Mas, se isso fosse assim to importante para qualquer um de ns, no teramos dormido juntos fora dos laos do casamento. Acho que 
no tens alternativa. Ou adotas uma atitude sensata ou uma atitude pateta. No vou entrar nesse jogo. Se tiveres esse beb, ser sem o meu apoio ou a minha bno.

        Coop queria que ela soubesse, desde o incio, que a sua posio era inabalvel, e que no devia alimentar qualquer tipo de iluses.

        - Mas ters de dar apoio. Est na lei. Alm disso, no posso trabalhar enquanto estiver grvida. No posso fazer passagens de modelos ou entrar num filme 
com uma barriga enorme. Vais ter de me ajudar. - Coop mal tinha dinheiro para si, quanto mais para ela. - Acho melhor encontrarmo-nos para discutir o assunto. - 
A voz adquiriu, subitamente, um tom mais animado. Coop desconfiou que Charlene achava que acabaria por convenc-lo a encontrar-se com ela, e at a casar-se, caso 
tivesse o beb. Odiou-a. Charlene estava a ameaar no s as suas finanas, mas tambm a sua relao com Alex, que prezava acima de tudo.

        - No me vou encontrar contigo - declarou Coop, num tom de fria determinao.

        - Acho melhor vires, Coop - retorquiu Charlene, em tom ameaador. - Que pensaro as pessoas se souberem que no queres saber nem de mim nem da criana?
        
        Quem a ouvisse, pensaria que ele a deixara com sete filhos nos braos, ao fim de dez anos de casamento. A rapariga com quem dormira algumas semanas transformara-se 
numa chantagista e num pesadelo.

        - E que pensaro as pessoas quando souberem que me ests  chantageando? - respondeu Cooper, com aspereza.

        - No se trata de chantagem, mas sim de paternidade.  isso que as pessoas pensaro, Coop. As pessoas casam-se e tm bebs. Outras vezes, tm bebs e casam-se.

        Havia um tom de inevitabilidade na sua voz, e Coop sentiu vontade de a esbofetear. Nunca ningum lhe fizera nada de semelhante na vida, e ainda por cima 
com tal sangue-frio. Todas as mulheres que engravidara haviam sido razoveis. Mas, para Charlene, esta era a sua oportunidade de ouro.

        - No me vou casar contigo, Charlene, quer tenhas a criana, quer no. Que isto fique bem claro. E estou-me lixando para aquilo que fizeres. Pago o aborto, 
mas mais nada. E, se ests  espera que te d uma penso, ters de me mover um processo.

        No tinha agora a menor dvida de que ela o faria. E com o mximo de repercusso pblica, muito provavelmente.

        - Isso  algo que eu detestaria fazer. Seria publicidade negativa para ambos. Poderia prejudicar as nossas carreiras.

        Coop teve vontade de lhe dizer que ela no tinha carreira alguma, e a verdade  que, de momento, ele tambm no. Ningum o contratava para papis importantes, 
s para participaes especiais e, de vez em quando, para anncios. No entanto, no queria que ela o arrastasse para um escndalo. Nunca se vira envolvido em nada 
do gnero. Poderia ser conhecido por frvolo, por playboy, mas nunca ningum tivera nada de escandaloso a apontar-lhe. Mas, se Charlene fosse avante com os seus 
intentos, tudo mudaria. Alm disso, por causa do romance com Alex, o momento no podia ser pior. Arthur Madison iria adorar.

        - Posso encontrar-me contigo ao almoo, antes de partires? - O tom era doce e inocente. To depressa vestia a pele de lobo como a de cordeiro.

        - No, no podes. Mando-te um cheque ainda de manh. O que fizeres  contigo, mas asseguro-te que no vou mudar de idia. No me vou meter nesta autntica 
loucura, se tiveres o meu beb.

        - Ests vendo? - Parecia satisfeita. - Tambm j ests a pensar nele como sendo teu filho.  o nosso filho, Coop. E vai ser um beb  lindo.

Coop sentiu-se enojado.

        - Ests louca varrida. Adeus, Charlene!

        - Adeus, papai! - murmurou Charlene, e desligou, enquanto Coop se sentava, de olhos fixos no telefone, aterrorizado. Sentia-se no meio de um pesadelo.

        Interrogava-se sobre o que ela iria fazer: se percebera que ele no estava disposto a entrar no jogo e faria o aborto, ou se insistiria em ter o beb. Se 
isso acontecesse, originaria uma escandaleira tremenda, especialmente com Alex. Em condies normais, Coop no lhe teria dito nada, mas havia tanta coisa em jogo 
que achava prefervel ter uma conversa franca com ela para a pr ao corrente de todo este imbrglio. Charlene parecia obstinada nos seus intentos e no havia forma 
de a dissuadir. Por muito que lhe custasse, Coop sabia que havia duas coisas a fazer de imediato.

        Primeiro, tinha de mandar um cheque a Charlene para cobrir as despesas do aborto. Depois, tinha de se encontrar com Alex e contar-lhe o sucedido. Foi buscar 
o livro de cheques e passou um num valor que lhe pareceu razovel. Telefonou a Alex, que se encontrava no hospital, e deixou mensagem para que ela lhe ligasse quando 
tivesse um minuto livre. Nunca pensou ter de lhe contar, mas era a coisa mais sensata a fazer, dadas as circunstncias. S esperava que ela no acabasse com a relao 
depois de ouvi-lo
CAPTULO 13

        Alex telefonou meia hora depois. Andara atarefada a tratar da papelada de admisso de um prematuro, depois, tivera de assistir outro com um problema na vlvula 
coronria. O problema era solucionvel, mas o beb precisava  ficar sob vigilncia.

        - Como ests?

        - Manh complicada? - Coop estava nervoso, mas no queria que ela  percebesse. No queria mago-la e, muito menos, perd-la.

        - Nem por isso. As coisas esto andando. - Parecia ter tudo sob controle. Ficava radiante sempre que Coop lhe telefonava. Adorava conversar com ele, quando 
tinha um minuto disponvel.

        - Tens tempo para um almoo rpido? - perguntou Coop, tentando mostrar-se despreocupado.

        - Lamento, mas no posso sair daqui. Sou a chefe de turno e tenho de ficar at ao fim. - Estava de servio at  manh seguinte. - Nem sequer posso sair 
do edifcio.

        - Mas no precisas de sair. E se eu fosse at a beber um caf?

        - Seria timo. Passa-se alguma coisa?

        Era a primeira vez que Coop se prontificava a ir ter com ela ao hospital. Talvez estivesse com saudades, pensou Alex.

        - No, s quero ver-te.

        A maneira como Coop proferira estas palavras quase a pusera nervosa. Dissera que apareceria por volta do meio-dia.

        Mal desligou, Alex centrou a ateno numa urgncia que, surgira neste meio tempo.. Ainda estava acabando de assinar a papelada que deixara pendente, quando 
a funcionria da recepo a informou de que algum a procurava.

        -  quem eu penso? - perguntou a mulher, quando ligou para o gabinete de Alex. Estava maravilhada, e Alex riu-se.

        - Acho que sim.

        - Bolas,  mesmo um sortudo! - comentou, baixinho, num tom de admirao, enquanto Alex pousava os papis.

        - Pois . Diz-lhe que vou j para a.

        Era um bom momento para fazer uma pausa. Ps apressadamente o casaco branco sobre os ombros e dirigiu-se  recepo. Trazia meias e tamancos, um estetoscpio 
ao pescoo e um par de luvas de borracha pendurado do bolso do casaco. Os cabelos estavam presos numa trana e, como de costume quando estava de servio, no usava 
maquiagem.

        - Ol, Coop - cumprimentou Alex, enquanto o pessoal que se encontrava na Unidade de Cuidados Intensivos o olhava discretamente. O velho ator estava impecvel, 
como sempre, de casaco desportivo de tweed, camisa de gola alta bege, calas caqui imaculadamente passadas e sapatos castanhos. Parecia sado de uma revista de moda, 
e Alex sentia-se como se tivesse sido arrastada por entre arbustos.

        Alex informou, na recepo, que ia  cafeteria comer qualquer coisa e pediu que lhe enviassem um bipe se precisassem dela.

        - Com um pouco de sorte, pode ser que me dem dez minutos. - Alex ps-se na ponta dos ps para dar um beijo nas faces de Coop, que, pondo-lhe o brao por 
cima, a conduziu at ao elevador. Quando as portas se fecharam, todas as pessoas tinham os olhos cravados neles. Coop era uma autntica viso. - Aumentaste a minha 
importncia aqui no hospital em quatrocentos por cento. Ests espetacular.

        Coop, com ar apaixonado, puxou-a mais para si.

        - Tambm tu. Ests com um ar muito profissional, com toda essa tralha que trazes contigo.

        Alex trazia o bipe, o estetoscpio e uma pina esquecida presa ao bolso. Os instrumentos de trabalho davam-lhe um ar mais adulto. Coop ficara impressionado 
com o modo desenvolto e firme como ela, ao passar na recepo, dera instrues a uma das enfermeiras. J tinha um certo estatuto no hospital. Coop estava cada vez 
mais nervoso,  medida que o momento de lhe contar o problema com Charlene se aproximava. No fazia a menor idia de como ela iria reagir. Mas tinha de lhe contar, 
antes que soubesse do caso por outra pessoa. Graas a Charlene, as coisas entre ele e Alex podiam complicar-se.

        Ambos escolheram sanduches, que puseram num tabuleiro, e Alex encheu duas chcaras de caf.

        - Isto  um veneno - avisou, apontando para o caf. Diz a lenda que lhe pem veneno para os ratos, e eu acredito. Se te sentires mal, levo-te para a  Urgncia, 
depois de almoo.

        - Ainda bem que s mdica - disse, enquanto pagava.
        
        Seguiu-a at uma mesa de canto. Graas a Deus, no havia ningum por perto e, at o momento, ningum o reconhecera. Queria passar uns minutos de sossego 
com Alex. Ela j comia o sanduche, e Coop ainda no desembrulhara o seu. Levou alguns minutos tentando manter a compostura, e Alex reparou que as mos do velho 
ator tremiam ao pr o acar no caf.

        - Que se passa, Coop? - Estava calma e fitava-o com olhar meigo.

        - Nada... no... no  verdade... aconteceu-me uma coisa esta manh.

        Alex reparou que o olhar de Coop denotava alguma preocupao. Nem sequer tocara n sanduche e no caf.

        - Uma coisa m?

        - Uma coisa aborrecida. E  sobre isso que quero falar contigo. - Alex no conseguia imaginar o que seria. O olhar do velho ator tambm no denunciava o 
que quer que fosse. Coop conteve a respirao e lanou-se de cabea para aquilo que receava vir rapidamente a transformar-se em guas tempestuosas. - Tenho cometido 
algumas loucuras ao longo da minha vida, Alex. No muitas, mas algumas. E passei mais momentos bons do que maus. Nunca magoei ningum. Sempre joguei limpo com pessoas 
que jogavam limpo.

        Alex comeou a ficar em pnico. Pressentia que Coop ia dizer-lhe que estava tudo acabado entre os dois. As palavras que o velho ator acabara de proferir 
pareciam ser a introduo. J passara por uma cena semelhante h relativamente pouco tempo. E nunca mais se entregara a ningum. At aparecer Coop. Ficara deslumbrada 
desde o instante em que o conhecera. E, agora, tudo isto soava a discurso de despedida. Recostou-se na cadeira e fitou-o em silncio. Quanto mais no fosse, iria 
assumir as suas responsabilidades com dignidade e coragem. Coop reparou que ela estava retrada. Era o instinto de autodefesa. Mas continuou. Tinha de faz-lo.

        - Nunca me aproveitei de ningum. Nunca enganei nenhuma mulher. Muitas das mulheres com quem andei tinham perfeita conscincia do que estavam a fazer. Cometi 
alguns erros, mas tenho a folha limpa. Sem vtimas. E quando as coisas acabavam, bastava um obrigado e um adeus, de parte a parte. Tanto quanto sei, no h ningum 
que me deteste. Muitas das mulheres com quem andei gostam de mim, e eu gosto delas. E os erros foram rapidamente corrigidos.

        - E agora? A nossa relao  um erro, Coop? - Alex esforava-se por conter as lgrimas. Estaria ele tentando corrigir um desses erros?

        - Claro que no! Pensavas que eu me estava me referindo a ns? Oh, querida... no tem nada a ver conosco. Tem a ver com uma estupidez que fiz antes de te 
conhecer. - E tomou as mos dela nas suas, deixando-a muito mais aliviada. - Vou tentar ir direto ao assunto, sem mais rodeios. Antes de te conhecer, andei um tempinho 
com uma jovem. Teria sido melhor no o ter feito.  uma garota simples, aspirante a atriz, e os seus nicos papis foram em filmes pornogrficos. No tem muitos 
atributos, mas achei-a doce e entramos no jogo. Ela conhecia as regras, j no era propriamente uma menina inocente. E nunca lhe criei falsas iluses. Nunca fingi 
que a amava. Foi um interldio sexual para ambos e nada mais do que isso. E tudo acabou ao fim de pouco tempo. Parecia simples e completamente inofensivo.

        - E depois? - J no conseguia agentar o suspense. Mas, se no estava apaixonado pela jovem, por que razo lhe estava a contar tudo aquilo?

        - Telefonou-me esta manh. Est grvida.

        - Merda! - exclamou Alex, com uma enorme sensao de alvio. - Pelo menos no  uma doena terminal.  um problema que se pode resolver com relativa facilidade.

        Sentia-se extremamente aliviada por Coop no lhe ter dito que estava apaixonado pela outra mulher. A ele, por seu turno, parecia-lhe que tinha tirado um 
peso de meia tonelada de cima das costas. Alex no se levantara da mesa para sair porta fora, nem lhe dissera que nunca mais queria v-lo. Mas tambm ainda no conhecia 
a histria toda.

        - O problema reside mesmo a. Ela quer ter o beb.

        - S vejo dois motivos para ela querer ter o beb: ser me de um filho de uma estrela, ou fazer chantagem contigo.

        Alex estava a analisar o problema de forma pragmtica e inteligente, o que tornava a conversa mais fcil do que Coop imaginara.

        - Mais ou menos. Quer dinheiro. Diz que no pode trabalhar enquanto estiver grvida. Suponho que no fazem filmes pornogrficos com mulheres grvidas - respondeu 
Coop, num tom sombrio, e Alex apertou-lhe as mos, tentando confort-lo. - Quer que os apoie monetariamente, a ela e ao beb. Disse-lhe que no quero ter filhos, 
nem dela nem de outra pessoa qualquer... a no ser de ti - acrescentou, com um sorriso triste. Tinha a sensao de estar a fazer papel de idiota, mas sentia-se na 
obrigao de lhe confessar tudo. - No lhe falei de ti. Receei que ela pegasse em armas. Alis, j est em p de guerra. Parecia doida: to depressa chora, como 
ameaa, como fala num tom delicado-doce do "nosso beb".  uma situao nauseabunda e, ao mesmo tempo, aterradora. No fao a menor idia de quais so os seus intentos: 
se vai, efetivamente, ter a criana, ou se vai pr os tablides ao corrente da situao. D-me a sensao de que  pessoa para se pr a disparar em todas as direes. 
J lhe mandei um cheque para pagar o aborto, mas  a nica coisa que, de momento, estou disposto a fazer. O romance durou trs semanas. Nem sequer devia ter comeado. 
Na minha idade, j devia estar precavido contra este tipo de situaes. Mas eu andava aborrecido e ela era divertida. No entanto, o que est acontecendo no tem 
nada de divertido - disse, cheio de remorsos. - Lamento muito, Alex, ter trazido toda esta confuso para as nossas vidas, mas achei melhor pr-te ao corrente de 
tudo. Tens todo o direito de saber, especialmente se ela for para os jornais.  muito capaz disso. Eles adorariam.

        - Ela, provavelmente, tambm. Tens a certeza de que est grvida? Pode estar s vendo o que pode arrancar de ti. No me parece ser pessoa de boa ndole.

        -  evidente que no . No sei se est realmente grvida ou no, ou sequer se a criana  minha.

        - Mas podes mandar fazer os testes de DNA, especialmente se ela estiver disposta a fazer a amniocentese. Podem fazer-lhe os testes nessa altura. Mas ainda 
 cedo. Ela est de quanto tempo?

        - Acho que falou em dois meses. Uma coisa desse gnero.

        Alex andava com Coop h seis semanas, portanto ele estava a falar verdade quando dizia que andara com a jovem at pouco antes de a conhecer. Duas semanas, 
no mximo. Mas ela no tinha nada a ver com aquilo que ele fizera antes de a conhecer.

        - O que  que vais fazer?

        Gostara da atitude de grande honestidade de Coop, que os aproximara ainda mais. Ambos sabiam que estas coisas aconteciam. Especialmente no mundo de Coop, 
a homens que eram estrelas e alvos fceis de extorso e chantagem.

        - Ainda no sei. De momento, pouca coisa posso fazer, a no ser esperar para ver o que ela faz. Quis avisar-te para estarmos cientes das armadilhas que podem 
surgir no nosso caminho, caso ela v para os jornais.

        - Casarias com a garota se ela tivesse o beb?

        - Ests louca? De modo nenhum. Mal a conheo. E,  alm de umas pernas bonitas e outros atributos afins, daquilo que conheo, no gosto. No estou apaixonado 
por ela, nunca estive, nem nunca estarei. E nem sou tolo nem nenhum samaritano para me casar nestas circunstncias. Na pior das hipteses, terei de dar uma penso 
 criana. Disse-lhe que nunca veria a criana e frisei bem que estava falando a srio.

        Mas isso era outra histria, tinha a ver com a responsabilidade e a moral. Alex sabia que ele teria de rever a situao mais tarde, se Charlene viesse realmente 
a ter a criana. Pelo menos, no estava apaixonado pela garota e no tinha inteno de casar com ela. No essencial, este problema, no afetava em nada a relao 
de Coop e Alex.  exceo de algum barulho que poderia surgir, mais tarde, nos tablides, e que no preocupava Alex. A nica coisa que a preocupava era o que Coop 
sentia por ela.

        - Estas coisas acontecem com alguma regularidade. So situaes desagradveis, mas no  o fim do mundo. Sinto-me muito melhor por saber o que se passa e 
no acho que seja um problema assim to grande. Talvez embaraoso, se sair nos jornais. Mas coisas deste gnero esto constantemente  acontecendo. Sinto-me muito 
melhor. - E esboou um sorriso de alvio. - Pensei que fosses me dizer que estava tudo acabado entre ns.

        - s uma mulher maravilhosa. - Coop recostou-se na cadeira, ao mesmo tempo que soltava um suspiro de alvio e lhe lanava um prolongado olhar de gratido. 
- Amo-te do fundo do corao. Estava com medo que me mandasses dar meia volta e me atirar ao rio.

        - Pouco provvel. - Nenhum deles almoara, tal a ateno com que haviam seguido a conversa. De repente, ouviu-se um bipe. - Merda! - exclamou Alex, ao olhar 
para a mensagem. Bebeu um gole de caf s pressa e levantou-se. -  uma emergncia... tenho de ir... no te preocupes, vai correr tudo bem... amo-te... telefono-te 
mais tarde...

Ela ia j a meio da cafeteria, em passo apressado, quando Coop se ergueu e, com os olhares de toda a gente  sua volta fixos em si, gritou:

        - Amo-te!

        Alex virou-se para trs, radiante de felicidade, e acenou-lhe, enquanto o funcionrio que limpava as mesas com um pano mido sorriu para Coop.

        O velho ator saiu de corao mais leve e alma renascida. Era uma mulher extraordinria, e apesar do que acontecera, ainda era sua.
CAPTULO 14

        Sentado na cozinha, Jimmy analisava uma pilha de papelada que trouxera do trabalho, ao mesmo tempo que tentava arranjar vontade para fazer o jantar. Raramente 
jantava, exceto quando os colegas o convidavam ou quando Mark lhe trazia um hambrguer. No queria saber se comia ou no, se vivia ou no. Passava os dias a desejar 
que chegassem ao fim o mais depressa possvel. E as noites eram interminveis.

        J haviam decorrido trs meses desde a morte de Maggie, e comeava a perguntar-se se chegaria a recuperar completamente da morte da esposa. No vislumbrava 
um fim para a angstia que o ia consumindo.  noite, deitava-se na cama e chorava. Nunca adormecia antes das trs ou quatro da manh e, s vezes, j era de dia e 
ainda no conseguira adormecer.

        Sabia que mudar-se para esta casa fora uma boa opo, mas o que agora tambm sabia era que trouxera Maggie consigo. Levava-a para todo o lado, no corao, 
na cabea, nos ossos, no corpo. Fazia parte dele, de todos os seus pensamentos e reaes, do modo como olhava para as coisas, parte das suas crenas e desejos. Por 
vezes, sentia-se mais Maggie do que Jimmy. Via tudo atravs dos seus olhos. E aprendera tanto com ela que chegava a interrogar-se se no teria sido por isso que 
Maggie morrera. A dor e as saudades que sentia, dia e noite, eram insuportveis. No havia nada que melhorasse o seu estado de esprito. s vezes, durante algumas 
horas, conseguia libertar-se dessa dor, como quando estava com Mark, ou ia trabalhar, ou treinava a equipa de softball. No entanto, estava sempre ali,  sua espera, 
como uma velha amiga, a dor que o perseguia por todo o lado e procurava venc-lo. De momento, era a dor que ganhava.

        Acabara de decidir no fazer nada para o jantar, quando ouviu bater  porta. Levantou-se e foi ver quem era. Estava com um ar cansado e os cabelos em desalinho. 
Esboou um sorriso quando deparou com Mark. Ultimamente, via-o com menos freqncia, porque andava sempre ocupado com os filhos. Tinha de cozinhar para eles e ajud-los 
a fazer os trabalhos de casa. Mas telefonava muitas vezes a convid-lo para jantar. Jimmy gostava de Jessica e de Jason, achava-os divertidos. Tambm eles o faziam 
sentir-se mais s. Lembravam-lhe que ele e Maggie deveriam ter tido filhos. Nunca mais poderia t-los, nem sentir os braos dela a enlaarem-no.

        - Comprei comida. Lembrei-me de passar por aqui para ver se queres jantar conosco. - s vezes, como Mark bem sabia, o melhor era aparecer de repente e pux-lo 
para fora da "toca". Isolava-se muito. Mark sabia que Jimmy estava passando um mau bocado. E, ultimamente, parecia pior. Dava a impresso de que, com a chegada do 
bom tempo, com o cheiro da primavera por todo o lado, se sentia ainda mais s.

        - No... tudo bem... em todo o caso, obrigado... Trouxe uma porrada de coisas do trabalho. Passo a vida em visitas domiciliares e nunca consigo arranjar 
tempo para pegar nas coisas que tenho no escritrio.

        Tinha um ar plido e cansado. Mark conhecia bem o sofrimento por que ele passava. Mas as coisas haviam melhorado substancialmente para si, com a chegada 
dos filhos. S esperava que a Jimmy acontecesse tambm algo de positivo. Era um tipo simptico, bonito e inteligente. Ultimamente, nem sequer haviam batido umas 
bolas de tnis. Os filhos mantinham-no muito ocupado e no dispunha de tempo livre.

        - Mas, de qualquer forma, tens de comer. Porque  que no me deixas preparar qualquer coisa? Vou fazer costeletas e hambrgueres. - O regime alimentar era 
pouco variado. J prometera aos garotos comprar um livro de cozinha para aprender a fazer outros pratos.

        - Falando srio, estou bem - retorquiu Jimmy, com ar cansado. Sabia que Mark estava tentando ajud-lo, mas no tinha vontade de conviver com outras pessoas. 
H meses que  era assim, e ultimamente piorava. Nem sequer ia ao cinema. A ltima vez que vira um filme fora na companhia de Maggie. Dava a impresso de que no 
queria fazer a sua vida normal, para no lhe ser infiel.

        - Oh, quase me esquecia... - disse Mark, com um largo sorriso. - Tenho uma notcia bombstica sobre o nosso senhorio. - E passou-lhe o exemplar de um jornal. 
Era uma notcia desagradvel, mas estava deleitado com ela. - Pgina dois.

        Jimmy abriu o tablide e ficou surpreendido.

        - Que bronca! - Havia uma fotografia de Coop que cobria meia pgina e, ao lado, outra de uma mulher sensual, de longos cabelos negros e olhos asiticos. 
O artigo estava recheado de alegados pormenores e insinuaes acerca do apaixonado romance, da criana adorvel que vinha a caminho, de mexericos sobre Coop e uma 
lista de mulheres conhecidas com quem ele mantivera ligaes. - Com a  breca! - exclamou, com um sorriso de espanto, enquanto devolvia o jornal a Mark. - Ser que 
Alex j viu isto? No  muito divertido andar com um tipo que est metido numa confuso destas. E ela parece ser mulher de plo na venta.

        - No acho que v haver grande problema entre eles conjecturou Mark. - Andam um com o outro h pouqussimo tempo. As mulheres com Coop no parecem aquecer 
o lugar por muito tempo. Desde que estou aqui, j vi por a umas trs. Torna as coisas mais interessantes.

        - Pelo menos, para ele. Aposto que est borrado de medo com aquela coisa do beb. - No conseguiu conter uma gargalhada. - Ser pai com esta idade deve ser 
uma sensao!

        - Ter perto de noventa anos quando o pimpolho for para a faculdade.

        - E, se calhar, ainda vai dormir com algumas colegas do filho - aventou Jimmy, deliciado com o contedo do artigo. Quando Mark se despediu, Jimmy prometeu 
ir jantar com eles no fim-de-semana.

        Nessa noite, ao jantar, discutindo o artigo com Alex, Coop no estava com um ar to divertido. O fato de a notcia ter sado no jornal deixara-o extremamente 
irritado. Contudo, sentia tambm algum alvio por ter avisado Alex com antecedncia.

        -J saste um monte de vezes nos jornais. Faz parte da tua profisso. Se no fosses quem s, ningum estaria interessado em saber com quem dormes.

        -  uma sacanagem da parte dela ir para os jornais.

        - Era de esperar - Alex tentava acalm-lo, assegurando-lhe que este problema no a afetava minimamente. As pessoas acabariam por esquecer. - Nem toda a gente 
l jornais. - Coop sentia-se aliviado por ela se mostrar to compreensiva. As coisas assim ficavam muito mais fceis.

        Nessa noite, foram comer uma pizza e Alex fez todo o possvel para o distra-lo. Mas no foi tarefa fcil. Coop estava mal-humorado. Quando voltaram para 
casa, convidou-a para o acompanhar  cerimnia de entrega do scar. Alex ficou perplexa e, ao mesmo tempo, deleitada. Depois, o seu semblante adquiriu um ar preocupado.

        - Terei de ver se me posso ausentar do hospital. Acho que estou de servio.

        - No podes trocar? - J conhecia o esquema.

        - Vou tentar. Tenho feito muitas trocas ultimamente. Estou esgotando o estoque.

        - Mas esta  uma festa de arromba. - Coop fazia votos para que Alex fosse. No queria apenas a sua companhia, queria tambm ser visto com ela. Alex emprestar-lhe-ia 
a aura de respeitabilidade de que precisava para contrapor  porcaria que Charlene andava a vomitar. Mas no queria explicar-lhe isso. Essas eram as maquinaes 
internas de Hollywood e achava que devia poupar-lhe os pormenores.

        Alex ia passar novamente a noite com ele, embora, inicialmente, se tivesse mostrado um pouco relutante. Mas Coop sentia-se constrangido no apartamento, que 
se encontrava sempre num autntico caos. Mais parecia um gigantesco cesto de lavanderia do que um apartamento. Coop chamava-lhe "o cesto da roupa suja". E Alex adorava 
estar no Chal. Sentia um prazer imenso em nadar  noite e no se importava nada de encontrar os filhos de Mark na piscina. O lugar transmitia-lhe tranqilidade. 
Era fcil perceber porque  que Coop tinha uma adorao especial pela propriedade.

        Dois dias depois, Alex disse-lhe que j conseguira arranjar a troca para poder ir  cerimnia. Entretanto, ficou em pnico quando se apercebeu de que no 
tinha nada para vestir, nem tempo para ir s compras. O seu nico vestido de noite era o que usara para ir  festa dos Schwartz. E precisava de uma roupa mais chique, 
j que ia  cerimnia da entrega do scar na companhia de Cooper Winslow.

        - Nunca na vida me passou pela cabea ir a uma coisa dessas - disse, soltando uma risada, enquanto se aninhava ao lado de Coop, que estava radiante por ela 
poder acompanha-lo. Entretanto, num outro jornal, surgira mais um artigo sobre Charlene. O bombardeamento intensificava-se. Coop, porm, estava feliz por poder partilhar 
um evento daquela envergadura com Alex. - No sei se sabes, mas no tenho nada para vestir. Se calhar, vou ter de levar o jaleco com que ando no hospital. At l, 
no tenho muito tempo para ir s compras.

        - Deixa isso comigo - retorquiu Coop, misteriosamente. Sabia muito mais de roupa do que ela. J fizera o guarda-roupa de muitas mulheres. Era uma das coisas 
em que era perito. Alm de ser um mo-aberta.

        - Se comprares qualquer coisa, fao questo de pagar recordou-lhe Alex. No tinha a menor inteno de se transformar numa mulher monetariamente dependente 
do amante. E, ao contrrio das outras mulheres com quem Coop andara, Alex podia pagar as suas prprias extravagncias e fazia sempre questo disso. No entanto, apreciara 
o fato de Cooper se ter oferecido para lhe comprar a roupa que levaria  cerimnia.

        Nessa noite, Alex sonhou que estava num baile com um enorme vestido de noite e que rodopiava pelo salo, conduzida por um prncipe de imensa beleza. Esse 
prncipe era Coop. E estava  comeando a sentir-se uma princesa dos contos de fadas. O fato de uma das sditas ir ter um filho dele no a preocupava minimamente.
CAPTULO 15

        A noite da cerimnia de entrega do scar chegou mais depressa do que Alex esperava. Haviam-se passado duas semanas desde que Coop a convidara, e, este ano, 
realizava-se mais tarde do que era costume: na terceira semana de Abril. E, fiel  sua palavra, o velho ator arranjara-lhe um vestido fabuloso no Valentino. Era 
de cetim azul-escuro, decote em V e justo ao corpo, realando a sua silhueta de traos perfeitos. Conseguira ainda um casaco de pele de zibelina, cedido pela Dior, 
alm de um colar de safiras, que a deixou sem respirao, com uma pulseira e um par de brincos combinando.

        - Sinto-me como a Gata Borralheira - disse Alex, passeando com o vestido diante de Coop. Este contratara tambm um cabeleireiro e um maquiador. E, para poupar 
tempo, Alex vestiu-se no Chal.

        Quando chegou do hospital, mais parecia uma pedinte. Trs horas depois, estava deslumbrante, como uma princesa. Melhor do que isso. Parecia uma jovem rainha, 
ao descer a escadaria principal. Coop aguardava-a ao p das escadas, de sorriso nos lbios. Estava deslumbrante. Tudo nela deixava transparecer a aristocrata que 
efetivamente era. Quando se olhou ao espelho, ficou espantada ao perceber que estava parecida com a me. Lembrava-se de  t-la visto ir a bailes assim vestida. At 
se lembrava de um vestido azul semelhante a este. Mas nem mesmo a me alguma vez tivera safiras como as que a Van Cleef & Arpeis cedera a Coop. Eram enormes e ficavam-lhe 
espantosamente bem.

        - Uau! - exclamou Coop, fazendo uma vnia. Envergava um dos muitos casacos de cerimnia que possua, mandado fazer no seu alfaiate de Londres. Os sapatos 
eram de pele e os botes de punho tinham safiras. Haviam sido um presente de uma princesa saudita, cujo pai fizera o possvel e o impossvel para evitar que ela 
casasse com Coop. Por aquilo que ele dizia, o pai teria preferido vend-la a v-la como Mrs. Cooper. - Ests espantosa, meu amor!

        Nada do que Coop lhe dissera a preparara para a grande agitao com que iria deparar-se na cerimnia. Ainda era dia quando chegaram. Havia uma comprida passadeira 
vermelha  entrada e uma interminvel fila de limusines  espera que os convidados ilustres sassem. Mulheres deslumbrantes, de vestidos lindssimos e jias de brilho 
ofuscante, eram a norma, enquanto os reprteres se acotovelavam para as fotografar. Muitas delas, atrizes bem conhecidas, haviam acompanhado Coop noutras ocasies, 
mas este ano preferira ir com Alex, que significava muito mais para si. Eram o eptome da respeitabilidade aristocrtica  medida que avanavam lentamente pela passadeira 
vermelha. Alex, de brao dado com Coop, seguia nos seus sapatos de salto alto de cetim azul-escuro, esboando tmidos sorrisos, enquanto eram disparados centenas 
de flashs. Coop no lhe dissera, mas Alex lembrava-lhe Audrey Hepburn em Boneca de Luxo. Ele acenava para as cmaras, como se de um chefe de estado se tratasse. 
Enquanto isto, na ala de hspedes do Palacete ouvia-se um coro de exclamaes.

        - Oh, meu Deus!...  ela!...  a... como  que ela se chama?... Alex!!! E ele! - gritou Jessica, apontando para o televisor, ao mesmo tempo que todas as 
cabeas se voltavam. Jimmy assistia  cerimnia, tal como j acontecera quando da entrega do Globo de Ouro, na companhia de Mark. Est deslumbrante! - como a conhecia, 
Jessica estava mais excitada por ver Alex do que as estrelas de cinema.

        - Est magnfica! - exclamou Mark, de olhos fixos em Alex, tal como todos os outros. - Gostaria de saber onde  que ela arranjou o colar.

        - Se duvidar, emprestaram-no - aventou Jimmy, ainda sem perceber o que ela via em Cooper. Achava que era uma estupidez da parte de Alex andar com um homem 
como Coop. Merecia coisa melhor.

        - Nunca me apercebi de que fosse to bonita. Est um espanto, assim vestida! - comentou Mark.

        S a vira de cales e T-shirt na piscina e na noite em que pegara fogo aos arbustos. Mas, com aquele vestido, tinha de admitir, estava impressionante. Comeava 
a olhar para as mulheres com outros olhos, ao contrrio de Jimmy, cujo interesse pelo sexo oposto parecia ter morrido com Maggie. Mas Mark ainda no comeara a sair 
com ningum. Apenas olhava. De qualquer forma, no tinha tempo, andava demasiado ocupado com os filhos.

        Coop e Alex desapareceram do foco e entraram na sala onde iria desenrolar-se a cerimnia. Voltaram a v-los mais tarde, j sentados: um grande plano de Alex 
a rir e a segredar qualquer coisa ao ouvido de Coop, que soltou uma gargalhada como resposta. Pareciam muito felizes na companhia um do outro. Mais tarde, os fs 
viram-nos entrar na festa da Vanity Fair, no Morton's. Alex vestia o casaco de pele de zibelina e emanava o mesmo glamour de qualquer estrela de cinema. Talvez at 
mais, pois era autntico.

        Passara uma noite fabulosa e no encontrava palavras para agradecer a Coop. Regressavam a casa no Bentley, conduzido por um motorista. O conversvel Azure 
j se fora h muito, porque Coop no tinha dinheiro para o comprar. Mas a limusine Bentley, de uma elegncia mpar, era sua h vrios anos.

        - Que noite incrvel! - No cabia em si de contente. Eram trs da manh. Vira todas as estrelas de que j ouvira falar, e embora nunca houvesse tido nenhuma 
fixao por estrelas de cinema, tinha de admitir que fora excitante. Especialmente na companhia de Coop, que lhe contara muitos dos mexericos do mundo do cinema, 
e a apresentara a muita gente que ela j vira nalguns filmes. Sentia-se como a Gata Borralheira. - Tenho a impresso de que o coche se vai transformar numa abbora 
- gracejou, encostando-se mais a ele. - Tenho de estar no hospital dentro de trs horas. Se calhar,  melhor nem me deitar.

        -  uma opo. Estiveste magnfica, Alex. Todos pensaram que eras uma nova estrela. Se calhar, amanh, ters uma dzia de produtores a mandarem-te roteiros.

        - No  provvel - retorquiu Alex, soltando uma gargalhada, ao mesmo tempo que saa do carro. Era reconfortante chegar a casa depois de uma noite to longa. 
Tivera uma noite como nunca sonhara, graas a Coop, que fizera tudo o que lhe fora possvel para a tornar memorvel: o cabeleireiro, o maquiador e o colar de safiras.

        - Devia t-lo comprado - afirmou Coop, arrependido, quando Alex lhe devolveu o colar, que guardou no cofre, juntamente com os brincos e a pulseira. - Quem 
me dera poder.

        Custava trs milhes de dlares, como Alex verificara na etiqueta. Uma nota preta. Era a primeira vez que Coop admitia haver coisas que estavam para alm 
das suas posses. Se bem que, neste caso, estaria para alm das posses de muito boa gente. No ficou surpreendida e, de qualquer forma, tambm no o teria aceito. 
Foi divertido us-lo. Louise Schwartz tambm usara um semelhante, se bem que maior. Coop sabia que Louise tinha um igual, mas com rubis. Ela tambm estivera deslumbrante 
num vestido espetacular, feto propositadamente por Valentino.

        - Bem, princesa, vamos para a cama? - perguntou Coop, enquanto tirava o casaco e a gravata. Continuava to elegante como no incio da noite.

        -J sou outra vez a Gata Borralheira? - indagou Alex, sonolenta, enquanto subia as escadas com os sapatos na mo. Parecia uma princesa exausta.

        - No, meu amor, nem nunca sers.

        Para Alex, estar com ele era como viver um conto de fadas. Por vezes, tinha a sensao de que tudo o que a rodeava era irreal. Tinha de se lembrar que trabalhava 
num hospital com bebs prematuros doentes e que vivia num apartamento a abarrotar de roupa suja. Embora tivesse outras opes, h muito que resolvera rejeit-las. 
O glamour e as nicas extravagncias que tinha eram-lhe proporcionados por Coop.

        Adormeceu nos braos dele ao fim de pouco tempo. Quando o despertador tocou, s cinco da manh, deu meia volta, preparando-se para continuar a dormir, mas 
Cooper empurrou-a delicadamente para fora da cama e disse-lhe que telefonaria mais tarde. Vinte minutos depois, j estava ao volante do seu carro velho, ainda meio 
sonolenta. A noite anterior continuava a parecer-lhe um sonho. At se ver nos jornais da manh, que exibiam uma enorme fotografia sua ao lado de Coop.

        -  parecida contigo - disse uma das enfermeiras.

        E, de repente, fez um ar de espanto, ao ver o nome dela sob a fotografia: Alexandra Madison. Coop esquecera-se de dizer aos jornalistas que ela era mdica, 
e Alex tinha gracejado com ele, dizendo que trabalhara muito pelo ttulo e esperava que ele lhe desse uso.

        "No lhes posso dizer que s a minha enfermeira psiquitrica?", perguntara Coop, gracejando tambm. Alex exibia um ar radiante nas fotografias, de mo dada 
com Coop, que sorria. Era uma forma de dizer a toda a gente que tudo estava bem com ele e que no precisava de esconder-se. Fora essa a mensagem que tentara fazer 
passar, e o seu agente de imprensa deu-lhe os parabns ao fim da manh.

        - Foi timo para a sua imagem, Coop.

        Sem dizer uma palavra, a fotografia contrariava todas as porcarias e boatos veiculados pelos tablides. A mensagem subliminar era a de que, apesar dos rumores 
de ter engravidado uma atriz porn de segunda, continuava o mesmo homem ntegro e a andar com mulheres respeitveis.

        Saiu ainda uma outra fotografia deles no jornal da tarde. Quando Coop telefonou a Alex, disse-lhe que vrios colunistas sociais de jornais respeitveis, 
no de tablides, lhe haviam telefonado.

        - Querem saber quem s.

        - E disseste-lhes?

        - Claro. E, desta vez, disse-lhes que eras mdica. Tambm queriam saber se nos vamos casar. Respondi-lhes que ainda era muito cedo para tecer comentrios 
a esse respeito, mas que s a mulher da minha vida e que te adoro.

        - Bem, isso vai mant-los ocupados durante algum tempo - comentou Alex, enquanto levava um copo de plstico de caf frio  boca. Acabara de fazer doze horas 
seguidas, mas o dia fora relativamente calmo. Sentia-se mais cansada do que esperara. No estava habituada a andar na farra toda a noite e a trabalhar o dia todo. 
Coop dormira at s onze, depois, fora ao massagista,  manicura e ao barbeiro. - Fizeram alguma pergunta acerca do beb? - indagou, preocupada. Sabia que o assunto 
o aborrecia.

        - Nem uma palavra. - Tambm no voltara a ter notcias de Charlene, que andava demasiado ocupada a dar entrevistas aos tablides.

        Porm, duas semanas depois, o advogado dela contatou-o. O ms de Maio dava ainda os primeiros passos e Charlene dizia estar grvida de trs meses. Queria 
uma penso de gravidez, e estava disposta a comear a negociar a penso de alimentos para si e para a criana.

        - Penso de alimentos? Por um caso de trs semanas? Est louca! - indignou-se Coop, em conversa com o seu advogado. Mas Charlene alegava que no podia trabalhar 
at ter a criana; estava permanentemente com enjos. - Mas para dar as entrevistas j no tem enjos. Meu Deus, esta mulher  um monstro!

        - Reze para que o beb no seja o seu monstrinho respondeu o advogado. Concordaram, ento, que a penso estaria sempre dependente do fato de ela fazer uma 
amniocentese que inclusse testes de DNA. - Quais so as hipteses do beb ser seu, Coop?

        - Cinqenta por cento. As mesmas de qualquer outra pessoa. Dormi com ela, e o preservativo rompeu-se. Que hipteses tenho de ganhar a causa?

        - Terei de estudar o caso primeiro - respondeu o advogado, num tom sombrio. - No quero ser grosseiro, mas, como se costuma dizer: "Da fama j no se livra!" 
Espero que tenha muito cuidado agora, Coop. Vi-o com uma mulher muito bonita, no scar.

        - E muito inteligente - acrescentou, orgulhoso.  mdica.

        - E espero bem que no seja uma garimpeira como a ltima, que tambm  muito bonita. Tem traos euro-asiticos, no tem? Mas, seja como for, o corao parecido 
com uma caixa registradora. O resto era melhor?

        - No me lembro - respondeu, e passou logo  defesa de Alex. - A minha amiga mdica  tudo menos garimpeira. Com a famlia que tem, no precisa de mim para 
nada.

        - A srio? Quem  a famlia dela?

        - O pai  o Arthur Madison.

O advogado soltou um assobio de espanto.

        - Interessante. J teve notcias dele, desde que surgiu esta histria da gravidez da garota?

        - No.

- Mais cedo ou mais tarde, vai entrar em cena. Ele j sabe que voc anda com a filha?

- No sei. Ele e Alex no parecem entender-se muito bem.

- No  nenhum segredo. Vocs os dois aparecem em todos os jornais nacionais.

- Podia ter acontecido algo pior. - E j acontecera. Charlene aparecia em todos os tablides.

        Uma semana depois, foi a vez de Alex aparecer tambm nos tablides. Continuavam a explorar a histria da gravidez de Charlene, s que agora acrescentavam 
fotografias de Alex s de Coop e Charlene. Parecia uma rainha, e as manchetes, como era de esperar, eram horrveis. Mark continuava a comprar todos os jornais para 
mostrar a Jimmy. Jessica estava encantada com Alex, que encontrava regularmente na piscina. Tinham-se tornado amigas, embora Alex no falasse disso com Coop. Sabia 
o que ele pensava dos garotos e, alm de mais, achava que ele j tinha aborrecimentos suficientes.

        Ultimamente tambm Abe telefonara vrias vezes a Coop, a lembrar-lhe que andava a gastar demasiado dinheiro, e preocupado com a penso que teria de pagar 
a Charlene.

        - Voc no est em condies econmicas de pagar uma penso, Coop. Alm disso, se falhar um pagamento que seja, ela espeta consigo na cadeia.  assim que 
as coisas funcionam. E, por aquilo que me  dado observar,  mulher para isso.

        - Obrigado pela boa notcia, Abe.

        Coop andava a gastar menos dinheiro do que era costume, porque Alex tinha gostos simples, mas segundo o contabilista continuava numa situao deficitria.

        -  melhor casar com a Madison - gracejou Abe, perguntando-se se no seria devido  sua difcil situao econmica que Coop andava com ela. Dado Alex pertencer 
 famlia a que pertencia, era difcil imaginar que assim no fosse. Porm, a cada dia que passava, o velho ator estava mais convencido de que a amava.

Liz tambm lhe telefonara por causa do falatrio que vinha nos tablides. Sentia-se revoltada.

        - Que situao mais degradante! Nunca devia ter andado com ela, Coop!

        - A quem o diz!... E o seu casamento, como  que vai?

        - Estou adorando, embora esteja custando um pouco habituar a So Francisco. Estou sempre com frio, e a cidade  demasiado calma para meu gosto.

        - Bem, nesse caso, pode deixar o seu marido e voltar para mim. Estou sempre necessitado dos seus prstimos.

        - Obrigada, Coop. - Vivia feliz com Ted e adorava as filhas dele. S estava arrependida de no ter casado h mais tempo. Sacrificara-se muito por Coop. Adoraria 
ter tido os seus prprios filhos, mas agora era demasiado tarde. Aos cinqenta e dois anos, tinha de se contentar com as filhas de Ted. - Como  Alex?

        - Um anjo misericordioso - respondeu Coop, sorrindo. -  aquela pessoa que est sempre ao nosso lado. A Audrey Hepburn. O doutor Kildare.  espetacular. 
Voc iria gostar dela.

        - Venham passar o fim-de-semana a So Francisco.

        - Adoraria, mas ela passa o tempo no hospital. Tratava-se de uma ligao estranha, no conseguiu Liz deixar de pensar, mas Alex era indubitavelmente muito 
bonita. E os jornais diziam que tinha trinta anos, a idade mxima de que Coop gostava numa mulher.

        Perguntou-lhe ainda se estava com muito trabalho. No o vira aparecer em nenhum filme, nem tampouco em qualquer anncio publicitrio. Coop j falara com 
o seu agente a esse respeito, mas no havia nada em perspectiva. Como o agente lhe dissera, j no era propriamente um jovem.

        - Estou a trabalhar menos do que gostaria, mas tenho alguns papis em perspectiva. Esta manh falei com trs produtores.

        - O que voc precisa  de um papel principal. Depois, todos o querero contratar. Sabe bem que os produtores so uma cambada de medrosos, Coop. - Liz no 
lho quis dizer, mas ele precisava de um papel importante como pai de algum. O problema era que Coop s aceitava ser o ator principal, e ningum queria contrat-lo 
para esse efeito. Coop no se imaginava a fazer papel de velho e era por isso que se sentia to bem na companhia de Alex. Nunca lhe passara pela cabea que tinha 
mais quarenta anos do que ela, nem a Alex. Ao princpio, ainda ponderara esse assunto. Entretanto,  medida que o ia conhecendo melhor e ficando cada vez mais apaixonada, 
nunca mais pensou nisso. Nesse fim-de-semana, estavam deitados no terrao a conversar, quando o bipe tocou. Ao olhar para o visor, Alex viu que no era do hospital. 
Reconheceu de imediato o nmero mas s ao fim de meia hora pegou no celular para fazer o telefonema. Coop estava estendido numa cadeira de lona, a seu lado, lendo 
o jornal e ouvindo vagamente a conversa.  - Sim, tudo bem. Diverti-me bastante. Como  que ests? - No fazia a menor idia com quem ela falava, mas a troca de 
palavras no parecia muito amigvel, e Alex estava de sobrolho franzido. - Quando?... Acho que estou de servio... podemos encontrar-nos  hora de almoo no hospital, 
se ficar algum a substituir-me. Quanto tempo vais ficar por aqui?... timo... at tera!

        No sabia se Alex estivera a falar com um amigo, ou com um advogado, mas fosse como fosse, estava com cara de poucos amigos.

         - Quem era? - perguntou, confundido. - O meu pai. Vem a Los Angeles, na tera-feira, por causa de uma reunio. Quer encontrar-se comigo. - Deve ser um encontro 
interessante. Disse alguma coisa a meu respeito?

        - S que me viu no scar. Nunca referiu o teu nome. Est a guardar-se para mais tarde.

        - Achas que o levemos a jantar fora? - perguntou

        Coop, prontificando-se a tomar a iniciativa de o convidar, embora o enervasse pensar que o homem era mais novo do que ele, e muito mais importante. Arthur 
Madison no era s dinheiro, era tambm poder.

        - No! - respondeu Alex. Estava de culos escuros, de modo que Coop no conseguia vislumbrar a expresso dos seus olhos. Mas no era certamente uma expresso 
efusiva por voltar a ver o pai. - De qualquer forma, obrigada. Encontro-me com ele ao almoo, no hospital. Parte no avio logo a seguir  reunio. - Coop sabia que 
o velho Madison tinha o seu prprio Boeing 727.
        
        - Talvez para a prxima vez - disse, reparando que Alex no mostrava qualquer vontade de que o encontro se realizasse. Dez minutos depois, foi chamada ao 
hospital para um caso de urgncia.

        S voltou  hora do jantar, aproveitando, ento, para dar um salto at  piscina, onde encontrou Jimmy, Mark e os filhos. E, pela primeira vez desde que 
o conhecera, achou Jimmy mais animado. Os garotos ficaram delirantes ao v-la. Jessica teceu-lhe um elogio, dizendo que estava muito bonita na cerimnia da entrega 
do scar.

        - Foi muito divertido - afirmou Alex, com ar descontrado, depois de nadar durante meia hora. Enquanto Jessica e Mark faziam companhia a Alex na piscina, 
Jimmy e Jason treinavam lanamentos de basebol. Jimmy explicava a Jason como corrigir o lanamento.

        Dez minutos depois, quando Jessica interrogava Alex acerca do modo como as estrelas se tinham apresentado na cerimnia, uma bola passou que nem um mssil 
sobre as suas cabeas, direitinha  janela da sala de estar de Coop.

        - Merda! - exclamou Mark, entre dentes, perante o olhar espantado de Jessica e Alex.

        - Que tirao! - gritou Jimmy para Jason, eufrico, antes de se aperceber do local onde a bola cara. O som de vidros partidos pontuou a sua exclamao, enquanto 
Mark e Alex olhavam um para o outro, e Jason ficava tomado de pnico.

Em questo de segundos, Coop apareceu na piscina, mal podendo conter a fria.

        - Esto a treinar para os Yankees, ou foi apenas um ato de vandalismo? - Dirigia-se a todos, deixando Alex constrangida. No havia dvidas: Coop detestava 
barafunda e crianas.

        - Foi um acidente - justificou Alex, calmamente.

        - Por que diabo andas a atirar bolas de basebol s minhas janelas? - perguntou Cooper a Jason, em tom irado. Reparara que era ele que tinha a luva, por isso 
no havia qualquer dvida sobre quem realizara o lanamento. Jason estava de lgrimas nos olhos e tinha a certeza de que iria ter chatice com o pai, que j o avisara 
para no fazer nada que aborrecesse Mr. Winslow.

        - Fui eu, Coop. Peo imensa desculpa - acusou-se Jimmy. Estava de corao destroado face  atrapalhao do seu jovem amigo e Coop pouco podia fazer contra 
si. - Eu mando substituir os vidros.

        - Espero bem que sim. Se bem que no acredite em si. Acho que foi aqui o jovem Mister Friedman que atirou a bola. - Coop olhou para Jason, depois para Mark 
e, de novo, para Jimmy, enquanto Alex saa da piscina e agarrava na toalha.

        - Eu mando substituir os vidros, se quiseres - ofereceu-se Alex. - Ningum fez de propsito.

        - Mas isto aqui no  nenhum campo de treinos - retorquiu Coop, ainda irado. - Aquelas janelas levaram uma eternidade a fazer e a instalao  praticamente 
impossvel. Eram janelas em arco abatido, feitas propositadamente para a casa. O arranjo ia custar uma fortuna. - Controle um pouco mais os seus filhos, Friedman 
- admoestou, num tom desagradvel, e voltou para casa.

        - Desculpem - disse Alex, em voz baixa. Era uma faceta de Coop de que no gostava, mas o velho ator avisara vrias vezes que detestava crianas.

        - Que cara de cu! - exclamou Jessica, em voz alta. -Jessie! - repreendeu Mark, enquanto Jimmy olhava para Alex.

        - Concordo com ela, mas lamento o sucedido. Devamos ter ido para o campo de tnis. Nunca pensei que ele atirasse uma bola contra a janela.

        - No faz mal - retorquiu Alex. - S que Coop no est habituado a lidar com crianas. Gosta de tudo calmo e no seu lugar.

        - Mas a vida no  assim - contraps Jimmy. Lidava com crianas todos os dias e nunca havia calma ou perfeio, mas era isso mesmo que ele adorava. - Pelo 
menos, a minha no .

        - Nem a minha - corroborou Alex -, mas a dele . Ou gosta de pensar que . - Todos se lembraram da confuso que andava nos tablides. - No te preocupes, 
Jason.  s uma janela. No  uma pessoa. As coisas podem substituir-se. As pessoas, no.

- Tem razo - concordou Jimmy, em voz sumida.

- Desculpe... no me referia a isso... - Alex ficou horrorizada.

        - Referia, sim. E tem toda a razo. s vezes, todos ns nos esquecemos disso. Ligamo-nos demasiado s nossas "coisas". As pessoas  que importam. O resto 
 conversa.

        - Lido com essa realidade diariamente - disse Alex, e Jimmy fez um gesto de concordncia com a cabea.

        - Aprendi essa lio da maneira mais difcil. - E esboou um sorriso. Gostava dela. No conseguia perceber o que a atraa num homem que era s ostentao 
e to pretencioso. Tudo nela parecia sincero e verdadeiro. - Obrigado por ter sido to simptica com o Jason. Tentarei resolver o assunto da melhor maneira.

        - No, eu  que vou tratar do assunto - interrompeu Mark. - Ele  meu filho. Eu  que pago o arranjo. E tenham mais cuidado, da prxima vez - acrescentou, 
dirigindo-se a Jason e a Jimmy.

        - Desculpa, papai - retorquiu Jimmy, e todos se riram. Jason safara-se ileso da situao, s no se livrara da bronca de Coop. Sempre esperara que o pai 
o matasse, quando viu a bola entrar pela janela dentro. - De qualquer forma, foi um bom lanamento. Estou orgulhoso de ti.

        - No vamos abusar - atalhou Mark. No queria dar a Coop qualquer desculpa para que os pusesse na rua. - De agora em diante, vamos limitar os esportes de 
bola ao campo de tnis. Combinado?

Tanto Jason como Jimmy fizeram que sim com a cabea, enquanto Alex vestia os cales e a T-shirt por cima do traje de banho molhado.

        - At logo, rapaziada! - despediu-se, com os cabelos molhados a carem-lhe pelas costas. Os dois homens ficaram de olhos fixos nela e, ao fim de alguns instantes, 
Mark comentou:

        - A Jessie tem razo. O velho  mesmo um cara de cu. Mas ela  uma grande mulher. Ele no a merece, por mais bem-parecido que seja. Vai fazer dela gato-sapato.

        - Acho que ele vai casar com ela -- acrescentou Jessica, metendo-se na conversa. Gostaria que o pai encontrasse com algum como Alex.

        - Espero  que no - retorquiu Jimmy, pondo um brao por cima de Jason. E foram os quatro at  ala de hspedes. Mark ia fazer outro churrasco, e Jimmy aceitara 
jantar com eles.

Entretanto, noutro ponto da casa, Alex chamava a ateno de Coop, que continuava a espumar de raiva.

        - Ele no passa de um garoto, Coop. No fazias coisas daquelas quando eras criana?

        - Nunca fui criana. Nasci de terno e gravata, e saltei logo para o mundo dos adultos, sempre com boas maneiras.

        - No sejas cabea-dura - gracejou Alex, enquanto o beijava.

        - Porque no? Adoro ter acessos de fria. Alm disso, sabes bem como detesto crianas.

        - E se te dissesse que estou grvida? - perguntou Alex, com um olhar que quase o deixou sem um pingo de sangue.

        - Ests?

        - No. E se estivesse? Terias de te habituar a ver skates, janelas partidas, fraldas com coc, manteiga de amendoim e po com gelia por todo o lado.  uma 
coisa em que tens de pensar.

        - Tenho? Estou a ficar com nuseas. A doutora Madison tem um sentido de humor muito requintado. S espero que o teu pai te d uma sova quando estiver contigo.

        - No tenhas a menor dvida - retorquiu Alex, com alguma frieza na voz. - J  costume.

        -  o que mereces. - Daria tudo para assistir quele encontro. Mas Alex no o convidara e no tencionava faz-lo. - Quando  o vosso encontro?

        - Na tera-feira.

        - Porque  que achas que ele se quer encontrar contigo? - indagou, curioso. Estava convencido de que o encontro tinha a ver com ele.

-Veremos - respondeu Alex, enquanto se encaminhavam, de brao dado, para o quarto.
 Ela sabia como curar os acessos de fria do velho ator. O incidente com a bola de basebol j estava praticamente esquecido quando o beijou. Pouco depois, a janela 
partida era a ltima coisa que poderia passar-lhe pela cabea.
CAPTULO 16

Na tera-feira, o encontro de Alex com o pai correu como todos os outros encontros entre eles.

        Arthur Madison chegou cinco minutos mais cedo e esperou por Alex na cafeteria. Era alto e magro, tinha cabelos grisalhos e olhos azuis, e estava de semblante 
carregado. Quando se encontrava com a filha, tinha sempre vrios pontos em agenda. No conseguia conversar, nem sequer lhe perguntava como ela estava. Em vez disso, 
ia abordando os vrios pontos que tinha em mente, como se estivesse a dirigir uma reunio. A nica coisa carinhosa que dizia, e que indiciava haver uma relao de 
parentesco entre eles, era que a me lhe mandava beijos. E esta no era mais afvel, por isso estava casada h tantos anos. Mas o pai  que controlava tudo e todos. 
Exceto Alex. Fora sempre esse o ponto da discrdia.

Mal se encontraram frente a frente, Arthur Madison no perdeu tempo e foi logo direto ao assunto.

        - Quero falar contigo acerca do Cooper Winslow. No o quis fazer por telefone.

A Alex, tanto se lhe dava. As suas conversas eram to distantes e inspidas que o fato de serem cara a cara no alterava nada.

        - Porqu?

        - Pensei que este fosse um assunto suficientemente importante para justificar uma conversa cara a cara. - Para Alex, o fato de ser seu pai justificaria, 
por si s, um encontro, mas ele nunca vira as coisas assim. Tinha de haver sempre um motivo. -  um assunto delicado, e no vou estar com rodeios. - Nunca estivera, 
tal como ela. Neste aspecto, Alex assemelhava-se a ele. Era frontal e exigente, no s com os outros mas consigo prpria. Seguia determinados princpios de conduta 
e mostrava-se firme nas suas convices. A grande diferena entre eles era Alex ser simptica, e ele, no. Arthur Madison no perdia tempo com emoes e no era 
homem de meias palavras. - O romance entre vocs os dois  coisa sria? - indagou, de sobrolho franzido.

Conhecia bem a filha. Sabia que ela no lhe mentiria, mas era pouco provvel que lhe dissesse o que sentia por Coop. O assunto s a ela dizia respeito.

        - Ainda no sei - respondeu Alex, com alguma cautela. E no era mentira nenhuma.

        - Sabes que o homem est atolado em dvidas at ao pescoo?

        Coop nunca tocara nesse assunto, mas o fato de ter inquilinos j indiciava que as coisas no iam bem do ponto de vista financeiro. Alm disso, h muitos 
anos que tinha pouco trabalho. Alex presumia que ele tivesse algum dinheiro de parte. E o Chal valia muito. Mas Arthur sabia que este era o nico bem do velho ator 
e que existia uma enorme hipoteca sobre ele.

        - Nunca falei com ele sobre os seus problemas financeiros. No tenho nada a ver com isso. E ele tambm no tem nada a ver com o meu dinheiro.

        - J te perguntou alguma coisa sobre os teus rendimentos, ou sobre a herana?

- Claro que no. Ele  uma pessoa educada.

        - E tambm bastante astuto.  bem possvel que tenha mandado fazer uma investigao detalhada sobre ti, como o que eu mandei fazer sobre ele. Tenho um dossi 
completo em cima da secretria. E as notcias no so boas. H anos que anda a viver acima das suas possibilidades e tem uma montanha de dvidas. No tem crdito 
algum. No creio que consiga sequer requisitar um livro na biblioteca. E tem jeito para atrair mulheres ricas. J andou com pelo menos cinco.

        - Ele tem jeito para atrair todas as mulheres - corrigiu Alex. - Est a querer dizer que ele anda atrs de mim por causa do meu dinheiro? - Alex ficou magoada 
com a insinuao de que Coop a via apenas como uma maneira de resolver os seus problemas financeiros. Sabia bem o quanto ele a amava.

        - Estou.  muito possvel que as suas intenes no sejam to puras como gostarias. Est a criar-te falsas iluses. Talvez at inconscientemente. Se duvidar, 
nem ele prprio se d conta disso. O homem est numa situao aflitiva. O desespero no  bom conselheiro. Pode at lev-lo a casar contigo, quando, noutra situao, 
no aconteceria. Alm disso,  demasiado velho para ti. Acho que no fazes a menor idia daquilo em que te ests a meter. Eu nem sequer sabia que andavas com ele. 
A tua me  que os viu na cerimnia de entrega do scar. Ficamos bastante chocados. Dava a sensao de que te conhecia h muitos anos. No fez nada que no estivesse 
adequado  situao, mas j te anda rondando h muito tempo. E julgo que tambm j deves saber do escndalo com a atriz porn.

        - Pode acontecer a qualquer um - retorquiu Alex, calmamente, odiando o pai por todas as palavras que ele proferira, embora mantivesse um ar impassvel. Sempre 
conseguira dissimular todas as suas emoes diante dele.

        - Essas coisas no acontecem a homens responsveis. Ele no passa de um playboy. Teve uma vida cheia de extravagncias. No poupou um centavo sequer. E as 
dvidas ascendem, atualmente, a quase dois milhes de dlares, para no falar da hipoteca sobre a casa.

        - Se ele obtivesse um bom papel num filme - disse Alex, acorrendo em defesa do velho ator -, conseguiria saldar as dvidas. - Amava-o, independentemente 
daquilo que o pai dissesse.

        - O problema  que ele no consegue arranjar trabalho. J est com idade a mais. E, mesmo que surgisse uma boa proposta, o que  pouco provvel, iria detonar 
o dinheiro num abrir e fechar de olhos, como sempre fez.  com uma pessoa destas que queres casar, Alex? Um homem que ir detonar todos os centavos que arranjar? 
E, se calhar, at os teus. Porque  que achas que ele anda atrs de ti?  impossvel ele no saber quem tu s e quem eu sou.

        -  claro que sabe. Nunca lhe dei um centavo sequer, e ele tambm nunca me pediu dinheiro.  orgulhoso.

        - Ele anda  sempre todo inchado, mais parece um pavo. Como se costuma dizer: "Muita parreira, pouca uva..." No tem um mnimo de condies financeiras 
para te sustentar, nem a ti nem a ele. E a mulher que est  espera de beb? Que pensa ele fazer?

        - Dar-lhe uma penso. Ainda nem sequer sabe se o filho  dele. Ela vai ter de fazer o teste de DNA em Julho.

        - A garota no o acusaria se o beb no fosse dele.

        - Talvez. Mas estou-me lixando para isso. No  uma situao agradvel, mas tambm no  o fim do mundo. Estas coisas acontecem. O que me interessa  que 
ele seja bom para mim, e tem sido.

        - Porque  que no havia de ser? s rica e solteira, j para no falar no fato de seres uma mulher atraente. Mas, se o teu apelido no fosse Madison, acho 
que ele no gastaria um segundo contigo.

        - No acredito em nada disso. Mas nunca viremos a saber, pois no, papai? Sou quem sou e tenho o que tenho, e no vou escolher os homens da minha vida pela 
conta bancria. Ele provm de uma famlia respeitvel.  boa pessoa. Algumas pessoas no tm dinheiro. As coisas so assim mesmo. E estou-me lixando para isso.

        - Ele  honesto contigo, Alex? Alguma vez te disse que est atolado em dvidas?

Arthur Madison continuava a bater na mesma tecla, tentando minar tudo o que ela pudesse sentir por Coop, e ele por ela. Mas Alex no lhe dava ouvidos. Mesmo sem 
nunca ter visto o saldo da conta de Coop, sabia bem quem ele era, quais as suas virtudes e quais os seus defeitos. E amava-o tal como era. A nica coisa que a preocupava 
era o fato de ele no querer ter filhos. Ao contrrio de si, que ansiava imenso t-los.

        -J disse que no discutimos questes financeiras, nem dele, nem minhas.

        - O homem tem mais quarenta anos do que tu. Se casares com ele, que Deus o proba!, irs acabar por ser sua enfermeira.

         - Talvez seja um risco que tenho de correr. Mas no seria o fim do mundo.

        - o que dizes agora. Quando tiveres quarenta anos,: ele ter oitenta, o dobro da tua idade.  ridculo, Alex. V se encaras o problema com alguma sensatez 
e inteligncia. Acho que o homem anda mas  atrs do teu dinheiro., -  repugnante, o que est dizendo - respondeu Alex, em tom crispado.

        - Quem lhe pode levar a mal? Est a precaver-se para a velhice e tu s a sua nica tbua de salvao. A rapariga que vai ter o filho dele no poder sustent-lo. 
Custa dizer isto, mas  mesmo assim que as coisas devem ser vistas. No estou a pedir-te que deixes de o ver, se sentes alguma coisa por ele. Mas, por amor de Deus, 
tem cuidado, e no cases com ele. Se a tua inteno for essa, posso assegurar-te de que farei tudo o que estiver ao meu alcance para o evitar. Falarei com ele, se 
for preciso, e p-lo-ei  tabela. Vai ter um poderoso inimigo em mim.

        - Sabia que podia contar com o seu apoio - replicou Alex, com um sorriso cansado.

Mesmo que as intenes do pai fossem as melhores, falava num tom ameaador. Sempre fora assim que lidara com a filha. Era tudo uma questo de poder e de controle. 
J quando Crter fugira com a irm, horas antes do casamento, Arthur Madison atribura as culpas a Alex, dizendo-lhe que, se ela tivesse lidado com o noivo de outra 
forma, ele nunca teria feito o que fez. Alex  que fora a culpada de tudo. Se bem que Crter tivesse baixado alguns pontos na considerao de Arthur Madison. Investira 
uns bons milhares do dinheiro da mulher na Bolsa e perdera tudo. Felizmente, ela ainda tinha muito de lado. Mas, fosse como fosse, era a prova provada de que no 
era muito inteligente.

        - Sei que achas que o que estou a dizer  muito desagradvel, e . Fiquei preocupado com ele e contigo. E, quando comecei as investigaes, fiquei horrorizado 
com o que descobri. Ele pode ser atraente, e ; tem charme, no o nego;  uma companhia divertida, indubitavelmente; mas no te podes deixar iludir. Tudo o resto 
nele  um autntico desastre. E no acredito que, a longo prazo, te possa fazer feliz, se chegar a casar contigo. Nunca se casou. Nunca viu necessidade de o fazer. 
Depois de se divertir com uma mulher, passa  seguinte. No  uma pessoa sria. No  isso que quero para ti. No quero que se aproveite de ti e depois te d um 
chute. Ou, pior ainda, que se case contigo para resolver necessidades financeiras. Podia estar enganado, mas acho que no - disse, num tom triste.

Mas, fosse como fosse, estas palavras s aumentavam ainda mais a devoo de Alex por Coop. O discurso do pai tivera o efeito contrrio. Ouvir que a dvida de Coop 
se cifrava naquele montante f-la ter pena do velho ator.

De repente, o bipe tocou. No se tratava de uma urgncia, mas Alex aproveitou o fato como pretexto para terminar com o encontro. No haviam tocado na comida. O que 
ele tinha para dizer era muito mais importante e fazia parte das suas obrigaes de pai. J discutira o assunto com a me, que, como de costume, no queria meter-se. 
Mas incitara-o a falar com Alex. Algum tinha de faz-lo. E ele estava sempre disposto a fazer o trabalho ingrato. Fora uma hora muito desagradvel para ambos.

        - Tenho de voltar para o hospital - anunciou Alex, levantando-se.

        - Acho que o melhor que tens a fazer  afastares-te. Seres vista com ele s ir prejudicar a tua reputao. Ters todos os caadores de fortunas do mundo 
atrs de ti. - At agora, principalmente devido aos seus prprios esforos e ao seu modo de vida, Alex conseguira evitar isso. As pessoas com quem trabalhava no 
faziam ida de quem ela era ou, mais importante ainda, de quem era o seu progenitor. Iro seguir o rasto do teu sangue na gua, depois de Winslow te dar um pontap. 
- Outra bonita imagem. Madison via a filha como engodo para os tubares. Alex sabia que o pai se preocupava com ela, mas o modo como se expressava era revoltante. 
A percepo que tinha do mundo parecia-lhe pattica. Suspeitava de toda a gente e s via o lado negativo das coisas. Para ele, era inconcebvel que, independentemente 
da reputao ou situao financeira de Coop, este pudesse estar efetivamente apaixonado por ela. - Vais a Newport no Vero? - perguntou, tentando amenizar o tom 
da conversa.

Alex fez que no com a cabea.

        - No posso deixar o trabalho.

Mesmo que pudesse, preferia ficar em Los Angeles. No tinha o menor desejo de ver a me, a irm, Crter ou o pai, ou qualquer um dos seus amigos. H muito que renunciara 
quele mundo. Ficaria na Califrnia com Cooper.

        - Vai telefonando - disse Madison, num tom frio, enquanto lhe dava um beijo de despedida.


        - Eu telefono. D cumprimentos  mame.

Esta no vinha ver Alex. Nunca viera. Esperava que Alex fosse visit-la em Palm Beach. No entanto, estava sempre pronta para ir visitar os amigos a qualquer canto 
do mundo. No havia nada em comum entre as duas. A me nunca sabia o que dizer-lhe, por isso, raramente telefonava. Sempre considerara a filha mais velha a ovelha 
negra da famlia, e nunca percebera a sua inclinao pela carreira mdica. Deveria ter ficado em casa e casado com um rapaz bonito de Palm Beach. Apesar de as coisas 
no terem dado certo com Crter, havia muitos outros homens como ele. Mas Alex no queria ningum como Crter. De momento, estava feliz com Coop, apesar de tudo 
o que o pai dissera.

Arthur Madison acompanhou a filha at ao elevador e, mal as portas se fecharam, virou-se e foi-se embora, enquanto Alex fechava os olhos, ao mesmo tempo que sentia 
o corpo entorpecido. O pai provocava sempre esse efeito nela.
CAPTULO 17

Enquanto Alex se encontrava com o pai, Coop descansava debaixo de uma rvore, junto  piscina. Tinha o cuidado de no se expor ao sol, para proteger a pele. Essa 
era uma das razes por que parecia nunca envelhecer. Adorava a tranqilidade da piscina durante a semana. No se via viva-alma em redor. Mark e Jimmy tinham ido 
trabalhar, e as crianas estavam na escola. Com ar pensativo, tentava imaginar o que Arthur Madison estaria a dizer. Tinha quase a certeza de que o tema da conversa 
era ele. E no alimentava a menor dvida de que o velho Madison no daria o aval ao seu romance com a filha. S esperava que Alex no viesse aborrecida do encontro. 
Mas at Coop se via forado a admitir que Madison, enquanto pai, tinha motivos para estar preocupado. J devia saber dos graves problemas financeiros que o afligiam.

Pela primeira vez na vida, Coop estava aborrecido com o que algum poderia pensar dele. Apesar das dificuldades financeiras que enfrentava, fora sempre de uma grande 
honestidade para com Alex e nunca tentara aproveitar-se dela, embora essa idia ainda o houvesse assaltado. Alis, comeava a suspeitar que estava mesmo apaixonado 
por ela, fosse qual fosse o significado da palavra paixo. Ao longo dos anos, o termo significara coisas diferentes. Ultimamente, era sinnimo de uma relao tranqila 
e sem sobressaltos. s vezes, o fato de sentir que gostava de Alex era suficiente. Havia tantas mulheres da laia de Charlene...

Era muito mais reconfortante estar com Alex, uma mulher justa, meiga, divertida, e sem grandes exigncias. E como era auto-suficiente do ponto de vista financeiro, 
Coop sabia que, se ficasse numa situao econmica desesperada, poderia contar com ela. O dinheiro de Alex era como um fundo de garantia. Ainda no precisava dele, 
mas poderia vir a precisar. No era por isso que a namorava, mas o seu dinheiro dava-lhe uma certa segurana.

A nica coisa que no lhe agradava era o fato de ela querer filhos. Um mal terrvel. E uma mancha na sua relao.

No se podia ter tudo. Talvez o fato de ser filha de Arthur Madison fosse suficiente para servir de compensao. Ainda no pensara a srio nesse assunto. Mas, mais 
cedo ou mais tarde, teria de faz-lo. Alex ainda no o pressionara nesse sentido.

Quando voltou para casa, Coop deu de caras com Paloma, que limpava o p, ao mesmo tempo que comia uma sanduche. E, enquanto o fazia, ia deixando cair pingos de 
maionese em cima do tapete. Coop chamou-lhe a ateno para esse fato.

        - Desculpe - replicou Paloma, enquanto pisava a ndoa com os tnis a imitar pele de leopardo.

Coop j desistira de a ensinar. Tentavam viver lado a lado, evitando confrontos. Percebera, semanas antes, de que Paloma tambm trabalhava para os Friedman, mas, 
desde que fizesse tudo o que tinha de fazer para si, no se importava. Estava a tornar-se mais tolerante. Talvez por influncia de Alex. Os vidraceiros arranjavam 
a janela da sala de estar. Ainda no esquecera o incidente com a bola de basebol. Se um dia tivesse filhos, esperava que no fossem rapazes. S de pensar nisso sentia 
nuseas. E lembrou-se da maldita Charlene. Pelo menos, nessa semana, no aparecera nos tablides.

Estava servindo ch gelado num copo quando o telefone tocou. Pensou que talvez fosse Alex, mas no reconheceu a voz do outro lado do fio. Era uma mulher chamada 
Taryn Dougherty, que queria encontrar-se com ele.

        -  produtora? - indagou Coop. Desde que rebentara o escndalo com Charlene, descuidara um pouco as questes de trabalho. Tinha outras coisas em mente.

        - No, sou designer. Mas no foi por isso que telefonei. Gostaria de discutir um assunto consigo.

Coop desconfiou, de imediato, que pudesse ser uma reprter, e arrependeu-se de ter atendido o telefone e de j se ter identificado. Mas agora no podia dizer que 
era o mordomo e que Mr. Winslow no se encontrava em casa, como costumava fazer s vezes, desde que Livermore partira.

        - Que tipo de assunto? - perguntou, num tom frio. Nos ltimos tempos, no confiava em ningum.

        -  um assunto pessoal. Tenho uma carta de uma velha amiga sua.

Tudo aquilo lhe parecia misterioso. Talvez se tratasse de uma artimanha. Provavelmente da parte de Charlene. Mas o tom de voz da mulher era agradvel.

        - De quem?

        -Jane Axman. No sei se o nome lhe dir alguma coisa.

        - No.  advogada dela? - Tambm era possvel que ele lhe devesse dinheiro. Recebia muitos telefonemas desse gnero.

        - Sou filha dela.

A mulher no parecia querer adiantar mais nada, mas frisou que era importante e que no lhe roubaria muito tempo. Coop ficou intrigado. Esteve tentado a combinar 
um encontro no Beverly Hills Hotel, mas no lhe apetecia sair. Alm disso, aguardava notcias de Alex. Receava que estivesse aborrecida. E no queria atender o celular 
no meio de um restaurante.

        - Onde  que est instalada?

        - No Bel Air Hotel. Acabei de chegar de Nova Iorque. Pelo menos estava alojada num bom hotel. Finalmente, a curiosidade foi mais forte.

        - A minha casa no fica longe do hotel. Porque no vem at c?

        - Obrigada, Mister Winslow. No lhe tomarei muito tempo. - Apenas queria v-lo. E mostrar-lhe a carta da me.

Dez minutos depois, a mulher estava ao porto. Entrou na propriedade, ao volante de um carro alugado. Quando saiu, Coop reparou que se tratava de uma mulher alta 
e loira, com ar de trinta e muitos anos - trinta e nove, mais exatamente -, muito bonita e elegante, e com uma saia curta. Havia nela algo de familiar, mas no sabia 
o qu. No lhe parecia que alguma vez se tivessem encontrado. Quando se aproximou, sorriu, estendeu a mo e cumprimentou Coop.

        - Obrigada por ter a gentileza de me receber. Peo imensa desculpa pelo incmodo. S quis tratar deste assunto quanto antes. H muito que ando com vontade 
de lhe escrever.

        - O que  que a trouxe  Califrnia? - indagou Cooper, enquanto a conduzia at  biblioteca. Ofereceu-lhe um copo de vinho, que ela recusou. Pediu um copo 
de gua. Estava um dia quente.

        - Ainda no sei. Tinha uma empresa de design em Nova Iorque. Vendi-a. O meu sonho sempre foi desenhar guarda-roupas para filmes, mas acho que  uma idia 
meio amalucada. Pensei vir at c ver o que se pode arranjar por a. E conhec-lo.

        - Isso quer dizer que no  casada - deduziu Coop, oferecendo-lhe um copo de gua, como ela pedira.

        - Sou divorciada. Divorciei-me, vendi a empresa, a minha me morreu... tudo no espao de poucos meses. Esta  uma daquelas raros momentos em que no tenho 
nada que me estorve e posso fazer o que muito bem entender. Ainda no sei se vou gostar, ou se vou ficar aterrada de medo - retorquiu a mulher, sorrindo. No parecia 
receosa, muito pelo contrrio.

        - Ento, o que  que diz essa famosa carta? Deixaram-me dinheiro de herana? - perguntou Cooper, soltando uma gargalhada.

        - Receio que no.

Coop recebeu a carta. Era longa e, enquanto a lia, levantou vrias vezes a cabea, olhando, espantado, para a mulher. Quando acabou de ler recostou-se no sof e 
fixou-a durante algum tempo, sem saber o que dizer ou o que ela pretendia. Devolveu-lhe a carta de semblante carregado. Se se tratasse de chantagem, no estava disposto 
a admiti-la.

        - Que quer de mim? - indagou Coop, com brusquido.

A pergunta entristeceu-a. Sempre esperara uma reao mais calorosa da parte dele.

        - Absolutamente nada. S quis conhec-lo. Achava que tambm tivesse vontade de me conhecer.  um choque, admito. Para mim tambm foi. A minha me nunca me 
disse nada. S encontrei a carta, como ela pretendia, depois da sua morte. O meu pai j morreu h anos. No sei se ele alguma vez soube.

        - Espero que no - respondeu Coop, num tom solene. Ainda se encontrava sob o efeito do choque. Mas aliviado por a mulher no querer nada de si. Acreditou 
nela. Tinha ar de pessoa honesta e era muito bonita. Noutro contexto ter-se-ia sentido atrado por ela.

        - Acho que no se teria importado. Era muito bom para mim. Deixou-me grande parte do seu dinheiro. No tinha mais filhos. E se por acaso viesse a saber, 
no me parece que se voltasse contra a minha me ou contra mim. Era um homem muito bom.
        - Sorte a sua.

Coop no tirava os olhos dela. De repente, percebeu por que razo o seu rosto lhe era familiar. Parecia-se com ele. A carta referia que a me tivera um romance com 
Coop quarenta anos antes. Encontravam-se ambos em Londres, a representar uma pea, e o romance fora breve. Quando a pea acabou e ela voltou para Chicago, descobriu 
que estava grvida. Mas resolveu no dizer nada a Coop. Achava que no o conhecia suficientemente bem para o obrigar a assumir um compromisso mais srio. Era uma 
idia estranha, especialmente numa mulher que resolvera levar a gravidez at ao fim. Casou com outro homem, teve a filha, e nunca lhe disse que o homem que ela acreditava 
ser seu pai no o era. Em vez disso, deixou-lhe uma carta que explicava tudo. Agora, estavam os dois sentados, a examinarem-se um ao outro. O homem que pensava que 
no tinha filhos via-se, de repente, a braos com dois: esta mulher de trinta e nove anos e o beb que Charlene carregava. Era uma situao bizarra, para um homem 
que detestava crianas. Mas Taryn j no era nenhuma criana. Era uma mulher adulta, parecia respeitvel e inteligente, e tinha dinheiro.

        - Como era a sua me? Tem alguma fotografia que me possa mostrar? - Sentia curiosidade de saber se ainda se lembrava dela.

        - Trouxe uma. Julgo que foi tirada mais ou menos nessa poca.

Retirou-a cuidadosamente da bolsa e passou-a a Cooper. O rosto no lhe era estranho. Ainda se lembrava do papel que ela desempenhava na pea e de estar com ela em 
palco. Mas de pouco mais. Nessa altura, ele prprio era um doidivanas e bebia muito. Desde ento, tivera um sem-nmero de mulheres. Contava trinta anos quando Taryn 
foi concebida.

- Isto  tudo muito estranho - disse Coop, devolvendo a fotografia  filha, sem tirar os olhos dela. Era muito bonita, dentro do estilo clssico, e muito alta. Devia 
ter cerca de um metro e oitenta. Ele tinha pouco mais de um metro e noventa. A me tambm era alta. - No sei o que dizer.

- No faz mal - respondeu Taryn Dougherty, num tom afvel. - S quis conhec-lo. Tive uma vida boa e uns pais maravilhosos. Fui filha nica. No tenho nada a apontar-lhe. 
Nunca soube que eu existia. A minha me sempre guardou segredo, mas tambm no a censuro. No tenho qualquer motivo para ficar desapontada com o que quer que seja.

- Tem filhos? - indagou Cooper, com voz trmula. Fora um choque descobrir que tinha uma filha j adulta, e ainda no estava preparado para ter netos.

- No. Sempre trabalhei. E nunca quis ter filhos.  embaraoso, tenho de admitir.

- No  embaraoso.  gentico - retorquiu Cooper, com um sorriso malicioso. - Tambm nunca quis ter filhos. Fazem muito barulho, andam sempre sujos e cheiram mal.

Taryn riu-se. Estava a gostar dele e comeava a perceber por que razo a me se apaixonara e resolvera levar a gravidez at ao fim. Tinha charme e era divertido. 
Em suma, um cavalheiro da velha escola. Embora no parecesse muito velho, custava a acreditar que ele e a me tivessem a mesma idade. A me estivera doente durante 
anos. Este homem parecia ser muito mais novo do que efetivamente era.

        - Vais ficar por estas bandas durante uns tempos? - indagou, interessado. Gostava dela e tinha a sensao de que uma espcie de lao os ligava. Mas precisava 
de tempo para perceber que tipo de lao era esse.

        - Acho que sim. - Ainda no sabia ao certo o que queria fazer. Mas sentia-se aliviada. Agora que j conhecia o pai verdadeiro, podia levar sua vida, embora 
mantivesse ou no em contacto com ele.

        - Posso ir ter contigo ao Bel Air? Talvez nos devssemos nos encontrar de novo. Podias vir aqui jantar uma noite destas.

        - Seria maravilhoso - respondeu Taryn, levantando-se e dando por terminado o encontro, que no ultrapassara a meia hora. Fora fiel  sua palavra. No queria 
estar com mais delongas. Fizera o que tinha a fazer. Conhecera o pai verdadeiro. E, agora, ia voltar  sua vida. - E quero frisar que no tenho intenao de falar 
com a imprensa. Isto fica entre ns.

        - Obrigado - disse Coop, sensibilizado com a atitude da filha. Era uma mulher extraordinria. No queria nada dele. Taryn gostou do que viu. Cooper tambm. 
- Talvez seja uma tolice o que vou dizer, mas deves ter sido uma menina bem-comportada. A tua me devia ser uma mulher direita. - Especialmente por no lhe ter arranjado 
problemas e por ter arcado com todas as responsabilidades. - Lamento que tenha morrido. - Era uma sensao estranha saber que, enquanto prosseguia a sua vida, em 
algum lugar no mundo, havia uma filha sua, de cuja existncia nunca soubera.

        - Obrigada. Tambm lamento muito. Adorava-a.

Coop deu-lhe um beijo na face. Taryn sorriu. Era o mesmo sorriso que ele via no espelho todos os dias, e que os amigos to bem conheciam. Olhar para ela causava-lhe 
uma sensao estranha. As semelhanas consigo eram evidentes, e a me, certamente, tambm reparara nisso. S esperava que o marido nunca tivesse sabido.

Coop manteve-se em silncio o resto do dia. Tinha muito em que pensar. Quando Alex chegou, s sete horas, ainda estava pensativo, e ela perguntou-lhe se  sentia-se 
bem. Coop quis saber como correra o encontro com o pai. Ela respondeu que bem, mas no adiantou mais nada.

        - Foi grosseiro contigo? Alex encolheu os ombros.

        - Ele  quem . No  o pai que eu teria escolhido, mas  o que tenho - retorquiu Alex. E encheu um copo de vinho.

Fora um dia longo para ambos. Coop s lhe falou de Taryn ao jantar. Paloma deixara frango, e Alex acrescentou-lhe massa e fez uma salada. Foi suficiente. O semblante 
de Coop adquiriu uma expresso estranha.

        - Tenho uma filha - anunciou, enigmtico.

        - Ainda  muito cedo para ela saber isso, Coop. Est a mentir. Quer ver se te amolece o corao.


Alex estava irritada com aquilo que pensava ser outro dos truques de Charlene.

        - No estou a falar dela.

Coop parecia aturdido. Estivera toda a tarde a pensar em Taryn. O encontro com a filha abalara-o profundamente.

        - H mais algum que v ter um filho teu? - perguntou Alex, chocada.

        - Ao que parece, j teve. H trinta e nove anos. Coop falou-lhe de Taryn, sem conseguir disfarar a emoo.

        - Que histria extraordinria! - exclamou Alex, estupefata. - Como  que a me conseguiu guardar esse segredo ao longo destes anos todos? Como  que ela 
? - Estava intrigada.

        - Bonita. Gosto dela. E muito parecida comigo. Mas mais bonita, claro. Gostei muito dela.  uma pessoa muito... ntegra. Nesse aspecto,  como tu. Frontal 
e sria. No queria nada de mim, e disse que no ia contar nada  imprensa. S queria conhecer-me.

- Porque no a convidas a vir c em casa outra vez? - sugeriu Alex, vendo que a vontade de Coop era tambm essa.

        - Acho que  o que vou fazer.

Porm, em vez disso, foi almoar com ela ao Bel Air no dia seguinte. Falaram de si prprios e ficaram admirados com as muitas semelhanas que havia entre eles, com 
os gostos que partilhavam, desde o sorvete e a sobremesa favoritos ao tipo de livros de que gostavam. No final do almoo, Coop teve uma idia estranha.

        - No queres ficar alojada no Chal? - sugeriu. Queria passar mais tempo com a filha. De repente, Taryn surgia na sua vida como uma ddiva do cu e no queria 
perd-la. S queria t-la perto de si, pelo menos durante uns dias, umas semanas. Taryn tambm adorou a idia.

        - No quero aborrecer - disse, cautelosamente, mas a idia atraa-a.

        - No aborreces em nada.

Coop lamentava agora ter inquilinos, tanto na casa do caseiro como na ala de hspedes. Seriam timos alojamentos para ela. Mas tambm dispunha de uma enorme sute 
de hspedes na ala principal da casa, e Alex no levantaria qualquer objeo.

Taryn prometeu mudar-se no dia seguinte e Alex mostrou-se entusiasmada com a idia. Esta ainda no contara a Coop o que o pai dissera, nem nunca o faria. Sabia que 
o corao de Coop ficaria destroado e no havia necessidade de o magoar.

Taryn, pelo contrrio, parecia ter trazido uma nova alma a Coop. Desde que o conhecia, h poucos meses, Alex nunca o vira assim. Parecia muito mais calmo, totalmente 
em paz consigo mesmo.


CAPTULO 18

Taryn mudou-se para o Palacete com muito pouca bagagem e praticamente sem rebolio. Era uma pessoa discreta, educada, afvel e de fcil trato. No pediu nada a Paloma 
e teve o cuidado de no importunar Coop. Quando conheceu Alex, criou-se, de imediato, uma empatia entre as duas. Eram ambas pessoas ntegras e fortes, que primavam 
pela simpatia. E Alex tambm achou Taryn parecida com Coop. At tinha o mesmo ar aristocrtico. Mas diferia dele em duas coisas: viajava com muito pouca bagagem 
e era estvel do ponto de vista financeiro.

Passaram vrios dias tentando conhecer-se melhor, a falar dos respectivos passados e a partilhar opinies sobre tudo e mais alguma coisa. Havia diferenas e semelhanas 
que os deixavam a ambos intrigados. Depois de se conhecerem melhor, Taryn perguntou-lhe se as suas intenes para com Alex eram srias, e Coop respondeu-lhe que 
ainda no sabia. Estava sendo de uma grande sinceridade. Embora se conhecessem h pouco tempo, Taryn conseguira despertar o que de melhor havia em Coop, ainda mais 
do que Alex. Dava a impresso de que o seu desgnio era esse. Agora que sabia que o pai existia, queria saber quem ele era, e gostava do que via, apesar de ver tambm 
as suas fraquezas.

        - Estou num dilema em relao a Alex - confessou Coop.

        - Por ser to nova?

Taryn estava deitada  sombra, junto  piscina. Tinha a mesma pele clara do pai e, tal como ele, evitava expor-se ao sol. Coop costumava dizer que era devido aos 
seus antepassados britnicos que tinha a pele "inglesa".

        - No, j estou habituado a isso. As mulheres novas no me chateiam - respondeu Coop, esboando um sorriso. Ela at j  um pouco velha para mim. - E ambos 
riram do comentrio. Tambm j lhe falara de Charlene. - O pai  o Arthur Madison. Sabes o que isso quer dizer. Estou sempre a questionar-me sobre as razes por 
que ando com ela. Alm disso, estou atolado em dvidas. - A sua sinceridade provocava admirao em Taryn. - s vezes, tenho a sensao de que ando atrs do dinheiro 
dela. Outras vezes, j no sinto isso. Seria uma forma fcil de resolver os meus problemas financeiros. Talvez demasiado fcil. Ser que a amaria da mesma forma 
se ela no tivesse um tosto furado?, pergunto-me muitas vezes. Ainda no sei a resposta. Estou confuso.

        - Talvez isso no tenha importncia.

        - Mas talvez tenha - replicou Coop. Taryn era a nica pessoa com quem podia falar com toda a franqueza, porque no tinha qualquer interesse na questo e 
ele no queria nada dela. A nica coisa que queria era t-la na sua vida. Pela primeira vez estava prximo do amor incondicional. E tudo acontecera de um dia para 
o outro, como se j estivesse  espera que Taryn entrasse na sua vida. Precisava dela. E talvez Taryn tambm precisasse dele. - Quando o sexo e o dinheiro se encontram, 
d confuso. Tem sido sempre assim ao longo da minha vida. - Estava adorando partilhar os seus segredos com ela, e surpreendido consigo mesmo.

        - Talvez tenha razo. Tambm tive um problema desses com o meu marido. Pusemos a empresa de p e acabamos por ir cada um para seu lado. Ele s se importava 
com o lucro. Eu fazia a parte de design e recebia os louros do trabalho, o que o deixava morto de cimes. No processo de divrcio, tentou ficar com a empresa. Chegou 
a dormir com a minha assistente, acabando por ir viver com ela, e eu quase fiquei de rastos por causa disso.

        - L est. Dinheiro e sexo.  uma mistura explosiva.

        - As suas dvidas so muito elevadas? - indagou Taryn, preocupada.

        - Muito, mesmo. A Alex no sabe. Nunca toquei nesse assunto. No queria que ela pensasse que andava atrs do dinheiro dela para pagar as minhas dvidas.

        - E anda?

        - No tenho a certeza. Seria muito mais fcil do que andar a esfalfar-me a fazer anncios e sabe Deus que mais. Mas  uma mulher impecvel e no quero dinheiro 
dela. Se fosse outra, talvez. E tambm no quero dinheiro teu. No queria misturar as coisas, nem estragar o que j tinham alcanado. Gostava das coisas tal como 
estavam. Tudo era claro entre eles, e era assim que queria continuar. - A nica coisa de que preciso  de um papel num filme decente, um bom papel, para levantar 
a cabea. Mas sabe-se l quando  que isso ir acontecer. Se calhar, nunca. No  fcil dizer isto.

        - E se esse papel no aparecer? - Taryn parecia preocupada. Coop encarava as questes econmicas com alguma superficialidade.

        - Acaba sempre por aparecer qualquer coisa.

E se isso no acontecesse, l teria de se voltar para Alex. De repente, apontou para os ps de Taryn.

        - Algum problema? - Taryn estivera na pedicure e pintara as unhas de cor-de-rosa. Pensou que talvez ele preferisse vermelho. Mas sempre usara aquela cor. 
O verniz vermelho lembrava-lhe sangue.

        - Tens os ps iguais aos meus! - exclamou Coop, espantado. Ps os ps ao lado dos dela e riram-se. Pareciam gmeos. Tinham os mesmos ps compridos e elegantes. 
- E as mesmas mos!

No havia qualquer dvida de que era mesmo sua filha. No que quisesse que no fosse. Ainda pensara apresent-la como sobrinha. Mas,  medida que se iam conhecendo 
melhor, s a queria apresentar como filha. E perguntou-lhe o que achava.

        - Acho timo, desde que isso no o prejudique.

        - No vejo porqu. Podemos dizer que tens catorze anos.

        - Prometo no dizer a ningum que idade tenho - retorquiu Taryn, e riu-se. At o riso era praticamente igual. Para mim,  timo. Com a minha idade,  uma 
chatice estar outra vez solteira. Estou quase com quarenta. Casei-me aos vinte e dois.

        -Que seca deve ter sido a tua vida! - comentou Coop, em tom de censura, fazendo com que Taryn se risse. Adoravam estar um com o outro. - J estava no momento 
de fazeres uma mudana. Tens de arranjar um namorado.
        
        - Ainda no. No estou preparada. Preciso ganhar flego. Perdi o marido, a empresa e a minha me, e ganhei um pai, tudo no espao de meses. Preciso de tempo. 
Tenho muita coisa para assimilar.


- E o trabalho? Vais procurar alguma coisa por estes lados? - O instinto protetor de Coop estava comeando a se manifestar.

        - No sei. Sempre quis desenhar roupa, mas  capaz de ser uma idia extravagante. No preciso de trabalhar. A empresa foi muito bem vendida e a minha me 
deixou-me o que tinha. O meu pai... o meu outro pai - corrigiu, com um sorriso - tambm me arranjou um bom p-de-meia. Talvez eu o possa ajudar. Sou extremamente 
organizada e sei o que  necessrio fazer para sair de uma situao difcil.

        - Devem ser os genes da tua me. Eu sou ao contrrio. O caos financeiro  algo que j me  familiar - comentou Coop, com grande sentido de humor e humildade, 
o que deixou Taryn ainda mais cativada.

        - Descreva-me a sua situao financeira e eu dir-lhe-ei o que penso.

        - Talvez consigas interpretar aquilo que o meu contabilista diz e que  essencialmente isto: "No compre nada e venda a casa."  um homenzinho chato.

Quando Alex estava presente, faziam o jantar juntos, iam ao cinema e tinham conversas interminveis. Mas, se via que estava a mais, Taryn desaparecia discretamente. 
No queria fazer de pau-de-cabeleira. Gostava muito de Alex e tinha um grande respeito pelo seu trabalho.

Um sbado de manh, Taryn e Alex estavam deitadas junto  piscina, a conversar sobre o trabalho de Alex, quando Mark e os filhos saram da ala de hspedes. Coop 
encontrava-se no terrao, a ler um livro. Estava constipado e no lhe apetecia nadar.

Alex apresentou Taryn aos Friedman, sem referir quem ela era. Mark perguntou se ela e Cooper eram familiares. Havia uma estranha semelhana entre eles, e perguntou 
a Alex se tambm j reparara nisso. As duas mulheres desataram a rir.

        - Para ser franca, ele  meu pai. J no nos vamos h muitssimo tempo.

As palavras foram ditas com tal naturalidade que Alex teve de conter o riso. Taryn sara-se bastante bem.

        - No sabia que Coop tinha uma filha - disse Mark, espantado.

        - Nem ele - retorquiu Taryn, com um sorriso. E mergulhou na piscina.

        -- Que disse ela? - perguntou Mark a Alex, confuso.

        -  uma longa histria. Pode ser que um dia lhe contem.

Poucos minutos depois, apareceu Jimmy. O dia estava quente e todos queriam dar um mergulho na piscina. Mark conversava com Taryn, enquanto os filhos recebiam um 
grupo de amigos que acabava de chegar. Alex pediu-lhes que no ouvissem msica, pois Coop estava um pouco adoentado, e eles juntaram-se na outra extremidade da piscina, 
a falar e a rir, o que deu oportunidade a Alex de conversar calmamente com Jimmy.

        - Que tal vo as coisas? - perguntou ela, num tom descontrado, deitada numa cadeira, enquanto Jimmy punha protetor solar nos braos. Apesar dos cabelos 
escuros, tinha pele clara. Alex ofereceu-se, de imediato, para lhe pr creme nas costas. Jimmy hesitou por instantes, depois agradeceu-lhe e virou-se. Mais ningum 
lhe fizera tal coisa desde a morte de Maggie.

        - Mais ou menos. E voc? Como vai o trabalho?

        - Muito trabalho. s vezes, penso que o mundo s tem prematuros e bebs com problemas. Nunca mais vejo bebs saudveis.

        - Deve ser um trabalho deprimente.

        - No propriamente. Muitos deles ficam bons. Outros, no. Ainda no me habituei a essa idia. - Ficava de rastos quando um beb morria. Era uma tristeza 
para toda a gente. Mas as vitrias eram saborosas. - Os pequenos com quem trabalha tambm no tm uma vida fcil. Custa imaginar como algumas pessoas tratam os filhos.

        - Tambm nunca conseguirei  me habituar a isso.

Tanto um como outro j haviam assistido a muitas situaes dramticas. E cada um  sua maneira tentava salvar vidas.

        - O que a levou a querer ser mdica?

        - A minha me.

        - Tambm  mdica?

        - No, leva uma vida de total futilidade. Passa o tempo nas compras, em festas e na manicura. A minha irm tambm. E eu queria fazer algo diferente de tudo 
isso, custasse o que custasse. Quando era pequena, queria ser piloto de aeronaves. Mas tambm me pareceu uma profisso chata.  quase como ser motorista de nibus. 
O que fao  mais interessante,  diferente todos os dias.

        - O meu trabalho tambm  assim. Quando andava em Harvard, queria ser jogador de hquei no gelo, nos Bruins. Mas a minha namorada convenceu-me de que ficaria 
com um aspecto horrvel sem dentes. Acabei por lhe dar razo. Mas ainda gosto de patinar. - Ele e Maggie costumavam patinar muito, mas procurou no pensar nisso. 
- Quem  a mulher que est a falar com o Mark? - indagou, visivelmente interessado, e Alex sorriu.

        -  filha de Coop. Vai ficar com ele durante uns tempos. Acabou de chegar de Nova Iorque.

        - No sabia que ele tinha uma filha. - Jimmy parecia surpreendido.

        - Para ele tambm foi uma surpresa.

        - Deve ter um monte de filhas destas.

        - Esta foi uma boa surpresa.  uma jia de pessoa. Mark tambm parecia partilhar da mesma opinio. H uma hora que estavam a conversar, e Jessica metralhava-a 
com perguntas. Jason andava atarefado a empurrar os amigos para dentro da piscina. - So bons garotos.

        - Sem dvida.  Mark  um homem de sorte, pelo menos com os filhos. Mas no devem tardar a voltar para a me. Vai sentir imensas saudades deles.

        - Talvez tambm volte para l. E voc? Vai ficar por aqui ou vai voltar para o Este?

Alex sabia que Jimmy era de Boston e, de repente, lembrou-se que ele talvez conhecesse um primo seu, que andara em Harvard no mesmo tempo.

        - Gostaria de ficar por aqui - respondeu Jimmy, com ar pensativo. - Embora esteja com pena da minha me. O meu pai morreu e ela est sozinha. Sou a nica 
pessoa que tem no mundo. - Alex perguntou-lhe se conhecia o primo.

Jimmy esboou um sorriso. - Luke Madison era um dos meus melhores amigos. Vivamos na mesma irmandade. Costumvamos apanhar valentes jogadas aos fins-de-semana. 
Se duvidar, j no nos vemos h uns bons dez anos. Acho que foi para Londres quando acabamos o curso e perdi-lhe o rasto.

        - Ainda est l. E tem seis filhos. Todos rapazes. Tambm no o vejo com muita freqncia, s nos casamentos. E mesmo a esses vou muito raramente.

        - Alguma razo particular?

Jimmy continuava a no perceber a atrao de Alex por Coop. Achava que no fazia qualquer sentido, mas, como  bvio, no tocou no assunto. No morria de amores 
pelo velho ator. No sabia muito bem porqu. Tratava-se de uma averso instintiva. Talvez cimes. Coop no passava de um mulherengo que s pensava nos prazeres carnais. 
E isso ia contra os seus princpios.

        -J uma vez tive um mau... casamento. Isto ... Alex explicou o que se passara e Jimmy riu-se.

        - Foi pena. Os bons podem ser extraordinrios. O meu foi. No a boda em si, mas o casamento, enquanto relao. Maggie era uma mulher espetacular.

        - Lamento muito o que se passou.

Alex sentia imensa pena dele, mas Jimmy parecia melhor. No andava to angustiado, nem to plido. E j engordara uns quilinhos. Os seres passados com os Friedman 
faziam-lhe bem e, pelo menos, comia. Alm de nutrir uma grande amizade pelos jovens.

        - H dias em que a tristeza parece que me vai matar. Outras vezes, d a impresso de que nem sequer a sinto. Nunca sei com que disposio  que vou acordar 
no dia seguinte. Um dia que est correndo bem pode transformar-se num pesadelo. E um dia que comea da pior maneira, em que s tenho vontade de morrer, pode, de 
repente, dar a volta.  como uma dor ou uma doena, nunca se sabe como vai evoluir. Acho que j estou habituando-me. Ao fim de algum tempo, passa a ser um modo de 
vida.

        -Julgo que s o tempo conseguir sarar essa dor. - Era um lugar-comum, mas Alex achava que correspondia  verdade. Maggie falecera h quase cinco meses. 
Quando se mudou para ali, Jimmy parecia meio morto. - Muitas coisas so assim, embora talvez no to duras. Levei muito tempo a digerir o casamento que nem sequer 
chegou a  se realizar.

        - Acho que so casos diferentes. O seu tem a ver com confiana. O meu, com perda.  mais puro. No h ningum a quem culpar. Di muito. - Falava com toda 
a sinceridade e Alex achou que lhe estava fazendo bem desabafar. Quanto tempo ainda vai durar a sua especializao?

        - Mais um ano. s vezes parece uma eternidade. So muitos dias, muitas noites. Provavelmente, ficarei na UCLA, mesmo depois de acabar a especializao, se 
me quiserem. Tm uma Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia extraordinria.  uma especialidade difcil, no h muitos neonatologistas. Ia ser uma simples 
pediatra, mas fiquei fascinada pela Neonatologia. Andamos sempre com a adrenalina no mximo, nunca morremos de tdio.

Entretanto, Taryn e Mark, que haviam estado a conversar sobre legislao fiscal e parasos fiscais, aproximaram-se de Jimmiy, que esboou um sorriso ao v-los. Taryn 
era quase da mesma altura que Mark. Formavam um casal engraado e eram quase da mesma idade.

        - De que esto vocs os dois a falar? - perguntou Mark, enquanto se sentava.

        - Trabalho. De que mais poderia ser? - gracejou Alex.

        - Tambm ns.

E enquanto falavam, uma chusma de adolescentes atirou-se para dentro da piscina. Alex sentiu um grande alvio por Coop no se encontrar ali. Teria ficado doente. 
Fora esplndido que a sua nica filha s tivesse aparecido aos trinta e nove anos. Para ele, era a idade ideal de um filho. Alex comentara isso com Taryn no dia 
anterior e no conseguiram evitar o riso. Coop tinha uma fobia visceral a crianas.

Cinco minutos depois, os jovens comearam um animado jogo de plo, e Mark e Jimmy juntaram-se a eles.

        -  um bom homem - disse Taryn, referindo-se a Mark. - Acho que ficou muito pra abaixo quando a mulher o abandonou. Foi uma sorte para ele os filhos terem 
resolvido voltar.

        - O Coop  que no ficou l muito contente - comentou Alex. - Mas so crianas adorveis - afianou.

        - Como  o Jimmy? - perguntou Taryn, interessada.

        -  uma pessoa triste. Perdeu a mulher h quase cinco meses. Tem sido muito duro para ele.

        - Outro?

Parecia uma epidemia, mas Alex apressou-se a fazer um gesto negativo com a cabea.

        - No. Cancro. Tinha trinta e dois anos - sussurrou. Jimmy acabava de marcar um ponto para a sua equipe. No instante seguinte, passou a bola a Jason, que 
marcou outro ponto. O jogo estava a ser disputado com grande algazarra e impetuosidade. Entretanto, do lugar onde se encontrava, Coop fez-lhes sinal para voltarem. 
Estava pronto para almoar. - Acho que o mestre nos chama.

        -  feliz com ele, Alex? - inquiriu Taryn.

        - Sou. S  pena ele no gostar de crianas.

        - No se importa com a diferena de idades?

        - No princpio, ainda pensei nisso, mas no acho que tenha importncia. s vezes, parece um garoto.

        - Mas no .

        -  o que o meu pai diz.

        - Ele no aprova? - No ficou espantada. Ter Coop como genro no era o sonho de nenhum pai, a menos que tivesse uma fixao especial por estrelas de cinema, 
o que parecia pouco provvel, sendo o pai de Alex quem era.

        - Para dizer a verdade, ele nunca aprova o que eu fao. E est preocupado com Coop.

        -  natural. Pela vida que ele tem levado. Est preocupada com a mulher que diz que vai ter um filho dele?

        - No. Porque ele tambm est se lixando para ela. E ainda no se sabe se o filho  dele.

        - E se for? Encolheu os ombros.

        - A nica coisa que ele ter de fazer  mandar-lhe um cheque todos os meses. Diz que nem sequer quer ver a criana. Est furioso com ela.

        --  compreensvel.  pena ela no querer fazer um aborto. Tornaria as coisas mais simples para todos.

        - Por um lado,  verdade. Mas se a sua me tivesse feito o aborto, voc no estaria aqui. E ainda bem que no o fez.

Especialmente por Coop. T-la como filha significa muito para ele. - Alex achava que era uma bno para os dois.

        - Ele tambm significa muito para mim. Nunca imaginei que isso viesse a acontecer. Ou talvez imaginasse. Foi por isso que vim. Estava mortinha de curiosidade. 
Tenho uma grande amizade por ele. No sei que tipo de pai  que ele teria sido quando eu era nova, mas agora  um amigo maravilhoso.

A apario de Taryn tivera um efeito positivo em Cooper. Era como se tivesse encontrado a pea que faltava no puzzle da sua vida, uma pea que nem ele prprio sabia 
estar perdida.

As duas acenaram para todos os outros em sinal de despedida e voltaram, em passo lento, para casa. Coop aguardava-as.

        - Esto a fazer uma barulheira infernal! - queixou-se. A constipao causava-lhe mal-estar.

        - No tardam a sair da piscina - assegurou-lhe Alex. Est na hora de almoo.

        - E se fssemos os trs almoar ao Ivy? - sugeriu Coop. E ambas adoraram a idia. Foram mudar de roupa e voltaram, vinte minutos depois, vestidas e prontas 
para sair.

        Coop conduziu-as at North Robertson, no velho Rolls Royce. Foram o caminho todo a rir e a conversar. Chegados ao restaurante, sentaram-se no terrao. Estava 
uma tarde magnfica. Alex olhou para Coop e trocaram um sorriso. Sabia que estava tudo bem no mundo dele, assim como no seu.
CAPTULO 19

O ms de Maio estava quase no fim quando Alex, que fazia um turno de dois dias no hospital, foi chamada  recepo para atender um telefonema. Acabara de passar 
um relaxante fim-de-semana na companhia de Coop, e as coisas nos Cuidados Intensivos, contra o que era costume, estavam relativamente calmas.

        - Quem ? - perguntou, ao pegar o telefone. Acabara de chegar do almoo.

        - No sei - respondeu a funcionria. -  uma chamada interna.

Alex pensou tratar-se de um colega.

        - Doutora Madison - disse, num tom de voz formal. --Estou impressionado.

Alex no reconheceu a voz.

        - Quem fala?

        -  o Jimmy. Tive de vir fazer umas anlises e lembrei-me de telefonar. Muito trabalho?

        - No, nem por isso. Escolheu um momento timo. Acho que esto todos a dormir. No devia dizer isto em voz alta, mas no houve nenhuma situao de crise 
durante todo o dia. Onde  que est?

Estava contente por Jimmy lhe ter telefonado. Gostara da ltima conversa que haviam tido. Era uma pessoa impecvel, mas com um azar dos diabos. Precisava de amigos, 
e ela seria a primeira a oferecer-lhe um ombro amigo, sempre que ele precisasse de desabafar.

        - Estou no laboratrio principal.

Jimmy parecia perdido e Alex ficou preocupada com a sade dele. Talvez fosse o stresse. J para no falar na mgoa que o consumia.

        - No quer vir ter comigo? No posso sair daqui, mas posso oferecer-lhe uma caneca do nosso caf intragvel, se o seu estmago aguentar.

        - Adoraria.

Era do que estava  espera, quando tomou a liberdade de telefonar. Alex deu-lhe todas as indicaes para ele conseguir dar com a Unidade de Cuidados Intensivos.

Quando Jimmy saiu do elevador, Alex encontrava-se na recepo a falar ao telefone com uma me que acabava de levar a filha para casa. A beb estava a reagir bastante 
bem. Estivera cinco meses internada. Era uma das estrelas de Alex.

        - Ento  aqui que trabalha - disse Jimmy, olhando em volta.

Havia uma vitrina atrs do balco da recepo, onde se podia ver uma confuso de equipamentos, incubadoras, luzes e pessoal mdico de mscara. Alex tambm tinha 
uma  volta do pescoo, alm de um estetoscpio. Estava impressionado. Alex encontrava-se no seu elemento natural.

        -  um prazer v-lo por aqui - congratulou-se Alex, ao entrar no seu minsculo gabinete, com o div onde dormira ainda por arrumar. Costumava atender os 
pais na sala de espera. - O que  que o traz por c? Algum problema de sade? - indagou, preocupada.

        - No, simples exames de rotina. Tenho de fazer um exame completo todos os anos, por causa do trabalho. Radiografia do trax, o teste da tuberculina, esse 
tipo de coisas. J devia ter feito isso tudo h mais tempo, mas no tenho tido disponibilidade. Fartaram-se de me mandar avisos. Agora, disseram-me que s posso 
ir trabalhar na prxima semana se fizer os exames. Por isso, aqui estou. Tive de pedir dispensa da parte da tarde, porque nunca se sabe quanto tempo  que isto demora. 
Provavelmente, terei de trabalhar no sbado para compensar.

        -  o que acontece comigo. - Alex sentiu um grande alvio por ele no estar doente. E deu consigo a perscrutar os olhos castanho-escuros de Jimmy, onde ainda 
eram visveis as marcas da dor que o vinha atormentando h meses. - Em que consiste o seu trabalho? - perguntou, interessada, enquanto lhe oferecia um copo de plstico 
de caf intragvel.

Jimmy bebeu um gole e deixou escapar uma risada.

        - Vocs servem o mesmo veneno para ratos que ns. Ao nosso, costumamos juntar-lhe uma pitada de areia, d-lhe um toque especial. - Alex riu-se. J estava 
habituada ao caf, mas tambm no gostava dele. - Em que consiste o meu trabalho? Tiro crianas de lares onde sofrem os piores maus tratos, desde serem sodomizados 
pelo pai, pelo tio e por dois irmos mais velhos... mando crianas para o hospital com queimaduras de cigarros por todo o corpo... ouo os queixumes de mes desesperadas, 
que no conseguem arranjar comida para os filhos, pois tm sete bocas para alimentar e, ainda por cima, o pai bate-lhes... ponho garotos de nove, onze anos, em programas 
de reintegrao social... s vezes, limito-me a ouvir... ou a dar uns pontaps numa bola com alguns. -Julgo que era incapaz de fazer isso. Ficaria deprimida. Lido 
com pequeninos seres que vm ao mundo j com mazelas, e fazemos o melhor que podemos para lhes proporcionar boas condies de sade. Mas acho que o seu trabalho 
dava cabo de mim.

        - O engraado  que no d. - Bebeu um gole de caf e arrepiou-se. Era pior do que aquele que bebia no trabalho. s vezes, d-nos esperana. Acreditamos 
sempre que alguma coisa vai mudar. E o que  fato  que, de vez em quando, isso acontece.  o suficiente para recarregar as energias. E, independentemente daquilo 
que possamos sentir, temos de l estar. Caso contrrio, as coisas complicar-se-o com certeza. E se o inferno das crianas piorar ainda mais...

Entretanto, os seus olhos encontraram-se e Alex teve uma idia.

        - Quer ir dar uma volta?

        - Pela UCI? - Parecia espantado. - No h problema?

        - Se algum perguntar, digo que  um mdico externo. Se houver uma situao de emergncia, mantenha a calma.

E deu-lhe um casaco branco para vestir. Era de tamanho mdio, ficava-lhe apertado nos ombros e curto nos braos, mas ningum notaria. O que interessava era o que 
eles faziam, no a forma como andavam vestidos.

        - No se preocupe. Se houver uma urgncia, fugirei o mais depressa que puder.

Mas nada aconteceu. Nem sequer a solicitaram para o que quer que fosse. Enquanto perambulavam pela unidade, Alex explicava o que estava acontecendo em cada caso, 
de que problema se tratava e que tipo de tratamento estavam fazendo aos bebs que se encontravam nas incubadoras. Alguns deles eram to pequenos que nem sequer usavam 
fraldas. Jimmy nunca vira tantos tubos e tantas mquinas, nem bebs to franzinos. O mais dbil pesava cerca de setecentos gramas, mas as suas hipteses de sobrevivncia 
eram praticamente nulas. Mas l j haviam estado bebs com menos peso. Os mais pesados tinham mais chances de sobrevivncia, mas at esses corriam srios riscos. 
Jimmy ficou de corao dilacerado ao ver as mes sentadas junto s incubadoras, a tocar nos minsculos dedos dos filhos, aguardando um sinal de esperana. O momento 
mgico do nascimento tornara-se um pesadelo e, por vezes, tinham de viver nesse stresse durante meses, at saberem como o estado dos bebs evoluiria. Quando saram 
da unidade, Jimmy vinha abalado. Nunca conseguiria lidar com todo aquele stresse.

        - Meu Deus, Alex,  incrvel. Como  que consegue aguentar a presso? - Se cometessem o menor erro, por um segundo que fosse, a vida de uma criana estaria 
em jogo, e o curso da histria de uma famlia seria alterado irremediavelmente. Era um fardo que ele nunca conseguiria carregar. Mas Alex conseguia, o que fazia 
com que Jimmy tivesse por ela uma tremenda admirao. - Acho que acordaria todos os dias com medo de vir trabalhar.

        - Mas o seu trabalho  to duro como o meu. Se voc falha nalguma coisa, ou no faz o diagnstico correcto da situao, ou se precipita, uma pobre criana 
pode morrer, ou ser morta, ou ficar com marcas para a vida inteira. Tem de ter o mesmo tipo de instinto que eu tenho. No fundo, a idia  a mesma, o lugar  que 
 diferente.

        - Tambm  preciso ter um corao enorme para fazer o que voc faz.

Alex tinha-o. Jimmy j se apercebera disso h muito tempo, da que no entendesse o relacionamento de Alex com Coop. Enquanto para este tudo tinha de girar  sua 
volta, para Alex, o centro das atenes eram os seus doentes, e era ela que girava  volta deles. Talvez fosse por isso que a relao entre os dois funcionava.

Ficaram a conversar mais um pouco, junto ao balco da recepo. Entretanto, chamaram Alex para avaliar o estado de sade de um doente e dar uma consulta, e Jimmy 
teve de se despedir.

        - Obrigado por me ter permitido vir at aqui. Estou impressionado.

        - Tem tudo a ver com o trabalho de equipe. Sou uma pea muito pequena no meio de toda esta engrenagem retorquiu Alex, com humildade, enquanto Jimmy lhe dava 
um abrao de despedida. E  medida que as portas do elevador se fechavam e Jimmy lhe dizia adeus, Alex retomou o trabalho.

Alex s voltou a v-lo no sbado seguinte,  tarde. Por milagre, conseguira outro sbado livre, mas tinha de trabalhar no domingo. Quando Jimmy apareceu na piscina, 
j ela, Taryn, Cooper, Mark e os filhos l estavam. Taryn trazia um enorme chapu de aba larga e, como de costume, Coop estava sentado  sombra da sua rvore favorita. 
Ele atribua o aspecto jovem da sua pele ao facto de nunca se expor ao sol. E estava satisfeito por ver que Taryn procedia da mesma forma. Com Alex, acontecia o 
contrrio, o que fazia com que passasse o tempo a chate-la por apanhar demasiado sol.

Quando apareceu, Jimmy aparentava um ar mais calmo. Mal viu Alex, sorriu-lhe. Cumprimentou, ento, Coop, enquanto Mark e Taryn continuavam a conversar sobre algo 
que parecia fascin-los. Os jovens no haviam convidado os amigos, por isso o ambiente era bastante calmo. Com o bom tempo, a piscina estava em festa permanente, 
mas, desta vez, eram apenas os residentes do Chal - um alvio para Coop.

Desde que Taryn se mudara, Coop andava de muito bom humor. Passava muito tempo com ela, e j a levara a almoar ao Spago e ao L Dome, e a todos os lugares que habitualmente 
frequentava. Gostava que o vissem a seu lado e de a apresentar como filha. Ningum parecia espantado, apenas fingiam haver esquecido que ele tinha uma filha j crescida. 
Alm disso, Taryn era uma mulher respeitvel. Coop apresentava-a a toda a gente, e ela parecia gostar de Hollywood. Era um mundo novo e divertido. Mais cedo ou mais 
tarde, teria de decidir se regressaria ou no a Nova Iorque, ou se arranjaria um negcio em Los Angeles. No queria tomar uma deciso precipitada. Estava a divertir-se 
e no se sentia pressionada a fazer fosse o que fosse.

Alex achava que Taryn exercia uma boa influncia sobre Coop. Embora j antes fosse uma pessoa maravilhosa, parecia menos egocntrico e mais interessado na vida das 
outras pessoas. Ao ponto de perguntar a Alex o que fizera no hospital. Mas quando ela lhe falava das complicadas intervenes mdicas em que participava, parecia 
no perceber patavina, como aconteceria com qualquer outra pessoa. Andava feliz e descontrado.

Arranjara alguns trabalhos, mas ainda no era suficiente para equilibrar as contas. Abe continuava a queixar-se. Liz tambm lhe telefonou. Ficou espantada com o 
nmero de pessoas que viviam na propriedade e algo preocupada com a possibilidade de os jovens o aborrecerem. A histria de Taryn ter encontrado o pai, ao fim de 
tantos anos, comoveu-a.

        - No o posso deixar sozinho cinco minutos que trata logo de arranjar um novo mundo de pessoas  sua volta.

Tal como Alex, tambm Liz o achava muito mais descontrado e feliz. Mais do que alguma vez estivera. Quando lhe perguntou por Alex, Coop foi vago. Tinha as suas 
prprias dvidas a esse respeito, mas no as partilhava com ningum. Havia uma idia que ia tomando forma na sua cabea: se casasse com Alex, nunca mais teria de 
trabalhar; se no casasse, teria de andar atrs de papis de participao especial at ao fim da vida. Seria fcil deixar-se guiar pelo corao, mas no queria ir 
pelo caminho mais cmodo, embora uma parte de si o pressionasse nesse sentido. Alex era uma pessoa to sria e correcta, e trabalhava tanto que seria indigno da 
sua parte aproveitar-se dela. No entanto, amava-a, e a vida fcil era algo de muito tentador. As suas preocupaes financeiras desapareceriam de uma vez por todas. 
Por outro lado, receava que, cedendo a essa tentao, Alex o controlasse. Achar-se-ia no direito de o obrigar a fazer aquilo que quisesse, e isso seria um antema 
para ambos. De momento, o problema ainda parecia insolvel. E Alex no fazia a menor idia do dilema em que ele se debatia, achava que tudo corria bem entre os dois. 
E assim era, com exceo dos problemas de conscincia de Coop, que pareciam alastrar como um tumor benigno dentro de si. Muito por culpa de Alex e Taryn, que haviam 
conseguido estimular o que de melhor havia nele. Eram mulheres extraordinrias, e exerciam forte influncia sobre Coop. Mais do que ele alguma vez sonhara ou desejara. 
A sua vida sempre fora extremamente simples, sem o fardo da conscincia. Mas a voz da conscincia parecia ter vindo para ficar. Agora s precisava de descobrir as 
respostas s perguntas que ela lhe fazia.

Ao fim da tarde, Jimmy fora com Jason comprar equipamento desportivo novo, Jessie estava sentada no extremo da piscina a arranjar as unhas na companhia de uma amiga, 
Taryn e Mark continuavam a conversar calmamente e Coop dormia debaixo da rvore. De repente, Mark virou-se para Alex e convidou os residentes da ala principal da 
casa para jantar. Os olhos de Alex voaram para os de Taryn, que fez um gesto afirmativo quase imperceptvel com a cabea. Alex aceitou o convite em nome de todos.

        - Acho que j nos andamos a encontrar de mais queixou-se Coop.

Mark e Taryn tentavam jogar tnis, e no havia ningum por perto, por isso, Alex podia ser franca com ele.

        - Acho que a Taryn gosta do Mark. Parece-me que a atrao  mtua, e ela queria que eu aceitasse. No somos obrigados a ir se no quiseres. Ela pode ir sozinha.

        - No, tudo bem. Fao tudo o que estiver ao meu alcance pela minha nica filha - gracejou, num tom magnnimo. - Todos os sacrifcios so poucos pelos nossos 
filhos.

Na verdade, adorava ter uma filha de quase quarenta anos, embora ela no aparentasse essa idade. Ao dizer isto, lembrou-se de Charlene. Tinha-lhe exigido mais dinheiro. 
Queria um apartamento maior, num bairro melhor, de preferncia perto dele, em Bel Air, e estava a pensar em utilizar a piscina, uma vez que, segundo alegava, se 
sentia demasiado debilitada para ir a outro lugar. Coop ficou fora de si quando o advogado lhe telefonou e respondeu-lhe que no daria nada a Charlene antes de saber 
o resultado do exame do DNA, dali a cinco ou seis semanas. At l, e atendendo ao modo como ela estava a comportar-se, era persona non grata no Chal.

Alex sentia pena de Coop. Compreensivelmente, era uma situao que ele detestava. E que os trazia a todos sob tenso. Recentemente, uma jovem recebera uma penso, 
de vinte mil dlares mensais, de um homem com quem andara envolvida durante dois meses. Mas o pai do beb em questo era uma estrela de rock com rendimentos astronmicos. 
O que no era o caso de Coop. Alex estava a par da sua situao econmica, depois de ter conversado com o pai. O velho ator nunca lhe falara das suas dvidas e continuava 
a gastar dinheiro com absoluto desprendimento. Embora no demonstrasse, estava preocupado com a quantia que teria de pagar a Charlene, caso o filho fosse seu.

s sete da noite, dirigiram-se os trs at  ala de hspedes. Taryn vestia um conjunto de cala-e-casaco de seda azul-clara, que ela prpria desenhara para a estao 
anterior. Alex trazia um par de calas de seda vermelha, uma camisa branca e umas sandlias de salto alto douradas. Parecia mais uma modelo ou uma bailarina do que 
uma mdica. Eram vestes que nada tinham a ver com as que geralmente usava no hospital. Jimmy adorou o contraste quando a viu, ao jantar.

Descreveu o seu passeio pela Unidade de Cuidados Intensivos, enquanto Taryn e Jessie ajudavam a servir o excelente spaghetti a la carbonara feito por Mark. Jimmy 
trouxera a salada. E havia tiramisu para sobremesa. Cooper trouxera duas garrafas de vintage Pouilly-Fuiss. E todos ouviram, fascinados, o que Jimmy tinha a dizer 
do trabalho de Alex. Ela ficou impressionada com a ateno com que ele ouvira as suas explicaes, e s o corrigiu uma vez, a respeito de um beb com graves problemas 
de corao e pulmes. Mas lembrava-se corretamente de tudo o resto.

        - Ele sabe muita coisa sobre o teu trabalho - comentou Cooper, secamente, quando voltaram para o quarto. J passava da meia-noite. Taryn resolvera ficar 
mais um pouco. Estava a gostar de conversar com Mark e Jimmy. Os garotos haviam sado com amigos e iam passar a noite em casa deles. Fora um sero agradvel. - Quando 
 que ele te foi visitar no hospital? - indagou, com frieza. Alex ficou espantada. Estava com cimes. No havia razo para tal, mas sentiu-se lisonjeada. Era sinal 
de que a amava.

        - Esta semana. Foi fazer exames, por causa do trabalho. Bebemos um caf e, depois, fui mostrar-lhe a UCI. Ouviu tudo o que lhe disse com muita ateno.

Nem ela imaginava com quanta ateno ele a ouvira. Mas Coop estava mais ciente disso. Sabia como os homens cortejavam as mulheres. E reparara que Jimmy no s se 
sentara ao lado dela, como tambm a monopolizara durante grande parte da noite. Alex no se apercebera e no tirara os olhos de Coop, que estava sentado no outro 
extremo da mesa, entre Taryn e Mark. Mas da outra ponta, onde Mark o colocara, o velho ator tinha boa viso sobre todos os presentes. E no tirara os olhos de Jimmy 
durante toda a noite.

        - Acho que ele tem um fraquinho por ti - disparou, com aspereza.

A diferena de idades entre Jimmy e Alex no era muito grande e as suas profisses tinham muitos pontos comuns. Coop pertencia a outra galxia e no estava disposto 
a competir com homens com metade da sua idade. Era uma indignidade que no toleraria e por que nunca passara. Estava habituado a ser a nica estrela no firmamento. 
Gostava que tudo girasse  sua volta.

        - No sejas pateta! Ele anda demasiado deprimido para ter fraquinhos por quem quer que seja.  um farrapo desde que a mulher morreu. Diz que ainda no consegue 
dormir nem ter apetite. No outro dia, quando conversei com ele, fiquei preocupada. Acho que devia tomar antidepressivos. Mas no lhe disse nada, no o quis chatear.

        - Porque no receitas para ele? - respondeu, num tom desagradvel. Alex ps-lhe as mos  volta do pescoo e beijou-o.

        - No sou mdica dele. A ti  que te vou receitar uma coisa. - E meteu-lhe as mos por baixo da camisa. Era evidente que Coop no gostara da noite, apesar 
de Alex ter adorado. Gostava de conversar com Mark e Jimmy. Era divertido ter pessoas como eles no Chal. - Por falar em romances, acho que o Mark e a Taryn se sentem 
atrados um pelo outro. No achas?

Coop ficou hesitante, depois fez que sim com a cabea. Achava Mark um chato.

        - Penso que ela pode arranjar coisa melhor.  uma garota fabulosa e quero apresent-la a alguns produtores que conheo. Teve uma vida chata, e o marido era 
um estupor. Ela precisa  de glamour e de animao.

Alex achava que ele no estava entendendo a questo. Taryn no se interessava pelo mundo das estrelas. Era uma pessoa sincera e terra a terra, e precisava de um 
homem de carne e osso. Coop queria apresent-la aos colegas e amigos. Sentia-se orgulhoso dela.

        - Veremos o que acontece - disse Alex.

Foram para a cama e fizeram amor. Coop sentiu-se muito melhor depois disso, como se tivesse acabado de conquistar o seu territrio. Enervava-o ver homens mais novos 
a arrastar a asa a Alex, especialmente quando via que ela tambm lhes dava troco.

Quando acordou, na manh seguinte, j Alex sara para o hospital. Eram quase dez da noite quando lhe telefonou, depois de regressar de Malibu, onde fora com Taryn 
visitar uns amigos. Alex tivera um dia agitado. No tom de voz de Coop no havia o menor sinal da petulncia que ela detectara na noite anterior. Alex disse-lhe que 
s poderiam encontrar-se na noite seguinte, quando sasse de servio. Prometeu lev-la a um filme que ela h muito queria ver.

Alex falou ainda com Taryn. Agora, j quase pareciam uma famlia. Taryn contou-lhe que ia jantar com Mark no dia seguinte, o que deixou Alex feliz.

Pouco depois, foi para a cama. Dormia sempre vestida quando estava de servio. E deixava as meias ao lado do div, para o caso de ter de sair a correr devido a uma 
emergncia. Nunca adormecia profundamente, ficava sempre de ouvido meio  escuta do telefone. Quando este tocou, s quatro da manh, deu um pulo do div e agarrou 
o aparelho.

        - Madison - respondeu, totalmente desperta. E ficou espantada ao ouvir Mark. Pensou que talvez tivesse acontecido algo a um dos filhos, ou at a Coop. Mas, 
se tivesse alguma coisa a ver com Coop, teria sido Taryn a telefonar-lhe. Algum problema? - perguntou, de chofre. A hora do telefonema deu-lhe a resposta antes de 
Mark.

        - Houve um acidente - respondeu ele, aflito.

        - Em casa?

Talvez algum acidente com Taryn e Cooper. Mas Taryn no estava com Cooper. Mark no lhe disse que ela dormia a seu lado. Viera beber um copo, ao fim da noite, e 
os filhos haviam dormido em casa de amigos, proporcionando aos dois uma liberdade inesperada.

        - Um acidente de carro.

        - Coop? - indagou Alex, contendo a respirao.

        - No. Jimmy. No sei o que aconteceu. No outro dia, estvamos a falar acerca do fato de no termos nenhum parente prximo a quem se pudesse telefonar em 
caso de emergncia. Deve ter posto o meu nome nos documentos. Acabaram de me telefonar. Levaram-no para a UCLA. Julgo que est na Unidade de Traumatologia. Pensei 
que voc talvez pudesse ir. Eu e a Taryn vamos j para a.

        - Disseram-lhe qual era o estado clnico dele? - perguntou, preocupada.

        - No, s me disseram que era grave. Saiu da pista em Malibu e caiu de uma ravina com uns trinta metros. O carro ficou destruido.

        - Merda! - Pensou, de imediato, que poderia ter sido algo mais do que um simples acidente. Jimmy andava deprimido desde a morte de Maggie. - Viu-o hoje, 
Mark?

        - No.

Vira-o na noite anterior, mas isso no queria dizer nada. Muitas vezes, os suicidas entram num estado de felicidade, de euforia at, quando tomam a deciso de se 
matar. Mas, na noite de sbado, ao jantar, parecera-lhe perfeitamente normal.

        - Vou  Unidade de Traumatologia logo que arranje algum que me substitua.

Assim que Mark desligou, Alex telefonou de imediato para um colega que conhecia bem e j a substitura noutras ocasies. Contou-lhe o que se passara e disse-lhe 
que s precisava de meia hora para ir  Unidade de Traumatologia. Ele mostrou-se disponvel e, dez minutos depois, apareceu, com ar ensonado. Entretanto, telefonara 
para a unidade e a nica coisa que lhe puderam dizer por telefone foi que Jimmy se encontrava em estado crtico. J  estava l h uma hora e havia uma equipe a tratar 
dele.

Quando l chegou, falou com o chefe da equipe mdica, que a informou de que Jimmy partira as duas pernas, um brao e a bacia, tinha um traumatismo craniano e estava 
em coma. No era um quadro muito animador. Entrou na sala e manteve-se a alguma distncia para no perturbar o trabalho dos colegas. J o haviam entubado, e estava 
ligado a uma srie de mquinas. Os sinais vitais eram irregulares, e o rosto tinha tantos cortes e hematomas que estava praticamente irreconhecvel. Doeu-lhe o corao 
quando o viu.

        - O traumatismo craniano  grave? - perguntou ao chefe da equipe.

        - Ainda no sabemos. Talvez tenha tido sorte. O electroencefalograma est bastante bom. Mas est em coma profundo. Tudo depende do aumento da presso craniana, 
que no se pode prever, e do tempo que estiver em coma. - De momento, haviam decidido no o operar para aliviar a presso craniana. Esperavam que esta voltasse ao 
normal sem interveno cirrgica. O tempo era fundamental. E a sorte. Alex aproximou-se e observou-o durante alguns instantes, em silncio. J lhe haviam tratado 
das fracturas das pernas e do brao, e limpado as feridas, mas Jimmy estava gravemente ferido.

Dirigiu-se at  sala de estar, onde j se encontravam Mark e Taryn.

        - Est muito mal? - indagou Taryn, ainda antes que Mark conseguisse articular qualquer palavra.

        - Muito. Mas poderia ter sido pior. E o estado dele inda pode piorar, antes de melhorar.

No disse "se melhorar", mas pensou.

        - O que  que acha que aconteceu? - perguntou Mark.

Jimmy no bebia muito e era pouco provvel que estivesse a conduzir embriagado. Mas Alex no queria partilhar as suas suspeitas com eles. Partilhara-as com o mdico 
assistente. No que fizesse muita diferena nessa altura. Talvez mais tarde: se Jimmy tentara suicidar-se, teria de vigi-lo de perto quando sasse de coma.

"Conhece este tipo?", perguntara-lhe o mdico assistente, e Alex respondera-lhe que eram amigos. Falara-lhe ainda de Maggie. Ele tomou nota desse fato no quadro, 
com um ponto de interrogao vermelho.

Alex explicou a Mark e Taryn, da forma mais simples que conseguiu, quais os perigos do aumento da presso craniana e o que isso poderia significar para Jimmy.

        - Quer dizer que ele pode ter morte cerebral? - Mark ficou horrorizado. Ele e Jimmy tinham-se tornado bons amigos, e no queria que nada de terrvel lhe 
acontecesse.

        - Pode, mas temos esperana de que isso no acontea. Tudo depende do tempo que demorar a sair de coma. Dentro de pouco tempo, j saberemos se o seu estado 
sofreu alteraes.

        - Meu Deus! - Mark passou as mos pelo cabelo, transtornado. Taryn partilhava a mesma angstia. - Talvez devssemos telefonar  me.

        - Tambm acho - retorquiu Alex. Havia sempre a possibilidade de ele morrer. O seu estado era crtico. Quer que eu telefone? - No eram telefonemas fceis 
de fazer, mas dar ms notcias fazia parte do seu trabalho.

        - No, eu telefono. Devo isso ao Jimmy. - Mark no era pessoa que fugisse s responsabilidades. Encaminhou-se para o telefone e tirou da carteira um nmero 
que Jimmy lhe dera para uma eventualidade como aquela. Nunca lhe passara pela cabea que tivesse de o usar um dia. E ali estava ele a telefonar  me, a inform-la 
de que o filho estava em coma.

        - Que tal  que ele est? - perguntou Taryn a Alex, em voz baixa, quando Mark foi telefonar. Alex tinha um ar desolado.

        - Est muito maltratado.

Alex deu as mos a Taryn, enquanto esperavam que Mark voltasse. Quando regressou vinha comovido e levou alguns instantes a recompor-se.

        - Pobre mulher. Senti-me como se lhe tivesse dado uma machadada no corao. Por aquilo que Jimmy dizia, ele  a nica pessoa que tem na vida.  viva, e 
ele  filho nico.

        -  muito velha? - indagou Alex, preocupada com o seu bem-estar.

        - No sei, nunca perguntei ao Jimmy - respondeu Mark, pensativo. - No me pareceu muito velha, mas no sei dizer. Desatou a chorar mal lhe contei. Disse 
que ia apanhar o prximo avio para Los Angeles. Deve chegar dentro de oito, nove horas.

Alex foi ver Jimmy novamente, mas ainda no houvera qualquer alterao. E teve de voltar para a sua unidade, deixando Mark e Taryn na sala de estar. Mark perguntou-lhe 
se ia telefonar a Coop. Eram cinco da manh.

        - Espero mais algumas horas e ligo-lhe por volta das oito.

Alex deu-lhe o nmero da sua extenso e do bipe, e pediu que lhe telefonassem se acontecesse alguma coisa. Quando saiu, estavam abraados um ao outro, e Taryn tinha 
a cabea sobre o ombro de Mark.

Nessa manh, graas a Deus, as coisas estavam calmas na Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia, e Alex, tal como havia dito, telefonou a Coop pouco passava 
das oito. O velho ator ainda estava a dormir e ficou surpreendido por Alex lhe telefonar to cedo, mas no se importou. Tinha de se levantar, de qualquer das formas, 
e Paloma no tardaria com o pequeno-almoo.

        - O Jimmy teve um acidente ontem  noite - informou Alex, num tom sombrio, logo que Coop ficou completamente desperto.

        - Como  que sabes? - indagou, desconfiado.

        - O Mark telefonou-me. Ele e a Taryn esto na Unidade de Traumatologia. Saiu da pista na Canyon Road, em Malibu. Tem uma srie de fracturas e est em coma.

Coop ficou impressionado com a notcia.

        - Achas que ele se safa?

        - Nesta altura,  difcil dizer. No se sabe ainda como  que o estado dele vai evoluir. Depende muito da presso craniana, das partes do crebro afetadas 
e do tempo que demorar a sair do coma. Os ossos fraturados no o vo matar. O mesmo no se podia dizer do resto.

        - Pobre tipo. No tem uma pontinha de sorte. Primeiro, a mulher, e agora, isto. - Alex no lhe falou das suas suspeitas de ter sido ele a provocar o acidente. 
No possua dados que pudessem confirmar a sua tese, apenas o seu instinto, e o pouco que conhecia dele. - Bem, vai-me dando notcias.

        - No queres vir ter conosco?

Alex achava que a iniciativa deveria ter partido dele, mas a Coop no lhe havia ocorrido tal coisa. No havia nada que ele pudesse fazer por Jimmy. Alm disso, detestava 
hospitais. Deixavam-no nervoso.

        - No adianta nada eu ir ter com eles. Alm disso, j  tarde para desmarcar o meu preparador fsico.

Era uma desculpa esfarrapada, mas no tinha a menor vontade de ver Jimmy todo entubado. Esse tipo de coisas dava-lhe nuseas.

        - Eles esto extremamente abalados com a situao pressionou-o Alex, mas Coop no mordeu a isca.

        -  compreensvel. Descobri, h anos, que ficar sentado na sala de espera de um hospital no ajuda ningum. S serve para ficarmos mais deprimidos e chatearmos 
os mdicos. Diz-lhes que os levo a almoar fora, se ainda estiverem a  hora de almoo.

Coop recusava-se a admitir a gravidade da situao, o que tornava as coisas mais fceis para si.

        - No acho que queiram deixar o Jimmy sozinho. Nem estariam com disposio para ir almoar fora. Mas

Coop evitava o drama a todo o custo. O hospital era um stio onde no poria os ps, em nenhuma circunstncia.

        - Se aquilo que me ests a dizer  verdade, e acredito que sim, tanto faz eles estarem a na sala de estar, angustiados, como a almoar no Spago.

Alex achou as suas palavras de um profundo mau gosto, mas no lhe disse nada. Era uma perspectiva completamente diferente da sua. E sabia, por experincia prpria, 
que as pessoas tinham reaes estranhas em situaes de stresse. Coop parecia querer evitar a situao.

Alex telefonou para a Unidade de Traumatologia s dez, mas no se registava ainda qualquer evoluo no estado de Jimmy. A nica coisa que Mark sabia era que Mrs. 
O'Connor j apanhara um avio. Esperava-se que ela chegasse ao hospital pouco depois do meio-dia, se tudo corresse normalmente. Mal arranjou tempo livre, Alex deslocou-se 
de imediato  Unidade de Traumatologia. Mark e Taryn ainda se encontravam no mesmo lugar. Mark estava com ar destroado, e Taryn tinha acabado de ir fumar um cigarro. 
Alex dirigiu-se aos Cuidados Intensivos. Falou com as enfermeiras, que a informaram que Jimmy se encontrava num coma ainda mais profundo. As esperanas de sobrevivncia 
no eram muitas.

Alex postou-se, ento, em silncio, ao lado dele, e tocou-lhe, muito de leve, no ombro nu. Estava ligado a um sem-nmero de monitores e ainda tinha agulhas intravenosas 
em ambos os braos. Fora necessrio fazer-lhe uma transfuso de sangue, para compensar as hemorragias internas.

        - Ol, garoto - disse Alex, em voz baixa, logo que uma das enfermeiras se foi embora e a deixou a ss com ele. Que raio ests fazendo aqui? Acho melhor acordares 
j... - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Assistia a tragdias todos os dias, mas esta era diferente. Tratava-se de um amigo, e no queria v-lo morrer. - Sei 
que tens saudades da Maggie, Jimmy... mas todos te adoramos... tens uma vida inteira  tua frente... o Jason vai ficar destroado se te acontecer alguma coisa... 
tens de voltar j, Jimmy!... tens de...

As lgrimas corriam-lhe pelas faces. Continuou ao lado dele, a falar-lhe, num tom firme mas meigo, durante uma boa meia hora. No fim, beijou-o na face, tocou-lhe 
ao de leve no brao e voltou para a sala de estar.

        - Como  que ele est? - Mark continuava em pnico. Taryn estava exausta. Tinha a cabea encostada a uma cadeira e os olhos fechados. Mal ouviu Alex, abriu-os 
e sentou-se.

        - Mais ou menos na mesma. Pode ser que reaja, quando ouvir a voz da me.

        - Achas que poder ter algum efeito nele? - Taryn parecia perplexa. J ouvira falar no assunto, mas nunca acreditara.

        - No sei. Contaram-me que os doentes em coma conseguem ouvir as pessoas que falam com eles. As pessoas regressam dos limiares da morte das formas mais estranhas. 
A Medicina tem tanto de arte como de cincia. Eu no hesitaria um segundo sequer, se soubesse que isso poderia ajudar um dos meus bebs.

        - Talvez devssemos tentar - props Mark, ansioso. Estava com medo da reao da me de Jimmy. No fazia a mnima ideia da idade que teria, pois, se fosse 
j muito idosa e dbil, talvez no resistisse ao choque. - Podemos v-lo?

J o tinham visto, por instantes, da porta. Mas agora, parecia haver menos frenesi  sua volta. Alex foi perguntar se podiam v-lo. Fez-lhes sinal para entrar. Taryn 
s aguentou um ou dois minutos, depois saiu, lavada em lgrimas. Mark manteve-se firme ao lado do amigo e falou com ele, como Alex sugerira. Porm, ao fim de alguns 
minutos, ficou com a voz de tal modo embargada que teve de parar de falar. Jimmy no tinha boa cor, e embora ainda no estivesse-s portas da morte, parecia moribundo. 
Alex sabia que essa possibilidade existia, e at Mark se apercebia disso.

Sentaram-se os trs, na sala de estar e choraram pelo amigo. Fora uma manh de pesadelo e encontravam-se todos assustados e exaustos.

Antes de Alex voltar para o servio, Mark perguntou-lhe se Coop viria ao hospital.

        - No creio. Tem um compromisso esta manh. No teve coragem de lhes dizer que o compromisso era com o preparador fsico. Sabia que se tratava de uma desculpa, 
e algo lhe dizia que Coop tinha um medo pavoroso de hospitais.

Foi telefonando para a Unidade de Traumatologia de hora a hora. Ao meio-dia e meia, Mark enviou-lhe uma mensagem a dizer que Mrs. O'Connor j se encontrava no hospital. 
Tinha ido ver o filho mal chegara.

        - Como  que ela est? - perguntou Alex, extremamente preocupada.

        - Est desolada. Mas quem  que no est?

        - Vou para a dentro de minutos - prometeu Alex, mas eram quase duas horas quando l chegou. Tinha surgido uma situao de emergncia. - Onde est a me 
do Jimmy?

        - Ainda est l dentro com ele. H quase uma hora. No sabiam se seria bom se mau sinal. Mas Alex no a censurava. Mesmo com trinta e trs anos, Jimmy continuava 
a ser o seu menino. No era muito diferente das mes que se sentavam, com ar angustiado, horas a fio, a olhar para os seus bebs. S que ela conhecia-o melhor e 
tivera mais tempo para o amar. Mas tambm tinha mais a perder, se ele morresse.

        - No quero intrometer-me - disse, cautelosamente, mas Mark e Taryn convenceram-na a ir dar uma olhadela. Quando entrou, ficou espantada com o que viu. No 
deparou com nenhuma senhora de idade, mas com uma mulher pequenina, muito atraente, de cinquenta e poucos anos. Com os cabelos escuros apanhados num rabo-de-cavalo 
e sem maquilhagem, parecia ainda mais nova. Envergava calas jeans e uma camisa de gola alta preta. Era a verso feminina de Jimmy,  excepo da silhueta, mais 
magra e nada atltica, e dos olhos, enormes e azuis, e no castanho-escuros como os dele. Mas as feies eram muito parecidas com as do filho.

Estava a falar-lhe calmamente em voz baixa, tal como Alex fizera nessa manh. E levantou os olhos quando a viu. Julgou tratar-se de uma enfermeira, ou de uma mdica.

        - H algum problema? - indagou, em pnico, olhando para os monitores e, depois, novamente para Alex.

        - No, desculpe... sou amiga de Jimmy... Trabalho aqui.  uma visita informal.

Valerie O'Connor fitou-a com olhar triste, durante alguns instantes, depois, continuou a falar com Jimmy. Quando levantou novamente os olhos, Alex ainda se encontrava 
junto dela e Valerie agradeceu-lhe.

Alex voltou para junto de Mark e de Taryn. Estava mais aliviada por a me de Jimmy ser suficientemente jovem para aguentar o choque. Nem sequer aparentava idade 
para ter um filho com trinta e trs anos.

        -  uma senhora simptica - comentou Alex, enquanto se sentava ao lado deles, exausta. Era mais difcil lidar com amigos do que com pacientes.

        - O Jimmy  louco por ela - acrescentou Mark.

        - Vocs j comeram? - Ambos fizeram que no com a cabea. - Deviam ir comer qualquer coisa na cafeteria.

        - No consigo comer nada - disse Taryn, com ar abatido.

        - Eu tambm no - acrescentou Mark. No fora trabalhar e encontrava-se na sala de espera h nove horas.

        - O Coop vem para c? - indagou Mark de novo. Estava espantado por o velho ator ainda no ter aparecido. Achava que ele tambm deveria estar ali.

        - No sei. Tenho de lhe telefonar - respondeu Alex. Ia sair de servio dentro de trs horas e estava pensando voltar a passar por Jimmy, nessa altura, para 
ver a evoluo do seu estado. Mark tambm teria de voltar para casa por causa dos filhos. Taryn precisava de descansar, estava arrasada. Aguentava ali, com grande 
estoicismo, desde a primeira hora. Alex telefonou a Coop quando chegou  UCI. Acabara de lanchar junto  piscina e parecia estar de muito bom humor.

        - Como vai, doutor Kildare? - gracejou. Alex achou o tom inadequado para a ocasio. Apercebeu-se, ento, de que ele no tinha a menor ideia da gravidade 
do estado de Jimmy. Explicou-lhe detalhadamente o que se passava. - Eu sei, querida, eu sei. Mas no posso fazer nada e acho melhor no ficar deprimido. J basta 
vocs os trs. Nada posso fazer para melhorar o estado dele. E ficar aqui feito histrico junto contigo tambm no o vai ajudar em nada. - Tinha razo, mas estas 
palavras no caram bem a Alex. Parecia fingir que nada acontecera, e ela continuava a pensar que Coop tambm deveria estar perto de Jimmy, gostasse ou no de hospitais. 
Jimmy podia morrer a qualquer momento, e a atitude de Coop chocava-a. - Alm disso, detesto hospitais, exceto quando vou ter contigo. Todos aqueles aparelhos me 
deixam nervoso rapidinho.  to desagradvel...

"A vida, s vezes, tambm  desagradvel", pensou Alex. Tambm Jimmy tivera de passar por uma situao "desagradvel" aquando da morte de Maggie. Tratara dela at 
ao ltimo momento e recusara-se a aceitar a ajuda de uma enfermeira. Achou que era esse o seu dever e quis cumpri-lo at ao fim. Mas as pessoas eram diferentes. 
Coop no gostava de lidar com coisas que no fossem nem bonitas nem agradveis. E os comas no eram agradveis, nem os acidentes, nem o aspecto de Jimmy. Mas, ao 
evitar uma situao destas, Coop no estava dando apoio a ningum.

- Quando  que voltas para casa? - perguntou, como se nada tivesse acontecido. - Sempre vamos ao cinema?

Ao ouvir aquilo, Alex sentiu como que um baque.

        - No posso. No sou capaz. Vou ficar por aqui mais um pouco a tentar dar apoio  me dele. O Mark e a Taryn no tardam a ir para casa. Acho que no ficaria 
bem com a minha conscincia se deixasse uma me sozinha com o filho comatoso numa cidade estranha.

        - Que ternura! - ripostou Cooper, em tom de mofa. No achas que ests levando isto longe de mais, Alex? Por amor de Deus! Ele no  teu namorado! Pelo menos, 
espero que no.

Alex nem sequer se dignou responder-lhe. O comentrio era insultuoso e denotava grande insensibilidade. Os cimes que Coop sentia de Jimmy eram inteiramente despropositados.

        - Vou para casa mais tarde.

- Talvez Taryn queira ir ao cinema comigo.

O tom era petulante, e Alex sentiu um arrepio. Coop estava a comportar-se como um menino mimado, no como uma pessoa adulta. Esta faceta infantil fazia parte do 
seu charme.

        - No creio que ela v, mas no custa perguntares-lhe. At logo! - retorquiu Alex, num tom brusco, e desligou. A reao de Coop estava a transtorn-la.

s seis horas, quando saiu de servio e foi ter com Mark e Taryn, j eles estavam de sada. A me de Jimmy encontrava-se tambm na sala de espera. Aparentava uma 
certa compostura, apesar do ar triste. Mas no parecia to abatida quanto eles. Tambm tivera um dia difcil, com o choque da notcia e as vrias horas de voo desde 
Boston at Los Angeles. Mark e Taryn partiram pouco depois. Alex ofereceu-se para lhe ir buscar uma sopa e uma torrada ou um caf.

        -  muito simptica - agradeceu Valerie, esboando um sorriso -, mas acho que no consigo comer o que quer que seja. - Acabou por aceitar um pacote de bolachas 
e uma tigela de sopa que Alex lhe trouxe do bar das enfermeiras. - Que sorte a senhora conhecer os cantinhos aqui no hospital - comentou, reconhecida. - Ainda no 
acredito que isto aconteceu. Coitado do Jimmy. Tem tido uma vida muito complicada. Primeiro, foi a Maggie que adoeceu e morreu, e agora isto. Estou preocupada com 
ele.

        - Tambm eu - disse Alex, com voz sumida.

        - Ainda bem que ele tem excelentes amigos aqui. Graas a Deus que deu o meu nmero de telefone ao Mark.

E as duas mulheres ficaram a conversar durante algum tempo. Valerie quis saber coisas do trabalho de Alex e j tinha conhecimento da sua relao com Coop. Mark explicara-lhe 
a situao a fim de evitar que ela pensasse que se tratava da namorada de Jimmy. Mas o filho j lhe dissera, nos muitos telefonemas que haviam trocado, que no voltara 
a sair com uma mulher desde a morte de Maggie. E Valerie receava que ele nunca mais andasse com ningum. Jimmy e Maggie formavam um casal perfeito, tinham tido um 
casamento invejvel, tal como ela. H dez anos que era viva e h dez anos que no sentia qualquer atraco por ningum. Aos seus olhos, no havia outro homem na 
Terra como o pai de Jimmy. Ningum conseguiria substitu-lo e ela tambm no tinha qualquer vontade de tentar.

Conversaram durante bastante tempo. Valerie pediu a Alex que a acompanhasse da prxima vez que fosse ver Jimmy. Confessou que o fato de ir acompanhada lhe dava mais 
coragem. No final da conversa, Valerie no conseguiu conter a emoo e chorou. No imaginava a vida sem ele. Era tudo o que tinha no mundo, embora levasse uma vida 
muito ocupada. Fazia trabalho de voluntariado com cegos e sem-abrigo, em Boston. Mas Jimmy era o seu nico filho, e o simples fato de saber que ele estava longe 
no mundo, mesmo que longe dela, fazia com que a vida tivesse sentido.

Eram quase dez horas quando Alex pediu a uma enfermeira que preparasse uma cama para Valerie no corredor . No queria deixar o filho sozinho. Preferia ficar no hospital, 
para o caso de acontecer alguma coisa.

Eram dez e meia quando Alex telefonou a Coop, mas ele no estava em casa. Taryn informou-a de que o pai fora ao cinema.

        - Acho que os hospitais o pem nervoso - explicou, mas Alex j sabia disso h muito. Continuava a irrit-la o fato de ele nem sequer tentar enfrentar a situao, 
preferindo fazer de conta que nada acontecera.

        - Diz-lhe que, hoje, durmo em minha casa. Tenho de estar no hospital s cinco da manh. E no quero acord-lo quando me levantar.

        - Deixo-lhe um bilhete. Tambm estou demolida.

Alex disse-lhe que o estado de Jimmy continuava estacionrio.

Quando foi despedir-se de Valerie, j ela cara no sono. Saiu na ponta dos ps e, nessa noite, ao deitar-se, pensou em Coop, tentando perceber o que sentia. Quando, 
por fim, se aninhou para adormecer, j chegara  concluso de que no estava zangada, apenas desapontada. Pela primeira vez, vira uma faceta de Coop de que no gostava. 
Ainda o amava, mas deixara de o respeitar. Desiludira-a profundamente.
CAPTULO 20

Na manh seguinte, no hospital, Alex telefonou a Coop, que lhe disse que ela perdera um filme magnfico. Continuava a recusar-se a encarar a situao. Nem sequer 
lhe perguntara como Jimmy estava. No entanto, Alex prontificou-se a inform-lo de que o seu estado continuava estacionrio. Mas Coop tratou logo de mudar de assunto.

        - A saga continua - comentou, como se o que Alex acabara de dizer lhe fosse indiferente. Teve vontade de sacudi-lo. No entendia que a vida de um homem estava 
por um fio?

Quando encontrou Taryn, na Unidade de Traumatologia, falou-lhe no assunto. Mark e Valerie estavam com Jimmy.

        - Acho que ele no gosta de lidar com situaes difceis reconheceu Taryn.

Tambm ficara um pouco espantada com a reao do pai, que, ao pequeno-almoo, lhe falara na necessidade de evitar a "energia negativa". Mas Taryn suspeitava que 
o sentimento de culpa o torturava. Por mais natural que fosse a sua reao, Coop tinha conscincia de que no estava a agir corretamente. Mas o que mais aborrecia 
Alex era a forma como ele conseguia alhear-se por completo da situao. Nem sequer oferecera os seus prstimos a ningum. Alex sentia-se enganada. E pensou, com 
alguma preocupao, no que ele faria se, um dia, lhe acontecesse alguma coisa "negativa" a ela. Enfrentaria a situao, ou iria ao cinema? Era assustador v-lo fazer 
tudo o que podia para fugir.

Nesse dia, depois de sair do hospital, Alex foi at ao Chal. Mas no queria pressionar demasiado Coop. Ele recebeu-a com toda a amabilidade, e at encomendara um 
delicioso jantar no Spago. Era a sua forma de a compensar pelo que no fizera. Para ele, a palavra "desagradvel" no existia. Tudo tinha de ser bonito, divertido, 
elegante. Conseguira expulsar da sua vida as coisas de que no gostava, ou que o assustavam, e s admitia as que achava divertidas e lhe davam prazer. O problema 
era que a vida real no era assim. Na vida, havia mais coisas desagradveis do que agradveis. Mas no no mundo de Coop. A, no deixava entrar as coisas ms, fingindo, 
para si e para todos quantos o rodeavam, que no existiam. O que contava era o gozar as coisas boas da vida. Apesar de tudo, tiveram uma noite maravilhosa, relaxante. 
Aos olhos de Alex, uma noite surrealista.

Entretanto, Alex telefonou para o hospital para se inteirar do estado de Jimmy, mas no disse nada a Coop. No houvera qualquer alterao. As esperanas comeavam 
a ser mais tnues. Estava em coma h quase quarenta e oito horas. E, a cada dia que passava, as hipteses de uma recuperao total iam diminuindo. Jimmy tinha mais 
um, dois dias para acordar do coma. A partir da, a possibilidade de uma recuperao total estaria definitivamente posta de lado. Poderia sobreviver, mas no seria 
a mesma pessoa. A nica coisa que Alex podia fazer agora era... rezar. Nessa noite, quando se deitou ao lado de Coop, Alex sentia-se profundamente angustiada, no 
apenas por causa de Jimmy, mas por causa da faceta de Coop que acabava de descobrir e a deixava deprimida.

No dia seguinte, estava de folga, mas, mesmo assim, foi ao hospital, para conversar um pouco com Valerie e visitar Jimmy.

        - Obrigada por me vir fazer companhia - disse Valerie.

Estiveram sozinhas durante todo o dia. Mark fora trabalhar. Coop andava em filmagens para um anncio a uma empresa farmacutica nacional, e insistira em levar Taryn 
consigo.

Valerie e Alex ficaram na sala de estar durante horas e iam, de quando em quando, junto de Jimmy. Falavam sem parar, como se ele conseguisse ouvi-las. Entretanto, 
num desses perodos de viglia, Alex, que se encontrava aos ps da cama enquanto Valerie falava com ele, viu-o mexer um dedo do p. Ao princpio, ainda pensou tratar-se 
de um reflexo. Ento, todo o p se mexeu. Alex olhou para o monitor, depois, para a enfermeira. Esta tambm vira. De seguida, muito lentamente, Jimmy procurou a 
mo da me e apertou-a. Havia lgrimas no rosto de Alex e Valerie, que no parou de falar, dizendo-lhe, numa voz muito calma, que o amava muito e que estava muito 
feliz por ele se sentir melhor, embora na realidade os sinais fossem ainda muito tnues. S ao fim de meia hora  que Jimmy abriu os olhos e, quando o fez, olhou 
para a me.

        - Ol, me - murmurou.

        - Ol, Jimmy - respondeu Valerie, sorrindo por entre lgrimas.

Alex teve de conter um soluo que quase a sufocava.

        - Que aconteceu?

        - s um pssimo motorista- respondeu a me, e at a enfermeira se riu.

        - Como est o carro?

        - Em pior estado do que tu. Terei todo o prazer em comprar-te um novo.

        - Est bem. - Jimmy fechou os olhos, para os abrir de novo e encarar com Alex. - Que fazes aqui?

        - Estou de folga e aproveitei para te vir visitar.

        - Obrigado, Alex - retorquiu Jimmy, adormecendo. O mdico assistente apareceu, minutos depois, para o examinar.

        - Conseguimos! - exclamou, com um sorriso radiante. Tratava-se de uma vitria de toda a equipa. E, enquanto examinavam Jimmy, Valerie soluava nos braos 
de Alex, no corredor. Chegara a pensar que o filho no resistiria. Sentia um alvio imenso.

        -J passou... vai correr tudo bem... - confortou-a Alex, enquanto a abraava. Fora uma terrvel provao para Valerie.

Alex conseguiu, finalmente, convenc-la a passar a noite em casa de Jimmy. Descobrira uma chave sobressalente. Coop ainda se encontrava nas filmagens quando chegaram. 
Alex verificou se Valerie tinha tudo o que precisava.

        - Tem sido maravilhosa comigo - agradeceu Valerie, com os olhos marejados de lgrimas. Tudo a fazia chorar. Haviam sido dois dias de autntico pesadelo, 
e comeava a sentir-se seriamente abalada. - Quem me dera ter uma filha como voc!

- E quem me dera ter uma me como a senhora! - retorquiu Alex, sorrindo, antes de a deixar.

Alex sentia-se agora bastante aliviada. s onze horas, quando Coop chegou, j ela tomara um banho e lavara a cabea. Tambm fora um dia desgastante para ele.

        - Oh, meu Deus, estou exausto! - queixou-se Coop, enquanto enchia trs clices de champanhe. - Fiz peas na Broadway que demoraram menos tempo do que as 
filmagens para este anncio horroroso.

Mas, pelo menos, pagaram-lhe bem, e Taryn achara interessante o que vira. Conseguira abstrair-se um pouco da situao de Jimmy, mas fizera vrios telefonemas ao 
longo do dia para se inteirar do seu estado.

        - Que tal foi o teu dia, querida? - perguntou Coop, num tom descontrado.

        - Excelente. - Alex sorriu para Taryn, que j sabia da novidade. - Jimmy acordou hoje. Vai ficar internado por uns tempos, mas vai conseguir recuperar.

A voz ficou embargada. Fora uma experincia emocionante para todos, exceto para Coop.

        - E viveram todos muito felizes - acrescentou ele, esboando um sorriso de superioridade. - Como vs, minha querida, as coisas acabam por se resolver por 
si s.  muito mais fcil deix-las na mo de Deus e continuarmos a nossa vida.

Estas palavras eram a negao do que Alex fazia, da sua profisso. Indubitavelmente que Deus controlava tudo, mas ela tambm contribua com o seu quinho.

        -  uma forma de ver as coisas - retorquiu, calmamente.

        - Como est a me dele? - indagou Taryn, preocupada.

        - Um pouco abatida. Levei-a para casa do Jimmy.

        - Com a idade dela, teria sido prefervel ficar num hotel, sempre tm servio de quartos - disse Coop. Como de costume, tinha o mesmo aspecto imaculado e 
elegante daquela manh, quando sara para as filmagens.

        - Talvez no tenha dinheiro para ficar num hotel, e no  to velha como espervamos.

        - Que idade  que ela tem? - perguntou Coop, parecendo surpreso.

        - Cinqenta e trs anos - respondeu Taryn. - J lhe perguntei.  uma mulher muito bonita. Mais parece irm dele.

        - Bem, pelo menos no temos de nos preocupar com a hiptese de ela cair e fraturar a anca - gracejou Coop, feliz com aquele desenlace e, naturalmente, aliviado 
por Jimmy ter se salvo. S no gostava de melodramas. Agora todos podiam voltar a fazer a sua vida normal. - Bem, o que  que vamos fazer amanh? - perguntou, com 
ar radiante.

Ganhara algum dinheiro e estava extremamente bem-disposto. E, agora, Jimmy tambm ia ficar bom. Alex sentiu-se aliviada por ver que Coop estava feliz com a recuperao 
de Jimmy.

        - Vou trabalhar - respondeu Alex, a rir.

        - Outra vez? - Coop parecia desapontado. - Que chatice! Pensei que estivesses de folga e pudssemos ir fazer compras  Rodeo Drive.

        - Adoraria. - Alex sorriu. s vezes, Coop ficava com um ar to infantil que ela no conseguia continuar zangada com ele. A sua atitude relativamente a Jimmy 
desgostara-a bastante. - Acho que, no hospital, no gostariam muito de saber que eu no tinha ido trabalhar para andar s compras. Seria difcil de explicar.

        - Diz-lhes que ests com dor de cabea, ou que achas que h amianto no hospital e os vais processar..

        - Talvez v trabalhar - insistiu Alex, rindo.

 meia-noite, foram todos para a cama. Alex e Coop fizeram amor. Na manh seguinte, ela beijou-o antes de sair. Perdoara-lhe a falta de simpatia por Jimmy. Algumas 
pessoas no sabem lidar com emergncias ou problemas mdicos. Estes eram-lhe to familiares que tinha dificuldade em aceitar que outras pessoas no conseguissem 
agir como ela. Mas nem toda a gente conseguia fazer o que ela fazia. Sentia uma necessidade premente de arranjar desculpas para o comportamento de Coop. Estava disposta 
a desculp-lo desta vez. Era algo que tinha de fazer. O amor, pelo menos aos seus olhos, tinha a ver com compaixo, compromisso e perdo. A definio de Coop talvez 
fosse um pouco diferente. Teria a ver com beleza, elegncia e romance.

Nesse dia, durante a sua hora de almoo, Alex aproveitou para ir ver Jimmy. A me fora  cafeteria comprar um sanduche, e falaram dela por uns instantes. Alex disse 
que a adorava. Jimmy concordou. Estava calmamente deitado na cama. Ia deixar a UCI no dia seguinte.

        - Obrigado por teres estado ao p de mim enquanto estive em coma. A minha me disse-me que, ontem, estiveste aqui o dia todo. Foi muito simptico da tua 
parte. Obrigado.

        - No queria que ela ficasse aqui sozinha.  um lugar aterrador para qualquer pessoa - explicou Alex, de olhos fixos nele. Ento, resolveu desafi-lo. Jimmy 
j se encontrava em condies de responder  pergunta que andava a atorment-la desde o dia do acidente. - Como  que aconteceu o acidente? Presumo que no andaste 
abebendo. - Estava sentada muito perto dele, e, sem pensar, Jimmy pegou-lhe na mo.

        - No, no bebi... no sei, julgo que o carro ficou descontrolado. Pneus velhos... freios velhos... qualquer coisa velha...

        - O acidente aconteceu por acaso ou foi provocado? A voz de Alex mais parecia um murmrio. Jimmy fez uma longa pausa, depois, olhou-a nos olhos.

        - Para ser sincero, Alex, no tenho a certeza... j fiz essa pergunta a mim mesmo. Estava pensando nela... fazia anos no domingo que... foi  numa frao 
de segundos. Acho que comecei a derrapar, e deixei-me ir, e, quando tentei parar, no consegui dominar o carro. Depois, tudo se apagou, e acordei aqui. Era exatamente 
aquilo  que ela suspeitara. Jimmy estava to horrorizado como Alex. - Jamais voltaria a fazer uma coisa assim, mas naquela frao de segundos atirei-me para os anjinhos... 
felizmente, eles no me quiseram l e mandaram-me de volta.

        - Foi um susto tremendo - disse Alex, num tom triste. Magoava-a pensar na dor que o atormentara durante tanto tempo. Aprendera a lio da pior forma. Confrontara 
todas as suas angstias e terrores, e sobrevivera para contar a sua experincia. - Acho que o acidente foi uma boa terapia.

        - Sim. Tambm acho. Tenho pensado muito nisso. J no suportava a constante sensao de angstia. Sentia-me a afundar e no conseguia vir  superfcie. Pode 
parecer uma loucura dizer isto, mas sinto-me muito melhor agora.

        - Folgo em ouvir isso. No vou tirar os olhos de cima de ti. S vou te largar quando conseguir ver-te pular de alegria  porta de casa.

Jimmy riu-se da imagem que Alex criara.

        - No creio que v dar muitos saltos.

Ia andar de cadeira de rodas durante um tempo, depois passaria para muletas canadenses. A me prontificara-se a ficar para o acompanhar durante o perodo de recuperao. 
Os mdicos achavam que, dentro de seis, oito semanas, Jimmy j poderia andar. Estava ansioso por voltar ao trabalho, o que era um bom sinal.

        - Alex - disse, cautelosamente -, obrigado pelo apoio que me tens dado. Mas como  que soubeste o que aconteceu?

        - Sou mdica, lembras-te?

        - Sim, mas os prematuros no conduzem carros por ravinas abaixo.

        - Simples intuio. No sei porqu, mas, quando o Mark me deu a notcia, desconfiei logo.

        - s uma mulher inteligente.

        - Gosto muito de ti - retorquiu Alex, num tom srio. Jimmy tambm gostava dela, mas no se atrevia a dizer-lhe.

Quando Valerie regressou com o sanduche, Alex voltou aos seus afazeres. Valerie teceu-lhe, ento, um monte de elogios e estava ansiosa por saber mais coisas sobre 
ela.

        - O Mark diz que  a namorada do Cooper Winslow. No o achas um pouco velho para ela?

Ainda no se encontrara com Coop, mas sabia quem ele era. O filho, Mark e Alex j lhe haviam falado muito nele.

        - Aparentemente, ela no  da mesma opinio.

        - Como  que ele ? - perguntou, enquanto comia o sanduche de po integral com peru.

Jimmy estava de dieta e, ao v-la comer, ficou esfomeado. Era a primeira vez, em muito tempo, que se lembrava de sentir fome. Comeava a acreditar que talvez tivesse 
conseguido exorcizar os seus demnios. Talvez o acidente acabasse por se revelar uma bno.

        - Coop  arrogante, bem-parecido, charmoso, corts e egosta. O problema  que ela no v isso.

        - No estejas to seguro disso - retorquiu, desconfiada de que o filho estava apaixonado por Alex. - Ns, as mulheres, temos uma maneira especial de ver 
as coisas: s lidamos com elas quando nos convm. Temo-las em arquivo. Mas no quer dizer que no as vejamos. Alm disso, Alex  uma mulher jovem e inteligente.

        -  brilhante - acrescentou Jimmy, confirmando as suspeitas da me.

        - Sem dvida. No ir cometer erros. Talvez s esteja interessada em andar com ele algum tempo, embora deva dizer que me parece uma combinao muito estranha, 
por tudo aquilo que tenho ouvido dele.

Mas ficou muito impressionada, no dia seguinte, quando mandaram Jimmy para um quarto particular, e Coop enviou um gigantesco ramo de flores ao filho. Ainda pensou 
que talvez tivesse sido Alex, mas concluiu que no. Era o tipo de buqu que um homem mandava, no uma mulher. Um homem que est acostumado a deixar as mulheres encantadas. 
Nem sequer passara pela cabea de Coop mandar menos de quatro dzias de rosas.

        - Achas que ele quer casar comigo?

        - Espero que no! - retorquiu Valerie.

Mas tambm esperava que Coop no casasse com Alex. Merecia melhor do que um ator de cinema idoso. Precisava de um homem jovem, que a amasse, que estivesse a seu 
lado e lhe desse filhos. Um homem como Jimmy. Mas Valerie no lhes diria nada.

Alex vinha visitar Jimmy todos os dias, quer estivesse a trabalhar, quer estivesse de folga. Trazia-lhe livros para o manter entretido e contava-lhe histrias engraadas. 
Chegou a trazer-lhe um "simulador de gases intestinais" com controlo remoto, para ele se meter com as enfermeiras. No era uma coisa muito digna, mas Jimmy adorava. 
 noite, costumava vir ter com ele e passavam longas horas a conversar. Do trabalho dele, do dela, do casamento dos pais dele, da vida com Maggie, da angstia que 
sentiu quando a perdeu. Alex falava-lhe de Crter, da irm, dos pais e da relao que quisera manter com eles em pequena e que eles nunca haviam sido capazes de 
lhe proporcionar. E pouco a pouco, iam desvendando os seus segredos e aumentando a simpatia que sentiam um pelo outro. Se lhes perguntassem o que os unia, responderiam 
que no passava de pura amizade. S Valerie tinha conscincia de que se tratava de mais do que isso. Estavam a preparar uma mistura explosiva. O nico entrave era 
Coop.

Nesse fim-de-semana, Valerie viu com os seus prprios olhos o entrave em pessoa. E teve de admitir que ficou impressionada. Era tudo aquilo que Jimmy dissera: egocntrico, 
arrogante, divertido e charmoso. Mas Coop era mais do que isso. Jimmy ainda no tinha idade suficiente para se aperceber do resto. O que Valerie viu em Coop foi 
um homem vulnervel e assustado. Independentemente do seu aspecto jovem ou do nmero de mulheres jovens de que se fazia acompanhar, sabia que o jogo estava quase 
no fim. Sentia-se aterrorizado. Tinha medo de adoecer, de envelhecer, de perder o aspecto jovem, de morrer. A forma como tentara alhear-se do acidente de Jimmy era 
sinal disso. E os seus olhos indiciavam o mesmo. Por detrs da gargalhada, escondia-se um homem triste. E, por mais charmoso que fosse, Valerie sentia pena dele. 
Era um homem que tinha pavor de enfrentar os seus prprios demnios. E a histria disparatada da jovem que ia ter um filho seu apenas servia para lhe alimentar o 
ego. E, mesmo que se queixasse da situao, aproveitava-se da histria para torturar Alex, lembrando-lhe, subliminarmente, que havia outras mulheres que queriam 
ter filhos seus. Isso significava que no s era jovem como potente.

No acreditava que Alex estivesse genuinamente apaixonada pelo velho ator. Ele mais no era do que o pai atencioso por que ela sempre ansiara e que nunca conquistara. 
Eram um grupo interessante. E Mark e Taryn tambm formavam um casal perfeito.

Apesar de tudo, Valerie achava as complexidades de Coop fascinantes.  primeira vista, ela no lhe despertara qualquer interesse. No correspondia, de forma alguma, 
ao perfil das mulheres que costumava cortejar. J tinha idade suficiente para ser me delas. O que lhe agradou, como mais tarde confidenciou a Alex, foi a sua graciosidade, 
o estilo e a elegncia de Valerie. No havia nela nada de pretensioso e no tentava aparentar a juventude que no tinha.

        -  uma pena ela no ter dinheiro - comentou Coop.
        - Mas tem ar disso. No fundo - riu-se -, todos temos ar de endinheirados.

Alex era, de todos eles, a nica que tinha dinheiro, mas no o ostentava nem esbanjava em futilidades. Na opinio de Coop, o dinheiro s servia para gastar e para 
passar um bom bocado. Alex escondia o seu, ou ignorava-o. Precisava de lies para aprender a gast-lo. Lies que ele poderia dar-lhe, mas, de momento, hesitava 
em faz-lo. Uma vez mais os problemas de conscincia, que continuava a tentar ultrapassar. Algo que era novo nele e que estava a tornar-se um aborrecimento infernal.

No dia seguinte, encontrou novamente Valerie na piscina. Estava sentada  sombra da rvore favorita de Coop. S iria visitar Jimmy  noite. Envergava um biquni 
preto e exibia um corpo muito razovel. Tanto Alex como Taryn o invejavam e s esperavam chegar  idade dela e terem metade da sua beleza. Ao ouvir estes comentrios, 
Valerie limitou-se a dizer que era uma sortuda por ter bons genes, e que fazia muito pouca coisa para se manter assim. Mas sentiu-se lisonjeada.

Mais tarde, Coop convidou-a para beber um clice de champanhe. Valerie ficou espantada com a casa. No tinha nada de estravagante. A decorao era de um bom gosto 
irrepreensvel. As peas de antiguidade, esplndidas e os tecidos, de um grande requinte. Era a casa de um homem maduro, como comentou, mais tarde, com Jimmy. E, 
mais uma vez, achou que Alex estava deslocada naquele cenrio. No entanto, parecia reinar a felicidade entre os dois.

E comeava a acreditar que as intenes dele relativamente a Alex eram srias. Mostrava-se solcito, atento e carinhoso. Era evidente que estava apaixonado por ela, 
mas, tratando-se de Coop, era difcil dizer qual a profundidade do seu amor. Mantinha tudo na vida  superfcie, especialmente as emoes. No entanto, a hiptese 
de casar com Alex pelas piores razes no era de descartar: quer para provar algo a si prprio, quer para deitar a mo ao dinheiro dos Madison.

Mas Valerie esperava, para bem de Alex, que houvesse mais sinceridade da parte dele. Fosse como fosse, Alex no parecia preocupada com o assunto. Sentia-se perfeitamente 
 vontade com Coop e feliz por estar no Chal, especialmente na companhia de Taryn.

        - Tens uns amigos adorveis - comentou Valerie para Jimmy, nessa noite, quando o visitou no hospital. E disse-lhe que gostara tanto da casa de Coop como 
da casa do caseiro.
        - Percebo porque adoras a tua casa. - Tinha um ar rural e transmitia uma sensao de tranqilidade.

        - Coop te fez a corte?

        - Claro que no. Sou uns trinta anos mais nova do que ele.  um sabido. As mulheres da minha idade  que o topam. A ele at lhe faria bem, mas j no tenho 
energia suficiente para um homem como ele.

No tinha nem energia nem desejo. Esse tempo j passara, como costumava dizer. Estava feliz por viver sozinha e por passar algum tempo com Jimmy. Prometera a si 
mesma acompanh-lo durante todo o perodo de convalescena. E ele s pensava em estar com ela, tal como fizera ao longo de anos. Adorava a sua companhia. Alm de 
serem me e filho, eram excelentes amigos.

        - Talvez tambm devesses entrar na corrida pelo velho.

        - Pouco provvel, querido - e riu-se -, a Alex ganhar-me-ia nas calmas. Ela merece.

Se era ou no bom para ela, essa era uma questo que ficava em aberto.
CAPTULO 21

Em Junho, o romance entre Mark e Taryn ia de vento em popa. Agiam com a mxima discrio possvel. Nem ela nem ele queriam aborrecer as crianas. Mas tanto Jessica 
como Jason simpatizavam com Taryn, de tal modo que, no final do ano letivo, no queriam ir a Nova Iorque visitar a me, que s os vira uma vez desde que estavam 
em Los Angeles. Quando telefonou a Mark para falar no assunto, Janet insistiu para que eles fossem visit-la. Alm disso, queria que ficassem consigo at depois 
do casamento. Ia casar-se com Adam depois do fim-de-semana do 4 de Julho.

        - Eu no vou - sentenciou Jessica, quando falou do assunto com o pai. Jason j dissera que faria o que a irm fizesse. Jessica continuava furiosa com a me. 
- Quero ficar aqui contigo e com os meus amigos. E no vou ao casamento.

        - Isso  outra questo. Podemos falar nisso mais tarde. No te podes recusar a ir visitar a tua me, Jessica.

        - Ai, isso  que posso. Ela deixou-te por aquele cara de cu.

        - Esse  um assunto entre mim e a tua me. No tens nada a ver com isso - retorquiu Mark, num tom firme. Janet conseguira deteriorar, se no mesmo destruir, 
a ligao com os filhos. E Adam no a ajudara. Sentira-se relegado para segundo plano pelos garotos e no conseguira dissimular que andara envolvido com Janet quando 
ela ainda estava na Califrnia. Uma estupidez. A nica coisa que conseguira fora pr os midos em conflito com a me. Mas Mark achava que, mais cedo ou mais tarde, 
eles teriam de lhe perdoar. Tens de ir v-la. V l, Jess! Ela adora vocs!!

        - Tambm a adoro - retorquiu Jessie -, mas estou zangada com ela. - Fizera dezesseis anos h pouco tempo e estava em conflito aberto com a me. Jason tomara 
uma posio mais de expectativa, mas era evidente que se sentia profundamente desapontado. Tanto ele como Jessie viviam muito mais felizes com o pai. - E no vou 
voltar para a escola de l.

Mark no tocara sequer nesse assunto. Janet queria-os consigo o mais rpido possvel e na escola de Nova Iorque, no Outono.

Mark acabou por ter de telefonar a Janet para discutir o assunto.

        - No consigo convenc-los. Estou tentando, mas eles no me do ouvidos. No querem voltar para Nova Iorque e recusam-se a ir ao casamento.

        - No me podem fazer uma desfeita dessas! - E desfez-se em lgrimas. - Tens de os convenc-los.

        - No  posso droga-los  e meter dentro de um avio numa mala - retorquiu Mark. Ela  que fizera a cama em que se deitara. Porm, no havia qualquer sentimento 
de vingana no modo como estava a abordando o problema. Sentia-se feliz com Taryn. - Porque no vens at aqui e falas tu prpria com eles? Talvez facilite um pouco 
as coisas - sugeriu, mas Janet ps logo a idia de parte.

        - No tenho tempo. Ando demasiado atarefada com os preparativos para o casamento.

Janet e Adam haviam alugado uma casa em Connecticut e iam ter duzentos e cinqenta convidados.

        - Bem, os teus filhos no vo estar l, a no ser que faas algo para alterar a situao. Fiz tudo o que me era possvel.

        - Obriga-os! - disse Janet, completamente fora de si. Carrego eles em tribunal, se tiver de ser.

        -J tm idade suficiente para serem ouvidos em tribunal. Com catorze e dezesseis anos, j no so  bebs.

        - Esto a comportar-se como delinqentes juvenis.

        - No esto nada - defendeu-os Mark, calmamente.
- S esto magoados contigo. Acham que lhes mentiste acerca do Adam. E  verdade. Ele fez todos o possvel para lhes dar a entender que me deixaste por causa dele. 
Julgo que era o seu ego falando. Mas eles perceberam bastante bem.

        - O Adam no est habituado a lidar com crianas. Janet defendia-o, mas sabia que Mark tinha razo.

        - A honestidade  a melhor poltica. - Nunca mentira aos filhos, Janet tambm no, at conhecer Adam. Este embriagara-a completamente. E, agora, fazia tudo 
o que ele queria, levando-a a entrar em ruptura com os filhos. - No consigo ajudar-te, a menos que tambm faas alguma coisa para ajudar. Porque no vens c passar 
o fim-de-semana?

Por fim, acedeu. Instalou-se no Bel Air Hotel durante dois dias e Mark convenceu os filhos a ficarem com a me. As coisas ainda no estavam resolvidas no final da 
estada, mas as crianas concordaram em ir a Nova Iorque passar o resto do ms de Junho. Janet prometera no os obrigar a ir ao casamento se no quisessem. Estava 
certa de que logo que l estivessem, conseguiria convenc-los. Mas Jessica deixara bem claro que voltariam para Los Angeles, para a escola. Jason era da mesma opinio. 
A me sabia que no podia obrig-los a ficar, mas disse a Mark que eles teriam de ir passar pelo menos um fim-de-semana por ms em Nova Iorque. Ele concordou e prometeu 
tentar convenc-los. Achavam que fora uma vitria Janet ter acedido a que continuassem a viver com o pai. Mark era da mesma opinio. Na semana seguinte, quando partiram 
para Nova Iorque, o seu estado de esprito era muito melhor. Iam l passar quatro semanas. Logo que  partiram, Taryn mudou-se para a ala de hspedes. Ela e Jessica 
j eram grandes amigas. A jovem reagira de modo completamente diferente com Taryn do que reagira com Adam, e o mesmo acontecera com Jason. Mas Taryn fora sincera 
com eles e no acabara com o casamento dos pais, o que era uma vantagem.

Taryn nunca gostara dos filhos de ningum e estava espantada com a excelente relao que estabelecera com os de Mark. Achava-os respeitadores, afveis e engraados, 
e havia entre eles uma amizade recproca.

        - Se eles ficarem comigo permanentemente - disse Mark a Taryn, com ar pensativo, poucos dias depois de os filhos terem partido -, tenho de procurar casa. 
No posso ficar aqui eternamente. Temos de ter o nosso prprio espao.

No havia pressa, mas iria comear a procurar no Vero. E se a casa precisasse de obras de remodelao, poderiam ficar na ala de hspedes at Fevereiro.

Este assunto trouxe  baila a questo da relao entre os dois.

        - Que acharias da idia de ires viver conosco? - indagou Mark, num tom srio.

Cinco meses antes, ficara completamente destroado quando Janet o deixou. E, agora, descobrira esta mulher maravilhosa, que parecia ser no s a esposa, mas tambm 
a madrasta ideal para os filhos.

        -  uma idia interessante. - E, inclinando-se para ele, beijou-o. - Mas temos de conversar melhor sobre o assunto. - No tinha pressa de voltar a casar 
e Coop j lhe dissera que podia ficar com a ala de hspedes, se Mark sasse, ou com a casa do caseiro, se Jimmy sasse. - Tens de te certificar de que as crianas 
no se vo importar. No quero ser uma intrusa.

        - O Adam  que  um intruso, no tu, querida.

E esboou um sorriso triste. Pensou que seria altamente improvvel que os filhos fossem assistir ao casamento da me e no sabia se havia de censur-los ou no. 
Era um sapo difcil de engolir.

O tempo que Mark e Taryn passaram juntos durante a permanncia dos midos em Nova Iorque solidificou ainda mais a sua relao e fez amadurecer a idia de que tinham 
de resolver a situao a curto prazo.

As coisas estavam a desenvolver-se com tal rapidez que Taryn se viu obrigada a falar com o pai. Coop no foi apanhado de surpresa, mas ficou um pouco desapontado.

        - Adoraria ver-te com um homem mais excitante comentou, como se ela estivesse consigo desde pequena. Taryn conseguira estimular o seu instinto protetor. 
Em trs meses, conquistara no s o seu corao, como tambm a sua vida.

        - No quero um homem excitante, j o tenho - confidenciou-lhe. Era uma mulher sensvel. - Tenho um pai excitante, no preciso de um marido excitante. Quero 
uma pessoa calma, em quem possa confiar, e que seja estvel. O Mark tem todos esses atributos.  uma excelente pessoa.

Coop no podia negar, embora falar de Direito Fiscal o aborrecesse.

        - E os filhos? No te esqueas do horror gentico que lhes temos. Achas que vais conseguir viver com esses delinqentes juvenis?

Ainda no comentara com ningum, mas j os achava menos pestinhas e j os suportava um pouco mais. Mas dentro de determinados limites.

        - Gosto deles. No, mais do que isso. Acho que os adoro.

        - Oh, meu Deus, isso no! - E revirou os olhos, fingindo-se horrorizado. - Isso pode ser fatal. Pior do que isso
- acrescentou, tomando conscincia de outro pormenor. Os monstrinhos sero meus netos. Mato-os se disserem isso a algum. Nunca serei av de ningum. Podem tratar-me 
por Mister Winslow. - E riu-se.

Conversaram mais um pouco sobre o assunto. Ela e Mark j haviam falado em casar-se no Inverno seguinte. Ambos achavam que os garotos no poriam qualquer objeo 
ao casamento.

        - E a sua relao com Alex? - perguntou Taryn, depois de terem esgotado o assunto dos seus planos com Mark. Estava tudo a correr bem e, como  bvio, sentia-se 
feliz.

        - No sei - respondeu Coop, algo atrapalhado. - Os pais dela convidaram-na a ir a Newport, mas ela recusou. Acho que devia ir. Eu  que no. O pai no est 
muito entusiasmado com a relao. Imagino porqu. No sei, Taryn. Acho que no estou sendo justo com ela. Foi uma questo com que nunca me preocupei. Devo estar 
ficando senil.

        - Ou mais maduro.

J conhecia muitas das fraquezas do pai. Era muito diferente do pai com que crescera. Vivera num outro mundo toda a sua vida. Tudo girara sempre  sua volta. Por 
isso, no era de estranhar que no tivesse desenvolvido a personalidade nalgumas reas. Nunca fora obrigado a isso. Mas Alex fizera-o olhar para coisas s quais 
nunca prestara ateno e desafiando todo o seu sistema de crenas e valores. Taryn tambm contribura para isso. E, gostasse ou no, Coop era outro homem.

Nessa tarde, ainda a pensar no assunto, foi sozinho at  piscina dar um mergulho. Taryn e Mark haviam sado, e Alex, como de costume, estava no hospital. Jimmy 
j viera para casa dias antes e continuava de cama, na companhia da me. Coop estava satisfeito por ter algum tempo para si, para pensar calmamente, e ficou espantado 
quando deu de caras com Valerie a nadar descontraidamente. Tinha o cabelo amarrado no alto da cabea, usava pouca ou nenhuma maquiagem e envergava um traje de banho 
preto liso, que realava a sua silhueta jovem. No podia negar que se tratava de uma mulher bonita. Era de trato fcil, sensvel e tinha uma viso pragmtica da 
vida.

        - Ol, Coop! - cumprimentou Valerie, com um sorriso, enquanto o velho ator se sentava numa das cadeiras de lona. Resolvera no tomar banho. Preferia ficar 
a observ-la. Tinha demasiadas preocupaes. Alex. E Charlene s faria o teste de DNA da a algumas semanas. Esse era outro problema.

        - Boa tarde, Valerie. Como est o Jimmy? - perguntou, delicadamente.

        - Est bom. Chateado, por ainda no conseguir andar. Est dormindo.  difcil andar a ampar-lo com aquelas muletas. - Alm disso, Jimmy era muito pesado 
para ela.

        - Devia arranjar-lhe uma enfermeira. No pode fazer todo esse esforo sozinha.

        - Gosto de tratar dele. H muito tempo que no tinha oportunidade de o fazer. E , provavelmente, a minha ltima oportunidade.

Coop apercebeu-se, ento, da sua falta de tato. Provavelmente no tinha meios para contratar uma enfermeira. Embora tivesse estilo, no deveria ser muito endinheirada. 
A nica prova em contrrio era o aluguel alto que Jimmy pagava, mas esse dinheiro tambm podia provir do seguro de vida de Maggie e, mais cedo ou mais tarde, tambm 
se esgotaria. Mas, fosse como fosse, Valerie O'Connor era uma mulher muito distinta.

        - A Alex est no hospital? - perguntou Valerie, quando saiu da piscina e  veio sentar ao lado dele. No ia demorar-se muito tempo. No queria aborrec-lo. 
Achou-o pensativo.

        - Claro. Trabalha que nem uma escrava, mas gosta daquilo que faz. - E,  sua maneira, admirava-a por isso. Ela no precisava do trabalho para nada, o que 
tornava a sua atitude ainda mais nobre, ou mais estpida, dependendo da perspectiva com que se encarasse o fato.

        - Ontem vi um dos seus filmes antigos. - E disse-lhe qual. Vira-o no meio da noite, quando tratava de Jimmy. -

Voc  um excelente ator, Coop. - Ficara surpresa.

        -  um excelente filme. - O oposto do tipo de trabalhos em que ele agora entrava. - Voc era um ator muito sbrio e ainda poderia s-lo.

        - Estou muito preguioso. E velho. Fazer um filme desses exige muito esforo. J estou acomodado.

        - Talvez no. - Valerie parecia ter mais f em Coop do que ele prprio. Ficara espantada com a excelncia do filme. Nunca o vira, nem ouvira falar nele. 
Coop deveria ter uns cinqenta anos quando o rodou e estava deslumbrante.

        - Gosta do seu trabalho, Coop?

        -J gostei mais. As coisas que fao atualmente no so muito motivantes. - Em todos os nveis. O que interessava agora era arranjar dinheiro o mais rapidamente 
possvel e com pouco esforo. - Continuo  espera de um papel importante. Mas h muito tempo que isso no acontece. - Parecia triste e desmotivado.

        - Talvez se surpreenda a si prprio, se fizer um esforo. O mundo merece v-lo de novo num grande filme. Gostei bastante do que vi.

        - Folgo muito que tenha gostado. - Coop sorriu e ficaram em silncio por instantes, enquanto ele pensava no que Valerie dissera. Sabia que havia alguma verdade 
nisso. Lamento o que aconteceu ao seu filho. Deve ter sido um pesadelo. - Pela primeira vez, ao olhar para Valerie, viu a me devotada que se escondia por detrs 
daquela figurinha frgil.

        - E foi. Ele  tudo o que tenho. A vida, para mim, deixaria de ter sentido se o tivesse perdido.

Devido  relao que mantinha com Taryn, Cooper conseguia imaginar a angstia que seria se a perdesse. Era o seu primeiro sinal de compaixo desde o acidente de 
Jimmy, e Valerie sentia isso mesmo e estava-lhe grata.

        - H quanto tempo  que enviuvou?

        - H dez anos. Parece uma eternidade. - Estava em paz consigo prpria, apesar dos rudes golpes que sofrera na vida. Coop achava que ela tinha uma enorme 
fora interior. E no se enganava. - J estou habituada.

        - Alguma vez pensou em voltar a casar?

Era uma conversa estranha aquela que estavam tendo debaixo das rvores, junto  piscina, num dia quente de Junho, a pensar na vida e naquilo que representava para 
eles. Valerie tinha idade suficiente para entender o modo como ele via as coisas, mas no era ainda to velha que tivesse perdido o gosto pela vida, e por todos 
os prazeres que ela proporcionava. Estava gostando de falar com Valerie. E, por muito surpreendente que parecesse, achava-a jovem. Tinha menos dezessete anos do 
que ele. Em oposio aos quarenta que o separavam de Alex.

        - Nunca pensei nisso. Nem me preocupei em andar  procura. Sempre achei que, se houvesse outro homem que me pudesse interessar, ele encontrar-me-ia. E, at 
agora, isso no aconteceu. Mas no me importo. J tive um homem bom. No preciso de outro.

        - Talvez algum a surpreenda, mais cedo ou mais tarde.

        - Talvez. - Tanto se lhe dava que aparecesse ou no um homem que lhe pudesse interessar. Coop achava engraado esse modo de encarar as coisas. Detestava 
o desespero. Voc tem muito mais energia para essas coisas do que eu. E sorriu, pensando que, se seguisse o exemplo dele, andaria a namorar com Jason. Mas no fez 
qualquer comentrio.

        - Que vai fazer logo  noite?

Com Alex no hospital, Coop estava desocupado. Era-lhe difcil, s vezes, ser fiel a apenas uma mulher, principalmente a uma mulher que estava sempre a trabalhar. 
No passado, andava com vrias ao mesmo tempo, de modo a nunca ter de passar noites s, como acontecia agora. E sentir-se-ia ainda mais s se no tivesse Taryn. Fora 
uma ddiva divina.

        - O jantar para o Jimmy. No quer vir jantar conosco? Estou certa de que o Jimmy gostaria muito de v-lo.

J fora visit-lo uma vez, mas pouco se demorara, porque, como viria a confidenciar a Alex mais tarde, detestava quartos de doentes.

        - Posso encomendar o jantar no Spago, se quiser - sugeriu, subitamente grato pelo convite. Gostava dela e apreciava a amizade que estava a surgir entre os 
dois. Era quase como uma irm para ele.

        - Fao melhor massa do que eles - disse Valerie, orgulhosa, e soltou uma gargalhada.


- No vou dizer ao Wolfgang que voc disse isso, mas gostaria de experimentar.

Nessa noite, quando Coop apareceu para jantar, Jimmy ficou surpreso. A me esquecera-se de lhe dizer que convidara Coop para jantar. Ao princpio, Jimmy sentiu algum 
desconforto. Passara muito tempo com Alex, quando ela o visitava, e contara-lhe todos os seus segredos, assim como ela lhe contara muitos dos seus. No sabia muito 
bem se estaria com cimes dele. Mas Coop parecia muito mais interessado em conversar com a sua me, tendo elogiado prontamente a qualidade da massa que ela preparara.

        - Devia abrir um restaurante. Talvez devssemos transformar o Chal num hotel.

Abe voltara a avis-lo de que, se no fizesse um corte nas despesas, teria de o vender. E ao contrrio do que o contabilista pensava, Coop no via Alex como a soluo 
ideal.

Aps o jantar, Jimmy foi para a cama. Depois de o ajudar a deitar, Valerie sentou-se com Coop e falaram, durante horas, de Boston, da Europa, dos filmes que ele 
fizera, das pessoas que conhecia, e ficaram ambos espantados ao descobrirem o nmero de amigos que tinham em comum. Valerie dizia que levava uma vida calma, mas 
Coop ficou surpreendido ao saber que ela conhecia algumas pessoas bem aceleradas. Do marido, apenas disse que fora banqueiro, mas no desenvolveu o assunto e ele 
tambm no insistiu. Gostava da sua companhia. E ficaram espantados ao ver que eram duas da manh quando Coop voltou para casa. Passara uma noite maravilhosa com 
Valerie.

Alex telefonara-lhe vrias vezes nessa noite e ficara admirada por ele no estar em casa. Coop no lhe dissera nada a respeito do jantar. Alex achava-o algo intranqilo 
e no sabia o que fazer para alterar esse estado de esprito. Nunca lhe passou pela cabea telefonar-lhe as duas da manh, nem que ele poderia ter ido jantar com 
os O'Connor. Mas, ao fim de cinco meses de relao, esperava tudo dele.

Nessa noite, Coop ficou acordado durante muito tempo a matutar naquilo que conversara com Valerie. Tinha muitas coisas em que pensar e algumas decises a tomar. 
Finalmente, adormeceu, passando o resto da noite a sonhar com Charlene e o beb.


CAPTULO 22

Depois do jantar com Jimmy e Valerie, as coisas ficaram consideravelmente piores para Coop. No dia seguinte, teve uma reunio com Abe, que lhe disse que, se ele 
no conseguisse alterar a situao dentro de trs meses, teria de vender o Chal.

- Tem os impostos em atraso, deve nas lojas e nos hotis, tem de pagar oitenta mil dlares ao alfaiate em Londres. Deve a joalheiros, deve a quase toda a gente do 
planeta. E, se no pagar o que deve de IRS at ao fim do ano, j para no falar nos cartes de crdito, confiscam-lhe a propriedade. As coisas estavam ainda mais 
negras do que pensara e, contra o que era costume, deu-lhe ouvidos. - Acho que deve casar com Alex.

Mas Coop ficou ofendido com a sugesto.

- A minha vida amorosa no tem nada a ver com os meus problemas financeiros, Abe.

O contabilista achava estes escrpulos uma estupidez. Era uma oportunidade de ouro que Coop tinha  sua frente. Porque no tirar partido disso? Casar com Alex seria 
o golpe de sorte de que ele precisava desesperadamente.

Uma noite, Alex chegou a casa, exausta, depois de trs dias seguidos no hospital. Estivera a substituir dois colegas e tivera uma srie de situaes de urgncia: 
bebs em situaes crticas, mes histricas, um pai que ameaara um mdico com uma arma quando o filho morreu inesperadamente. Mark e Taryn haviam ido passar dois 
dias fora. A nica coisa que Alex queria era tomar um banho e ir dormir ao lado de Coop. Nem sequer tivera energia suficiente para lhe descrever tudo aquilo por 
que passara.

- Correu mal o dia?

Alex limitou-se a abanar a cabea, prestes a rebentar em choro devido ao cansao. Sentia vontade de ir ver Jimmy, mas as foras faltavam-lhe. Prometera l ir de 
manh. Jimmy j estava farto de estar em casa. Alex telefonava-lhe o mais que podia, mas nos ltimos dois dias, nem tempo para isso tivera. Tinha a sensao de ter 
estado refm noutro planeta.

- Trs dias pssimos - explicou Alex, enquanto Coop se oferecia para fazer o jantar. - Nem foras teria para mastigar. S quero tomar um banho e, depois, ir para 
a cama. Desculpa. Amanh j estarei boa.

Mas, de manh, Coop estava estranhamente calado. Sentou-se, com olhar ausente,  mesa do pequeno-almoo. Alex preparou-lhe bacon com ovos e suco de laranja. Quando 
acabou de comer, olhou para ela com uma expresso triste.

- Ests triste? - Alex sentia-se melhor depois do sono reparador e do pequeno-almoo. Como era mais nova do que ele, recuperava rapidamente.

- Tenho uma coisa para te dizer - anunciou Coop, com ar angustiado.

- H algum problema? - Alex no sabia porqu, mas tinha a sensao de que a relao estava a esmorecer.

- Alex... h coisas que no sabes de mim. Coisas que no te quis dizer. Nem a mim quis dizer. - E esboou um sorriso triste. - Estou endividado at  ponta dos cabelos. 
Acho que sou um pouco como o filho prdigo e tenho gasto tudo numa "vida de pecado". O problema  que, ao contrrio dele, no posso voltar para casa do meu pai. 
J morreu h muito e no tinha dinheiro. Perdeu tudo na Grande Depresso. Estou com a corda na garganta, como se costuma dizer. Se no pagar os impostos e as dvidas, 
vou ter de arcar com as conseqncias um destes dias. E posso at ter de vender o Chal.

Alex ainda pensou, por instantes, que ele ia pedir-lhe dinheiro emprestado. No teria ficado aborrecida se o tivesse feito. Tinham confiana suficiente um com o 
outro para ser franco. Preferia isso a segredos entre eles, mesmo que a verdade fosse desagradvel. Sabia da difcil situao financeira de Coop pela boca do pai.

        - Lamento, Coop. Mas no  o fim do mundo. H coisas piores. - Como a morte, a doena, o cancro, e aquilo que acontecera a Maggie.

        - Para mim, no. O meu estilo de vida  importante ao ponto de ter chegado a vender a alma de vez em quando, fazendo maus filmes, ou gastando o dinheiro 
que no tinha, de modo a continuar a viver da maneira que queria e que achava que merecia. No  algo de que me orgulhe, mas fiz.

Coop falava srio da situao. Sabia que tinha de faz-lo. Era a voz da conscincia a falar.

        - Queres que te ajude?

Alex olhou-o com ar apaixonado. Sentia um grande amor por ele, independentemente de querer ou no ter filhos. J resolvera fazer esse sacrifcio por ele, se fosse 
esse o seu desejo. Achava que Coop merecia todos os sacrifcios.

Mas ficou perplexa com a resposta do velho ator.

        - No.  por isso que estou a falar contigo. Casar contigo seria o caminho mais fcil para resolver a situao. E, a longo prazo, o mais difcil. Se casasse 
contigo, nunca teria a certeza da razo por que o teria feito. Se por ti, se pelo dinheiro.

        - Talvez no tenhas de saber. Essas coisas vm todas misturadas, como se tratasse de um pacote. No precisas fazer opes.

        - Para ser sincero, no sei sequer se te amo. Pelo menos, o suficiente para nos casarmos. Adoro estar contigo, s uma mulher divertida. Nunca conheci ningum 
como tu. Mas s uma soluo para mim. A resposta a todas as minhas preces e problemas. E depois? Todos achariam que me comportara como um gigol e, teriam razo. 
E tu tambm acabarias por achar. E do teu pai nem se fala. At o meu contabilista acha que devo casar contigo. Seria muito mais fcil do que esfalfar-me a trabalhar 
para pagar os impostos. Mas no  essa pessoa que quero ser. E talvez te ame, porque me preocupo contigo o suficiente para te dizer que no  comigo que quero que 
cases.

        - Ests  falando srio? - Alex estava horrorizada. O que  que me vais dizer a seguir? -J suspeitava, mas no queria ouvir.

        - Sou demasiado velho para ti. Tenho idade suficiente para ser teu av. No quero filhos. Nem teus, nem da Charlene, nem de ningum. J tenho uma filha, 
graas a Deus.  adulta e uma jia de pessoa, e nunca fiz nada por ela. Sou um velho pobre e cansado, e tu s jovem e muito rica. Temos de acabar com isto.

Alex ficou com o pequeno-almoo como que colado  garganta.

        - Porqu? Nem sequer te estou a pedir para casares comigo. No preciso de me casar, Coop. E ao dizeres que sou muito rica,  discriminao.

Sorriu com a resposta de Alex, mas havia lgrimas nos seus olhos, e nos dele tambm. Detestava fazer isto, mas tinha de ser.

        - Deves casar e ter filhos. Montes deles. Dars uma me sensacional. Alm disso, a qualquer momento, aquela cabra da Charlene vai transformar a minha vida 
num atoleiro. Nada posso fazer, mas, pelo menos, posso poupar-te ao embarao de tambm o atravessares. No posso fazer isso. No vou deixar que resolvas os meus 
problemas financeiros. Estou falando srio. Se casar contigo, nunca saberei porque o fiz. Para ser sincero, o mais provvel  que seja pelo dinheiro. Se no tivesse 
estes problemas, talvez nem me passasse pela cabea casar. Divertir-me-ia apenas.

Nunca fora to sincero com ningum, mas sentia que lhe devia isso.

        - No me amas?

Alex sentia-se uma garotinha que acabara de ser expulsa do orfanato. Coop rejeitara-a. Tal como os pais. E Crter. Ao olhar para o velho ator, tinha a sensao de 
que o mundo desabara sobre si.

        - Para ser franco, no sei. Nem sequer sei o que  o amor. Mas seja o que for, no deve acontecer entre uma jovem da tua idade e um homem da minha. No  
natural e no est certo. No  a ordem correta das coisas. E casar contigo por aquilo que podes fazer por mim no melhora nada. Pela primeira vez na vida, quero 
ter alguma dignidade, e no fingir que a tenho. Quero fazer aquilo que for mais correto, para os dois. E o correto neste caso  libertar-te e organizar a minha vida, 
custe o que custar. - Fora muito difcil para Coop dizer tudo aquilo a Alex, que estava completamente destroada. S tinha vontade de a envolver nos braos e de 
lhe dizer que a amava (porque era isso mesmo que sentia), o suficiente para no lhe estragar a vida casando com ela. - Acho que devias ir para casa, Alex - sugeriu, 
num tom triste. -  uma situao difcil para os dois. Mas, acredita,  a coisa mais acertada a fazer.

Alex chorava convulsivamente. Pouco depois, foi at ao quarto e fez as malas. Quando desceu, Coop encontrava-se na biblioteca, com ar mrbido. Detestava o que estava 
a fazer, mas sabia que era esse o seu dever.

        - A conscincia  uma coisa terrvel, no ?

        - Amo-te! - sussurrou Alex, de olhos fixos em Coop,  espera que ele mudasse de idia e lhe pedisse para ficar. Mas este no o fez. No podia.

        - Tambm te amo, pequerrucha... tem cuidado contigo respondeu, no esboando qualquer movimento na sua direo.

Alex fez que sim com a cabea e saiu. Sentia que a vida de princesa dos contos de fadas acabara. Estava a ser expulsa de casa e lanada nas trevas e na solido. 
No conseguia entender por que motivo ele fizera isto. No conseguia deixar de pensar se no haveria outra pessoa. E havia: Coop. Encontrara-se a si prprio. Descobrira 
a pea que sempre lhe faltara. A pea que sempre receara encontrar.

Ao transpor o porto, lavada em lgrimas, Alex sabia, sem qualquer sombra de dvida, que o seu coche se transformara em abbora. Mas ela fora sempre a mesma pessoa. 
Coop  que, finalmente, se transformara num prncipe. De carne e osso.
CAPTULO 23

Jimmy no conseguia perceber por que razo Alex no dava sinal de vida h j algum tempo. Nem telefonara nem viera visit-lo. E Valerie disse que no a vira na piscina 
durante toda a semana. Tambm no vira Coop. Quando, finalmente, o encontrou, o velho ator estava com um ar triste e abatido. Valerie ainda hesitou em falar-lhe.

S ao fim de algum tempo  que ele lhe perguntou como estava Jimmy.

        - Est melhor. Passa a vida a queixar-se. Est a ficar farto de mim. Far-lhe- bem quando puder andar por a de muletas.

Coop limitou-se a fazer que sim com a cabea. Valerie perguntou-lhe, ento, por Alex. Seguiu-se um silncio interminvel. E, quando Coop olhou para ela, Valerie 
viu no seu olhar algo que nunca vira antes. Parecia infelicssimo, o que no era normal nele. Sempre conseguira dissimular aquilo que sentia. Fora brilhante nisso. 
Mas esse tempo acabara. J no era um deus, era um mortal. E os mortais sofrem. s vezes, muito.

        - Deixamo-nos - disse, triste, enquanto Valerie secava o cabelo com uma toalha.

        - Lamento muito. - No se atreveu a perguntar o que acontecera.

Coop j contara a Taryn, que almoara com Alex e constatara o estado de profunda tristeza em que ela se encontrava mergulhada. Tinha pena de ambos, mas achava que 
o pai tomara a deciso mais acertada. Alex levaria algum tempo a ver isso. Coop sentiu-se muito melhor quando a filha lhe disse. Precisava do seu apoio.

        - Tambm lamento. Acabar com ela foi como acabar com as minhas ltimas iluses. Foi melhor assim.

No lhe falou nas dvidas, nem no fato de no casar com Alex por causa do dinheiro. Nessa noite, Coop teve imensas saudades dela. E no sentiu o mnimo desejo de 
ir a correr  procura de outra mulher, de preferncia jovem, fato que ocorria pela primeira vez.

        --  uma treta sermos pessoas maduras, no ? Eu detesto.

        - Tambm eu - retorquiu Cooper, com um sorriso. Era uma mulher impecvel. Tal como Alex. E fora por isso que se recusara a valer-se dela. Talvez pela primeira 
vez na vida tivesse estado apaixonado.

        - Quer jantar conosco?

Coop fez que no com a cabea. Pela primeira vez na vida, no queria ver ningum. No lhe apetecia falar nem brincar.

        - Voc e o Jimmy podem carpir as vossas mgoas - insistiu Valerie.

        - Estou quase tentado - replicou Coop a rir. - Talvez daqui a dias.

Ou da a anos. Ou a sculos. Estava surpreso com as saudades que sentia. Alex tornara-se um hbito delicioso. Com o tempo, t-la-ia sufocado, ou mesmo magoado, e 
isso era algo que nunca lhe faria.

Durante alguns dias, Valerie no disse nada a Jimmy, mas, quando este comeou a impacientar-se com o silncio de Alex, teve de contar-lhe.

        - Acho que anda mal do corao.

        - Que quer dizer com isso? - resmungou Jimmy. Estava farto da cadeira de rodas e do gesso nas pernas.

E estava zangado com Alex. Esquecera-se completamente dele.

        - Acho que ela e o Coop se deixaram. Alis, tenho a certeza. H dias, vi-o na piscina, e ele contou-me. Acho que esto os dois chateados com o fato. Deve 
ser por isso que ela ainda no te disse nada.

Jimmy ficou em silncio. Depois de matutar sobre o assunto durante uns dias, telefonou para o hospital, mas disseram-lhe que Alex estava de folga. E no tinha o 
nmero de casa. Enviou-lhe uma mensagem para o bipe, mas ela no respondeu. S ao fim de uma semana a apanhou no hospital.

        - O que  que se passa contigo? Morreste ou qu?

Jimmy andara a rabujar com a me durante toda a manh. Estava cheio de saudades de conversar com Alex. Fora a nica pessoa a quem abrira o corao.

        - Sim, morri... mais ou menos... tenho tido muito trabalho.

A voz saiu embargada. H duas semanas que no fazia outra coisa seno chorar.

        -J sei - retorquiu Jimmy, num tom afvel, percebendo que Alex se encontrava mergulhada numa profunda amargura. - A minha me contou-me o que aconteceu.

        - Como  que ela sabe? - Parecia perplexa.

        - Acho que Coop lhe contou. Encontraram-se na piscina, uma coisa do gnero. Lamento, Alex. Imagino que estejas na fossa.

Achava que fora o melhor que ele fizera, mas no lho queria dizer, para no a aborrecer mais.

        - E estou.  muito complicado. Ele teve uma crise de conscincia.

        -  bom saber que ele tambm tem conscincia. Jimmy nunca morrera de amores por Coop. Especialmente depois de ter magoado Alex. Mas a dor era inevitvel 
nessas situaes. - Vo-me tirar boa parte do gesso na prxima semana. Posso ver-te nessa altura?

        - Claro. Adoraria.

No queria ir v-lo em casa e arriscar-se a dar de caras com Coop. Seria doloroso para ela e talvez at para ele.

        - Posso telefonar-te de vez em quando? No sei como entrar em contacto contigo. Andas sempre atarefada a trabalhar, e no tenho o teu nmero de casa.

        - No tenho telefone em casa. Durmo em cima de uma pilha de roupa suja.

        - Isso  algo que me seduz.

        - Oh, merda, Jimmy! Sinto-me na fossa. Ele tem razo, mas acho que o amava. Diz que  muito velho para mim e que no quer ter filhos. E... tem uma srie 
de problemas e no quer que eu os resolva. Acho que estava a ter uma atitude nobre. Que ida estpida!

        - Acho que ele teve um ato de grande dignidade ao fazer aquilo que devia fazer. Ele tem razo.  demasiado velho para ti. Deves ter filhos. Quando tiveres 
cinqenta anos, ele ter noventa.

        - Talvez isso no importe.

Alex continuava a sentir imensas saudades. Nunca conhecera ningum como Coop.

        - Talvez importe. No queres ter filhos? E, mesmo que o convencesses a ter filhos, ele nunca participaria na educao deles.

Alex sabia que Jimmy tinha razo. Quando ele teve o acidente, Coop demitira-se da obrigao de o ir ver ao hospital, com a desculpa de que era uma coisa "desagradvel". 
Ela precisava de um homem que estivesse disposto a fazer tanto as coisas "desagradveis" como as "agradveis". Coop nunca seria esse homem. Alex no gostara dessa 
sua faceta.

        - No sei. Sinto-me na merda.

Era uma sensao boa poder desabafar novamente com Jimmy. Tivera saudades da sua amizade. A nica pessoa com quem falara desde que se separara de Coop fora com Taryn, 
que se mostrara compreensiva, mas tambm achara que a deciso de Cooper fora a mais acertada.

        - Provavelmente, vais andar uns tempos na merda. Sabia bastante bem o que isso era. Fora como se sentira desde a morte de Maggie. Porm, sentia-se muito 
melhor desde o acidente. Fora uma espcie de epifnia para si. - Quando tirar o gesso, levo-te a jantar fora e ao cinema.

        - Sou uma pssima companhia.

        - Tambm eu. Tenho passado a vida a chatear a cabea  minha me. Nem sei como  que ela me consegue aturar.

        - Acho que ela te ama.

Ambos sabiam que Valerie o adorava.

Jimmy prometeu telefonar-lhe no dia seguinte. Quando o fez, Alex sentia-se muito melhor. Continuou a telefonar-lhe todos os dias, at lhe tirarem o gesso. Nesse 
dia, levou-a a jantar fora. Valerie  que conduziu e ficou aliviada ao ver que Alex se encontrava com melhor disposio. A separao fora dolorosa, mas tambm a 
coisa mais acertada que Alex e Coop poderiam ter feito. Coop andava a rodar uma srie de anncios, o que o distraa. E, de momento, estava preocupado com o teste 
de DNA de Charlene. A ltima coisa de que precisava era de um filho para sustentar, j para no falar de Charlene, com quem continuava furioso.

        -Juro - dissera a Valerie, no dia anterior. - No volto a sair com mais nenhuma mulher. - Espumava de raiva.

        - Porque ser que no acredito em ti? Mesmo que tivesses noventa e oito anos e te encontrasses no leito de morte, no teria acreditado numa afirmao dessas. 
Toda a tua vida girou em torno de mulheres.

Nas ltimas semanas, haviam-se tornado amigos, e Coop falava com toda a franqueza com Valerie, e ela com ele.

        -  verdade. Mas, na maior parte das vezes, as mulheres erradas. A Alex no era uma mulher errada e, se nunca tivesse sabido do dinheiro, as coisas teriam 
sido diferentes. Soube disso desde o primeiro momento em que a conheci. Foi sempre um fator que influenciou os meus sentimentos por ela. Nunca consegui separar os 
dois elementos: aquilo que sentia e aquilo que precisava dela. Era tudo muito confuso.

Analisara a questo milhares de vezes, mas acabava sempre confuso. Por fim, chegara  concluso de que tomara a deciso mais acertada.

        - Continuo a achar que fizeste bem, Coop. Embora compreendesse, se tivesses casado com ela.  uma pessoa muito especial e ama-te.

Mas Valerie sempre esperara que isso no viesse a acontecer. Para bem de Alex.

        - Tambm a amo. Mas a verdade  que no queria casar com ela. Nem ter filhos. E senti que tinha de casar com ela, porque precisava do dinheiro. Era isso 
que o meu contabilista queria que eu fizesse.

        - O que  que vais fazer agora, para resolver esses problemas?

        - Fazer um grande filme, ou uma srie de anncios muito maus.

J dissera ao agente que estava disposto a aceitar papis muito diferentes daqueles que representara at a. Poderia fazer de idoso ou de pai. J no esperava desempenhar 
o papel de ator principal. O agente ficara mudo de espanto. Mas sempre alimentara mais esperanas do que o prprio Coop na ltima dcada.

No dia 1 de Julho, tanto Coop como Alex j davam sinais de ter ultrapassado a mgoa em que haviam estado mergulhados desde a separao. Valerie levara Jimmy a visitar 
Alex ao hospital vrias vezes. E, num fim-de-semana em que Coop no se encontrava em casa, Alex viera jantar com Mark e Taryn. As crianas s voltariam depois do 
4 de Julho. Haviam, finalmente, concordado em ir ao casamento da me. Continuavam a dizer que Adam era um cara-de-cu, mas fariam esse sacrifcio pela me, para orgulho 
de Mark.

        - Vamos casar-nos - anunciou Mark, olhando orgulhoso para Taryn.

Sentiam-se envergonhados, mas era fcil ver que estavam ambos excitados e apaixonados.

        - Parabns! - disse Alex, sentindo um aperto no corao. Continuava com saudades de Coop e do tempo que haviam passado juntos. Nunca esperara que as coisas 
acabassem to rapidamente e ainda sentia uma mgoa profunda.

Jimmy coxeava pela sala, agarrado s muletas, e a me tentava convenc-lo a ir para a sua casa em Cape Cod, no final do Vero.

        - No posso abandonar o trabalho. Mais cedo ou mais tarde, tenho de voltar.

Prometera regressar ao trabalho na semana seguinte. De muletas, no poderia fazer visitas domiciliares. Mas, pelo menos, poderia fazer atendimento no seu gabinete. 
Valerie o levaria. Estava pensando em ficar at ele poder andar pelos seus prprios meios e dirigirr.

        - Sinto-me um menino, com a minha me a ter de me levar a todo o lado, inclusive ao banheiro- confessou a Alex.

        - Agradece a Deus por teres uma me como ela - repreendeu-o Alex.

Nessa noite, ao regressar a casa, Alex perguntou a si prpria o que Coop estaria a fazer. Sabia que fora passar dois dias na Florida, fazer um anncio num barco 
 vela. Mas no lhe telefonara. Coop achava melhor no falarem durante uns tempos, embora esperasse que ficassem amigos. De momento, essa no era uma perspectiva 
muito animadora. Continuava apaixonada pelo velho ator.

Os filhos de Mark voltaram para casa aps o 4 de Julho. Trs dias depois, Alex viu no calendrio que chegara o dia do teste de DNA de Charlene. O resultado saber-se-ia 
dentro de dez dias. Tinha curiosidade em ver o que iria acontecer. 

Duas semanas depois, Coop telefonou-lhe. Estava eufrico e queria partilhar a novidade com Alex. Mal soube do resultado, pegou no telefone e ligou-lhe.

        - No  meu! - exclamou, exuberante, depois de lhe perguntar como estava. - Telefonei-te porque pensei que gostasses de saber. No  maravilhoso? Safei-me 
desta cilada.

        - De quem ? Sabes?

Alex estava feliz por ele, embora sentisse um aperto no corao ao ouvi-lo.

        - No, estou furioso. S me interessa saber que no  meu. Nunca senti um alvio to grande na vida. Sou demasiado velho para ter filhos, legtimos ou ilegtimos.

Coop queria recordar-lhe que no era o homem certo para ela, para o caso de Alex ainda alimentar esperanas de reconciliao. Tambm sentia saudades dela, mas, a 
cada dia que passava, mais se convencia de que fora a melhor coisa que poderia ter feito. E cada vez estava mais desejoso de que ela arranjasse um homem que quisesse 
ter filhos.

        - Aposto que a Charlene est desapontada - comentou Alex, pensativa, ainda a digerir o que ele acabara de dizer. Sabia que era um tremendo alvio para Coop, 
depois dos meses de autntica tortura por que passara.

        - Provavelmente, vai dar um tiro na cabea. O pai  capaz de ser empregado numa estao de servio, como tal, o sonho da penso e de um apartamento em Bel 
Air vai por gua abaixo.

E riram-se. H muitos meses que Coop no se mostrava to descontrado. Na semana seguinte, na primeira pgina dos tablides surgiu a manchete: COOP WINSLOW NO  
PAI DA CRIANA! Alex sabia que era obra do agente dele. Coop vingara-se. Estava inocente e completamente livre. Mas ainda com dvidas e Alex na expectativa. Tornara, 
no entanto, a deixar claro que no voltaria para ela, para bem de ambos. J no lhe parecia correto andar com uma mulher quarenta anos mais nova do que ele. Os tempos 
haviam mudado. Tal como Copp.

        - Tens toda a razo - anuiu Alex, quando Jimmy a censurou por trabalhar mais do que era hbito: no voltara a v-la. - Mas ainda sinto a falta dele. No 
h muitas pessoas como Coop.

        - Talvez seja essa a soluo para trabalhares menos. Jimmy recomeara a trabalhar e h muito tempo que no se sentia to bem. Dormia lindamente e dizia que 
estava a engordar por causa dos cozinhados da me. Tinha ainda mais um ms de fisioterapia  sua frente e s depois  que poria as muletas de lado. De vez em quando, 
levava Alex a jantar fora ou ao cinema, sempre com a me a servir de motorista. Mas andava muito mais bem-disposto e,  medida que o tempo ia passando, o mesmo acontecia 
com Alex. Parecia a mesma de h meses atrs e adorava estar com ele. As feridas emocionais comeavam a sarar. Maggie morrera h j seis meses e Coop acabara com 
Alex h um.

        - Acho que devias comear a andar com algum - disse Jimmy a Alex, uma noite, durante um jantar, num restaurante chins. Apanhara, pela primeira vez, um 
txi. A me fora jantar fora e no queria abusar da sua boa vontade. Alex prontificara-se a lev-lo a casa.

        - A srio? E quem  que te nomeou guardio da minha vida amorosa?

        -  para isso que os amigos servem. s muito nova para andares a carpir mgoas por um tipo com quem andaste quatro ou cinco meses. Tens de te abrir outra 
vez ao mundo e comear de novo.

Parecia um pai a falar. Passavam bons momentos juntos e no havia um nico assunto entre eles que fosse sagrado. Alex era franca com ele, tal como ele com ela. A 
amizade que partilhavam tinha um grande significado para ambos.

        - Bem... obrigada, doutor Estranho Amor. Mas ainda no estou preparada.

        - No me venhas com histrias. s uma freira.

        - No sou nada. Est bem, sou - emendou. - E, alm disso, ando com muito trabalho. No tenho tempo para namoricos. Sou mdica.

        - Mas tambm eras mdica quando andavas com Coop. Qual  a diferena?

        - Eu. Ainda me sinto magoada.

Mas o olhar irradiava felicidade. Ainda no encontrara ningum com quem desejasse namorar, e Coop era difcil de substituir. Fora maravilhoso para ela, apesar de 
no se tratar do homem da sua vida.

        - No creio que estejas magoada. Ests mas  com preguia e com medo.

        - E tu?

        - Estou aterrorizado.  uma situao diferente. Alm disso, estou de luto - retorquiu Jimmy, num tom srio. Mas no estava to destroado, nem de perto nem 
de longe, como quando se conheceram. Estava muito mais animado. Mas, dentro de algum tempo, tambm comearei a sair com algum. Eu e a minha me temos falado muito 
no assunto. Ela passou pelo mesmo quando o meu pai morreu, e diz que cometeu um grande erro no voltando a andar com ningum. Acho que est arrependida.

        - A tua me  uma mulher muito bonita - elogiou Alex. Tinha um grande afeto por ela e achava que Jimmy era um homem de sorte por ter uma me assim.

        - Sim, eu sei. Acho que se sente muito s. E adora estar aqui comigo. J lhe disse que devia mudar-se para c.

        - Acreditas que ela venha?

        - Para ser sincero, no. Gosta de Boston. Sente-se bem l. E adora a casa de Cape Cod. Geralmente, passa l o Vero. Logo que eu deixe de andar com as muletas, 
vai para l. J deve estar ansiosa. Quando l est, adora andar de um lado para o outro, a pr as coisas no lugar.

        - Gostas de l ?

        - s vezes.

Havia l muitas coisas que lhe traziam Maggie  memria. Resolvera l ir no Vero do ano seguinte. Nessa altura, sentir-se-ia muito melhor, do ponto de vista psicolgico, 
para enfrentar todas essas recordaes. E a me compreendia. Sempre fora uma pessoa muito compreensiva para com ele. Especialmente agora. Estava grata por ele estar 
vivo.

        - Detesto a nossa casa de Newport. Parece a casa de Coop, s que maior. Sempre achei uma estupidez t-la para casa de praia. Quando era pequena, queria ter 
uma casa simples, como as outras crianas. Sempre tive tudo aquilo que era maior, melhor e mais caro. Era embaraoso.

E a casa de Palm Beach era ainda maior, e tambm a detestava.

        - E ficaste traumatizada - gracejou Jimmy, enquanto bebia o ch. Alex j parara de comer, estava cheia. Pareciam dois midos a entrar um com o outro. - Agora 
j percebo porque nunca andas com roupas decentes. No deves ter um par de calas jeans que no esteja desbotado. Andas com um carro que parece ter sido comprado 
num ferro-velho e, por aquilo que me contas, o teu apartamento mais parece uma lixeira.  notrio que tens uma fobia psictica relativamente a tudo o que  decente 
ou caro.

No lhe passou sequer pela cabea, mas este discurso podia ter sido dirigido a Maggie, e fizera-o muitas vezes.

        - Ests a queixar-te do modo como me visto?

Alex estava divertida com a conversa e no se sentia minimamente insultada.

        - No, andas bem-vestida, atendendo a que passas noventa por cento do tempo com o uniforme do hospital. Estou a queixar-me do carro e do apartamento.

        - Queixa-te tambm da minha vida amorosa, ou da falta dela. No te esqueas. H mais alguma coisa de que se queira queixar, Mister O'Connor?

        - H - retorquiu Jimmy, olhando-a nos olhos, e reparando que estes eram de um castanho aveludado. - No me levas a srio, Alex. - A sua voz adquirira um 
tom estranho.

        - Que devo fazer para te levar a srio? - Alex parecia perplexa.

        - Acho que estou ficando apaixonado por ti - murmurou Jimmy, sem saber qual seria a reao de Alex, e aterrorizado com a eventualidade de ela o detestar 
por isso. Na noite anterior, quando conversaram sobre o assunto, a me encorajara-o a declarar-se.

        - Tu, qu? Ests louco? - Estava perplexa.

        - No era propriamente dessa resposta que estava  espera. Mas acho que sim, que estou apaixonado. Detestava ver-te com o Coop. Sempre achei que ele era 
o tipo errado para ti. S que eu no estava preparado para ser o tipo certo.
        - Alex continuava de olhos fixos nele, boquiaberta. E ainda no sei se serei. Mas, um dia, gostaria de ser. Quando muito, tentar ser. A princpio, talvez 
seja difcil, como penso.  como tirar o gesso e recomear a andar.  a mesma coisa. Tu s a nica mulher que conheo por quem sinto a mesma coisa que senti pela 
Maggie. Era uma mulher espetacular, como tu... j no sei o que estou dizendo, s sei que estou aqui e gosto muito de ti, e que gostaria de ver o que acontecer 
se nos dermos uma oportunidade. Provavelmente, ests pensando que sou um luntico, porque estou dizendo coisas sem sentido, mais pareo um paspalho.

Jimmy no conseguia esconder o embarao. Alex estendeu, ento, a mo para tocar na dele.

        - Tudo bem - murmurou. - Tambm estou assustada... e tambm gosto de ti... sempre gostei... fiquei aterrorizada quando pensei que ias morrer, depois do acidente, 
e a nica coisa que queria era que acordasses do coma e voltasses  vida... e voltaste... e, agora, Coop j faz parte do passado. Tambm no sei o que acontecer. 
Deixemos as coisas irem devagar... e veremos o que acontece...

E ficaram os dois de olhos fixos um no outro, a sorrir, sem saberem muito bem o que cada um deles dissera ou sentia. Mas de uma coisa tinham a certeza: gostavam 
um do outro. Talvez fosse suficiente. Eram boas pessoas e mereciam encontrar o parceiro certo. Se o eram ou no, o futuro o diria. Haviam aberto as portas e agora 
estavam no limiar de algo novo. Porm, naquele momento, nenhum deles se sentia ainda preparado para palmilhar esse novo caminho que se abria  sua frente.

Nessa noite, ao regressarem a casa, experimentavam um misto de sentimentos diversos. Se, por um lado, sentiam um grande bem-estar interior e uma esperana imensa 
no futuro, por outro, sentiam-se embaraados e assustados. Quando chegaram, Alex ajudou Jimmy a sair do carro e a subir as escadas. Jimmy voltou-se para ela e, com 
um sorriso radioso nos lbios, beijou-a, quase escorregando e caindo. Alex soltou um grito.

        - Ests louco? Queres-nos matar? Podamos ter cado os dois pelas escadas abaixo!

Riu-se, no tirando os olhos de Alex. Sempre a adorara, e cada vez se sentia mais atrado por ela.

        - Pra de gritar comigo! - retorquiu Jimmy, bem-humorado.

        - Ento no faas maluquices!

Jimmy beijou-a de novo. Poucos minutos depois, Alex foi-se embora, mas no sem gritar da sala de estar:

        - Diz  tua me que lhe agradeo!

Por aquilo que ela lhes proporcionara, por encorajar Jimmy a viver de novo e por faz-lo esquecer Maggie, pelo menos um pouco. No havia nem promessas nem garantias. 
Mas havia esperana para ambos. Eram jovens, e a vida ainda lhes reservava muito. A caminho de casa, no conseguiu conter um sorriso ao pensar nele. Enquanto isso, 
no seu quarto, Jimmy, com ar pensativo, tambm sorriu. A vida, por vezes, era uma estrada perigosa, repleta de demnios e infortnios. A me tinha razo. Era tempo 
de comear uma nova vida.
CAPTULO 24

Nessa noite, enquanto Alex e Jimmy estavam no restaurante chins, Coop sara com Valerie. Prometera lev-la ao L'Orangerie. H quase dois meses que Valerie tratava 
do filho, e Coop achou que ela merecia uma noite bem passada. Alm de apreciar a sua amizade, no voltara a sair com nenhuma mulher desde que deixara Alex. No passado, 
teria ido logo a correr  procura de novos romances, para sarar as "feridas do amor", mas, desta feita, preferira passar algum tempo sozinho. Pela primeira vez na 
vida. Era tambm a primeira vez que ia a um restaurante no espao de um ms, e Valerie revelou-se uma excelente companhia. Partilhavam os mesmos pontos de vista 
sobre uma srie de assuntos.

Gostavam das mesmas peras, da mesma msica, das mesmas cidades europias. Coop conhecia Boston quase to bem como ela e, alm disso, adoravam Nova Iorque. Valerie 
passara algum tempo em Londres com o marido, antes de Jimmy nascer, e Coop adorava ir l. At gostavam da mesma comida e dos mesmos restaurantes. Passaram uma noite 
descontrada e falaram de Mark e Taryn. Coop contou como Taryn entrara na sua vida. E Valerie falou de Jimmy e do pai, e das parecenas que havia entre eles. Coop 
falou ainda de Alex.

        - Para ser franco, Valerie, fui louco por ela, mas acho que as coisas no iriam dar certo. No sei se ela j conseguiu perceber isso, mas acabaramos por 
nos tornar infelizes um ao outro. No ltimo ms, pensei amide na nossa relao, mas, egosticamente, no queria deix-la.

Falaram ainda de Charlene e da situao embaraosa em que a jovem o envolvera. No havia segredos entre eles. Alex ensinara-lhe isso. A sinceridade tambm j lhe 
era familiar. Falou-lhe dos problemas financeiros com que se deparava. Vendera recentemente um Rolls Royce, o que j era um passo importante. Pelo menos, por uma 
vez na vida, estava a enfrentar as coisas. Liz teria ficado orgulhosa dele. E j pouco faltava para o prprio Abe sentir tambm uma pontinha de orgulho. O agente 
dizia que andava atrs de um papel importante. Mas sempre dissera isso.

        - Talvez no seja assim to mau ser uma pessoa madura.  uma novidade para mim. Nunca o fui. - Mas essa falta de responsabilidade fizera sempre parte do 
seu charme. S que o preo a pagar era demasiado elevado. E, agora, s lhe restava arcar com as conseqncias. - Queria ir  Europa, no Vero. - Falara a Alex do 
Hotel du Cap, mas ela no podia deixar o trabalho. De qualquer forma, Coop no tinha dinheiro para a viagem. - Mas vou ficar por aqui, tentando arranjar trabalho.

        - Queres ir passar uns dias a Cape Cod? Tenho l uma casa antiga, mas confortvel. Era da minha av, e no tenho cuidado l muito bem dela. Est a cair aos 
pedaos, mas tem muito charme. Desde criana que passo l os Veres.

A casa significava muito para Valerie, e agradava-lhe a idia de a mostrar a Coop. Estava certa de que ele a apreciaria.

        - Adoraria.

O velho ator esboou um sorriso afvel. Gostava de estar com ela. Via-se que era uma mulher que sofrera bastante, mas que tirara da vida muitos ensinamentos, aproveitando-os 
ao mximo. No era uma pessoa triste nem deprimida. Era calma e inteligente. Sentia-se bem junto dela. Percebera isso desde o incio. Gostava dela como amiga, e 
no era difcil imaginar a amizade a crescer com o passar do tempo. Nunca se sentira atrado por mulheres da idade de Valerie, mas comeava a perceber que mesmo 
estas tinham os seus atrativos. Ficara desgostoso com as mulheres do tipo de Charlene e no queria magoar ou desapontar ningum, como acontecera com Alex. Finalmente, 
chegara a hora de brincar com garotas de idade mais prxima da sua. Afinal de contas, Valerie era quase vinte anos mais nova do que ele. J era um grande avano 
relativamente ao que andara a fazer nos ltimos anos, com jovens com metade da idade de Valerie.

        - H algum na tua vida, Valerie? - indagou Cooper, curioso. Queria certificar-se de que no havia ningum  espera dela em Boston ou em Cape Cod.

Valerie fez um gesto negativo com a cabea e sorriu.

        - No me envolvi com ningum desde a morte do meu marido. E isso j foi h dez anos.

Cooper pareceu chocado.

        - Que desperdcio! - Era uma mulher bonita e merecia ter algum ao seu lado.

        - Estou comeando a pensar no assunto. E suponho que o Jimmy tambm. Tenho-o incentivado bastante. Vai levar algum tempo, mas ele no pode passar o resto 
da vida a pensar na Maggie. Era uma pessoa fantstica e uma excelente esposa. Mas morreu. Ele vai ter de enfrentar essa realidade um dia.

        - Com certeza que o far. A natureza encarregar-se- disso. - E riu-se. - Foi o que aconteceu comigo. Demasiadas vezes. - Depois, com um ar mais srio: - 
Mas tambm nunca passei por uma situao to angustiante como aquela por que ele passou. - Lembrou-se de Alex: esperava que recuperasse rapidamente e que no lhe 
ficasse com rancor. Sabia como Crter a magoara, e no queria contribuir para a magoar ainda mais. S desejava que ela encontrasse o seu prprio caminho.

Quando chegaram ao Chal, deram um passeio pela propriedade. Estava uma noite agradvel. Sentaram-se durante algum tempo junto  piscina e conversaram. Ouviam-se 
risos na ala de hspedes. Coop sabia que Taryn se encontrava l com Mark e os filhos, embora estivesse a dormir de novo na ala principal, pois os garotos j haviam 
voltado para casa.

        - Acho que esto bem um para o outro - disse Coop, e Valerie concordou. -  engraado como as coisas mudam de repente. Agora, tem a Taryn, e os filhos querem 
viver com ele. De certeza que nunca lhe passou pela cabea que qualquer uma destas coisas acontecesse. O destino  uma coisa espantosa.

        - Ainda hoje disse isso ao Jimmy. Ele tem de acreditar que as coisas se iro compor.

        - E contigo, Valerie? As coisas esto a compor-se? E envolveu as mos dela nas suas.

        - Tenho tudo o que preciso - respondeu Valerie, contente com o seu destino. J pouco esperava da vida. Jimmy sobrevivera. De momento, chegava-lhe. No se 
atrevia a pedir mais.

        - Srio? Que coisa rara. A maioria das pessoas no diria que tem tudo o que precisa. Talvez estejas a pedir pouco.

        -  possvel. Talvez algum com quem partilhar a vida. Mas, se essa pessoa no aparecer, tudo bem .

        - Gostaria de te ir visitar a Cape Cod, se, realmente, estavas a falar a srio.

        - Claro que estava. Teria um grande prazer em receber-te.

        - Adoro casas antigas. E sempre gostei de Cape Cod. Mantm a excelncia de outrora. No tem a grandeza de Newport, que sempre me pareceu um pouco despropositada, 
embora as casas sejam magnficas.

Teria gostado de visitar a casa dos Madison, embora isso j no fosse possvel, pelo menos por agora. Talvez um dia, quando reatasse a amizade com Alex, como era 
seu desejo. Mas agradava-lhe a idia de visitar Valerie em Cape Cod. Estava desejoso de passar uns dias numa casa acolhedora, com uma mulher de quem gostava e com 
quem podia conversar. Tambm lhe agradava o fato de saber que no queria nada dela, nem ela, dele. O que quer que dessem um ao outro, viria do fundo do corao. 
No haveria segundas intenes, nem nada a ganhar ou a perder. Era tudo muito simples e claro.

Ficaram em silncio durante uns instantes. Coop acompanhou-a, ento, at  porta de casa. Desta vez, queria ir com calma. No tinha pressa. Tinham toda uma vida 
 sua frente. Valerie tambm no queria precipitar-se.

        - Passei uma noite maravilhosa. Obrigado por teres aceito o convite para jantar.

        - Tambm tive uma noite maravilhosa. Boa noite.

        - Telefono-te amanh - prometeu Coop, enquanto Valerie fazia um ligeiro aceno de despedida com a mo e entrava em casa. Nunca esperara que a amizade com 
Coop chegasse a este ponto. Mas no estava arrependida, pelo contrrio. Por agora, no precisava de mais, e no sabia se alguma vez viria a precisar. Mas, de momento, 
isto era algo de especial para ambos.


CAPTULO 25

Coop tinha inteno de telefonar a Valerie, como prometera, no dia seguinte, mas recebeu uma chamada do agente a pedir-lhe que fosse o mais depressa possvel ao 
seu escritrio. No queria dar-lhe a notcia por telefone. Coop ficou irritado com o mistrio. Quando apareceu no escritrio do agente, s onze horas, este no proferiu 
qualquer palavra e limitou-se a entregar-lhe um roteiro.

        - O que ? - perguntou Coop.

        - Leia-o e, depois, diga-me o que pensa.  o melhor roteiro que j li.

Coop estava  espera de mais uma participao especial. H anos que no lhe ofereciam outra coisa.

        - Eles vo pr o meu nome em considerao?

        - No precisam. Este roteiro foi escrito pensando em ti.

        - Quanto  que vo pagar?

        - Discutimos isso depois de ler o roteiro. Telefone-me logo  tarde.

        - Qual  o meu papel?

        - De pai - respondeu o agente.

No era o papel de ator principal, mas Coop no se queixou. No se encontrava em posio de o fazer.

Levou o roteiro para casa, leu-o, e ficou impressionado. Era um papel potencialmente extraordinrio, dependendo do realizador e da quantia que estivessem dispostos 
a pagar-lhe.

        - Pronto, j o li - disse Coop, quando telefonou ao agente. Estava interessado no papel, mas no se sentia eufrico: havia muitas coisas que ainda no sabia. 
- Agora, conte-me o resto.

O agente relatou os nomes.

        - O Schaffer  o produtor. O Oxenberg, o realizador. O ator principal  o Tom Stone, que vai contracenar com a Wanda Fox ou a Jane Frank. Tu, querem-te para 
o papel de pai. Com um elenco destes, vai ganhar, com certeza, um Oscar.

        - Quanto  que eles oferecem? - perguntou Coop, tentando mostrar-se calmo. H anos que no aparecia integrado num elenco daquela qualidade. Era um dos melhores 
filmes em que entraria, se aceitasse o papel. Mas estava certo de que no iriam pagar-lhe muito. No entanto, por uma questo de fama, talvez valesse a pena. As filmagens 
decorreriam em Nova Iorque e em Los Angeles, e estava convencido de que, atendendo ao tamanho do papel, durariam trs a seis meses. No tinha mais nada para fazer, 
 exceo de um monte de anncios. - Quanto? - insistiu, preparado para receber a m notcia.

- Cinco milhes de dlares, e cinco por cento da bilheteira. Que tal?

Coop ficou bastante tempo em silncio.

        - Est a falar a srio?

        - Claro que estou. Nunca pensei conseguir arranjar-lhe um papel destes.  seu, se quiser. Querem uma resposta nossa ainda hoje.

        - Telefone-lhes. Assino ainda esta noite, se eles quiserem. No deixe fugir isto.

Coop mal conseguia controlar a respirao, de to aturdido que estava. Nem queria acreditar na sua boa sorte. Finalmente!

        - Eles no vo fugir para lado nenhum. Esto ansiosos por o ter no elenco. Voc  o homem perfeito para o papel, e eles sabem.

        - Oh, meu Deus! - exclamou Coop, trmulo, quando pousou o fone. Foi contar a Taryn, porque no sabia a quem mais dar a novidade. - Tens conscincia do que 
isto significa? Posso ficar com o Chal, pagar as dvidas e pr algum dinheiro de lado para a minha velhice.

Era um sonho que se tornava realidade, a sua ltima oportunidade. Fez uma ligeira pausa e olhou para Taryn. Lembrou-se de que podia dizer a Alex que, agora, tinha 
dinheiro para prover ao seu sustento, mas o engraado  que j no sentia vontade de lhe telefonar. Em vez disso, precipitou-se para a porta da entrada. E Taryn 
gritou-lhe:

        - Parabns, Coop! Onde  que vai?

Mas o velho ator no respondeu. Dirigiu-se, em passadas largas, at  casa de Jimmy e bateu  porta.

Valerie abriu a porta, envergando calas de linho e uma T-shirt branca, e ficou espantada ao v-lo. Parecia um louco, com os olhos esbugalhados, e cabelos em desalinho. 
Nunca o vira assim, ningum vira. Mas ele estava-se pouco ligando para isso. S sabia que tinha de dar a novidade a Valerie.

        - Valerie, acabei de receber um papel espetacular num filme que vai ganhar todos os scars no prximo ano. E, mesmo que isso no acontea, posso resolver 
todas as minhas... responsabilidades...  um milagre. No fao idia do que aconteceu. Vou ao escritrio do meu agente assinar o contrato - gaguejou Coop, mal contendo 
a excitao.

        - Que bom para ti, Coop! Ningum merece mais do que tu.

        -  exatamente como tu disseste: vou fazer o papel de pai em vez do de ator principal.

        - Tenho a certeza de que vais fazer um papel fabuloso.

        - Obrigado. Queres ir jantar comigo esta noite? Tinha de comemorar com ela. E ia convidar tambm Jimmy, Taryn e Mark. Tinha pena de no convidar Alex, mas 
sabia que no era uma atitude sensata, por enquanto. Mas ia telefonar-lhe a dizer que j arranjara a soluo para sair do aperto econmico em que vivia.

        - Tens a certeza de que queres jantar outra vez comigo? Ainda ontem jantaste. Assim no consigo manter a elegncia.

        - Tens de jantar comigo - insistiu Coop, tentando mostrar um ar severo, mas no conseguindo reprimir um largo sorriso.

        - Est bem. Terei muito gosto.

        - E traz o Jimmy.

        - No posso. Ele saiu. - Valerie sabia que o filho continuava a encontrar-se com Alex. Andavam a explorar novas facetas de uma velha relao. Sabia que Jimmy 
no poderia traz-la consigo, pois seria muito duro para ela. - Mas digo-lhe que o convidaste.

De qualquer das formas, o filho recusaria o convite. Preferia estar com Alex a estar com Coop. No sentia qualquer animosidade para com o velho ator, mas estava 
mais interessado em reconstruir a sua vida amorosa.

        - Telefono-te quando chegar, e digo-te onde vamos. Talvez ao Spago - despediu-se Coop, acenando, enquanto se dirigia apressadamente para o carro.

Cinco minutos depois, estava a caminho do escritrio do agente. Uma hora mais tarde, j havia regressado a casa. Assinara o contrato. Disse a Valerie e a Taryn que 
fizera uma reserva no Spago para as oito horas. Entretanto, telefonou a Alex, que atendeu de imediato. Era a primeira vez que lhe telefonava desde o dia em que soubera 
os resultados do teste de DNA de Charlene, havia cerca de um ms. O corao de Alex comeou a bater descontroladamente e as mos no paravam de tremer, mas tentou 
mostrar-se calma.

Coop contou-lhe o que acontecera, e Alex no escondeu o seu contentamento ao ouvir todos os pormenores. Instalou-se, ento, um longo silncio. Ele sabia muito bem 
o que ela estava a pensar e qual era a resposta. Matutara nisso durante toda a viagem de regresso a casa e, por um ou dois minutos, ainda se sentira tentado.

        - Esta situao altera alguma coisa entre ns, Coop? indagou Alex, contendo a respirao. Nem sequer tinha a certeza do que queria agora, mas sabia que tinha 
de perguntar.

        - Ainda h pouco pensei nisso. E adoraria dizer que sim. Mas no, no altera nada. No est certo. Mesmo com as dvidas pagas, sou demasiado velho para ti. 
Pensariam sempre que eu andava atrs do teu dinheiro. E no  correto uma jovem da tua idade andar com um homem da minha. Precisas de ter um marido e filhos, e uma 
vida a srio, talvez com algum do teu prprio mundo, ou com algum que faa o mesmo tipo de trabalho que tu. Acho que, se tentssemos fazer com que as coisas entre 
ns resultassem, seria um erro tremendo. Lamento imenso se te mago. Aprendi muito contigo, e talvez no andasse contigo por causa do dinheiro. Mas no seria justo. 
Talvez precisemos de pessoas prximas da nossa idade. No sei porqu, mas o instinto diz-me que precisamos de nos afastar, para no estragarmos tudo. Se te servir 
de consolo, leva um pedao do meu corao contigo. E guarda-o bem junto a ti. Mas no reatemos a relao. Seria um grande erro, de que nos arrependeramos amargamente 
mais tarde. Penso que o nosso caminho  para a frente, e no para trs.

 luz do tempo que haviam passado juntos e do que sentira por ele, Alex ainda alimentara esperanas de que Coop dissesse algo diferente, mas no discordava dele. 
Nas ltimas semanas, tambm pensara maduramente no assunto, e as concluses a que chegara no eram muito diferentes. Sentia muitas saudades e passara tempos maravilhosos 
com Coop, mas algo lhe dizia que no devia voltar para o velho ator.

De momento, o que verdadeiramente lhe interessava era aprofundar a sua relao com Jimmy. Ambos tinham as mesmas paixes, o mesmo amor por crianas, de tal modo 
que isso se estendia ao tipo de trabalho que realizavam. Jimmy estava fascinado pelo que ela fazia. Coop sempre se mostrara algo repugnado. Alis, ela nunca pertencera 
ao mundo de Coop. Gostara de estar nesse mundo com ele, mas sentira-se sempre uma visita, uma turista, nunca conseguira imaginar-se a viver l at ao fim dos seus 
dias. E tinha muito mais em comum com Jimmy do que com Coop. Se as coisas iriam ou no dar certo com Jimmy, isso era outra questo. Nenhum deles poderia ter a certeza. 
Com Coop, no haviam dado certo. Pelo menos, para ele, e talvez tivesse razo. Agora, era mais fcil andar para a frente do que voltar para trs, como ele dizia.

        - Compreendo, Coop. E custa-me dizer que concordo. A cabea j concorda, o corao acabar tambm por concordar.

Uma parte dela no queria deix-lo, talvez porque Coop era o pai meigo e bonacheiro que nunca tivera.

        - s uma garota corajosa.

        - Obrigada. Convidas-me para a pr-estria?

        - Claro. E podes ir ver-me receber um Oscar.

        - Combinado.

Alex sentiu-se muito melhor depois de falar com Coop. Era como se esta virada na vida profissional do velho ator os tivesse libertado. Ele precisava desesperadamente 
do dinheiro, no s para pagar as suas contas, mas tambm para a sua paz de esprito e auto-estima. Agora, poderia fazer o que muito bem entendesse. Nessa noite, 
quando Jimmy foi te com ela ao hospital, o estado de esprito de Alex melhorara consideravelmente, como ele prprio pde comprovar, ao entrar no carro. Iam jantar 
fora e ao cinema.

        - Que aconteceu para estares to contente?

        - Hoje falei com Coop. Conseguiu um papel importante num filme, o que vai permitir-lhe resolver muitos dos seus problemas.

Jimmy ficou em pnico, embora soubesse que a me fora jantar com Coop. Mas no queria dizer nada a Alex.

        - Que tipo de problemas? Tm a ver com vocs os dois?

        - Sim, e com outras coisas. - Alex no queria falar-lhe das dvidas do velho ator. - Chegamos  concluso de que no era correto mantermos a relao. Foi 
divertido, mas, a longo prazo, precisaramos de uma coisa diferente.

        - Que queres dizer com isso de precisarem de uma coisa diferente? Diferente como? - indagou Jimmy, algo nervoso.

        - Como tu, meu palerma.

        - Foi isso que ele disse?

        - No especificou, mas deduzi. Lembra-te que sou mdica.

Alex conseguira assust-lo. Coop era um opositor formidvel para qualquer homem, e Jimmy sentia-se em desvantagem. Coop tinha um metro e noventa e imenso charme. 
Mas aquilo que Jimmy poderia oferecer a Alex seduzia-a muito mais. Era um homem terno e de uma grande pureza de sentimentos, qualidades que haviam conquistado o 
seu corao. E tinha mais a ver com ela do que Coop. De alguma forma, Alex e Jimmy eram a resposta s preces um do outro.

Nessa noite, tal como prometera, Coop levou Valerie, Mark e Taryn a jantar ao Spago. Estava eufrico. As pessoas no paravam de o abordar. A notcia j se espalhara. 
No dia seguinte, sairia um artigo sobre o assunto nos jornais. Coop era o homem do momento.

        - Quando comeam as filmagens? - perguntou Mark, com ar interessado.

        - Vamos para Nova Iorque em Outubro. E devemos voltar por altura do Natal. Aqui, as filmagens decorrero num estdio. - Coop tinha dois meses para se divertir. 
Antes de comear, gostaria de ir  Europa, em Setembro. E olhou para Valerie. Talvez pudessem ir os dois, depois da visita a Cape Cod. Agora tinha condies econmicas 
para o fazer. - Que te parece? - perguntou, em voz baixa, a Valerie, pouco depois, enquanto Mark e Taryn conversavam.

        - Interessante - retorquiu Valerie, com um sorriso de Mona Lisa. - Veremos como as coisas correm em Cape Cod. - Havia muita coisa que ainda no sabiam.

        - No sejas to racional. - Coop tinha a sensao de ter finalmente conhecido a mulher da sua vida. - Adoraria ficar no Hotel du Cap.

Valerie parecia tentada. Ambos sentiam o mesmo irresistvel impulso. Mas deixariam andar as coisas. No iriam for-las. Mais tarde, enquanto davam uma volta pela 
propriedade, Valerie disse isso mesmo a Coop, que concordou. Estavam a acontecer muitas coisas ao mesmo tempo, e o velho ator parecia um menino numa loja de doces, 
a querer partilhar tudo com Valerie.

Falou-lhe da conversa que tivera com Alex nessa tarde, e disse-lhe que se sentia de conscincia mais tranqila. Ambos sabiam que agira corretamente ao acabar com 
Alex, por mais dolorosa que a separao tivesse sido.

        - Acho que a Alex e o Jimmy comearam a sair juntos
        - informou Valerie, com algumas cautelas. No queria ser indiscreta, nem embaraar Jimmy, especialmente agora. Coop ficou pensativo por instantes, depois 
soltou um suspiro e olhou para Valerie. Por segundos, sentira cimes, mas acalmou-se quase de imediato.

        - Acho que isso lhes far bem. A ambos. E a ns tambm - retorquiu Coop, pegando-lhe na mo.

Nessa noite, quando se despediram  porta de casa, beijou-a. Era engraada a forma como o destino cruzara os seus caminhos. Coop Winslow no era o homem por quem 
Valerie ansiara, mas estava feliz por ele ter aparecido na sua vida. No se sentia a Gata Borralheira, mas uma mulher que comeava a apaixonar-se pelo seu melhor 
amigo. A caminho de casa, Coop sentia exatamente o mesmo, e no via a hora de estarem juntos em Cape Cod.










2

CAPTULO 26

No princpio de Agosto, como previsto, Jimmy tirou o gesso. A notcia do prximo filme de Coop fazia manchete nos jornais. O velho ator era um heri na cidade. Toda 
a gente o felicitava. E, de repente, comeou a ter mais ofertas de trabalho. Mas estava decidido a sair da cidade com Valerie durante umas semanas. Depois, iria 
para a Europa, independentemente de ela o acompanhar ou no. Valerie dizia que s decidiria aps as frias em Cape Cod.

Quando partiram, Jimmy j andava bastante bem pelos seus prprios meios. Continuava a encontrar-se com Alex, e a relao parecia ir de vento em popa. Mark e Taryn 
iam passar duas semanas em Tahoe com os garotos. S Jimmy e Alex ficariam na cidade, por motivos profissionais.

Na noite anterior  partida para Cape Cod, Valerie preparou um dos seus memorveis jantares de massa. Iriam de avio at Boston, e depois, de carro at Cape Cod. 
Alex no viera ao jantar, pois estava de servio. Mas Valerie fora despedir-se dela ao hospital, e haviam almoado juntas. Mark, Taryn e as crianas  que no faltaram 
ao repasto. Coop perguntou a Jason, num fingido tom rezingo, se partira alguma janela ultimamente. Jason empalideceu. Coop convidou-o, ento, para assistir s filmagens 
em Los Angeles, e o garoto ficou radiante. Jessica perguntou logo se tambm podia ir e levar alguns amigos.

        -Julgo que no vou ter outra alternativa. Algo me diz que vamos ser familiares dentro de pouco tempo. Farei tudo o que quiserem, desde que prometam nunca 
me tratarem por av, ou coisa do gnero. A minha reputao tem sofrido inmeros golpes ao longo dos anos, mas acho que no sobreviveria a esse. Passariam a dar-me 
papis de velho de noventa anos.

E todos se riram. Jessica e Jason comeavam a habituar-se a Coop  pouco a pouco. Eram loucos por Taryn e estavam dispostos a aceitar o velho ator como parte do acordo. 
Havia a hiptese de todos ficarem ligados por laos familiares, de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde, o que era uma idia extica. E ento, se Alex 
e Jimmy se casassem e Coop ficasse com Valerie, o que ele desejava ardentemente, as relaes tornar-se-iam algo promscuas. Mas todos sairiam a ganhar, at os filhos 
de Mark.

        - Espero que os sanitrios no estejam entupidos quando chegarem  Marisol - gracejou Jimmy, enquanto acabavam a sobremesa.

Coop olhou-o, intrigado, enquanto Valerie o repreendia por estar a assustar Cooper.

        - No  to m quanto isso.  apenas uma casa muito velha.

        - Esperem l... Quem  a Marisol? - indagou Cooper, com uma expresso estranha no olhar.

        - No  "quem",  "o qu" - corrigiu Jimmy. -  a casa da minha me em Cape Cod. Foi mandada construir pelos meus bisavs e  uma combinao dos seus nomes: 
Marianne e Solomon.

Coop parecia ter sido atingido por um raio. Ficou boquiaberto.

        - Oh, meu Deus! Marisol. Nunca me disseste nada dirigindo-se a Valerie. Reagia como se lhe tivessem dito que ela estivera presa nos ltimos dez anos. Essa 
novidade at talvez fosse mais fcil de digerir do que esta.

        - O que  que nunca te disse? - perguntou Valerie, com ar inocente, enchendo outro copo de vinho. O jantar fora excelente, mas no era nele que Coop pensava.

        - Sabes muito bem o que quero dizer. Mentiste-me acusou, de semblante carregado.

        - No te menti. S no te expliquei. Achei que no interessava.

Mas Valerie sabia muito bem que interessava e receava que interessasse.

        - E o teu nome de solteira  Westerfield, presumo. Valerie fez um gesto afirmativo com a cabea. - s uma impostora! Devias envergonhar-te! A fingir que 
eras uma pobretona!

Coop estava chocado. A fortuna Westerfield era uma das maiores do mundo.

        - No fingi nada. S no discuti o assunto contigo retorquiu Valerie, nervosa, esforando-se por se mostrar calma. Por instantes, ficou preocupada com a 
reao de Coop. Era muita coisa para engolir de uma s vez.

        -J estive uma vez na Marisol. A tua me convidou-me, quando eu estava a rodar um filme l perto. A casa  maior do que o Hotel du Cap e, se a transformasses 
num hotel, poderias cobrar ainda mais. Mas isso seria concorrncia desleal.

Coop no estava to zangado como ela receara. A verdade  que os Westerfield eram a maior famlia de banqueiros do Este. Eram os Rothschild da Amrica dos primeiros 
tempos, e tinham ligaes aos Astor, aos Vanderbilt, aos Rockefeller e a metade das famlias de sangue azul dos Estados Unidos, se no mesmo do mundo. Os Madison 
ao p deles pareciam pedintes. Mas Valerie era uma mulher madura e no tinha de responder pelos seus atos. Era a pessoa mais despretensiosa do mundo. Coop sempre 
pensara que ela no passava de uma viva com poucos rendimentos. Agora percebia por que razo Jimmy alugara a casa com tanta facilidade, bem como muitas outras coisas 
relacionadas com as pessoas que Valerie conhecia e com os lugares onde estivera. Coop fitou-a durante uns instantes, depois, recostou-se na cadeira e riu-se.

        - Bem, de uma coisa podes estar certa: nunca mais vou ter pena de ti! - Mas tambm no ia deixar que ela o sustentasse. Se casassem, seria ele a sustent-la. 
Valerie poderia continuar a ser parcimoniosa nos seus gastos pessoais, mas, quanto s extravagncias, e haveria muitas, seria Coop a arcar com elas. - E mando chamar 
um encanador, se a descarga no funcionar. O que  que terias feito se eu no conseguisse este papel no filme?

Mas, com Valerie no se levantariam os problemas que se haviam levantado com Alex. Valerie era uma mulher mais madura. Com Alex, o problema no fora apenas o dinheiro, 
mas tambm a diferena de idades, o no querer ter filhos, o no querer passar por gigol e o fato de Arthur Madison desaprovar o seu romance com a filha. Nenhuma 
dessas questes se colocava com Valerie. Alm disso, estava novamente de boa sade financeira. Alis, melhor do que nunca.

        - Se chamar um encanador - avisou Jimmy, com um sorriso nos lbios -, a minha me tem um ataque. Ela acha que isso faz parte do charme. Tal como o telhado, 
que deixa entrar gua, e as persianas, que esto a cair aos bocados. No ano passado, quase parti uma perna quando o alpendre sul se desmoronou. A minha me adora 
fazer remendos na casa.

        - Estou ansioso por ver isso tudo com os meus prprios olhos.

Mas Coop j conhecia a casa, e ficara apaixonado por ela desde que l estivera a convite da me de Valerie. Era uma das casas mais famosas do Este. Os Kennedy haviam-na 
visitado inmeras vezes quando estavam em Hyannis Port, e o prprio presidente chegara a l ficar instalado. Coop ainda abanava a cabea quando os restantes convivas 
saram.

        - Nunca mais me mintas.

        - Mas eu no te menti. S quis ser discreta.

        - Um pouco discreta de mais, no achas?

        - Nunca se  discreto de mais.

Coop adorava a elegncia e a simplicidade de Valerie. Era isso que a distinguia das outras mulheres. Mesmo de camisa branca e calas jeans, no perdia o inegvel 
ar aristocrtico. De repente, lembrou-se de Alex. Jimmy era exatamente o homem de que ela precisava: fazia parte do seu mundo e era, igualmente, um renegado. E nem 
Arthur Madison teria argumentos para se opor  relao. Coop sentia uma grande satisfao por as coisas estarem a tomar o rumo devido. No s para si, mas tambm 
para Alex, embora esta ainda no soubesse que estava no caminho certo. Ento, enquanto Valerie levantava a mesa e punha a loua na mquina, Coop perguntou-lhe:

        - A Alex sabe?

        - Por aquilo que conheo do Jimmy, no. Ainda d menos importncia a isso do que eu.

Estava-lhes no sangue. J tinham nascido assim. Viviam da forma que haviam escolhido. E Alex era da mesma estirpe. No gostava de ostentar a riqueza, preferia viver 
como uma pessoa de poucas posses.

        - Como  que me vou adaptar a tudo isso? - perguntou Coop, puxando-a para si.

Valerie era a mulher da sua vida, soubesse ela ou no. Mas Coop estava decidido a convenc-la disso. No pelo dinheiro, mas simplesmente por ela e por aquilo que 
significava para si.

        - Vais-te adaptar bem. J ests habituado. Alis, ns no te chegamos aos calcanhares em questo de elegncia.

Durante grande parte da sua vida, Coop vivera folgadamente, apesar de extremamente gastador. Agora, com o filme, poderia saciar no s os seus caprichos como os 
dela.

        - Acho que me vou adaptar. Para j, vou gastar todo o meu dinheiro a reparar a tua casa velha.

        - No sejas tonto. Gosto dela como est, caindo aos pedaos. D um certo charme.

        - Tu tambm tens charme e no ests  caindo aos pedaos. - Mas sabia que, mesmo quando ela fosse atacada pela velhice, continuaria a am-la. Provavelmente, 
seria Coop o primeiro a ser atacado, porque, afinal de contas, tinha mais dezessete anos do que Valerie. - Queres casar comigo? perguntou, enquanto Jimmy subia as 
escadas, na ponta dos ps. Era engraado como gostava mais de Coop, agora que Alex j no andava com ele. Comeava a ach-lo uma tima pessoa.

        - Finalmente - respondeu Valerie, esboando um sorriso. Coop beijou-a apaixonadamente e saiu. Iam partir de madrugada.

Na manh seguinte, o motorista conduziu-os ao aeroporto, no Bentley. Coop levava quatro malas de viagem, que haviam demorado uma eternidade a fazer. Mas era preciso 
no esquecer que depois da estada em Cape Cod partiria para a Europa. Valerie s levava uma, que fizera num abrir e fechar de olhos.

Coop despediu-se de Taryn  porta de casa. Valerie deu um apertado abrao ao filho, depois, beijou-o.

        - Tem cuidado contigo, Jimmy - disse Valerie. Cooper e Jimmy quase tiveram de arrast-la porta fora, para no perderem o avio.

Partiram para o aeroporto com tima disposio, e aproveitaram para dormir durante o voo. Quando acordaram, estavam quase a chegar a Boston. Valerie contou-lhe parte 
da histria da casa, que ele desconhecia. Cooper ficou fascinado e estava ansioso por a rever e partilhar com a sua amada.

No aeroporto, alugaram um carro e dirigiram-se para Cape Cod. Quando chegaram, a Marisol estava exatamente como Coop a recordava desde a ltima vez que l estivera. 
S que melhor: agora contava com a companhia de Valerie.

Coop ajudou Valerie a pregar pregos, a arranjar as persianas e a reparar algumas peas de mobilirio em vime. Passaram l trs semanas, o velho ator nunca se sentira 
to feliz, embora tivesse trabalhado como nunca trabalhara em toda a sua vida. Mas adorara desempenhar todas essas tarefas com Valerie, que andava sempre com um 
martelo e pregos no bolso, e a cara manchada de tinta.

No fim-de-semana do Primeiro de Maio, voaram at Londres, onde passaram trs semanas. Da, Coop partiu diretamente para Nova Iorque, para comear a rodar o filme. 
Valerie voltou a Boston, onde passou uns dias; depois, voou tambm para Nova Iorque. Durante as filmagens, ficaram instalados no Plaza Hotel. Antes do Dia de Ao 
de Graas, regressaram  Califrnia. Entretanto, Taryn e Mark j estavam casados. A cerimnia realizara-se em Lake Tahoe, na semana anterior, apenas com a presena 
de Jason e Jessica. Havia muita coisa para festejar. Alex deixara o apartamento e mudara-se para casa de Jimmy, transformando o quarto deste num cesto de roupa suja. 
Estava prestes a concluir a especializao e continuaria como neonatologista na UCLA. J falara com Jimmy acerca da hiptese de se casarem, mas ainda no se encontrara 
com o pai.

No Dia de Ao de Graas, Coop conseguiu reunir todos ao jantar, inclusive Alex, que estava radiante na companhia de Jimmy. Wolfgang mandou um peru, que Paloma serviu, 
com os tnis de imitao de pele de leopardo calados e a nova farda cor-de-rosa. Os culos de aros brilhantes no os usava durante os meses de Inverno. E, para 
alvio de todos, gostava de Valerie. Esta tambm gostava dela.

Na semana antes do Natal, os tablides deram a notcia. Assim como a People, a Time, a Newsweek, os jornais respeitveis, as rdios e a CNN. As manchetes pouco diferiam: 
VIVA RICA CASA COM ESTRELA DE CINEMA; COOPER WINSLOW CASA COM HERDEIRA DA FORTUNA DOS WESTERFIELD. As fotografias mostravam-nos, felizes e sorridentes, numa recepo 
que ofereceram. O agente de Coop fornecera-as  imprensa. No dia seguinte, Valerie descia as escadas com um monte de toalhas que encontrara num armrio.

        - Estas servem muito bem, Coop.

As filmagens s recomeavam da a uma semana em Los Angeles, e Coop tentava convenc-la a ir passar uma semana a Saint Moritz, mas, at ao momento, Valerie no parecia 
interessada. Sentia-se feliz em casa com Coop - e ele tambm nunca fora to feliz em toda a sua vida.

        - Que  isso? - perguntou Coop, enquanto dava uma olhadela s alteraes no roteiro. As filmagens estavam a correr bastante bem, e j havia propostas para 
outros filmes na Primavera. Os seus proventos haviam subido substancialmente, e Abe estava satisfeito.

        - Encontrei um monte de toalhas com a tua inicial que suponho que j no usas e, uma vez que tambm tenho um W no nome, pensei que talvez pudssemos mand-las 
para a Marisol. Precisamos urgentemente de toalhas l.

        - Desconfio que foi por isso que casaste comigo. Vamos mas  comprar toalhas novas. Posso oferecer-te umas quantas como prenda de casamento?

        - Claro que no. Estas esto timas. Para qu comprar toalhas novas se as velhas servem?

        - Amo-te, Valerie - disse Coop, levantando-se e dirigindo-se para ela. Abraou-a e forou-a a pousar as toalhas no cho. - Podes ter as toalhas que quiseres. 
Talvez consigamos encontrar tambm lenis com a minha inicial. Se no, podemos comprar uns quantos no Goodwill.

        - Obrigada, Coop - disse Valerie, e beijou-o. Fora um ano maravilhoso.
        
        
        
        


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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

2 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

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